terça-feira, 14 de janeiro de 2020




EM DIA COM O MACHADO 402
ser e não parecer (Jó)

To be or not to be” é a famosa frase de Hamlet, personagem do imortal dramaturgo inglês Shakespeare, do século XVII. E é com ela que inicio esta crônica, propondo-lhe nova versão: em vez de “ser ou não ser”, ser e não parecer.
         Aliás, esse é o título de um dos excelentes temas da obra de Vinícius, pseudônimo do escritor espírita Pedro de Camargo, que nasceu em Piracicaba, São Paulo, no dia 7 de maio de 1878, e desencarnou na capital paulista, em 11 de outubro de 1966, ou seja, aos 88 anos de idade. Parece que Deus prioriza longa vida às pessoas boas, que semeiam e, sobretudo, praticam o bem enquanto prisioneiras da carne.
         Às más também... mas ao passo que estas se remoem no remorso, enquanto não vem o arrependimento de suas ações nefastas; aquelas estão sempre em paz com Deus, que mora em nossas consciências, além de desfrutarem da felicidade dos justos...
         Não é nosso objetivo escrever sobre a longa trajetória de vida cristã de Pedro de Camargo, que fundou centro espírita, presidiu a Sociedade de Cultura Artística e divulgou pelo rádio, desde 1949, um programa evangélico-espírita. Também não vamos nos deter demasiado sobre sua condição de orador espírita altamente apreciado e de escritor de diversas outras obras e artigos espíritas publicados em Reformador, periódico mensal da Federação Espírita Brasileira.
O que nos motiva a redigir este texto são as frases que lemos, hoje, e nos fizeram refletir, mais uma vez, na importância de nosso esforço cotidiano em ser, e não em parecer, cada vez melhor.
         Uns versos de Carlos Drummond de Andrade que nunca nos esqueceram são estes: “Lutar com as palavras é a luta mais vã; entanto lutamos, mal rompe a manhã”. Também poderíamos parodiar o poeta que se intitulava gauche, por recomendação de “um anjo torto” nestas suas palavras: “Quando nasci, um anjo torto me disse: - Vai, Carlos, ser gauche na vida”. A paráfrase não é desta frase, e sim dos versos drummondianos supracitados:

Lutar contra o mal
Das mentes malvadas
São lutas mui duras;

Entanto, lutemos,
Rompendo alvoradas
E noites escuras.

         Agora as três frases de Vinícius:

Se observarmos atentamente o que se passa na sociedade, verificaremos que tudo se faz, não no sentido de ser, mas no de parecer. 
Realmente, quando se trata de qualidades e virtudes, é muito mais fácil simulá-las que as adquirir. O resultado, porém, é que não é o mesmo.
Daí o transformarem a religião em acervos de dogmas abstrusos e numa série de determinadas cerimônias que se executam maquinalmente; a eugenia, em arte dos arrebiques; o civismo, em toques de caixa e de cornetas, executados por indivíduos trajando uniformes; o patriotismo, em discursos ocos e plataformas pejadas de falazes promessas, formuladas já com o propósito de não se cumprirem; a política, finalmente, em processo de explorar o povo.[1]

         Sábias palavras para todos nós. Infelizmente, algumas pessoas farão delas um chicote para açoitar o que consideram imperfeições alheias, sem, entretanto, se corrigirem de suas próprias fraquezas. Outras, sedentas de poder, mas hipócritas, pregarão ao próximo essas e outras frases, ansiosas para que creiam em sua fala; entretanto, para elas mesmas, as advertências soarão como o bronze que soa, ou como o vento que sopra...
         Aos que nos esforçamos em seguir, como Pedro de Camargo, “Nas pegadas do Mestre”, sua constatação é mais um incentivo para que continuemos nos esforçando em ser  fiéis discípulos de Jesus até o fim, sem outro propósito, a não ser o de sermos coerentes com o que pensamos, falamos e fazemos de bom, verdadeiro e útil.


