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domingo, 9 de maio de 2021

 O Céu e o Inferno

Por Astolfo Olegário de O. Filho

 

Allan Kardec

Parte 2

 

Continuamos o estudo metódico do livro O Céu e o Inferno ou A Justiça Divina Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec, com base na 1.ª ed. da tradução de João Teixeira de Paula publicada pela Lake.

[...]

Caso o leitor queira ter em mãos o texto consolidado dos estudos relativos à presente obra, para acompanhar, pari passu, este estudo, clique em http://www.oconsolador. com.br/linkfixo/estudosespiritas/principal.html#ALLAN e, em seguida, no verbete "O Céu e o Inferno”.

Eis as questões de hoje:

 

9. Existe, segundo a Doutrina Espírita, um lugar chamado céu? 

Não. A felicidade está na razão direta do progresso realizado, de sorte que, de dois Espíritos, um pode não ser tão feliz quanto o outro, unicamente por não possuir o mesmo adiantamento intelectual e moral, sem que por isso precisem estar, cada qual, em lugar distinto. Ainda que juntos, pode um estar em trevas, enquanto que tudo resplandece para o outro, tal como um cego e um vidente que se dão as mãos: este percebe a luz da qual aquele não recebe a mínima impressão. Sendo a felicidade dos Espíritos inerente às suas qualidades, haurem-na eles em toda parte em que se encontram, seja à superfície da Terra, no meio dos encarnados, ou no Espaço. (O Céu e o Inferno, Primeira Parte, cap. III, itens 6 e 18.)

10. De qual fator dependem o progresso e a felicidade dos Espíritos? 

O progresso dos Espíritos é fruto do seu próprio trabalho; mas, como eles são livres, trabalham no seu adiantamento com maior ou menor atividade, com mais ou menos negligência, segundo sua vontade, acelerando ou retardando o progresso e, por conseguinte, a própria felicidade. Enquanto uns avançam rapidamente, entorpecem-se outros, quais poltrões, nas fileiras inferiores. São eles, pois, os próprios autores da sua situação, feliz ou desgraçada, conforme esta frase do Cristo: A cada um segundo as suas obras. (Obra citada, Primeira Parte, cap. III, itens 6 e 7.)

11. Qual a necessidade da reencarnação para o progresso dos Espíritos? 

A reencarnação é necessária ao progresso moral e intelectual do Espírito. Ao progresso intelectual, pela atividade obrigatória do trabalho; ao progresso moral, pela necessidade recíproca que têm os Espíritos de relacionar-se uns com os outros. A vida social é a pedra de toque das boas ou más qualidades. A bondade, a maldade, a doçura, a violência, a benevolência, a caridade, o egoísmo, a avareza, o orgulho, a humildade, a sinceridade, a franqueza, a lealdade, a má-fé, a hipocrisia, em uma palavra, tudo o que constitui o homem de bem ou o perverso tem por móvel, por alvo e por estímulo as relações do homem com os seus semelhantes. Para o homem que vivesse insulado não haveria vícios nem virtudes. (Obra citada, Primeira Parte, cap. III, itens 8 a 10.)

12. Onde se dá a reencarnação dos Espíritos? 

A reencarnação pode dar-se na Terra ou em outros mundos. Há entre os mundos alguns mais adiantados onde a existência se exerce em condições menos penosas que na Terra, física e moralmente, mas onde também só são admitidos Espíritos chegados a um grau de perfeição relativo ao estado desses mundos. (Obra citada, Primeira Parte, cap. III, item 11.)

13. Como é descrito o inferno pela teologia católica? 

O inferno católico teve por modelo o inferno pagão e apresenta com este numerosas analogias. Ambos têm o fogo material por base de tormentos, como símbolo dos sofrimentos mais atrozes. Mas, coisa singular! os cristãos exageraram em muitos pontos o inferno dos pagãos. Exemplo disso são as caldeiras ferventes cujos tampos os anjos levantam para ver as contorções dos supliciados, enquanto Deus, sem piedade alguma, ouve-lhes os gemidos por toda a eternidade. Os católicos têm, como os pagãos, o seu rei dos infernos - Satã - com a diferença, porém, de que Plutão se limitava a governar o sombrio império, que lhe coubera em partilha, sem ser mau; retinha em seus domínios os que haviam praticado o mal, porque essa era a sua missão, mas não induzia os homens ao pecado para desfrutar e tripudiar dos seus sofrimentos. Satã, porém, recruta vítimas por toda parte e regozija-se ao atormentá-las com uma legião de demônios armados de forcados a revolvê-las no fogo. Quanto à localização do inferno, alguns doutores o têm colocado nas entranhas mesmas do nosso globo; outros não sabemos em que planeta, sem que o problema se haja resolvido por qualquer concílio. (1) (Obra citada, Primeira Parte, cap. IV, itens 3 a 5, 11 e 12.)

