Em
dia com o Machado 166 (jlo)
Acabei
de ler, num trabalho de teoria literária, que “o interdisciplinar não é uma
sinecura”. Então, fiquei pensando comigo mesmo: “Mas o que é mesmo uma sinecura?”.
Um dos meus hábitos idiossincrásicos é procurar saber o real significado de
palavras pouco faladas numa frase. Daí procurei o Houaiss, que me explicou: “sinecura
sf (1881 cf. CA¹) emprego ou cargo rendoso que exige pouco trabalho [...]”.
—
E também não me pergunte, amigo leitor, o que significa esse ¹ junto com o
restante dentro dos parênteses acima, que não lhe vou explicar, porque eu
também não sei, não quero saber e, como você, tenho raiva de quem quer saber...
Assim
disse o Nário. E respondi-lhe de
bate-pronto:
—
Tá bom, tá bom, tá bom... agora
já tenho uma ideia do que seja “sinecura”. Mas o que é mesmo interdisciplinar?,
já que isso exige muito trabalho, como se depreende do que o autor quis dizer
com “sinecura”.
—
Vamos lá, mas agora, só por esnobismo, vou trocá-lo pelo Aurélio: “interdisciplinar [De
inter- + disciplinar.] Adj. 2 g. Comum a duas ou mais disciplinas
ou ramo de conhecimento”.
E
só.
Percebeu?
O
Houaiss ainda acrescentaria: “2 que é comum a duas ou mais
disciplinas”. E outra coisa: o ponto final da definição do Aurélio fica dentro da segunda chave, mas o ponto final de minha
citação fica depois das aspas.
Então
agora já sei. O autor da frase da primeira linha desta crônica quis dizer que a identificação do que é comum entre duas ou
mais disciplinas exige muito trabalho. Agora você já sabe, não é mesmo,
amiga leitora?
Parodiando
o que disse alhures, em crônica de 6 de janeiro de 1895, “Se a pedra de Sísifo
não andasse já tão gasta, era boa ocasião de dar com ela na cabeça dos
leitores”, a propósito do significado das palavras. Per accidens, logicamente, tudo o que acabo de lhe dizer. Afinal,
“lutar com as palavras é luta mais vã”, como já dizia o poeta Drummond. Por
isso, a consulta ao dicionário é o “eterno recomeço” representado pela
mitologia de Sísifo, condenado por Zeus a rolar eternamente uma pedra do cimo de um monte alto, para o qual ela sempre retornava, como seu castigo por
assaltar os viajantes na estrada.
—
O que significa isso, Machado? Perguntar-me-á o amigo leitor. E eu lhe respondo
que o correto conceito das palavras é extremamente importante no entendimento
de uma frase. Para tanto, é preciso escolher um dos muitos significados de cada
termo dicionarizado. Se você achou chata a leitura desta crônica, você ainda
não viu nada. Veja no Houaiss os significados da palavra sistema, que ocupa o espaço de mais de uma página do citado livro, correspondente a, no mínimo, três páginas
deste texto. A diferença é que, ali, a letra é, também, três vezes menor do que
esta.
Já
os significados de espaço ocupam apenas um terço de página do Houaiss e meia página do Aurélio, ou seja, umas três páginas como esta que você lê.
Desculpe-me
por ocupar, mais um pouquinho, seu tão precioso espaço de tempo, amigo leitor,
com tais bobagens, mas ainda gostaria de alertá-lo de que não basta consultar o
dicionário para você entender o que um escritor quer dizer, é preciso identificar
o significado dado à palavra no contexto em que ela está inserida. Se este é
conotativo, o significado é figurado; se é denotativo, ele é real, como real é
o espanto que tive quando pedi a um magro aluno de turma de Geografia, anos atrás, para dizer
qual o significado de “instalado" e de "entalado”, exemplificando, após consulta ao dicionário. Ele
citou o seguinte exemplo:
—
Estou bem entalado na cadeira, mas
esse assunto ficou instalado em minha
garganta...
A
outro aluno, de Contabilidade, pedi para ver no dicionário o significado de
“crédito”, no contexto da seguinte frase: “José ficou sem crédito na praça”. Após ler os diversos conceitos, no livro, sua
resposta foi a seguinte:

—
José era muito mentiroso e ninguém mais acreditava nele, por isso ele ficou sem
crédito na praça...
Até
que faz sentido, não é mesmo, amiga leitora?
E o salário é: ...
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