[1] VINÍCIUS. Nas Pegadas do Mestre. 12. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2009, p. 71.

terça-feira, 7 de janeiro de 2020




EM DIA COM O MACHADO 401:
falando sério de Brasília (jó)


Quando cai a chuva em Brasília, tudo o que era seco enverdece. As aves piam agitadas, e a secura desaparece. O Lago Paranoá cresce, e quem não jaz morto aparece. Aqui nada morre, hiberna. Mesmo caindo poucas chuvas, as barragens d’água hodiernas fertilizam maçãs e uvas. Temos manga, jaca, abacate, tudo ao alcance de quem cate...
As quadras são cheias de frutos, os parques se enchem de gente. Até mesmo antes do nascente, néscios caminham com argutos. E o clima é tão seco, meu cara, que rivaliza com o Saara.  
Aqui também há vida e fé. Nas bancas não há só jornais, há água de coco e café.
Há desfiles de carnavais de várias escolas de samba e blocos tradicionais. A escola de samba ARUC é a campeã do Cruzeiro, mas também brilha a Asa Norte, com tabaques e com pandeiros. Temos também noventa blocos, dos quais citarei quatro ou três: Babydoll de Nylon é um; outro é o bloco de Samambaia, e, para o bom do português, o Beija Me Beija é o da vez...
         Soube, hoje, pelo Jornal, para gáudio de ator e atriz, que no Teatro Nacional estará Machado de Assis. Como autor de peças teatrais, de alvos certeiros em crônicas, esse Bruxo do Cosme Velho volta com mil verves irônicas.
Quase em frente de cada quadra, temos também academia. Então, meu caro e bom leitor, nada melhor do que a ironia para começar 2020. Pois nosso negócio é o seguinte: com tantos fakes circulando, sejas leitor, sejas ouvinte, curte cada uma maravilha de nossa querida Brasília, mas não te metas na política, o carnaval de ano inteiro.
Mas falo sério agora, amigo, se desejas sempre contigo, em qualquer lugar que tu estejas, a fortaleza contra o mal, não faças tu de Brasília um palanque de vãs riquezas. Não uses dinheiro do imposto para teu próprio usufruto, se estás em algum cargo público. Não aceites, se és político, qualquer vantagem indevida, e, ainda que não seja assim, faze sempre o bem, vai por mim. 
Pois só a pura consciência e o exercício da clemência aliado ao bem incessante farão de cada cidadão um exemplo belo e profundo, de Brasília para o Brasil e do Brasil para o Mundo.



quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Continuação da tradução livre da terceira edição francesa d'O Evangelho Segundo o Espiritismo pelo Prof. Dr. Jorge Leite de Oliveira:




Seres humanos, por que lamentam as calamidades que vocês mesmos amontoaram sobre suas cabeças? Desprezaram a santa e divina moral do Cristo; não se admirem então de que a taça da iniquidade haja transbordado por toda a parte.
O mal-estar se generaliza. De quem é a culpa, senão de vocês mesmos, que incessantemente procuram esmagar uns aos outros? Vocês não podem ser felizes sem mútua benevolência, mas como a benevolência pode existir junto com o orgulho? O orgulho é a fonte de todos os seus males. Apliquem-se, pois, à tarefa de destruí-lo, se não quiserem perpetuar suas funestas consequências. Um só meio vocês têm para isso, mas esse meio é infalível: tomarem por regra invariável de sua conduta a lei do Cristo, lei que têm rejeitado ou falseado na sua interpretação.
Por que vocês têm em tão grande estima o que brilha e encanta os olhos, em vez do que toca o coração? Porque o vício desenvolvido na opulência é o objeto da sua adulação, enquanto nada mais têm do que um olhar de desdém para o verdadeiro mérito, que se oculta na obscuridade? Que um rico libertino, perdido de corpo e alma, se apresente em qualquer lugar, e todas as portas lhe são abertas, todas as honras são para ele, enquanto mal se concede uma saudação ao homem de bem que vive do seu trabalho. Quando a consideração que se dispensa aos outros é medida pelo peso do ouro que eles possuem, ou pelo nome que trazem, que interesse podem eles ter de se corrigirem de seus defeitos?
A situação seria outra, entretanto, se o vício dourado fosse fustigado pela opinião pública, como o é o vício em andrajos. Mas o orgulho é indulgente para tudo quanto o lisonjeia. Século de cupidez e de dinheiro, dizem vocês. Sem dúvida; mas por que deixaram as necessidades materiais sobrepujarem o bom senso e à razão? Por que cada um deseja elevar- se acima do seu irmão? Hoje, a sociedade sofre as consequências disso.
Não esqueçam que tal estado de coisas é sempre o sinal de decadência moral. Quando o orgulho atinge seu extremo, é indício de uma próxima queda, pois Deus sempre pune os soberbos. Se às vezes os deixa subir, é para lhes dar tempo de refletir e de emendar-se, sob os golpes que, de tempos em tempos, desfere no seu orgulho como advertência. Mas, em vez de humilharem, eles se revoltam. Então, quando a medida está cheia, Deus a revira por completo, e a queda é tanto mais terrível, quanto mais alto hajam subido.
Pobre raça humana, cujo egoísmo corrompeu todos os caminhos, reanime-se, apesar de tudo! Em sua misericórdia infinita, Deus lhe envia poderoso remédio para seus males, socorro inesperado à sua aflição. Abra os olhos à luz: aqui estão as almas dos que não mais vivem na Terra, para lhes recordar os verdadeiros deveres. Elas dir-lhe-ão com a autoridade da experiência, quanto as vaidades e as grandeza de sua passageira existência são pequeninas, diante da eternidade. Dir-lhe-ão que, no Além, será maior o que foi menor entre os pequenos deste mundo; que o que mais amou seus irmãos será também o mais amado no Céu; que os poderosos da Terra, se abusaram da sua autoridade, serão obrigados a obedecer aos seus servos; que a caridade e a humildade, enfim, essas duas irmãs que estão sempre de mãos dadas, são os títulos mais eficazes para se obter graça diante do Eterno.
Adolfo
Bispo de Argel, Marmande, 1862

terça-feira, 31 de dezembro de 2019




EM DIA COM O MACHADO 400:
lembrando o óbolo da viúva no natal (jó)