14. Segundo a Igreja, as crianças falecidas em tenra idade iriam para o limbo. Que significa essa palavra? 

As crianças falecidas em tenra idade, como não fizeram mal algum, não poderiam ser condenadas ao fogo eterno. Mas, também, não tendo feito bem, não lhes assiste direito à felicidade suprema. Ficariam, então, no limbo, diz-nos a Igreja, numa situação jamais definida, na qual, se não sofrem, também não gozam da bem-aventurança. A natureza do limbo, contudo, não foi jamais definida. (2) (Obra citada, Primeira Parte, cap. IV, itens 7 e 8.)

15. Segundo a descrição da teologia católica, Deus produz dois milagres para tornar ainda mais terríveis os sofrimentos dos condenados ao inferno. Que milagres são esses? 

O primeiro milagre seria a ressurreição dos corpos, algo inimaginável sobretudo quando o corpo do indivíduo que morreu se tenha dissolvido com o decurso do tempo. O segundo milagre é dar a esses corpos mortais a virtude de subsistirem sem se dissolverem numa fornalha, onde se volatilizariam os próprios metais. (Obra citada, Primeira Parte, cap. IV, item 13.)

16. O inferno católico excede o inferno pagão. Quais as suas diferenças? 

Além das observações já mencionadas, no inferno pagão não se vê o requinte das torturas que constituem o fundo do inferno admitido pela Igreja. Juízes inflexíveis, porém justos, proferem a sentença, sempre proporcional ao delito, ao passo que no império de Satã são todos confundidos nas mesmas torturas, com a materialidade por base, e banida toda e qualquer equidade. No inferno católico, as sentenças não são proporcionais à gravidade do pecado cometido, mas, sim, iguais para todos os que nele se encontrem (Op. cit., 1.ª Parte, cap. IV, itens 9 a 15).


(1) Em 4 de agosto de 1999, o papa João Paulo II declarou ao L'Osservatore Romano que "o inferno está a indicar, mais do que um lugar, a situação em que se vai encontrar quem de maneira livre e definitiva se afasta de Deus, fonte de vida e de alegria", uma ideia próxima do que ensina o Espiritismo.

(2) Recentemente a Igreja Católica tornou sem efeito todas as disposições que se referiam ao limbo, por entender que Deus tem meios invisíveis, não comunicados aos homens, para salvar todas as crianças, mesmo as que morrem sem o batismo.

 

 

Observação: Para acessar a 1ª Parte deste estudo, publicada na semana passada, clique aqui: https://espiritismo-seculoxxi.blogspot.com/2021/04/blog-post.html

 

sábado, 8 de maio de 2021

 


CAPITULO 15 - FORA DA CARIDADE NÁO HÁ SALVAÇÃO

 

O que é preciso para ser salvo – Parábola do bom samaritano - O maior mandamento – Necessidade da caridade segundo Paulo - Fora da igreja não há salvação - Fora da verdade não há salvação - Instruções dos Espíritos: Fora da caridade não há salvação

 

O QUE É PRECISO PARA SER SALVO – PARÁBOLA DO BOM SAMARITANO

 

Ora, quando o Filho do Homem vier na sua majestade, acompanhado de todos os anjos, Ele se assentará sobre o trono de sua glória; e todas as nações se reunirão diante dele, e Ele separará uns dos outros, como o pastor que separa dos bodes as ovelhas; e assim porá as ovelhas à direita, e os bodes à esquerda.

Então dirá o rei aos que estarão à sua direita: Venham, benditos de meu Pai, possuam o reino que lhes está preparado desde o princípio do mundo; porque tive fome, e vocês me deram de comer; tive sede, e deram-me de beber; precisei de hospedagem e vocês me acomodaram; estava nu, e vestiram-me; estava doente, e visitaram-me; estava preso, e me vieram ver.

Então os justos lhe responderão: — Senhor, quando é que nós o vimos faminto e lhe demos de comer; ou com sede, e lhe demos de beber? E quando precisou de hospedagem e o acomodamos; ou nu e o vestimos? Ou quando o vimos doente ou na prisão e o visitamos? E o rei lhes responderá: Em verdade lhes digo, que quantas vezes vocês fizeram isto a um destes mais pequeninos dos meus irmãos, a mim é que o fizeram.

