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quinta-feira, 20 de maio de 2021

 


Cruz e Sousa: O Dante Negro da Poesia Brasileira

Cruz e Sousa: O Dante Negro da Poesia Brasileira

por Alexsandro M. Medeiros

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postado em set. 2018

            Filho de escravos alforriados, João da Cruz nasceu em 1862 na cidade de Desterro (hoje Florianópolis), Santa Catarina, e recebeu uma educação refinada por parte dos antigos proprietários de seus pais, o marechal Guilherme Xavier de Sousa, de quem adotou o nome de família, Sousa. “A despeito do grande talento poético, sofreu com o preconceito por ser negro, sendo preterido em várias oportunidades, como quando foi nomeado promotor público em Laguna, deixando de assumir o cargo por causa de sua cor” (BILAC; SOUSA; ANJOS, 2010, p. 118).

            Na década de 1880 Cruz e Sousa trabalhou e colaborou em diferentes jornais. “O primeiro jornal em que Cruz e Sousa colaborou chamava-se ‘Colombo’, fundado em 1881 por ele e seus conterrâneos amigos Virgílio Várzea e Manuel dos Santos Lostada, definido pelos autores como ‘Periódico Crítico e Literário’” (BARROS, 2017, p. 1572).

Capa do jornal O Moléque, ano 1, nº 43, 12 de outubro de 1885. Acervo: Biblioteca Pública de Santa Catarina. Arquivo Pessoal.

 Ainda em 1881, dirigiu em conjunto com Virgílio Várzea o jornal Tribuna Popular, combatendo a escravidão e o preconceito racial.

Posteriormente assumiu o cargo de redator do jornal O Moleque, na sua cidade natal Desterro, de viés crítico, literário e humorístico. Cruz e Sousa colaborou ainda no Jornal do ComércioCidade do Rio e Novidades.

Em 1885, lançou o primeiro livro, Tropos e Fantasias, em parceria com Virgílio Várzea, pouco conhecida e estudada. Perto de completar 30 anos se mudou para o Rio de Janeiro onde trabalhou como arquivista na Estrada de Ferro Central do Brasil e colaborou com diversos jornais. Em 1893, publicou Missal (prosa poética baudelariana) e Broquéis (poesia). A primeira “constitui-se de 45 poemas em prosa, em sua maioria bastante curtos. O título do livro refere-se, como era praxe na estética simbolista, à liturgia católica, ou seja, o livro em que são reunidas as orações da missa” (PIRES, 2013, p. 91). Já Broquéis fez dele um dos precursores do simbolismo no Brasil: “escrita nos anos iniciais de chegada do poeta à capital (logo, de 1890 a 1893)” (DE PAULA, 2013, p. 7). Todas as demais obras de Cruz e Sousa foram publicadas postumamente: “Evocações, que estava no prelo e foi publicada em 1898, ano de sua morte; Faróis, em 1900; Últimos Sonetos em 1905; tendo vindo a lume O Livro Derradeiro somente em 1944” (CAPOBIANCO, 2013, p. 184). Righi (2006, p. 27) acrescenta ainda a esta lista de obras: Julieta dos Santos – Homenagem ao Gênio Dramático Brasileiro, de 1883 (em parceria com Virgílio dos Reis Várzeas e Manoel dos Santos Lostada); Histórias Simples, de 1887; Outras Evocações e Dispersos, publicadas em 1961.

 

Fac-símile de manuscrito do poema Dupla Via-lactea. Acervo: Museu Histórico de Santa Catarina (ASSIS; INÁCIO; SANTANA, 2015, p. 26)

 

Evocações foi o segundo livro de poemas em prosa do poeta catarinense (SILVA, 1999). “Rompendo com o aparato brilhante e precioso de Missal, os poemas de Evocações, além de delinearem a arte poética cruciana, aprofundam os problemas humanos e sociais vividos pelo poeta, ou seja, seu próprio drama, em todas suas complexidades” (ALSELMI, 2013, p. 2). Evocações “oferece páginas em que a escavação dos meandros inconscientes e do universo onírico se dá por meio da deformação expressiva, da análise psicológica e da consciência da Dor metafísica” (PIRES, 2013, p. 95). Eis alguns trechos da obra.

REGIÃO AZUL. Evocações

As águias e os astros abrem aqui, nesta doce, meiga e miraculosa claridade azul, um raro rumor d’asas e uma rara resplandecência solenemente imortais.

As águias e os astros amam esta região azul, vivem nesta região azul, palpitam nesta região azul. E o azul, o azul virginal onde as águias e os astros gozam, tornou-se o azul espiritualizado,

a quintessência do azul que os estrelejamentos do Sonho coroam...

Músicas passam, perpassam, finas, diluídas, finas, diluídas, e delas, como se a cor ganhasse ritmos preciosos, parece se desprender, se difundir uma harmonia azul, azul, de tal inalterável

azul, que é ao mesmo tempo colorida e sonora, ao mesmo tempo cor e ao mesmo tempo som...

E som e cor e cor e som, na mesma ondulação ritmal, na mesma eterificação de formas e volúpias, conjuntam-se, compõem-se, fundem-se nos corpos alados, integram-se numa só onda

de orquestrações e de cores, que vão assim tecendo as auréolas eternais das Esferas...

E dessa música e dessa cor, dessa harmonia e desse virginal azul vem então alvorando, através da penetrante, da sutil influência dos rubros Cânticos altos do sol e das soluçadas lágrimas noturnas da lua, a grande Flor original, maravilhosa e sensibilizada da Alma, mais azul que toda a irradiação azul e em torno à qual as águias e os astros, nas majestades e delicadezas das asas e das chamas, descrevem claros, largos giros ondeantes e sempiternos... (apud ASSIS; INÁCIO; SANTANA, 2015, p. 29).

            A publicação póstuma da maioria de suas obras explica-se pela tentativa frustrada de Cruz e Sousa se estabelecer no meio literário da então capital da República, o Rio de Janeiro. “Tendo recebido negativa recepção dos principais críticos da época e indiferença da grande imprensa, Cruz e Sousa continuou produzindo [...] [depois de Missal e Broquéias], vindo a falecer em 1898, sem nunca mais publicar obras em prosa ou em verso” (DE PAULA, 2013, p. 6).

            Seus restos mortais se encontram no Palácio Cruz e Sousa, antigo palácio de governo do estado de Santa Catarina e atual Museu Histórico de Santa Catarina, no centro de Florianópolis. O prédio fica próximo à Praça XV de Novembro e é um ponto turístico da cidade. Pela grandiosidade de sua obra, Cruz e Sousa ficou conhecido como o Dante Negro (ALSELMI, 2013; ALVES, 2008; OLIVEIRA, 2014) ou Cisne Negro (OLIVEIRA, 2014; PIRES, 2002) da poesia brasileira.