         Em palestra proferida no último domingo de 2019, na Federação Espírita Brasileira, Geraldo Campetti Sobrinho referiu-se ao óbolo da viúva, observado por Jesus, que informou a seus discípulos que a doação dela foi maior do que a de todas as ricas ofertas depositadas no gazofilácio. Pois a viúva dera o que lhe faria falta, enquanto os demais doadores ofereciam o que lhes sobrava. E o que ela doara, informou Geraldo, seria mais ou menos vinte centavos de reais em nossos dias.
         O expositor lembrou-nos que mais vale um pouco doado com amor do que muita doação feita para receber o aplauso do mundo. Isso nos faz lembrar uma frase popular muito repetida por dona Cely, nossa mãezinha, que desencarnou há alguns anos na avançada idade de 89 anos: “O pouco com Deus é muito; o muito sem Deus é nada”.
         Quando auxiliamos alguém com amor, ainda que nossa ajuda o sacie apenas por um dia, o prazer que sentimos em ajudar é maior do que o de quem ajudamos.  Neste mês em que se comemora o Natal, até o fim de 2019, nossos sentimentos de amor e compaixão são estimulados pela mensagem de Jesus para que façamos sempre o bem.
Muitos comerciantes que estavam à beira da falência têm sido salvos por esse “renascer anual do Cristo” nos corações do povo brasileiro. A solidariedade está presente mesmo nos ateus, o que se explica pela euforia das festas de fim de ano. Há confraternizações nos escritórios, nas indústrias, nos clubes, nos lares, nas escolas, nas igrejas. E as vendas “explodem”...
Atire a primeira pedra quem nunca participou do amigo oculto, do bingo, da quermesse da igreja em que muitos só comparecem uma vez ao ano. Qual é a família que nunca levou o filhinho ou a filhinha ao shopping para ver Papai Noel chegando de helicóptero ou recebendo-os, sentado em seu trenó, com um abraço e o grito carinhoso: Ho, ho, ho!
Embora Jesus, o homenageado, seja lembrado mais pelas guloseimas e presentes, Ele sempre nos envia alguns dos seus elevados emissários para nos relembrar que seu Reino não é deste Mundo. E nada custa doar a quem anda descalço, ou quase nu, um par de calçados e vestuários esquecidos no guarda-roupas de nossa casa há mais de seis meses, como disse Geraldo.
Citarei duas dessas surpresas proporcionadas pelos emissários de Jesus neste mês de dezembro de 2019:
A primeira ocorreu no dia em que estávamos para jantar, eu e esposa, num dos self-services do Conjunto Nacional, shopping de Brasília. Aproximou-se de nós humilde moça, que nos rogou um pouco de comida, pois tinha fome. Nesse momento, Lourdes, minha mulher, que é vidente, observou, ao lado da jovem, um Espírito com aparência de idoso de barbas brancas, que disse à nossa companheira: Em nome de Jesus, alimente esta pobre irmã. Lourdes atendeu-o imediatamente, com imensa alegria. E, enquanto servia à jovem, dizia-lhe: Pede, minha filha, o que você desejar comer.
Quando terminou de encher o prato da moça com o que de melhor esta lhe pedira e pagar seu alimento, minha esposa disse ter sido aquele o melhor presente já recebido em sua vida. A pobre, ao se afastar, olhava agradecida para o prato cheio e para sua benfeitora. Ao lado da pedinte, o Espírito Bezerra de Menezes, o “Médico dos Pobres”, acenava para Lourdes com um beijo carinhoso, que ela jamais esquecerá.
O segundo fato é também muito comum nesta época de nossa forte sintonia com o plano espiritual. Um amigo disse-nos que voltava da academia onde costuma malhar e estava com dois reais no bolso. Em frente a sua casa, há uma banca de jornais que também vende gostoso cafezinho ao preço de um real.
Nosso amigo vinha pensando em tomar seu cafezinho ali, quando jovem senhora o abordou e lhe pediu um trocado. Ele, então, respondeu-lhe: Venha comigo até a banca, pois vou comprar um cafezinho e dou-lhe o troco.
Ela seguiu-o desconfiada. Ao chegarem à banca, nosso amigo pediu ao jornaleiro um cafezinho e entregou-lhe dois reais, esperando receber o troco. Para sua surpresa o dono da banca devolveu-lhe os dois reais e disse-lhe que daquela vez o café ficava por conta da casa. Meu amigo, que tem fama de nefelibata, por ser meio desligado do mundo real, respondeu-lhe, indicando a moça: Prometi dar-lhe o troco...
O jornaleiro pegou a nota de dois reais, foi até o caixa e, caindo em si, voltou com o dinheiro, pegou um pacote de biscoitos, entregou-o à pobre, junto com os dois reais, e lhe ofereceu um suco. Vendo isso, outro senhor, que antes conversava com ele, pediu à jovem para abrir a mão, que encheu de moedas. Ela olhou, agradecida, para seus três benfeitores e pediu ao Sr. Marcelo que substituísse o suco pelo cafezinho.
Como lembrou Jesus, não é preciso que doemos muito com ostentação. E o ditado popular confirma: “Quem dá aos pobres empresta a Deus”. Isso é Natal!

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

Continuação da tradução livre da terceira edição de L'Évangile selon le Espiritisme por Jorge Leite de Oliveira - Especialista, Mestre e Doutor em Literatura pela Universidade de Brasília:



7.4 Instruções dos Espíritos

7.4.1 O orgulho e a humildade

Que a paz do Senhor esteja com vocês, meus queridos amigos! Venho até vocês para encorajá-los a seguir o bom caminho.
Deus concedeu a missão de vir esclarecê-los aos pobres Espíritos que outrora habitaram a Terra. Bendito seja Ele pela graça que nos dá de podermos ajudar o adiantamento de vocês. Que o Espírito Santo me ilumine e me ajude a tornar minha palavra compreensível, e me conceda a graça de pô-la ao alcance de todos. Todos vocês, encarnados, que estão sob prova e procuram a luz, que a Vontade de Deus me ajude a fazê-la brilhar ante seus olhos!
A humildade é uma virtude muito esquecida, entre vocês. Os grandes exemplos que lhes foram dados são bem pouco seguidos. E, no entanto, sem humildade, vocês podem ser caridosos com seu próximo? Oh, não, porque esse sentimento nivela os homens, ele diz-lhes que são irmãos, que se devem ajudar mutuamente, e leva-os ao bem. Sem a humildade, vocês enfeitam-se de virtudes que não possuem, como se usassem um vestuário para ocultar as deformidades do seu corpo. Lembrem-se d'Aquele que nos salvou; lembrem-se da sua humildade que o fez tão grande e o elevou acima de todos os profetas.
O orgulho é o terrível adversário da humildade. Se o Cristo prometeu o Reino dos Céus aos mais pobres, é porque os grandes da Terra imaginam que os títulos e as riquezas são a recompensa de seus méritos, e que a sua essência é mais pura que a do pobre. Creem que essas coisas lhes são devidas, e por isso, quando Deus as retira, acusam-no de injustiça. Oh, zombaria e cegueira! Deus distingue vocês pelos corpos? O envoltório do pobre não é da mesma essência que o do rico? O Criador terá feito duas espécies de homens? Tudo aquilo que Deus faz é grande e sábio. Não lhe atribuam jamais as ideias concebidas por seus cérebros orgulhosos.
Oh, rico, enquanto você dorme em seus aposentos dourados, ao abrigo do frio, não sabe que milhares de irmãos seus, que valem tanto quanto você, jazem sobre a palha? O infeliz faminto não é seu igual? A essa palavra, bem sei que seu orgulho se revolta. Concordará em dar-lhe uma esmola; mas jamais, em apertar-lhe fraternalmente a mão. “O quê! dirá, eu nascido dum sangue nobre, grande da Terra, ser igual a esse miserável esfarrapado? Vã utopia de pretensos filósofos! Se fôssemos iguais, por que Deus o teria colocado tão baixo e a mim tão alto?” É verdade que suas roupas não são nada iguais, mas se ambos se despissem, qual a diferença que haveria entre vocês? A nobreza do sangue, dirá. Mas a Química ainda não encontrou diferenças entre o sangue do nobre e o do plebeu, entre o do senhor e do escravo. Quem lhe garante que você também não foi miserável e infeliz como ele? Que não tenha também pedido esmola? Que não a pedirá um dia a esse mesmo que hoje despreza? As riquezas são eternas? Elas não acabam com o corpo, invólucro perecível de seu Espírito? Oh, volte-se humildemente sobre si próprio! Lance enfim os olhos sobre a realidade das coisas desse mundo, sobre o que faz a grandeza e a humilhação no outro; lembre-se de que morte não o poupará mais do que aos outros; que seus títulos não o preservarão dela; que ela o pode ferir amanhã, hoje, dentro de uma hora; e se você ainda enterra-se  no seu orgulho, oh! quanto então, eu o lamento, pois será digno de piedade!
Orgulhosos! Que vocês foram, antes de serem nobres e poderosos? Talvez vocês fossem menores que o último de seus criados. Curvem, portanto, suas frontes altivas, que Deus pode rebaixar, no momento mesmo em que as elevam mais alto. Todos os homens são iguais na balança divina; as virtudes somente os distinguem aos olhos de Deus. Todos os Espíritos são da mesma essência, e todos os corpos foram feitos da mesma massa. Seus títulos e seus nomes em nada a modificam; eles ficam no túmulo; não são eles que dão a felicidade prometida aos eleitos; a caridade e a humildade são os seus títulos de nobreza.
Pobre criatura! Você é mãe, e seus filhos sofrem. Estão com frio. Têm fome. Você vai, curvada ao peso da sua cruz, humilhar-se para conseguir um pedaço de pão. Oh, eu me inclino diante de você! Como é nobre, santa e grande aos meus olhos! Espere e ore; a felicidade ainda não é deste mundo. Aos pobres oprimidos, que nele confiam, Deus concede o Reino dos Céus.