Em seguida dirá aos que estarão à esquerda: — Afastem-se de mim, malditos, vão para o fogo eterno que foi preparado para o diabo e seus anjos; porque tive fome, e não me deram de comer; tive sede, e não me deram de beber; precisei de hospedagem e não me acomodaram; estava nu, e não me vestiram; estava doente e na prisão e não me visitaram.

Então eles também responderão: Senhor, quando é que nós o vimos faminto, com sede, ou sem hospedagem, ou nu, ou doente, ou na prisão, e deixamos de assisti-lo? E Ele lhes responderá: Em verdade, digo-lhes que quantas vezes o deixaram de fazer a um destes mais pequeninos, a mim o deixaram de fazer.

E irão estes para o suplício eterno, e os justos para a vida eterna (Mateus, 25:31-46).

Então, levantou-se um doutor da lei, e lhe disse, para o tentar: Mestre, que preciso fazer para  possuir a vida eterna? Respondeu-lhe Jesus: Que está escrito na lei? Como lê você? Ele respondeu-lhe: Ame o Senhor seu Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma, com todas as suas forças, de todo o seu espírito e a seu próximo como a si mesmo. E Jesus lhe disse: Respondeu muito bem; faz isso, e viverá.

Mas o homem, querendo parecer que era justo, disse a Jesus: E quem é meu próximo? E Jesus, retomando a palavra, disse-lhe:

— Um homem, que descia de Jerusalém para Jericó, caiu nas mãos de ladrões, que o despojaram, cobriram de ferimentos e se afastaram, deixando-o semimorto. Aconteceu em seguida que um padre descia pelo mesmo caminho, mas quando o viu passou adiante. Um levita, que vinha também àquele lugar, tendo observado-o, passou também adiante. Mas um samaritano, que estava viajando, chegando ao lugar onde estava o homem, quando o viu, foi tomado de compaixão. Aproximou-se dele, derramou óleo e vinho nas feridas e as cobriu; e, pondo-o sobre seu cavalo, o levou a uma hospedaria, e  cuidou dele. No dia seguinte, tirou dois denários, deu-os ao hospedeiro, e lhe disse: — Trate muito bem deste homem; e, tudo que gastar demais, eu lhe pagarei quando voltar.

Qual destes três lhe parece ter sido o próximo daquele que caiu nas mãos dos ladrões? O doutor respondeu-lhe: — Aquele que usou de misericórdia para com ele. Então vá — disse Jesus — e faça  o mesmo (Lucas, 10:25-37).

           

            Toda a moral de Jesus se resume na caridade e na humildade, ou seja, nas duas virtudes contrárias ao egoísmo e ao orgulho. Em todos os seus ensinamentos, mostra essas virtudes como sendo o caminho da felicidade eterna. Bem-aventurados, diz Ele, os pobres de espírito — quer dizer: os humildes —, porque deles é o Reino dos Céus; bem-aventurados os que têm coração puro; bem-aventurados os mansos e pacíficos; bem-aventurados os misericordiosos. Amem seu próximo como a si mesmos; façam aos outros o que desejariam que lhes fizessem; amem seus inimigos; perdoem as ofensas, se querem ser perdoados; façam o bem sem ostentação; julguem a si mesmos antes de julgar os outros. Humildade e caridade, eis o que não cessa de recomendar, e o de que Ele mesmo dá o exemplo. Orgulho e egoísmo, eis o que não cessa de combater. Mas Ele fez mais do que recomendar a caridade; põe-na claramente, em termos explícitos, como a condição absoluta da felicidade futura.

            No quadro que Jesus dá, do juízo final, como em muitas outras coisas, temos de separar o que faz parte da figura e da alegoria. A homens como aos que falava, ainda incapazes de compreender as coisas puramente espirituais, devia apresentar imagens materiais, surpreendentes e capazes de impressionar. Para que fossem melhor aceitas, não podia mesmo afastar-se muito das ideias em voga, no tocante à forma, reservando sempre para o futuro a verdadeira interpretação das suas palavras e dos pontos que ainda não podia explicar claramente. Mas, ao lado da parte acessória e figurada do quadro, há uma ideia dominante: a da felicidade que espera o justo e da infelicidade reservada ao mau.

