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segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Não Podemos Ler Roustaing? 

Li parte dos livros de Roustaing. Do que li gostei, mas por não ter lido de forma completa, não tenho opinião formada sobre sua mensagem. Mas no momento o que mais me intriga em relação a Roustaing, é que estão procurando impedir aos espíritas o direito de conhecê-lo. Antes de comentar este fato, permita-me o leitor que eventualmente seja totalmente leigo em Roustaing, informar-lhe o que pesquisei sobre este espírita da época de Kardec.
Para que as pesquisas abaixo tenham o necessário contraponto, sugiro ao leitor ver, pela internet, comentários contra Roustaing no Blog oprimadodekardec.blogspot.com.br
Vejamos quem foi Roustaing: O francês Jean-Baptiste Roustaing foi espírita da primeira geração. Contemporâneo de Kardec, tornou-se espírita estudando as obras de Kardec e mantendo correspondência com o próprio.
Assim como Kardec teve por missão codificar as obras básicas, Roustaing também deu a sua contribuição ao Espiritismo. Coube a ele a missão de organizar, através de mensagens dos espíritos, um conjunto de livros denominados “Os Quatro Evangelhos”, que enfoca o lado religioso do Espiritismo. O conteúdo desses livros compreende comentários (dos espíritos, repito) sobre os textos dos quatro evangelistas. Portanto, são livros mediúnicos.
Sei muito pouco sobre Roustaing. Talvez, caro leitor, você questione: Por que se envolver então com o polêmico tema Roustaing?
Minha resposta: Entusiasmei-me em conhecê-lo quando soube que grandes oradores espíritas da atualidade têm nos “Os Quatro Evangelhos” importante fonte de pesquisa e estudo.
Fiquei também intrigado ao saber, de fontes fidedignas, que estes grandes e admirados oradores espíritas que lêem e estudam Roustaing, se vêem quase que obrigados a esconder tal fato. Pois, se assim o fizessem, seriam proibidos de proferir palestras em várias Instituições Espíritas!!! Todo este mistério levou a interessar-me e a pesquisar a vida de Roustaing. Com este objetivo, li dois livros que contam sua vida de espírita, mas ainda não li seus livros.
Soube que o seu livro foi editado pela FEB – Federação Espírita Brasileira. Soube ainda que há tempos existem dois grupos dentro da FEB que têm opiniões diametralmente opostas sobre a importância d’Os Quatro Evangelhos para o Espiritismo. Um grupo o coloca num importante patamar; outro o despreza. Ambos os grupos sabem que em nenhum momento Roustaing se viu como um ser mais importante do que Kardec para o movimento espírita. O que é um bom sinal. Aliás, Roustaing via Kardec como “o mestre”.
Esta rivalidade dentro da FEB fez com que a obra de Roustaing não tivesse a divulgação ou a exposição que os demais livros espíritas têm.
Antes de qualquer pré-julgamento do leitor, esclareço que valorizo a organização e o trabalho da FEB, pois, não obstante todos os percalços do caminho, geralmente à frente dessa honrada instituição estiveram e estão homens sérios que querem o bem de nossa Doutrina. Obviamente, como ocorre com a maioria das instituições, em sua trajetória esses líderes do passado e do presente acertaram muito e erraram muito. O que é próprio de quem muito faz.
Agora retorno ao tema inicial deste texto: estão procurando impedir os espíritas de conhecer Roustaing. A seguir explico o porquê desta minha conclusão.
Pelos motivos acima expostos interessei-me em ler e estudar Os Quatro Evangelhos. Como resido em São Paulo-SP, procurei-o nas principais livrarias espíritas desta capital. Não o encontrei. Não o encontrei nem mesmo na livraria da FEESP - Federação Espírita do Estado de São Paulo. E nesta citada livraria tive uma infeliz surpresa: O Os Quatro Evangelhos não está presente tão somente nas bancas da livraria, esta obra também não está presente no catálogo de livros da instituição!
Todos nós sabemos que uma coisa é faltar livros nas estantes; outra bem diferente é o livro não constar da lista do catálogo da livraria!