E você, jovem menina, pobre criança lançada ao trabalho, entregue às privações, por que esses tristes pensamentos? Por que chora? Que seus olhos se voltem, piedosos e serenos, para Deus; às aves do céu Ele dá o alimento. Confia nele, e Ele não a abandonará. O som das festas, dos prazeres mundanos, faz bater seu coração. Você queria também enfeitar de flores a fronte e misturar-se aos felizes da Terra. Diz que poderia, como as mulheres que vê passar, estouvadas e alegres, ser rica também. Oh, cale-se, criança! Se soubesse quantas lágrimas e dores sem conta se ocultam sob esses vestidos bordados, quantos suspiros se asfixiam sob o ruído dessa orquestra feliz, preferiria seu humilde retiro e sua pobreza. Conserve-se pura aos olhos de Deus, se não quer que seu anjo da guarda volte para Ele, escondendo o rosto sob as asas brancas, e a deixe com seus remorsos, sem guia, sem apoio, neste mundo, em que estaria perdida, esperando a punição no outro.
E todos vocês que sofrem as injustiças dos homens, sejam indulgentes com as faltas dos seus irmãos, lembrando que vocês mesmos não estão livres de culpas; isso é caridade, mas é também humildade. Se sofrerem calúnias, curvem a fronte diante da prova. Que lhes importam as calúnias do mundo? Se sua conduta é pura, Deus não lhes pode recompensar por isso? Suportar corajosamente as humilhações dos homens é ser humilde e reconhecer que somente Deus é grande e poderoso.
Oh, meu Deus, será preciso que o Cristo volte novamente à Terra, para ensinar aos homens as tuas leis, que eles esqueceram? Deverá Ele ainda expulsar os vendilhões do templo, que maculam tua casa, esse recinto de orações? E, quem sabe, oh, homens, se Deus lhes concedesse essa graça, se não o renegariam de novo, como outrora? Se não o acusariam de blasfemo, por vir abater o orgulho dos fariseus modernos? Talvez, mesmo, o fariam seguir de novo o caminho do Gólgota.
Quando Moisés subiu ao Monte Sinai, para receber os mandamentos da Lei de Deus, o povo de Israel, entregue a si mesmo abandonou o verdadeiro Deus. Homens e mulheres entregaram suas joias e seu ouro, para a fabricação de um ídolo que abandonaram. Homens civilizados, vocês fazem como eles. O Cristo lhes deixou sua doutrina, deu-lhes o exemplo de todas as virtudes, mas vocês abandonaram exemplos e preceitos. Cada um de vocês, carregando suas paixões, fabricou um deus de acordo com sua vontade; para uns, terrível e sanguinário; para outros, indiferente aos interesses do mundo. O deus que fizeram é ainda o bezerro de ouro, que cada qual adapta aos seus gostos e às suas ideias.
Despertem, meus irmãos, meus amigos! Que a voz dos Espíritos lhes toque os corações. Sejam generosos e caridosos, sem ostentação, isto é, façam o bem com humildade. Que cada um vá demolindo pouco a pouco os altares que foram elevados ao orgulho. Numa palavra: sejam verdadeiros cristãos, e atingirão o reino da verdade. Não duvidem mais da bondade de Deus, agora que Ele lhes envia tantas provas. Viemos preparar o caminho para o cumprimento das profecias.
Quando o Senhor lhes der uma manifestação mais esplendente da sua clemência, que o Enviado celeste já os encontre reunidos numa grande família; que seus corações, brandos e humildes, sejam dignos de receber a palavra divina que Ele lhes trará; que o Eleito não encontre em seu caminho senão as palmas dispostas pelo retorno de vocês ao bem, à caridade, à fraternidade; e então o seu mundo tornar-se-á um paraíso terrestre. Mas se permanecerem insensíveis à voz dos Espíritos, enviados para purificar e renovar sua sociedade civilizada, rica em ciência e, entretanto, tão pobre de bons sentimentos, ah! nada mais nos restará do que chorar e gemer pela sua sorte. Mas, não, assim não acontecerá. Voltem-se para Deus, seu Pai, e então todos nós, que trabalhamos para o cumprimento da Sua Vontade, entoaremos o cântico de agradecimento ao Senhor, por sua inesgotável bondade, e para glorifica-lo por todos os séculos dos séculos. Assim seja.
Lacordaire
            Constantine, 1863.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019