 

Simbolismo

            Em 1890 surgiu um movimento estético chamado Decadentismo, fruto da crise do final do século XIX em que o homem toma conhecimento de sua decadência social e cultural, diante da bruteza da sociedade industrial, do desgosto face ao modelo positivista de um universo material e mecânico. Esse movimento “depois, renomeado Simbolismo, foi, primeiramente, uma reação ao Realismo, ao Naturalismo e ao Positivismo, e contra o Parnasianismo na poesia, tornando-se uma revolta contra o espírito positivista na arte, na moral e na filosofia (SANTOS, 2014, p. 181). O Simbolismo ganha evidência a partir dessa reação e coloca para si como tarefa o alcance metafísico de decifrar o mistério da vida para fugir desse velho mundo: “os simbolistas, buscavam a representação por meio de uma linguagem transcendente, que se opunha ao costume de transparecer a referencialidade” (OLIVEIRA, 2014, p. 28).

O Simbolismo representou uma reação contra a mentalidade cientificista e o materialismo que moldaram o pensamento e a maneira de ver o mundo na segunda metade do século XIX. Opôs igualmente ao descritivismo e frieza dos parnasianos, resgatando o primado da subjetividade sobre a razão e afirmado-se como uma estética fundada na dimensão transcendente da vida, na intuição, no misticismo (BILAC; SOUSA; ANJOS, 2010, p. 112).

            A importância de Cruz e Sousa pra o Simbolismo no Brasil é destacada por Moisés (2004, p. 269) e Cesco (2011, p. 1): “é consensual que Cruz e Sousa é a figura mais importante do nosso Simbolismo”. A herança do Simbolismo de Cruz e Sousa irá aparecer em vários autores como “Manuel Bandeira, Murilo Mendes e ao surrealismo” (DE PAULA, 2013, p. 30).

            Em Cruz e Sousa encontramos a tematização e representação artística do mal, da morte (ver o poema Visão da morte: Sousa, 2002) relacionando-a ao tema do abismo profundo (BASTIDE, 1973), do satanismo, remetem-nos a uma aproximação metafísica com o espiritual e com a subjetividade da alma humana, a busca pelas grandes verdades humanas e divinas (PEIXOTO, 1999). Sua poesia traz uma reflexão de conteúdo existencial, onde o sofrimento e as angústias humanas fazem parte do núcleo do seu fazer poético e busca consolo no sagrado e na espiritualidade, fazendo com que sua poesia seja classificada dentro da estética simbolista “expressiva do esforço de integração do homem com os valores transcendentais, com o sagrado e com os aspectos simbólicos da vida [...] A poesia é concebida como uma ponte para a ligação do homem com a esfera cósmica da existência” (BILAC; SOUSA; ANJOS, 2010, p. 116).

            Sobre a manifestação do mal na obra de Cruz e Sousa, Santos (2014, p. 177) ressalta que ela surge “não apenas em sua forma simbólica, mas, especialmente no que diz respeito ao que poderíamos considerar como o seu sentimento de inadaptação ao seu mundo”. A poesia de Cruz e Sousa é marcada pelo uso de metáforas, figurações, composições ficcionais, neologismos.

            Vejamos um pouco da sua obra Missal que, segundo Oliveira (2014, p. 32), além de inovadora, iniciou “as reflexões simbolistas no Brasil”.

            Todo o Missal está repleto de elementos da estética decadentista-simbolista “como o suntuarismo, o aristocratismo, o panteísmo, o orientalismo à Baudelaire, a presença de elementos litúrgicos do Catolicismo, a torre de marfim, o idealismo, a espiritualidade, o arranco para o alto, a visão positiva da existência e da arte” (PIRES, 2013, p 93). O livro inicia com o poema Oração ao Sol e termina com o poema Oração ao mar. O título de ambos já revela o entrelaçamento com o próprio título da obra. A oração ao Sol evoca uma espécie de benção a este grande astro, para que possa iluminar a obra do artista. Na oração ao mar o poeta roga ao poderoso Leviatã, com sua força e poder supremo e do qual ninguém se iguala na terra, que guarde o seu Missal.

O poema “Oração ao mar” tem um papel crucial no livro, porque é o poema de fechamento do livro e um apelo ao mar em relação ao próprio Missal. O objetivo do eu-lírico é pedir ao mar que guarde no fundo de suas águas os pensamentos contidos no Missal para que ele não seja corrompido por mãos brutas (OLIVEIRA, 2014, p. 84).

 

A Questão Social e Racial na Obra do Poeta Negro

            Embora a questão social e racial não seja a tônica dominante da poesia do simbolismo e, por conseguinte, de Cruz e Sousa, o poeta retratou em alguns de seus poemas metaforicamente a condição do escravo. Todavia Cruz e Souza militou contra a escravidão principalmente através dos jornais e periódicos para os quais colaborou, e proferindo palestras. Cruz e Sousa produziu várias matérias de crítica social sobre a condição do negro no fim do século XIX, como neste trecho sobre o abolicionismo:

Se a humanidade do passado, por uma falsa compreensão dos direitos lógicos e naturais, considerou que podia apoderar-se de um indivíduo qualquer e escravizá-lo, compete-nos a nós, a nós que somos um povo em via de formação, sem orientação e sem caráter particular de ordem social, compete-nos a nós, dizíamos, fazer desaparecer esse erro, esse absurdo, esse crime. Trecho de O abolicionismo, 1887 (apud ASSIS; INÁCIO; SANTANA, 2015, p. 33)

            Sua atuação através de jornais e periódicos e a ausência dessa temática em suas poesias rendeu-lhe inúmeras críticas. As poucas referências a questão racial em sua obra não foram suficientes para evitar tais críticas.

            Apesar das críticas, não se pode dizer que a questão socia e racial não esteja presente na obra do poeta. Righi (2006, p. 19), por exemplo, analisa a estrutura da obra Evocações “no ambiente social da segunda metade do século XIX e com os conflitos vividos pelo autor em sua época”, procurando demonstrar a relação “entre aquela sociedade, a história, o mito, a forma literária e o momento autal”. Amancio, Miranda e Siqueira (2013, p. 9), por sua vez, procuram demonstrar a presença do discurso de autoafirmação e resistência aos problemas sofridos pelos afros brasileiros através do poema Emparedado, do livro Evocações, onde o poeta “se apropriou de suas vivências individuais para produzir um discurso de luta coletiva em prol dos afrodescendentes, tornando, por conseguinte, seu poema em obra singular e instrumento de desmascaramento do preconceito velado da sociedade elitista”. Vale ressaltar que o poema Emparedado também foi objeto de análise de Righi (2006, p. 80-99), Nestor Vítor (apud COUTINHO, 1979, p. 133), segundo o qual Emparedado retrata não apenas uma “revolta pessoal, mas de toda uma raça proscrita pela Civilização inteira, que desdenha quanto pretenda em tais homens ser manifestação de vida superior”

            Portanto, também no campo poético, o poeta explorou e deu voz ao grito libertário dos povos afrodescendentes. A própria ideia de emparedado já revela a intenção do autor, ou seja, alguém ou algo que foi enclausurado, encerrado entre paredes. Embora metaforicamente a ideia de emparedado possa significar as paredes que cercavam o próprio autor,

com seu discurso de resistência, enuncia as paredes que cercam todos os afrodescendentes. Desse modo, essas paredes que o emparedam são formadas por dados hipotéticos de conceitos infundados de superioridade e inferioridade das raças humanas, dos preconceitos, racismos e escravismos da sociedade do século XX (AMANCIO; MIRANDA, SIQUEIRA, 2013, p. 17).