Será que está havendo censura prévia no movimento espírita? Será que as Instituições Espíritas representativas estão querendo nos dizer que livros podemos, ou não, ler?
Depois de procurar e não encontrar o citado livro, amigos informaram-me que (utilizando-me da expressão de um deles) “deram um chá de sumiço em Roustaing”. E me explicaram qual é um dos “fortes motivos” para esta ocorrência: Roustaing diz no seu livro que Jesus, quando na Terra, tinha corpo fluídico. Eu, que prefiro preocupar-me mais com a mensagem de Jesus do que circunstâncias outras, pergunto-me: E daí? Será que este erro, ou este acerto, pode fazer com que nos impeçam de ler uma obra que grandes espíritas reforçam sua importância e qualidade?
Será que podemos deixar de lado o que sempre aprendemos em nossa doutrina: Examinai tudo, retende o que é bom...
Por que não deixar para nós, leitores, a decisão que nos aprouver?
No consagrado livro “Brasil Coração do Mundo, Pátria do Evangelho”, editado pela FEB, psicografia de Chico Xavier, o espírito Humberto de Campos reforça a importância de Roustaing para o Espiritismo. Escreveu o espírito Humberto de Campos: “(...) Segundo os planos de trabalho do mundo invisível o grande missionário (Allan Kardec), no seu maravilhoso esforço de síntese, contaria com a cooperação de uma plêiade de auxiliares de sua obra, designados particularmente para coadjuvá-lo, nas individualidades de Jean-Baptiste Roustaing, que organizaria o trabalho da fé; de Léon Denis, que efetuaria o desdobramento filosófico; de Gabriel Delanne, que apresentaria a estrada científica e de Camile Flammarion, que abriria a cortina dos mundos, desenhando as maravilhas das paisagens celestes, cooperando assim na codificação kardequiana no Velho Mundo e dilatando-a com os necessários complementos.”
Se assim é, como diz o espírito Humberto de Campos, por que as instituições espíritas aceitam e valorizam as contribuições de Leon Denis, Gabriel Delanne e Camile Flammarion, mas colocam restrições justamente naquele que teve como foco o que mais precisamos para educar nossos sentimentos, que é a fé?
Kardec nos ensinou que o verdadeiro espírita é um Livre Pensador. Óbvio que com esta denominação, o mestre Kardec quis deixar para o futuro a mensagem de que não cabe às instituições espíritas ditar regras de conduta. E ponto final.
Mas continuemos...
Kardec leu o Os Quatro Evangelhos e, na Revista Espírita de junho de 1.866, fez o seguinte comentário: “Esta obra compreende a explicação e a interpretação dos Evangelhos, artigo por artigo, com a ajuda de comunicações ditadas pelos Espíritos. É um trabalho considerável e que tem, para os Espíritas, o mérito de não estar em nenhum ponto, em contradição com a doutrina ensinada pelo ‘O Livros dos Espíritos’ e ‘O Livro dos Médiuns”.
Com seu espírito crítico e racional, Kardec reforça a sintonia do conteúdo do livro com as obras da codificação. Em parte do seu texto, Kardec faz críticas em alguns pontos do livro mencionado. Por exemplo, Kardec critica o caso do corpo fluídico de Jesus, bem como a forma da elaboração do livro. Mas sem desmerecer a importância da obra, Kardec reforça: “Estas observações, subordinadas à sanção do futuro, em nada diminuem a importância da obra que, ao lado de coisas duvidosas, em nosso ponto de vista, encerra outras incontestavelmente boas e verdadeiras, e será consultada pelos Espíritas Sérios”.
Percebeu, caro leitor, que Kardec disse que Os Quatro Evangelhos traz informações “incontestavelmente boas e verdadeiras, e será consultada pelos Espíritas Sérios”. Por que então determinadas instituições espíritas estão estimulando estes espíritas sérios consultarem este livro às escondidas para, sensatamente, evitar o “caça as bruxas”?
Meus amigos, devemos em todas as áreas, e principalmente na área espírita que militamos, evitar críticas baseadas somente em evidências. Pois existem evidências que o tempo comprova não serem verdadeiras. Nossas críticas para serem válidas, precisam ser sustentadas no tripé:
“Fatos”;
Devem “visar o bem comum”;
E precisam ser de “caráter construtivo”.
A crítica que ora faço às instituições citadas, é baseada neste tripé. Isto é, é baseada em:
a) Fatos
A crítica que faço não tem por base “evidências”. Pois é fato de que no catalogo da livraria da FEESP - Federação Espírita do Estado de São Paulo não consta o citado livro de Roustaing; bem como é fato de que a FEB - Federação Espírita Brasileira cria impedimentos para que o citado livro seja conhecido pelos espíritas.
b) Visa o bem comum
Minha crítica é um incentivo ao conhecimento. Pois a proibição, ou quase proibição de uma obra, além de cercear a liberdade de opção, prejudica a tão necessária análise comparativa tão utilizada por Kardec (quando da elaboração das obras básicas). Pois, se lermos Roustaing, teremos como comparar sua mensagem com o conhecimento que o Espiritismo nos proporcionou.
c) Caráter construtivo
A pergunta que precisa ser respondida é: por que desconhecermos uma obra em que o próprio Kardec ressalta que traz informações “incontestavelmente boas e verdadeiras, e será consultada pelos Espíritas Sérios”?
A respeitável médium Ivone A. Pereira, logo nas primeiras páginas do seu livro Devassando o Invisível (Editora FEB), diz: “(...) se é dever de qualquer cidadão respeitar opiniões alheias, ao espírita, com muito maior razão, assistirá o dever de consideração à opinião do próximo, ainda quanto antagônica ao seu modo de pensar.” Em outras palavras, esta notável médium nos orienta e nos alerta sobre a importância da fraternidade entre nós espíritas. Que surjam as críticas construtivas, pois que este era também o interesse de Kardec, mas que de forma conjunta à critica, esteja o nosso respeito às essas duas instituições que são para o Brasil – e até para o mundo – importante base da divulgação espírita. Vê-se na FEB e na FEESP a presença de incansáveis trabalhadores, que visam o bem do próximo. Vê-se, nestas instituições, a presença de pessoas que dedicam suas vidas a esta causa maravilhosa que é o Espiritismo. Vê-se, nestas instituições, trabalho profícuo carregado de amor e de desinteresse pessoal. Não obstante as eventuais críticas que estas instituições recebem (o que é normal e próprio em entidades representativas), a grande questão é: Será que o Espiritismo teria conseguido chegar onde chegou sem a forte contribuição da FEB e de suas representantes estaduais? Certo, de que há muito, muito e muito por fazer. Mas as bases fortes que existem, devemo-las em grande parte a estas importantes instituições.
Um adendo: Eu disse logo acima: “onde (o Espiritismo) chegou”. Esta afirmação pode gerar o seguinte e natural questionamento: “Mas, o Espiritismo com tão poucos adeptos, já chegou a um bom lugar no panorama mundial das religiões?” Não. Sabemos que não. No entanto, comparando a “idade” do Espiritismo com as “idades” do Catolicismo e do Protestantismo, o caminho que percorremos é altamente significativo. Mas há muito por fazer ainda.
Mas, voltando ao nosso tema, faço aqui um apelo às livrarias espíritas, principalmente as dos órgãos representativos estaduais e federal: não nos impeçam de comprarmos Os Quatro Evangelhos. Deixe-nos conhecer e estudar Roustaing para que possamos tirar nossas próprias conclusões. Deixe-nos sermos “Espíritas-Livres Pensadores”, como preconizou Kardec.
Caro leitor, conforme está claro em toda a extensão deste texto, meu objetivo não é colocar-me contra ou a favor do conteúdo do livro Os Quatro Evangelhos. Pois, como poderia posicionar-me em relação a algo que não conheço?
Posiciono-me sim, sobre o direito que temos de conhecer um livro que Kardec (repito pela terceira vez), ao mesmo tempo em que criticou parcialmente o seu conteúdo, mencionou que a obra de Roustaing “(...) traz informações incontestavelmente boas e verdadeiras, e será consultada pelos Espíritas Sérios”.