EM DIA COM O MACHADO 399:
A LEADADE E NÃO O PRAZER... (Jó)
www.jojorgeleite@gmail.com

         Há um ditado popular que diz mais ou menos o seguinte: “Você pode enganar uma pessoa a vida inteira, pode enganar algumas pessoas durante muito tempo, mas não pode enganar todo o mundo o tempo inteiro”. Outra frase, muito conhecida é a de que, em geral, a pessoa traída é a última a saber da traição. Não concordo muito com isso. O que ocorre é que, quando amamos muito alguém, não nos convencemos apenas com base em suspeitas ou atitudes um pouco levianas de nosso (a) parceiro (a), pois também necessitamos de sua tolerância. Afinal, não é fácil suportar uma infidelidade, por esta nos humilhar e causar tanta infelicidade.
         Embora se defendam muito os direitos femininos na atualidade, o que considero justo, muitas vezes são as mulheres que assediam sexualmente os homens. Não vai aqui qualquer julgamento. Apenas constatação. Por exemplo, em certas ocasiões, amigo meu, leal à esposa, que muito ama, foi acusado por outras mulheres de ser assexuado, por resistir ao seu assédio. O apelo genésico, neste mundo animalizado, é poderoso e, por vezes, difícil de resistir, como nos afirmou nosso genro, mestre em Biologia.
         Ao cristão, todavia, não é lícito fazer qualquer concessão ao adultério sexual (não vêm ao caso aqui outras definições de adultério), pois a finalidade de nossa passagem pela matéria é justamente, domar as más inclinações e nos transformarmos moralmente, como deduziu Allan Kardec. Mas a fornicação é tão grave que, muitas vezes, é punida com a morte, como já ocorria nos tempos antigos.
Precisamos combater a animalidade que ainda reside em nós, se cremos, de fato, na proposta de Jesus. Por isso, disseram-nos os Espíritos, e o Codificador do Espiritismo anotou, que pelo corpo participamos da natureza animal e pela alma possuímos a natureza espiritual (KARDEC, O livro dos espíritos (LE), q. 605).
         Quando colocamos o prazer acima das conveniências e faltamos com o respeito conosco mesmo, pois quem trai se trai, e também com quem estamos comprometidos, seja pelo matrimônio, seja pela parceria sexual e familiar, demonstramos não ter entendido o sexto Mandamento divino: “Não adulterarás”. Demonstramos, assim, não amar suficientemente a outra pessoa e também agimos hipocritamente, em relação à observação de Jesus: “[...] deixará o homem pai e mãe, e se unirá a sua mulher, e serão dois numa só carne [...]. Assim, não são mais dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não separe o homem” (Mateus, 19: 5, 6).
         Não é preciso lembrar às mulheres que a palavra genérica “homem” acima também se aplica a elas. E, salvo a situação de relação não consentida, qualquer atitude de entrega a outrem, seja a pessoa homem ou mulher, comprometidos com alguém, caracteriza adultério. E não cabe aqui a desculpa, muito comum nesta época de culto aos sentidos, de que uma ou outra relação sexual extramatrimonial não caracteriza infidelidade ao cônjuge ou parceiro (a).
         Retornamos à Terra para combater nossa animalidade, espiritualizando a matéria e não materializando animalescamente o Espírito. De pouco adianta sermos bons na oratória religiosa, distribuirmos benefícios materiais a diversas pessoas, orarmos pelos enfermos, criticarmos aqueles que não são fiéis a Deus e ao próximo, se, de nossa parte, não nos esforçarmos em ser melhores, em preservarmos nossa integridade moral, em não mentirmos à própria consciência, que é Deus em nós.
         O verdadeiro sentido da caridade já está expresso, há dois mil anos, por Paulo de Tarso, em I Coríntios, cap. 13:

Ainda que eu falasse a língua dos homens e dos anjos, e não tivesse caridade, seria como o metal que soa ou como o sino que tine.
2 E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse caridade, nada seria.
3 E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse caridade, nada disso me aproveitaria.
4 A caridade é sofredora, é benigna; a caridade não é invejosa; a caridade não trata com leviandade, não se ensoberbece.
5 Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal.
6Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade.
7 Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.