            Cruz e Sousa, o Dante Negro da poesia brasileira, fala do negro, como negro e mostra ao leitor sua indignação com a maneira como os brancos tratavam o negro. Mas como ser ouvido sendo negro, em uma sociedade onde prevalece o status quo da cor branca? “Por isso o poeta Dante, se sente o tempo todo emparedado, encurralado, tendo que negar sua cor, sua identidade afro para poder, através de sua arte, denunciar a elite branca” (id., ibidem, p. 17). Emparedado tem, portanto, um sentido metafórico tanto individual quanto coletivo. Refere-se às paredes que enclausuravam o próprio autor e os povos afrodescendentes. Ao expressar sua individualidade através da poesia, Cruz e Sousa faz da sua subjetividade uma defesa de classe, do coletivo. A referência à África transparece no texto do poeta não apenas como um lugar de origem de seus ancestrais, mas como uma metáfora que simboliza o lugar do negro afro brasileiro que sofre por não ser aceito como homem e como artista.

Artista! pode lá isso ser se tu és d'África, tórrida e bárbara, devorada insaciavelmente pelo deserto, tumultuando de matas bravias, arrastada sangrando no lodo das Civilizações despóticas, torvamente amamentada com o leite amargo e venenoso da Angústia! A África arrebatada nos ciclones torvelinhantes das Impiedades supremas, das Blasfêmias absolutas, gemendo, rugindo, bramando no caos feroz, hórrido, das profundas selvas brutas, a sua formidável Dilaceração humana! A África laocoôntica, alma de trevas e de chamas, fecundada no Sol e na Noite, errantemente tempestuosa como a alma espiritualizada e tantálica da Rússia, gerada no Degredo e na Neve — pólo branco e pólo negro da Dor!

Artista?! Loucura! Loucura! Pode lá isso ser se tu vens dessa longínqua região desolada, lá no fundo exótico dessa África sugestiva, gemente, Criação dolorosa e sanguinolenta de Satãsrebelados, dessa flagelada África, grotesca e triste, melancólica, gênese assombrosa de gemidos, tetricamente fulminada pelo banzo mortal; dessa África dos Suplícios, sobre cuja cabeça nirvanizada pelo desprezo do mundo Deus arrojou toda a peste letal e tenebrosa das maldições eternas! A África virgem, inviolada no Sentimento, avalanche humana amassada com argilas funestas e secretas para fundir a Epopéia suprema da Dor do Futuro, para fecundar talvez os grandes tercetos tremendos de algum novo e majestoso Dante negro! (CRUZ E SOUSA, 1995, p. 389 apud AMANCIO; MIRANDA, SIQUEIRA, 2013, p. 21).

            O lado abolicionista de Cruz e Sousa pode ser visto ainda no livro Tropos e Fantasias (1885) e em outras poesias, como ressalta Oliveira (2016, p. 14): “na prosa poética O Padre e na poesia Crianças Negras (O Livro Derradeiro, 1945-1961) [...] Dor negra (de Evocações, 1898), Consciência Tranquila (inédito, arrolado em Outras evocações), um dos mais violentos textos brasileiros sobre os horrores da escravidão”. Constituem também de feição abolicionista “poemas Na senzalaGrito de guerra, Entre luz e sombra Sete de setembro” (id., ibidem, p. 14). Para encerrar, vejamos aqui um trecho de Da Senzala.

DA SENZALA...

“Cambiantes” em O Livro Derradeiro – Primeiros Escritos

 

De dentro da senzala escura e lamacenta

Aonde o infeliz

De lágrimas em fel, de ódio se alimenta

Tornando meretriz


A alma que ele tinha, ovante, imaculada

Alegre e sem rancor,

Porém que foi aos poucos sendo transformada

Aos vivos do estertor...


De dentro da senzala

Aonde o crime é rei, e a dor – crânios abala

Em ímpeto ferino;


Não pode sair, não,

Um homem de trabalho, um senso, uma razão...

E sim um assassino!

(apud ASSIS; INÁCIO; SANTANA, 2015, p. 35)

 

Referências Bibliográficas

ALSELMI, André Luiz. Revisitando as Evocações, de Cruz e Sousa: um olhar para o poema em prosa. Vocábulo – Revista de Letras e Línguas Midiáticas, vol. V, p. 1-10, 2013. Acesso em 18/09/2018.

ALVES, Uelinton Farias. Cruz e Sousa: Dante Negro do Brasil. Rio de Janeiro: Pallas, 2008.

AMANCIO, Arlete M.; MIRANDA, Joanna S. de; SIQUEIRA, Kárpio M. de. Cruz e Sousa: o negro como sujeito encurralado – um diálogo de resistência em “Emparedado”. Opará - Etnicidades, Movimentos Sociais e Educação, ano 1, vol. 2, p. 10-24, jun./dez. 2013.

ASSIS, Renilton Roberto da S. M. (coord.); INÁCIO, Júlia Farias; SANTANA, Poliana Silva (orgs.). Cruz e Sousa: o poeta da ilha. Florianópolis, FCC, 2015. (Catálogo de Exposição)

BARROS, Alice Vieira. Os obstáculos ao cânone: Cruz e Sousa e a crítica literária do século XIX. Anais da XV ABRALIC, Rio de Janeiro, 7 a 11 de agosto de 2017.

BASTIDE, Roger. Estudos afro-brasileiros. São Paulo: Perspectiva, 1973.

BILAC, Olavo; SOUSA, Cruz e; ANJOS, Augusto dos. Poesia e Poetas do Parnasianismo, Simbolismo e Pré-Modernismo. Manaus: Editora Valer, 2010.

CAPOBIANCO, Juan Marcello. Cruz e Sousa e a poesia do século XX: por dentro do versoSOLETRAS, n. 26, jul./dez., 2013. Acesso em 18/09/2018.

CESCO, Andréa. Cruz e Sousa: emparedado em seu poemaRevista Literatura em Debate, v. 5, n. 9, p. 01-45, ago./dez., 2011. Acesso em 18/09/2018.

COUTINHO, Afrânio (dir.). Coleção Fortuna Crítica 4 – Cruz e Sousa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; MEC/INL, Brasília 1979.

CRUZ E SOUSA, João da. Obra Completa. Organização de Andrade Murici. Rio de Janeiro: Nova Aguiar, 1995.

DE PAULA, Douglas F. Mescla estilística e ambiguidade em Broquéis de Cruz e Sousa. Dissertação (Mestrado em Letras). Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2013.

MOISÉS, Massaud. História da Literatura Brasileira. Realismo e Simbolismo. 5. ed. São Paulo: Cultrix, 2004. Vol. II.

OLIVEIRA, Allyne Fiorentino de. Aspectos do poema em prosa de Cruz e Sousa e Ruben Darío. Dissertação (Mestrado em Estudos Literários). Faculdade de Ciências e Letras, Universidade Estadual Paulista, Campus de Araraquara, Araraquara-SP, 2014.