Disponível em: http://www.uniaoespiritadepiracicaba.com.br/artigos/alkindar-de-oliveira/487-nao-podemos-ler-roustaing, Acesso em 07 ago 2017.

domingo, 6 de agosto de 2017

Em dia com o Machado 275 (jlo)

Faz uns cinco anos que estivemos em Salvador, onde residi quando solteiro, há mais de quatro décadas. Agora, ali estava com esposa, filha, genro e neto. Mais precisamente, no Largo do Pelourinho, na Cidade Alta, onde há diversas atrações turísticas, como museus, associações de capoeiristas e lojas de artesanato.
Estávamos de carro locado, e meu genro era o motorista. Tentamos estacionar numa vaga de estacionamento público, quando nos vimos cercados por “flanelinhas”. Um deles dirigiu-nos a palavra e cobrou antecipadamente dez reais para “vigiar” nosso carro, caso quiséssemos deixá-lo ali. O “preço” a ser pago antecipadamente era da hora, mas se o carro ficasse mais tempo, teríamos de pagar o equivalente.
Perguntamos-lhe se ele era funcionário da prefeitura. Ele disse que não. Nesse momento, um dos guardas do local aproximou-se e, indignados, expusemos-lhe a situação.
O agente de segurança também se demonstrou altamente perplexo e passou a ameaçar o “flanelinha”, caso ocorresse qualquer coisa com o nosso automóvel. O teatro armado na hora foi perfeito:
— Não incomode estes cidadãos. Eles vão deixar o carro aqui e vão aonde quiserem. Quando voltarem, se você os importunar vai se ver comigo.
— Sim, senhor... sim senhor! Eu só...
— Cale a boca!
— Mas...
— Fique calado! já lhe falei... Se houver qualquer reclamação dessas pessoas contra você essa será a primeira e a última. Em seguida, disse-nos:
— Podem ir ao seu passeio, cidadãos. Vocês não serão mais incomodados.
Ficamos até emocionados com a autoridade do guarda. Chegamos a julgá-la, mesmo, um tanto exagerada, mas saímos dali alegres e tranquilos. Fomos ao comércio local, compramos algumas lembranças, visitamos um museu, assistimos a um evento de capoeira e, uma hora depois, retornamos ao lugar do estacionamento.
Embora o dia ainda estivesse claro, pois ainda não dera dezoito horas, para nossa surpresa, não havia mais um único guarda ali, mas “flanelinhas” é que não faltavam. O que fora repreendido pelo guarda havia posto um carro na frente do nosso, impedindo-nos a saída. Ao avistar-nos, como se nada houvesse acontecido, cobrou pela hora em que o carro ali ficara e, só após o pagamento da “taxa”, empurrou o veículo que impedia a saída do nosso.
Também no Rio de Janeiro, há poucos anos, no centro da cidade, à noite, minha família e a de meu primo procurávamos um estacionamento público para deixar nosso carro, após o que jantaríamos em um dos restaurantes locais. Depois de muito procurar, encontramos uma vaga, mas assim que paramos ali, surgiu à nossa frente um “flanelinha” com a seguinte informação:
— Cinco “real”, doutor, para vigiar... E para não acontecer nada com o carro, mais cinco, na volta...
Não precisou dizer mais... saímos dali e fomos procurar outro local para estacionar, pois a insegurança já estava instalada. Nenhum guarda estava nas proximidades. Em Brasília, os “flanelinhas” nos agradecem qualquer real, ou mesmo centavos, que lhes damos; salvo rara exceção. Ainda bem! Por via das dúvidas, sempre procuro ter algumas notas de dois reais e moedinhas de um real no carro.
Aqui no Plano Piloto, onde resido, em Brasília, existem diversas passagens subterrâneas de pedestres. Em pleno centro da Capital, entretanto, tais passagens são verdadeiramente imundas e não oferecem nenhuma segurança para quem tem a coragem de por ali passar. Vândalos quebram pisos e as paredes outrora ladrilhados, bem como espalham todo o tipo de sujeira por lá. À noite, esses locais servem de abrigo a moradores de rua que nos brindam com pontas de cigarro, garrafas vazias de cachaça, dejetos fecais e urina.
Quanta diferença entre a preservação e segurança de nosso espaço turístico e o de países europeus, como Portugal, por exemplo. Estivemos em Lisboa e outras cidades portuguesas há poucos anos e ficamos admirados com a limpeza dos locais públicos. Raras eram as pichações nesses lugares, e a segurança nos assegurava o direito de ir e vir sem sobressaltos.
Um fato pitoresco, que observamos em Lisboa, ao passarmos por estacionamento em frente a pequena loja, foi o cartaz colocado ali: “Proibido estacionar. Obrigatório ler”.
É bem verdade que, em Paris, onde também já estivemos, a limpeza dos espaços públicos não era tão exemplar. O francês fuma muito e joga guimbas de cigarro para todo lado. Entretanto, havia boas condições de segurança, nas ruas francesas, à noite.
Enquanto isso, na capital do Brasil, país com uma das mais altas arrecadações de impostos do mundo, quase nada se faz para proporcionar aos turistas e cidadãos locais ao menos um pouco de segurança e prazer no desfrute de um bom restaurante à noite sem sobressaltos.