         Observe, quem nos lê, que um dos requisitos da caridade, de acordo com o apóstolo, é não tratar alguém com leviandade; outro é não se portar com indecência; e ainda outro, que fecha com “chave de ouro” essas frases, é não buscar os seus interesses.  Não suspeitar mal é não julgar alguém sem provas patentes de suas faltas, o que não significa fechar os olhos às evidências.
         Como o perdão e a humildade são inseparáveis da caridade, Paulo arremata, no versículo 8, que a pessoa caridosa “Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta”. Isso significa estar em perfeita sintonia com Deus, para não sucumbirmos, também, às tentações da animalidade, em especial nesta época de inversão de valores, com a valorização do prazer, que jamais esteve acima da lealdade. Prazer legítimo é o que se baseia no respeito ao nosso próximo mais próximo, ou seja, a nós mesmos, e a quem escolhemos para dividir a casa, o pão e o leito.
         Que Deus nos dê forças para perdoar e continuar amando e servindo aos que nos traem... E que continuemos resistindo ao mal até o fim, pois, como também recomenda o Apóstolo dos gentios, que parafraseamos agora: Não nos cansemos de fazer o bem, pois se não desfalecermos, a seu tempo colheremos os bons frutos de nossos esforços, combatendo em nós as más tendências e orando pelos fracos de espírito.
         O prazer real não é o do corpo perecível; é o do Espírito imortal, que se realiza na prática do bem incessante, que se traduz pela palavra caridade: “Benevolência para com todos, indulgência para as imperfeições dos outros, perdão das ofensas (LE, q. 886). Somente assim, atenderemos fielmente à recomendação do Cristo: “Brilhe a sua luz” (Mateus, 5: 16).
Isso, entretanto, começa pela lealdade...


sexta-feira, 20 de dezembro de 2019




Continuação da tradução livre da 3ª ed. francesa d’O Evangelho Segundo o Espiritismo. (Dr. Jorge leite de Oliveira)

Essas máximas são consequência do princípio de humildade, que Jesus não cessa de apresentar como condição essencial da felicidade prometida aos eleitos do Senhor, por estas palavras: "Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus". Ele toma uma criança como exemplo da simplicidade de coração e diz: "O maior no Reino dos Céus será todo aquele que se humilhar e se fizer pequeno como esta criança", ou seja, aquele que não tiver qualquer pretensão à superioridade ou à infalibilidade.
O mesmo pensamento fundamental se encontra nesta outra máxima: "Aquele que quiser ser o maior, seja o seu servidor", e ainda nesta: “Pois todo aquele que se exalta será humilhado; e todo aquele que se humilha será exaltado”.
O Espiritismo vem confirmar a teoria pelo exemplo, ao mostrar-nos que os grandes no mundo dos Espíritos são os que foram pequenos na Terra, e que frequentemente são bem pequenos os que aqui eram os maiores e os mais poderosos. É que os primeiros, ao morrerem, levaram consigo aquilo que unicamente constitui a verdadeira grandeza no céu, e que não se perde mais: as virtudes; enquanto os outros tiveram de deixar aquilo que os fazia grandes na Terra, e que não se pode levar: a fortuna, os títulos, a glória, o nome de nascimento. Não tendo outra coisa, chegam ao outro mundo desprovidos de tudo, como náufragos que tudo perderam, até as próprias roupas. Conservam apenas o orgulho, que torna a sua nova posição ainda mais humilhante, porque veem acima deles, resplandecentes de glória, aqueles que desprezaram na Terra.
O Espiritismo mostra-nos outra aplicação desse princípio nas encarnações sucessivas, quando aqueles que mais se elevaram numa existência, descem até o último lugar na existência seguinte, se se deixaram dominar pelo orgulho e ambição. Não procurem, pois, o primeiro lugar na Terra, nem queiram ficar acima dos outros se não quiserem ser obrigados a descer. Procurem, ao contrário, o mais humilde e o mais modesto, porque Deus saberá dar-lhes um lugar mais elevado no Céu, se o merecerem.

EM DIA COM O MACHADO 402 ser e não parecer (Jó) “ To be or not to be ” é a famosa frase de Hamlet, personagem do imortal dramaturg...