OLIVEIRA, Elisângela Medeiros de. Cruz e Sousa: literatura e a questão “racial” na poesia simbolista. Trabalho de Conclusão de Curso (Departamento de História). Curso de Especialização em História e Cultura Africana e Afro-Brasileira, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Caicó-RN, 2016.

PEIXOTO, Sérgio Alves. A consciência criadora na poesia brasileira: do Barroco ao Simbolismo. São Paulo: Annablume, 1999.

PIRES, Antônio Donizeti. Imagem e epifania nos poemas em prosa de Cruz e Sousa. Revista Texto Poético, vol. 14, n. 1, p. 84-103, 2013. Acesso em 19/09/2018.

____. Pela volúpia do vago: a contribuição simbolista ao poema em prosa no Brasil e em Portugal. Tese (Doutorado em Letras). Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários, Universidade Estadual Paulista, Campus de Araraquara, Araraquara-SP, 2002.

RIGHI, Volnei José. O poeta emparedado: tragédia social em Cruz e Sousa. Dissertação (Mestrado em Literatura Brasileira). Departamento de Teoria Literária e Literaturas, Universidade de Brasília, Brasília, 2006.

SANTOS, Rita de Cássia S. D. “Visão da morte”: o lirismo noturno de Cruz e SousaRevista Estação Literária, , vol. 12, p. 176-185, jan. 2014. Acesso em 18/09/2018.

SOUSA, Cruz e. Broquéis; Faróis. São Paulo: Martin Claret, 2002.

A Política e suas Interfaces → Arte e Política → Poesia e Política  → Cruz e Sousa: O Dante Negro da Poesia Brasileira



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terça-feira, 18 de maio de 2021

 

EM DIA COM O MACHADO Nº 471:

Marx, Espiritismo e Cristianismo (Jó)

jojorgleite@gmail.com

 



             Salve, leitores amigos!

            Neste tempo de pandemia, como jamais ocorreu, as ideias cristãs espíritas vêm-se expandindo mundo afora. Então, creio que chegou a hora de esclarecer certos equívocos cometidos por espíritas bem-intencionados, mas influenciados por ideologias aprendidas nos meios acadêmicos ou mesmo por autodidatas.

            Como as ideias marxistas têm sido apoiadas por alguns adeptos espíritas que se autodenominam "espíritas progressistas" e outros inovadores, certamente bem-intencionados, creio que seria bom conhecermos o pensamento de Marx sobre a Doutrina Espírita.  Segundo João Alberto Vendrani Donha, estão no Facebook "Imagens e registros históricos do Espiritismo" e "Allan Kardec.online", dos pesquisadores Carlos Seth Bastos e Adair Ribeiro, informações de algumas cartas de Karl Marx enviadas a Maurice Lachâtre, em 11 de fevereiro de 1873, com o conteúdo abaixo:

Quanto à sua última obra, não posso julgá-la, porque dela só tive um primeiro contato. Mas ela está infestada, como o Socialismo francês, de sua época, de sentimentalismo. Ela mistura isso ao Espiritismo que eu detesto (DONHA. Marx e o Espiritismo. In: Blog do Bruno Tavares, de 23 nov. 2020).

        As informações de Donha são bem mais profundas do que o abordado aqui, e recomendo sua leitura no blog citado. Na França da época, socialistas e espíritas tinham pontos em comum. Alguns Espíritos expressam ideias de justiça social, no que têm de afinidade com o Cristianismo, como Lammenais, Charles Fourier, Eugene Sue e Jean Reynaud. Essas entidades transmitiram mensagens citadas por Kardec na Revista Espírita. No século XIX, diversas pessoas espíritas simpatizavam com o Socialismo francês, chamado "Socialismo utópico", rejeitado por Marx. Uma delas foi Léon Denis, autor da obra Cristianismo e Espiritismo. Mas entre o Socialismo francês e o pregado por Marx há grande diferença. O primeiro é espiritualista; o segundo, materialista.

            O articulista do texto, a nosso ver bem documentado, explica-nos ainda que:

Além de Marx, seu parceiro Engels também hostiliza o Espiritismo. Com mais acidez ainda. Em sua "Dialética da Natureza", no último capítulo, depois de discorrer sobre o que considera a inutilidade da pesquisa psíquica, chega a dizer, citando Huxley, que o Espiritismo é o maior antídoto contra o suicídio, porque o sujeito vai preferir varrer a gare da estação a morrer e ser condenado a dar consultas a um xelim a hora por uma médium.

        Ao contrário do que muitos religiosos cristãos pregam, o Espiritismo não rejeita a revelação bíblica. Kardec demonstra, mesmo, no capítulo primeiro d'O Evangelho Segundo o Espiritismo, que Deus enviou à humanidade três revelações: a primeira está simbolizada em Moisés, o que não exclui tudo o que nos é revelado no Antigo Testamento; embora Jesus, o portador da segunda revelação, tenha dito que "A lei e os profetas duraram até João [...]" (Lucas, 16:16); e o Espiritismo, que não é obra de uma cabeça e, sim, dos Espíritos, sob a coordenação e supervisão do Cristo, é mais cristão do que muitos dos que comercializam a religião, pois sua máxima é a caridade como principal virtude a ser observada por todos nós, a quem o próprio Cristo chamou de irmãos e filhos de Deus.

         Quanto às ideias de Marx, são contrárias à religião, e nelas predomina a concepção ateia e materialista, defendida por ele, Engels e seus seguidores. Não há, portanto, a nosso ver, compatibilidade entre o Espiritismo e o Materialismo marxista, desde suas origens. O primeiro, revelação divina; o segundo, concepção humana que, seguida à risca, leva à destruição da sociedade.

        Lamentavelmente, porém, diz Allan Kardec que o Espiritismo tem entre os seus inimigos, além dos materialistas, os próprios religiosos contrários às suas ideias, que não se fundam em teorias humanas, mas na revelação dos Espíritos emissários do Cristo.

           Segundo afirmam alguns estudiosos das religiões cristãs, entre outras infâmias, foram os adeptos do Espiritismo que adotaram o Cristianismo como crença para escaparem das perseguições da Igreja. Puro desconhecimento do que seja o Espiritismo, ou má-fé. Todos eles são refutados pela Doutrina Espírita, que nos esclarece ter sido o próprio Cristo que a prometera aos seus apóstolos e, simbolicamente, à humanidade, como lemos nos capítulos 14 e 16 do Evangelho escrito por João. E, no capítulo sexto d'O Evangelho Segundo o Espiritismo, é ele mesmo, Jesus que, por meio de seu emissário espiritual, O Espírito de Verdade, nos confirma essa condição em quatro mensagens.

domingo, 16 de maio de 2021

 O Céu e o Inferno

Allan Kardec

Parte 3

 Por: Astolfo Olegário de Oliveira Filho 


Continuamos o estudo metódico do livro “O Céu e o Inferno ou A Justiça Divina segundo o Espiritismo”, de Allan Kardec, com base na 1ª edição da tradução de João Teixeira de Paula publicada pela Lake.