Vejam, que beleza!... quanta segurança! Trabalhos “artísticos” nas paredes... E assaltos, diversos assaltos! Nunca vi um guarda ali! E essa é apenas uma das diversas passagens subterrâneas construídas para não sermos atropelados ao tentar cruzar o eixinho, logo acima.


sábado, 29 de julho de 2017



EM DIA COM O MACHADO 274 (Jó)

— Não, Machado, eu não vou morrer de golpe de vento, como ocorreu com Joanino Garcia. Tenho muitos planos, vida a fora, e preciso trabalhar. Era o que eu respondia a Assis, após ter ouvido dele a história narrada pelo espírito Hilário Silva e psicografada por Chico Xavier (Almas em desfile, 2ª parte, 2 O golpe de vento).
Sim, amigo leitor, os “mortos” também leem, e leem muito... Foi a leitura dessa narrativa contida em Almas em desfile que levou o Bruxo do Cosme Velho, fã incondicional do Chico e dos escritores do Além aos “vivos” da Terra, a dar-me os seguintes conselhos:
— Joteli, o personagem hilariano, também é hilário, pois, mesmo sendo espírita e, consequentemente, tendo a seu dispor uma excelente gama de informes sobre a vida em duas dimensões, era hipocondríaco. Nos dois últimos anos de sua existência física, já se imaginara tuberculoso, após uma bronquite rebelde; embora ainda jovem, julgara estar com o mal de Parkinson, ao consumir remédio inadequado, que lhe provocara tremores; curado, pouco tempo depois, uma intoxicação levou-o a crer-se hemorrágico, por ter ficado com a pele avermelhada; por fim, uma artrite reumatoide, em princípio não letal, acabou por levá-lo a óbito, após um simples golpe de vento ter mudado a página do livro de medicina consultado sobre os sintomas da doença.
— É mesmo, Machado, e que foi que ele leu?
— Leu sobre angina de peito, sintoma decorrente de doença arterial coronariana grave.
— E que manifesta esse sintoma?
— “[...] dor pungente e agoniante. Geralmente a crise perdura por segundos e termina com a morte [...].” Nem bem acabou a leitura, Joanino passou a sentir-se sufocado por “dor agoniante”, no peito, e terminou por desencarnar quatorze anos antes do tempo que lhe fora programado. Ao chegar aqui, ouviu do seu mentor espiritual que “o peso de sua tensão mental” o levara à morte prematura.
— O meu caso é parecido, Machado...
— Você também é hipocondríaco?
— Não, mas minha mulher o é por mim...
— Como assim?
— Um mês após meu tratamento de uma pneumonia, vacinei-me contra essa doença e também contra gripe; entretanto, na semana seguinte, adoeci. Vendo-me tossir muito, principalmente à noite, após cinco dias gripado, Maria insistiu tanto para eu procurar atendimento médico, que acabei acedendo aos seus rogos.
— E que disse o facultativo?
— Após examinar-me atentamente com o estetoscópio, recomendou-me o uso diário de prednisolona, descongestionanate nasal, muito líquido e repouso. Caso não melhore, em uma semana, devo tomar Clavulin 875/125mg ao longo de dez dias. Mal comecei o tratamento, minha mulher implora-me insistentemente, para eu voltar ao clínico, rs, rs.
— Pois eu lhe digo, Joteli, que o seu caso é diametralmente oposto ao do Joanino. Começa pela “angina de peito” e termina pela bronquite crônica.
— Então eu ainda vou viver mais quatorze anos, pelo menos, meu bom amigo...
— Bem mais, meu caro, bem mais... Coisa ruim não morre cedo. Releia a mensagem d’O evangelho segundo o espiritismo: “Se fosse um homem de bem, teria morrido”.

