O Espiritismo é a Religião que contribui com todas as
religiões
– Jorge Leite de Oliveira[1]
Segundo Allan Kardec,
O laço estabelecido por uma religião, seja qual for o seu objetivo, é, pois, essencialmente moral, que liga os corações, que identifica os pensamentos, as aspirações, e não somente o fato de compromissos materiais, que se rompem à vontade, ou da realização de fórmulas que falam mais aos olhos do que ao espírito. O efeito desse laço moral é o de estabelecer entre os que ele une, como consequência da comunhão de vistas e de sentimentos, a fraternidade e a solidariedade, a indulgência e a benevolência mútuas. É nesse sentido que também se diz: a religião da amizade, a religião da família.
Se é assim, perguntarão, então o Espiritismo é uma religião? Ora, sim, sem dúvida, senhores! No sentido filosófico, o Espiritismo é uma religião, e nós nos vangloriamos por isto, porque é a Doutrina que funda os vínculos da fraternidade e da comunhão de pensamentos, não sobre uma simples convenção, mas sobre bases mais sólidas: as próprias leis da Natureza.
[...]
Crer num Deus Todo-Poderoso, soberanamente justo e bom; crer na alma e em
sua imortalidade; na preexistência da alma como única justificação do presente;
na pluralidade das existências como meio de expiação, de reparação e de
adiantamento intelectual e moral; na perfectibilidade dos seres mais
imperfeitos; na felicidade crescente com a perfeição; na equitativa remuneração
do bem e do mal, segundo o princípio: a cada um segundo as suas obras; na
igualdade da justiça para todos, sem exceções, favores nem privilégios para
nenhuma criatura; na duração da expiação limitada à da imperfeição; no
livre-arbítrio do homem, que lhe deixa sempre a escolha entre o bem e o mal;
crer na continuidade das relações entre o mundo visível e o mundo invisível; na
solidariedade que religa todos os seres passados, presentes e futuros,
encarnados e desencarnados; considerar a vida terrestre como transitória e uma
das fases da vida do Espírito, que é eterno; aceitar corajosamente as
provações, em vista de um futuro mais invejável que o presente; praticar a
caridade em pensamento, em palavras e obras na mais larga acepção do termo;
esforçar-se cada dia para ser melhor que na véspera, extirpando toda
imperfeição de sua alma; submeter todas as crenças ao controle do livre exame e
da razão, e nada aceitar pela fé cega; respeitar todas as crenças sinceras, por
mais irracionais que nos pareçam, e não violentar a consciência de ninguém;
ver, enfim, nas descobertas da Ciências, a revelação das leis da Natureza, que
são as leis de Deus: eis o Credo, a religião do Espiritismo, religião que
pode conciliar-se com todos os cultos, isto é, com todas as maneiras de adorar
a Deus. É o laço que deve unir todos os espíritas numa santa comunhão de
pensamentos, esperando que ligue todos os homens sob a bandeira da fraternidade
universal.
Com a fraternidade, filha da caridade, os homens viverão em paz e se
pouparão males inumeráveis, que nascem da discórdia, por sua vez filha do
orgulho, do egoísmo, da ambição, da inveja e de todas as imperfeições da
Humanidade.
O Espiritismo dá aos homens tudo o que é preciso para a sua felicidade
aqui na Terra, porque lhes ensina a se contentarem com o que têm. Que os
espíritos sejam, pois, os primeiros a aproveitar os
benefícios que ele traz, e que inaugurem entre si o reino da harmonia, que
resplandecerá nas gerações futuras.
Os Espíritos que nos cercam aqui são inumeráveis, atraídos pelo objetivo
que nos propusemos ao nos reunirmos, a fim de dar aos nossos pensamentos a
força que nasce da união. Ofereçamos aos que nos são caros uma boa lembrança e
o penhor de nossa afeição, encorajamentos e consolações aos que deles necessitem.
Façamos de modo que cada um recolha a sua parte dos sentimentos de caridade
benevolente, de que estivermos animados, e que esta reunião dê os frutos que
todos têm o direito de esperar.
Em seu prefácio à obra Religião dos Espíritos, seu autor espiritual Emmanuel, pela psicografia de Chico Xavier, esclarece-nos:
[...] cremos poder afirmar, com o título deste volume, que o primeiro livro da Codificação Kardequiana [O livro dos Espíritos] é manancial tão rico de valores morais para o caminho humano que bem pode ser considerado não apenas como revelação da esfera superior, mas igualmente como primeiro marco da Religião dos Espíritos, em bases de sabedoria e amor, a refletir o Evangelho, sob a inspiração de Nosso Senhor Jesus Cristo (Emmanuel, Espírito, 2008, p. 13).
Respondendo a consulta que lhe foi
feita sobre qual dos três aspectos: científico, filosófico e religioso é o
melhor, o Espírito Emmanuel, sem qualquer contestação à condição especial do
Espiritismo, como religião, assim responde:
— Podemos tomar o Espiritismo, simbolizado desse modo, como um triângulo de forças espirituais.
A Ciência e a Filosofia vinculam à Terra essa figura simbólica, porém, a
Religião é o ângulo divino que a liga ao céu. No seu aspecto científico e
filosófico, a Doutrina será sempre um campo nobre de investigações humanas,
como outros movimentos coletivos, de natureza intelectual, que visam ao
aperfeiçoamento da Humanidade. No aspecto religioso, todavia, repousa a sua
grandeza divina, por constituir a restauração do Evangelho de Jesus Cristo, estabelecendo
a renovação definitiva do homem, para a grandeza do seu imenso futuro
espiritual (Emmanuel, Espírito, 2013, p. 10).
— as noções religiosas, com a exemplificação dos mais altos deveres da
vida, constituem a base de toda a educação, no sagrado instituto da família (op. cit., p. 75).
E, para confirmar o alto conceito do Espírito em relação à religião, cito a seguir a questão 260 da obra O Consolador e o que ele responde:
— Religião é o sentimento divino, cujas exteriorizações são sempre o
Amor, nas expressões mais sublimes. Enquanto a Ciência e a Filosofia operam o
trabalho da experimentação e do raciocínio, a Religião edifica e ilumina os sentimentos.
As primeira se irmanam na sabedoria, a segunda personifica o amor, as duas
asas divinas com que a alma humana penetrará, um dia, nos pórticos sagrados da
espiritualidade (Emmanuel, Espírito, 2013, p. 179).
EMMANUEL (Espírito). Religião dos Espíritos.
Psicografia de Francisco Cândido Xavier. 21. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2008.
EMMANUEL (Espírito). O Consolador. Psicografia de
Francisco Cândido Xavier. 29. ed. Brasília: FEB, 2013.
KARDEC, Allan. Revista Espírita, dezembro de 1868. Tradução de
Evandro Noleto Bezerra. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2005, p.
483-495
.______. Instruções de Allan Kardec ao Movimento Espírita. Tradução
de Evandro Noleto Bezerra. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2005,
cap. 23 O Espiritismo é uma Religião?
[1] As
citações estão destacadas, aqui, em itálico. Os destaques do autor da obra
citada, em tipo normal.
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