Caso o leitor queira ter em mãos o texto consolidado dos estudos relativos à presente obra, para acompanhar, pari passu, o presente estudo, basta clicar em http://www.oconsolador.com.br/linkfixo/estudosespiritas/principal.html#ALLAN e, em seguida, no verbete "O Céu e o Inferno”.

Eis as questões de hoje:

 

17. Quando surgiu o purgatório na teologia católica e o que ele compreende exatamente? 

O purgatório foi admitido pela Igreja no ano de 593. Trata-se de um dogma mais racional e mais conforme com a justiça de Deus que o inferno, porque estabelece penas menos rigorosas e resgatáveis para as faltas de gravidade mediana. Na concepção católica, o purgatório seria um inferno menos tenebroso, visto que as almas aí também ardem, embora em fogo mais brando. As almas do purgatório não se livram dele por efeito do seu adiantamento, mas em virtude das preces que se dizem ou que se mandam dizer em sua intenção, do que se originaram muitos abusos, visto que as preces pagas transformaram o purgatório em mina mais rendosa que o inferno. Como sabemos, o purgatório deu origem ao comércio escandaloso das indulgências, por intermédio das quais se vende a entrada para o céu. Esse abuso foi a causa primária da Reforma, o que levou Lutero a rejeitá-lo. (O Céu e o Inferno, Primeira Parte, cap. V, itens 1 a 3.)

18. Qual é a causa das misérias terrenas, segundo o Espiritismo?

As misérias terrenas decorrem necessariamente das imperfeições da alma, pois se esta fosse perfeita não cometeria faltas nem teria de sofrer-lhes as consequências. O homem que na Terra fosse em absoluto sóbrio e moderado, por exemplo, não padeceria enfermidades oriundas de excessos. O mais das vezes ele é desgraçado por sua própria culpa; contudo, se é imperfeito, é porque já o era antes de vir à Terra, expiando não somente faltas atuais, mas faltas anteriores não resgatadas. Repara, então, em uma vida de provações o que a outrem fez sofrer em anterior existência. As vicissitudes que experimenta são, por sua vez, uma correção temporária e uma advertência quanto às imperfeições que lhe cumpre eliminar de si, a fim de evitar outros males e progredir para o bem. (Obra citada, Primeira Parte, cap. V, itens 3 e 4.)

19. A duração da expiação do Espírito culpado é eterna?

Não. O prazo da expiação está subordinado ao melhoramento do culpado. O Espiritismo não nega, antes confirma, a penalidade futura. O que ele destrói é o inferno localizado com suas fornalhas e penas irremissíveis. Seja qual for a duração do castigo, na vida espiritual ou na Terra, onde quer que se verifique, ela tem sempre um termo, próximo ou remoto. (Obra citada, Primeira Parte, cap. V, itens 7 e 8.)

20. O Espiritismo nega a existência do purgatório?

Não o nega, e diz mais: que nele nos achamos, pois é em um planeta como a Terra – de provas e expiações – que expiamos os equívocos, os erros e os males que cometemos. Segundo o Espiritismo, não há para o Espírito mais que duas alternativas, a saber: punição temporária e proporcional à culpa, e recompensa graduada segundo o mérito. Repele o Espiritismo a terceira alternativa: a eterna condenação. A palavra purgatório sugere a ideia de um lugar circunscrito: eis por que mais naturalmente se aplica à Terra do que ao Espaço infinito onde erram os Espíritos sofredores, e tanto mais quanto a natureza da expiação terrena tem os caracteres da verdadeira expiação.  (Obra citada, Primeira Parte, cap. V, itens 8 a 10.)

21. De onde se originou a crença na eternidade das penas futuras? 

Quanto mais próximo do estado primitivo, mais material é o homem e isso tem influência na sua concepção a respeito do Criador. Um Deus manso e cordato não poderia ser Deus, porque sem meios com que se fazer obedecer. A vingança implacável e os castigos terríveis e eternos nada tinham, pois, de incompatível com a ideia que se fazia de Deus e não lhes repugnavam à razão. Ora, como eram pessoas implacáveis nos seus ressentimentos, cruéis para com os inimigos e inexoráveis para os vencidos, Deus, que lhes era superior, deveria ser ainda mais terrível.

Para tais homens eram, pois, necessárias crenças religiosas assimiladas à sua natureza rústica, uma vez que uma religião toda espiritual, toda amor e caridade, não poderia aliar-se à brutalidade de seus costumes e paixões. Não devemos, assim, censurar Moisés e sua legislação draconiana, nem o fato de nos ter apresentado um Deus vingativo, visto que a época assim o exigia. A crença na eternidade das penas foi, em face disso, mera consequência das condições em que tal doutrina passou a ser ensinada. (Obra citada, Primeira Parte, cap. VI, itens 2, 3 e 20.)

22. Qual o principal argumento dos que defendem o dogma das penas eternas e como o Espiritismo o refuta? 

O principal argumento invocado em seu favor: "É doutrina sancionada entre os homens que a gravidade da ofensa é proporcionada à qualidade do ofendido. O crime de lesa-majestade, por exemplo, o atentado à pessoa de um soberano, sendo considerado mais grave do que o fora em relação a qualquer súdito, é, por isso mesmo, mais severamente punido. E sendo Deus muito mais que um soberano, pois é infinito, deve ser infinita a ofensa a Ele, como infinito o respectivo castigo, isto é, eterno”.

A refutação a tal argumento baseia-se nos próprios atributos de Deus: eterno, imutável, imaterial, onipotente, soberanamente justo e bom, infinito em todas as perfeições. Ora, um ser infinitamente bom e justo não pode ter a menor parcela de maldade. Admitindo-se que uma ofensa temporária à Divindade pudesse ser infinita, Deus, vingando-se por um castigo infinito, seria logo infinitamente vingativo; e sendo Deus infinitamente vingativo não pode ser infinitamente bom e misericordioso, visto como um destes atributos exclui o outro. Se não for infinitamente bom não é perfeito; e não sendo perfeito deixa de ser Deus. Se Deus é inexorável para o culpado que se arrepende, não é misericordioso; e se não é misericordioso, deixa de ser infinitamente bom.

E por que daria Deus aos homens uma lei de perdão, se Ele próprio não perdoasse? Resultaria daí que o homem que perdoa aos seus inimigos e lhes retribui o mal com o bem seria melhor que Deus, surdo ao arrependimento dos que o ofendem, negando-lhes por todo o sempre o mais ligeiro carinho. (Obra citada, Primeira Parte, cap. VI, itens 10, 12, 15, 16 e 17.)

23. Se o Espírito pode progredir, o progresso é lei natural. O dogma da eternidade das penas é compatível com a lei do progresso? 

Não. O dogma da eternidade das penas é irracional e incompatível com a lei do progresso. (Obra citada, Primeira Parte, cap. VI, itens 17, 18 e 19.)