— Uma coisa é certa, com golpe de vento não morro...

domingo, 23 de julho de 2017



EM DIA COM O MACHADO 273 (Jó)

Amigos, relendo a obra As mesas girantes e o espiritismo, encontrei riquíssima informação a respeito dos pareceres de eminentes filósofos, cientistas e padres sobre a “invasão organizada dos espíritos” na América e na Europa. Um desses reverendos, o padre Raulica, ao investigar os fenômenos, concluiu que aquele era “o mais importante acontecimento do século”. Sim, dizia ele, os fenômenos são autênticos. Sim, reafirmava, os acontecimentos são reais. Sim, ratificava, não há fraudes, não há mistificações, não existem burlas nas manifestações dos espíritos. Deus permitiu que tal ocorresse para nos provar a realidade da vida espiritual. Louvado seja Deus! Estávamos no século XIX...
Entretanto, Raulica falava também aos quatro cantos que as manifestações eram do diabo. Tudo verdade, mas tudo proveniente das forças satânicas, para iludir os homens e conduzi-los ao inferno, onde haveria “prantos e ranger de dentes”. Desaconselhava, pois, aos leigos que se envolvessem com tais artimanhas de Lúcifer.
Também a Academia Francesa indicou diversos pesquisadores para verificarem o que havia de verdade nas manifestações mediúnicas, verdadeira infestação de supostas almas dos mortos a revelarem-nos que a vida continua além do Véu de Ísis. Reis, rainhas, duques, marqueses, delegados, juízes, cientistas, teólogos, ex-ateus do meio acadêmico e outras autoridades presenciavam os chamados “fenômenos das mesas girantes” e outros, decorrentes desses. Todos os que investigavam seriamente e sem ideias preconcebidas as manifestações dos chamados mortos convertiam-se ao espiritualismo.
Mas, embora os cientistas indicados pela Academia Francesa houvessem confirmado a realidade das manifestações espíritas, seu relatório jamais foi divulgado. Ficou arquivado em alguma gaveta acadêmica que, quando consultada, dizia ao curioso: — Não se aproxime! Aqui jaz o maior enigma do universo. Caso você se converta, será ridicularizado. Caso você creia e perceba um sentido para a vida, todas as pessoas o chamarão de louco.
Ao que o curioso responderá à gaveta: — Mas, afinal, as manifestações são ou não são verdadeiras? E ela ficará muda, como sói acontecer a todo objeto inanimado, pois gaveta e mesa só falam quando impulsionadas por vozes do Além, e o Aquém não quer intromissão em sua vida profana. — Fiquemos aquém da morte... Não vamos além! Isso é para os loucos ou santos.
Então, a curiosa pessoa dirá: — Bem, deixemos que os padres, os pastores e os visionários se ocupem dos problemas da alma e gozemos a vida, pois ela é curta e apenas uma certeza queremos ter: estamos vivos! Que os mortos enterrem seus mortos, como dizia o Sublime Galileu, que acabou crucificado por nos ter garantido o Céu, após morrer por nós. Aceitemo-lo, portanto, como Salvador, e curtamos a vida o melhor possível.
Quando Allan Kardec desencarnou, deixou-nos uma obra extraordinária: O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns, O Céu e o Inferno ou a Justiça Divina Segundo o Espiritismo e A Gênese, além da Revista espírita. Você pensa que a Igreja não conhece essa obra? Claro que conhece. E por que não a incorporou à sua doutrina como fonte de esclarecimentos complementares à Boa Nova do Cristo? Porque a conveniência em manter sua ascendência sobre as mentes humanas predominou. Até hoje, a “fé” é artigo de aceitação cega e inquestionável, imposto pelos padres e pastores cristãos. O mesmo se diz das academias...
É conveniente que a sociedade viva o presente, case-se ou não, constitua ou não família, coma, beba, divirta-se, durma e, cousa dura, trabalhe. Assim, quem resolver rebelar-se contra isso acabará nas “profundas do inferno”, senão do lado de lá, também do lado de cá.
E mais não digo por ora.