24. A carne é fraca, ou a alma é que é fraca? 

A expressão a carne é fraca diz respeito à fragilidade dos homens, isto é, aos Espíritos quando encarnados, sujeitos a todas as influências possíveis, sob as quais muitos sucumbem. A carne só é fraca porque o Espírito é fraco, o que inverte a questão, visto que deixa ao ser pensante, e não ao seu envoltório físico, a responsabilidade por todos os seus atos. A carne, destituída de pensamento e vontade, não pode prevalecer jamais sobre o Espírito, que é o ser que pensa e obra. (Obra citada, Primeira Parte, cap. VII, parte inicial.)

 

 

Publicado também, às quintas-feiras, em: https://espiritismo-seculoxxi.blogspot.com/2021/04/blog-post_08.html


sábado, 15 de maio de 2021

 


O maior mandamento

 

Mas os fariseus, tendo sabido que Jesus tinha calado a boca aos saduceus, se reuniram. E um deles, que era doutor da lei, para o tentar, propôs-lhe esta questão: Mestre, qual é o grande mandamento da lei? Jesus lhe respondeu: Ame o Senhor seu Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todo o seu entendimento. Esse é o maior e primeiro mandamento. Eis aqui o segundo, semelhante a esse: Ame o seu próximo como a si mesmo. Esses dois mandamentos contêm toda a lei e os profetas (Mateus, 22:34-40).

        Caridade e humildade, tal é a única via de salvação; egoísmo e orgulho, tal é a via da perdição. Esse princípio é formulado em termos precisos nestas palavras: "Ame a Deus de toda a sua alma, e a seu próximo como a si mesmo; esses dois mandamentos contêm toda a Lei e os profetas". E para que não houvesse equívoco na interpretação do amor a Deus e ao próximo, acrescenta: "Eis aqui o segundo, semelhante ao primeiro", ou seja, que não se pode verdadeiramente amar a Deus sem amar o próximo, nem amar o próximo sem amar a Deus; pois tudo quanto se faz contra o próximo é contra Deus que se faz. Não se podendo amar a Deus sem praticar a caridade para com o próximo, todos os deveres do homem se encontram resumidos nesta máxima: Fora da caridade não há salvação.

 Necessidade da caridade segundo Paulo

 Ainda eu falasse as línguas dos homens e mesmo a língua dos anjos, se não tiver caridade, sou como o bronze que soa, ou como o sino que tine. E ainda que eu tivesse o dom de profecia, que penetrasse todos os mistérios e tivesse perfeita ciência de todas as coisas; ainda que tivesse a fé possível,  a ponto de transportar montanhas, se não tiver caridade, nada sou. E mesmo que houvesse distribuído os meus bens para alimentar os pobres, e se entregasse meu próprio corpo para ser queimado, se não tivesse caridade, nada disto me serviria.

A caridade é paciente, é branda e benfazeja; a caridade não é invejosa, não é temerária nem precipitada, não se enche de orgulho, não é desdenhosa, não busca os seus próprios interesses, não se agasta, nem se azeda com coisa alguma, não suspeita mal, não se rejubila com a injustiça, mas se rejubila com a verdade. Ela tudo suporta, tudo crê, tudo espera, tudo sofre.

Agora, permanecem estas três virtudes: a fé, a esperança e a caridade, mas dentre elas a mais excelente é a caridade (Paulo, I Coríntios, 13:1-7; 13).

         Paulo compreendeu de tal modo essa grande verdade, que disse: "Ainda que eu tenha a linguagem dos anjos, que eu tenha o dom de profecia, que penetre todos os mistérios, que tenha toda a fé possível,  a ponto de transportar montanhas, se não tiver caridade, nada sou. Dentre estas três virtudes: a fé, a esperança e a caridade, a mais excelente é a caridade". Coloca, assim, sem equívoco, a caridade acima mesmo da própria fé. É que a caridade está ao alcance de todo o mundo: do ignorante e do sábio, do rico e do pobre; e porque independe de qualquer crença particular. Ele faz mais: define a verdadeira caridade; mostra-a, não somente na beneficência, mas na reunião de todas as qualidades do coração, na bondade e na benevolência para com o próximo.

 

quinta-feira, 13 de maio de 2021

 

Martin Luther King Jr.: sonho e pesadelo na luta pelos direitos civis

Martin Luther King Jr.: sonho e pesadelo na luta pelos direitos civis

por Alexsandro M. Medeiros

lattes.cnpq.br/6947356140810110

postado em mar. 2018

            Martin Luther King (1929-1968) foi o filho primogênito de uma família de negros norte-americanos do Estado da Georgia: “de elevada educação, profundamente religioso, de personalidade ousada, e dramaturgo excepcionalmente dotado” (ALEXANDER, 2017, p. 215), “pastor evangélico [...] Prêmio Nobel da Paz, discípulo de Gandhi, líder anti-segregacionista [...] apóstolo da não violência” (BOERI, 2001, p. 52) e uma das mais importantes figuras norte americanas do século XX (BRANCH, 1988).

            Aos 19 anos seguiu os mesmos passos que seu pai e se tornou pastor batista, formando-se mais tarde em teologia no Seminário de Crozer. Com 25 anos tornou-se pastor da igreja batista de Montgomery e foi onde iniciou a luta pelos direitos civis nos Estados Unidos. Três anos depois se tornou líder de um movimento que tinha como objetivo acabar com as leis de segregação por meio de manifestações e boicotes pacíficos através da  Conferência da Liderança Cristã no Sul (SCLC): uma organização de igrejas e sacerdotes negros.

            Em seus estudos inspirou-se nas ideias de Mahatma Gandhi, principalmente por causa de seu ativismo não violento e foi até a Índia em 1959 para conhecer as formas de protesto pacífico de Gandhi. Outra fonte inspiradora sobre Luther King foi a obra A Desobediência Civil, de Henry D. Thoreau (1817-1862). A partir das influências de Gandhi e Thoreau, King se tornou um

desobediente que utilizou formas de atuação não violentas para tentar combater a hostilidade existente entre duas comunidades que formavam parte da mesma unidade política [...] O reverendo Martin Luther King, foi uh dos dirigentes do movimento a favor dos direitos civis da população negra americana durante os anos cinqüenta e sessenta (ARAÚJO, p. 17 apud BOERI, 2001, p. 51).

            Não podemos deixar de levar em consideração que, como pastor evangélico, Luther King era um homem temente a Deus e foi a sua crença na verdade dos ensinamentos de Cristo que o levaram adiante em sua luta em favor dos direitos civis.

            Mesmo preso, Luther King jamais deixou de levar em consideração a influência inspiradora de Ghandi e do Evangelho. Foi assim quando escreveu uma das inúmeras cartas endereçadas aos seus companheiros de Ministério, a Carta da prisão de Birminghan, escrita em 1963: “Logo no início de sua carta ele chama a atenção de todos para o perigo da prática da injustiça, eis que esta pode pôr em risco toda uma sociedade, ao mesmo tempo em que destaca a importância da luta não violenta, obedecendo princípios, regras e organização” (BOERI, 2001, p. 56).

Disponível em: Missio Alliance (Acesso em 06/03/2018)

            É também graças a esta Carta que conhecemos  a convicção de Luther King:

sobre “a interrelação existente entre todas as comunidades” e a força de sua crença que “nos encontramos presos nas ineludíveis de reciprocidade, unidos à mesmo carruagem do destino” (King, 1968). Desde 1957 King havia iniciado a expressar sua visão da “comunidade amada” unida pela boa vontade e compreensão mútua (VOPARIL, 2013, p. 97 – tradução nossa)

            Essa concepção de comunidade amada, de raízes cristãs, consiste em “um esforço para reconstruir – ou criar em primeiro lugar – um forte sentido de comunidade capaz de sustentar e empoderar um povo subjugado” (VOPARIL, 2103, p. 97 – tradução nossa).

            A ética cristã, fundada na justiça e no amor, como uma força para fomentar a mudança social.

“o amor cristão, funcionando como o método gandhiano da não violência, foi uma das armas mais potentes disponíveis para os negros em sua luta pela liberdade” (King, 1991: 16). Em sua visão, ágape se entende como “o amor em ação [...] o amor que buscar preservar e criar comunidade” (King, 1991: 20) (apud VOPARIL, 2013, p. 98).

 

A luta por direitos civis nos Estados Unidos

            A existência da discriminação racial nos Estados Unidos  foi algo bastante acentuado. Dentre as principais conquistas do movimento afro-americano pelos direitos civis nos anos 1950-1960, Andrews (1985, p. 52) destaca a superação da segregação, o sufrágio estendido aos negros através  do Ato dos Direitos de Voto de 1965, além de programas do governo federal norte americano para promover a igualdade de oportunidades e ações afirmativas para combater o racismo. “Em 1964 e 1965, o Congresso, atuando na esteira do assassinato de JFK, aboliu as leis de segregação e aprovou legislação que assegurava aos negros direitos civis e políticos” (ALEXANDER, 2017, p 218).

Os avanços políticos dos negros continuaram nos anos 70, mas principalmente nos níveis locais e estaduais. Afro-americanos foram eleitos para câmaras municipais e legislativos estaduais em crescente número, e muitas cidades e comarcas americanas (incluindo Los Angeles, Chicago, Detroit, Washington, Filadélfia, para nomear algumas) são governadas por prefeitos negros (ANDREWS, 1985, p. 52).

            Martin Luther King se notabilizou precisamente pelo seu engajamento político e defesa dos direitos civis da população negra norte americana, promovendo uma nova vivência da fé religiosa mesclada com a solidariedade cívica. Há que se considerar, todavia, que a ampla maioria dos pastores negros não participou dessa luta e militância. Paiva (2010, p. 124) chega a mensurar “que somente 14 das mais de 400 igrejas negras de Birmingham eram anfitriãs das reuniões do movimento [dos Direitos Civis]”. Esses poucos pastores negros do Sul dos Estados Unidos, dentre os quais Luther King, amparados pelos valores cristãos, defendiam valores como justiça, igualdade, liberdade.

Nessa ação cristã, o amor cristão era necessariamente acompanhado por um desejo de justiça. É o que propunha King no seu primeiro discurso em 1955: “Vamos ser cristãos em todas nossas ações. (Está bem) Mas eu quero dizer a vocês esta noite que não é suficiente falar sobre amor. O amor é um dos pontos primordiais da fé cristã. Há um outro lado chamado justiça. E a justiça é realmente o amor vivenciado. (É certo) A justiça é o amor corrigindo tudo aquilo que revolta contra o amor” (PAIVA, 2010, p. 125-126).

            Em Luther King se mesclavam o homem religioso e o militante dos direitos civis, em que o amor se torna capaz de levar à solidariedade social e à virtude política, em uma combinação harmoniosa entre religião e política. O amor entendido como ação e comunhão com a comunidade, como cimento que pode unir a comunidade, lutar contra as injustiças e prover as necessidades  de seus irmãos espirituais.

            E não podemos esquecer que foi em outro homem profundamente religioso que Luther King buscou inspiração para criar uma método de luta. Esse método foi o da não violência, preconizado por Mahatma Gandhi.

Disponível em: The Sun. Acesso em 06/03/2018

Aplicando o método da não violência, Luther King liderou em 1963 “A Marcha para Washington” um protesto pelos direitos civis que contou com a participação de mais de 200.000 pessoas que se manifestaram em prol dos direitos civis de todos os cidadãos dos Estados Unidos.

            Foi nessa passeata histórica onde proferiu seu famoso discurso “I have a dream” (Eu tenho um sonho). Eis um trecho do seu pronunciamento:

O caminho está cheio de asperezas, mas não obstante fadigas e humilhações, eu tenho ainda um sonho(..) Sonho que sobre as colinas vermelhas da Geórgia, os filhos de antigos escravos e os filhos dos escravizadores possam sentar-se juntos à mesa da fraternidade. Sonho que o Estado do Mississipi, repleto de opressão e brutalidade, seja transformado numa terra de liberdade e justiça. Sonho que um dia o Alabama se transforme num Estado onde às crianças negras possam dar as mãos as crianças brancas e andar juntas como irmãos e irmãs. Eu tenho ainda um sonho(..) Com esta fé eu volto para o Sul. Com esta fé, arrancaremos da montanha da angústia um pedaço de esperança. Com esta fé poderemos trabalhar juntos, orar juntos, ir juntos à prisão, certos de que um dia seremos livres (apud BOERI, 2001, p. 54).

            Neste mesmo discurso, Luther King fala da urgência do momento e ressalta uma vez mais o método da não violência

Disponível em: VOA News. Acesso em 06/03/2018

Seria fatal para a nação desconsiderar a urgência do momento e subestimar a determinação do negro (...). Não haverá nem paz nem tranquilidade até que aos negros lhes sejam dados os seus direitos de cidadania [...] “Não podemos permitir que nosso protesto criativo degenere em violência física. A cada momento, precisamos alçar às alturas majestosas para defrontar a força física com a força da alma (...) (apud PAIVA, 2010, p. 138)

            Foi na sua luta pelos direitos civis que Luther King se viu diante da necessidade da desobediência civil, ou seja, lutar contra as injustiças significava ter que desobedecer leis injustas. A sua forma de luta é um exemplo claro de desobediência civil, todavia, uma desobediência que não faz uso da violência, mas que é pacífica, não violenta. Luther King lutou pelos direitos civis por considerar que as leis segregacionistas eram injustas e diante de uma lei injusta, acreditava ele, era necessário se pôr em luta.

            Um ano depois, aos 35 anos, foi premiado com o Nobel da Paz, o mais jovem até então a ser agraciado com o prêmio. “O telegrama que comunicava que o prêmio havia sido concedido dizia assim: ‘O Prêmio Nobel da Paz de 1964 foi concedido a Martin Luther King, por ter firme e continuamente sustentado o princípio da não-violência na luta racial no seu país e no mundo’” (BOERI, 2001, p. 52-53).

          Em 4 de abril de 1968, Luther King Jr, com apenas 39 anos,. foi assassinado com um tiro na sacada do seu aposento, no Lorraine Motel, em Memphis, Tennessee, EUA, onde estava hospedado.