quarta-feira, 19 de julho de 2017


Martim Gouveia, moço ainda, afeiçoara-se a pilhar residências incautas, subtraindo o que pudesse, sem nunca ter caído nas mãos das autoridades.
Naquela noite namorara atentamente uma casa fechada qual se ninguém residisse ali.
Pé-ante-pé galgou o muro do quintal e forçou a porta dos fundos.
Abriu-a com habilidade, penetrando na moradia.
Passou pela cozinha e ganhou o interior.
Procurou um dos quartos onde esperava encontrar valores maiores e empurrou de leve a porta.
Nisso, contudo, ouviu respiração estertorosa.
Julgando ser alguém que dormia ressonando, avançou mais ainda.
Admirado, vê então um vulto que se esparrama num leito.
O intruso leva a mão ao punhal.
Mas ouve a voz fraca e entrecortada de um homem deitado que o vislumbra no lusco-fusco.
O desconhecido alonga os braços e fala sob forte emoção.
- Oh! Graças a Deus! Você escutou os meus gemidos, meu filho? Foram os Espíritos! Você é um enviado dos Mensageiros Divinos!...
Martim Gouveia, surpreso, abandona a ideia da arma.
Adianta-se para o velhinho que pode agora distinguir sob a luz mortiça do luar através da vidraça.
O ancião repete maravilhado:
- Oh! Graças a Deus! Meu filho preciso muito de você... Sou paralítico e sem ninguém... Não tenho forças para gritar... Há muito tempo não recebo visitas. Você me ouviu!...
Depois de pequena pausa continuou...
- Busque um remédio... Sinto muita falta de ar... Leia algo que me conforte... Para não morrer sozinho... Você é um enviado dos Espíritos...
E por que o enfermo lhe estendesse um livro, Martim Gouveia, condoído, acendeu a luz e dispôs-se a ler, emocionado...
Era um exemplar de O Evangelho Segundo o Espiritismo, ensebado de suor e de lágrimas.
O hóspede imprevisto leu e releu, até alta madrugada e, desde aquele instante, desistiu de assaltos e de furtos, cuidando do velhinho, administrando-lhe remédios, prestando-lhe assistência e lendo com ele os livros espíritas da sua predileção.
Após cinco meses, o doente desencarnou em clima de paz, deixando-lhe como herança a casa e os bens e sua alma renovada pelo exemplo de fé nos Bons Espíritos.

XAVIER, Francisco Cândido. Ideal espírita. Pelo Espírito Hilário Silva. Cap. 62. 

sábado, 15 de julho de 2017



Em dia com  o Machado 272 (Jó)


Esta eu ouvi do meu concunhado Carvalho. Apenas troquei os nomes das personagens: Joaquim, também conhecido como Kincão, dono de uma mercearia que também vendia materiais de obras, era amigo de Manuel, ou Mané, homem de poucas letras, mas bem conceituado proprietário de um restaurante na cidade de Barreiras, BA, onde ambos mantinham seus negócios e residiam.
Certo dia, em que faltara algo em seu comércio, Manuel escreveu um bilhete a Joaquim, solicitando-lhe envio do produto em escassez.
Ao ler o bilhete, Joaquim estranhou: — Ué, o Mané está reformando seu restaurante? Pensou.
Entretanto, como o pedido era para atendimento urgente, chamou o motorista do caminhão de transporte da loja, pediu-lhe para colocar, no carro, cinco sacos de cal, com trinta quilos cada, e levá-los ao amigo rapidamente.
Uma hora depois, o próprio Manuel entrou nervoso no comércio de Joaquim e perguntou-lhe: 
Kincão, por que você não atendeu ao meu  pedido e ainda me enviou cinco sacos de cal?
— Ora, Manuel, não foi o que você me pediu no bilhete?
— De jeito nenhum, pedi-lhe cinco sacos de sal e não de cal.
— Pois então, releia o que você escreveu: 
"Amigo Kincãu, mandi intregá nu meu restorante cinco saco de cal".
Ao que o Mané respondeu:
— Mas, amigo, só pur causu qui faltô uma cobrinha embaixo do “c” ocê num intendeu? 
E "corrigiu" cal para "çal".