Referências

ALEXANDER, Jeffrey C. A tomada do palco: performances sociais de Mao Tsé-Tung a Martin Luther King, e a Black Lives Matter hojeSociologias, Porto Alegre, ano 19, no 44, p. 198-246, jan/abr 2017.

ANDREWS, George Reid. O negro no brasil e nos estados unidosLua Nova: Revista de Cultura e Política, v. 2, n. 1, p. 52-56, jun. 1985. Acesso em 06/03/2018

BOERI, Hélio A. A. Desobediência Civil: um estudo da resistência como ato ao direito de cidadania. Dissertação (Mestrado em Direito). Programa de Pós-Graduação em Direito. Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis, 2001.

BRANCH, T. Parting the Waters: America in the King Years, 1954-63. New York: Simon and Schuster, 1988.

KING JÚNIOR, Martin Luther, Jr. A Testament of Hope: The Essential Writings and Speeches of Martin Luther King, JrNew York: HarperCollins, 1991.

____. Carta desde la Cárcel de Birmingham. In: Antología de Martin Luther KingMéxico: D.F., pp. 3-28, 1968.

PAIVA, Angela Randolpho. Novos valores religiosos: referência para o exercício da cidadania. In: ____. Católico, protestante, cidadão: uma comparação entre Brasil e Estados Unidos [online]. Rio de Janeiro: Centro Edelstein de Pesquisas Sociais, 2010, p. 124-146. Acesso em 08/03/2018.

VOPARIL, Christopher J. Religión y lucha por la justicia social en el pensamiento político estadounidense: Richard Rorty, John Rawls, y Martin Luther King, Jr. Análisis político, Bogotá, n. 79, p. 93-102, sep./dic., 2013. Acesso em 08/03/2018.

Espiritualidade e Política → Martin Luther King Jr.: sonho e pesadelo na luta pelos direitos civis



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terça-feira, 11 de maio de 2021

 

EM DIA COM O MACHADO 470

Desencarnando antes do tempo (Jó)

 


        Salve, amigos!

        Nesta época de pandemia, muitas pessoas estão desencarnando antes do tempo. Duvidam?

        Maricota, por exemplo, estava com 50 anos de idade. Foi programado, antes de seu renascimento, nova existência, no corpo físico, até seus 80 anos; entretanto, meses após o surgimento da pandemia do coronavírus, por morar em casa espaçosa, promoveu festas com amigos e familiares sem quaisquer cuidados higiênicos. Resultado, contraiu o vírus e, em poucos dias, veio a óbito.

        João das Couves, contrariando decreto do governo para o uso de máscaras e álcool a 70%, em contato com o público, não usava máscara em seu comércio de água de coco. Resultado, um cliente espirrou próximo ao seu rosto, quando acabara de fazer sua compra, e João adoeceu, falecendo após um mês de entubado. Se se cuidasse, viveria mais trinta anos.

        Os jovens Cássio e sua irmã Catilanga, com 20 e 21 anos, respectivamente, tanto participaram de baladas ao vivo, contrariando decreto da prefeitura local, que faleceram após três meses de internação hospitalar. No entanto, se não se expusessem desse modo, ainda viveriam mais 60 a 70 anos.

        Há casos, entretanto, em que outras são as causas da desencarnação. É o que lemos na obra de autoria do Espírito Manoel Philomeno de Miranda, psicografada por Divaldo Pereira Franco, que fez 94 anos de proveitosa existência no dia 5 do mês corrente. Cita Miranda, na obra intitulada Entre dois Mundos, que D. Lucinda, segundo lhe informou o Espírito José Petitinga, teve desencarnação antecipada por decisão dos benfeitores espirituais. Ante a estranheza do amigo Miranda, Petitinga esclareceu-lhe:

 

É natural que produza estranheza, quando se acom­panha um processo desencarnatório promovido pelos espí­ritos-guias. Isso, porém, não constitui exceção. Há maior número de processos libertadores provocados pelos anjos da guarda do que se tem notícia na Terra. O amor não é co­nivente com o erro. Diante de determinadas situações graves, quando podem esfacelar-se labores cuidadosamente traba­lhados ou periclitam decisões importantes, como resultado das torpezas humanas, a interferência dos programadores da reencarnação, interrompendo-a, torna-se necessária, a fim de serem recambiados ao lar aqueles que antes foram conduzidos ao processo experimental (op. cit., cap. 10: Discussões oportunas sobra a desencarnação).

 

         Mais adiante, Petitinga continua suas importantes informações, que nos servem de alerta em relação aos nossos pensamentos negativos:

 

Não é raro notar-se, em verdadeiros apóstolos do amor e da caridade, reações humanas desconcertantes, quais o ciúme, a mágoa, quando não acolhidos ou desafiados por ou­trem, que não concorda com as suas ideias, ou se ressentem com outros que lhes parecem competidores (op. cit., loc. cit.).

 

        O Espírito Germano, compartilhando do diálogo, cita um dos inúmeros casos em que a Espiritualidade superior interfere no retorno ao mundo espiritual de alguém que já possua grandes méritos. Diz Germano que um missionário do amor e do conhecimento retornou à espiritualidade quando já desempenhara grande parte da missão que lhe fora atribuída antes de sua reencarnação cujos resultados em benefício da sociedade humana já se faziam presentes. Eis a história:

       

Desincumbia-se muito bem do compromisso, arrostando todas as consequências da sua decisão de ser fiel ao dever assumido. O orgulho não o perturbara, nem as calúnias o desanimaram. O veneno do ódio não encontrou campo para instalar-se-lhe na mente nem no sentimento nobre. As perseguições tornaram-se-lhe estímulo para o prosse­guimento. No entanto, quando percebeu a proximidade da morte, pôs-se a elaborar projetos e diretrizes que, não obstante fossem muito importantes, poderiam desvirtuar o conjunto do trabalho, que sempre acompanha a marcha do progresso, não devendo ficar atado a programas estatutários rígidos. Em cada época o processo da evolução faculta as atribuições compatíveis para o desenvolvimento dos ideais, que devem permanecer abertos às naturais contribuições da cultura e da experiência. Porque o risco de mudança de diretriz viesse ocorrer, abrindo espaço para novas surtidas na obra que não era dele, para o seu e o bem do trabalho, foram tomadas providências em altas esferas, a fim de que retornasse antes do tempo, sem qualquer prejuízo para o ministério concluído com grande êxito (op. cit., loc. cit.).

 

         Isso me faz refletir sobre a pergunta de Allan Kardec, contida n'O Livro dos Espíritos, número 459:

"Os Espíritos influem em nossos pensamentos e em nossos atos?

Muito mais do que imaginais, pois frequentemente são eles que vos dirigem".

         Vivemos entre dois mundos: o espiritual e o físico. Mas se, como também os Espíritos nos informam, o mundo espiritual preexiste ao físico, é neste que realizamos, como estagiários, a maior parte de nossos esforços evolutivos, em busca da perfeição. Desse modo, deixo aos amigos leitores um último conselho, para que não desencarnem antes do tempo: Cuidem-se!

  Rumo à perfeição   Em nossa luta contra o mal em nós, O mal que não queremos sobreleva Por nossa imersão em densa treva Desde o tempo de n...