                                                                       *
Consultando Machado sobre como escrever bem, ele disse-me que, antes de mais nada, é preciso ler muito, os mais diversos gêneros textuais: artigos, crônicas,  contos, romances, piadas, comerciais, artes, composições musicais, poemas, relatórios, resumos, resenhas, E-mails, WhatsApps...
— Que tal você sugerir-nos que fazer ou não em nossos textos, amado guru? pedi-lhe.
Ele, então, disse-me que escrever e falar bem é abrir a porta do sucesso. Entretanto, a fala é menos rigorosa do que a escrita, em relação à norma padrão de qualquer idioma. Por isso, disse, ao escrever, precisamos observar cinco requisitos básicos: clareza, concisão, coerência, correção e originalidade. E passou-me estas dicas que, segundo ele, não abordam tudo, mas o essencial numa redação:
A clareza é irmã da concisão. Não use palavras rebuscadas, utilize frases curtas. Seja objetivo, evite adjetivação exagerada. Cada período deve possuir apenas uma ideia central. Fuja da generalização no que escrever.
A coerência é irmã da lógica. É preciso haver nexo entre os termos e frases do período escrito, sem o que podemos contradizer-nos. Para o nexo, é necessário o uso correto dos conectivos: pronomes, conjunções, preposições, numerais, artigos...
A correção gramatical requer considerável conhecimento linguístico e também muita atenção no que se pensa e no que, de fato, está escrito. Para isso, é preciso revisar diversas vezes o que escrever, antes de submeter seu texto a outro leitor, ou então ter um bom revisor, como é seu amigo Astolfo...
Em textos que exigem o predomínio da norma culta, deve evitar-se o uso de gírias, palavras estrangeiras ou vulgares. Caso seja indispensável sua presença, elas devem ser destacadas; com itálico, no caso de estrangeirismos, ou com aspas, nos demais casos.
Você pode redizer ou reescrever qualquer coisa, todavia o modo como o faz é que estabelece a diferença. Isso é que eu chamo originalidade. 
Assim concluiu o Bruxo do Cosme Velho: Por vezes, um pouco de ironia, na literatura, faz um bem enorme...
E eu continuo lendo, escrevendo e aprendendo...

quarta-feira, 12 de julho de 2017



Em dia com o Machado 271 (Jó)

Amigo leitor, acabei de ler na revista Seleções Reader’s Digest, deste mês, que o riso nos faz suportar melhor a dor do que o não riso; o canto nos ajuda a evitar resfriado; mascar chicletes melhora nossa memória; reprises restauram-nos a energia mental e usar meias na cama melhora o sexo.
Vamos por parte: o canto nos ajuda a evitar resfriado. Talvez você não saiba, mas meu secretário, Joteli, adora cantar, ainda que nada conheça sobre música. Vai do som celestial da Ave-Maria, de Schubert, ao eco telúrico da Princesa, de Amado Batista.
Não sei por que ele vive resfriado... Será por que canta desafinado? Oh, rima infame!
Ignoro... diz ele que, na juventude, fez parte de um coral de mocidade espírita-cristã, e, ali, diziam ser ele um ótimo tenor.
Porém, de dois anos para cá, já contraiu duas pneumonias, ainda que não pare de cantar. Talvez isso seja um problema de DNA (rimou de novo).
Para quem não sabe, DNA= data de nascimento antiga.
Por incrível que pareça, nunca, a não ser por brincadeira, seus familiares se queixaram dele cantando... no banheiro. Dizem que o amam muito!
Quanto ao riso, que, hipoteticamente, nos auxilia a suportar a dor, após ler o escrito acima, não tente colocar a mão em água quente, amiga leitora. Não vale a pena arriscar, mesmo que seu senso de humor seja elevado e o frio esteja intenso no Centro-Oeste.
Em relação a mascar chicletes, deve realmente melhorar a memória. Nunca me esqueceu um colega de escola, quando eu era adolescente. Sabe por quê? Vi-o engasgar-se com essa goma, que grudou em sua garganta, e tornei a vê-lo após ele ser submetido a uma traqueostomia, ou seja, um furo no pescoço seguido de cirurgia para retirada do plástico.  
A imagem da cicatriz do amigo jamais me saiu das retinas. Como isso ocorreu há cinquenta anos, e nunca mais nos vimos, atribuo a causa de minha lembrança ao chiclete que ele mascava; o resto foram efeitos...
Falemos, agora, das reprises. Será que restauram mesmo a energia mental?
Não sou adepto de replays, mas creio em sua eficácia de restauração da mente.
O leitor há de concordar, entretanto, que algumas reprises não são nada agradáveis para o equilíbrio de nosso ser. Um exemplo: qual é o torcedor brasileiro que, não sendo masoquista, gostaria de assistir, novamente, ao jogo Alemanha 7 x 1 Brasil?
Quanto a deitar-se de meias, ainda não sei se melhora o sexo, pois é certo que, com a friagem em Brasília, nestes últimos dias, tenho dormido muito bem calçado com elas.
Carola também...
Depois desta crônica, vou pediu meu cachê à Seleções.




  Rumo à perfeição   Em nossa luta contra o mal em nós, O mal que não queremos sobreleva Por nossa imersão em densa treva Desde o tempo de n...