            Nesse julgamento supremo, quais são os considerandos da sentença? Sobre que se baseia a inquirição? Pergunta o juiz se foram atendidas estas ou aquelas formalidades, observadas mais ou menos estas ou aquelas práticas exteriores? Não, ele só pergunta por uma coisa: a prática da caridade. E se pronuncia assim: Vocês que socorreram seus irmãos passem à direita; vocês que foram duros para com eles passem à esquerda. Informa-se pela ortodoxia da fé? Faz distinção entre o que crê de um modo, e o que crê de outro? Não, pois Jesus coloca o samaritano, considerado herético, mas que tem amor ao próximo, acima do ortodoxo a quem falta caridade. Jesus não faz, portanto, da caridade, apenas uma das condições da salvação, mas a única condição. Se outras devessem ser preenchidas, ele as teria expressado. Se ele coloca a caridade à frente de todas as virtudes, é porque ela encerra implicitamente todas as outras; a humildade, a gentileza, a benevolência, a justiça etc.; e porque ela é a negação absoluta do orgulho e do egoísmo.

quinta-feira, 6 de maio de 2021

 

Mahatma Gandhi: quando a busca pela verdade se transforma em ativismo social

Mahatma Gandhi: quando a busca pela verdade se transforma em ativismo social

por Alexsandro M. Medeiros

lattes.cnpq.br/6947356140810110

postado em fev. 2018

            Mohandas Karamchand Gandhi ou, Mahatma Gandhi, nasceu em 1869 e se tornou um dos maiores ícones da Índia ao trabalhar em prol da sua emancipação política contra a presença imperialista britânica, sobretudo contra os produtos têxteis – símbolo da indústria britânica –, e o monopólio do sal. O título de Mahatma (grande alma) “foi atribuído pelo poeta hindu Rabinath Tagore, entendendo-se por mahatma a uma pessoa dotada de grande humanidade e autoridade moral, e que de um modo único, em sua vida e seu trabalho, expressas as aspirações coletivas de todo um povo” (PONTARA, 2016, p. 22 – tradução nossa). Sua luta levou mais de 50 anos até a independência da Índia.

Disponível em: Laphams Quarterly.org.

Acesso em 17/02/2018.

 

Einstein disse de Gandhi que “talvez as gerações futuras duvidem de que tal homem foi uma realidade de carne e osso” (Díaz, 2007: 23; Quiñones, 2011: 20), não só por causa de sua nobreza, sua força de caráter, sua alma indomável e sua tenacidade, mas acima de tudo porque ele introduziu a ética na política, precisamente num tempo em que se exaltava a violência e o totalitarismo (apud LÓPEZ MARTÍNEZ, 2012, p. 41 – tradução nossa).

            As ideias e o pensamento de Gandhi estão compilados em uma série de livros publicados como The Collected Works of Mahatma Gandhi, entre 1958 a 1984, de forma assistemática, composto de artigos, textos de discursos, cartas, entrevistas concedidas por Gandhi e muito mais. Para compreender suas ideias é importante também sua obra Autobiografia, que tem como subtítulo: a história de minhas experiências com a verdade.

            Para realizar seu trabalho de ativismo social contribuíram a formação em Direito na Inglaterra e os estudos que lá empreendeu a partir da influência de intelectuais como John Ruskin, Henry Thoreau e Leon Tolstoi. Mas principalmente sua formação religiosa que deu a ele um sentido de busca pela verdade e relação com o divino. Sobre sua devoção religiosa – mais precisamente sua busca pela Verdade –, e sua relação com a política, assim se expressa Gandhi: “minha devoção à Verdade me conduziu à política; e posso dizer sem nenhuma dúvida, ainda que com absoluta humildade, que aqueles que afirmam que a religião não tem nada a ver com política não sabem o que significa religião” (1957, p. 504 apud PONTARA, 2016, p. 33 – tradução nossa).

            Gandhi era adepto da filosofia pacifista, da ahimsa e do satyagraha. “[...] ahimsa, um princípio ético que inclui o jainismo, o hinduísmo ou o budismo. Literalmente significaria ‘não-violência’ em um sentido amplo” (HARVEY, 1996, p. 227-300 apud LÓPEZ MARTÍNEZ, 2012, p. 47 – tradução nossa).

Já no Isvaragita, o Poema do Senhor, um dos texto sagrados mais apreciados do hinduísmo, ahimsa é uma das virtudes morais mais exaltadas que é interpretada como uma capacidade, ou total ausência, do desejo de prejudicar, odiar, fazer o mal, ou matar a qualquer ser vivente (LÓPEZ MARTÍNEZ, 2012, p. 48 – tradução nossa).

            Por meio da ahimsa Gandhi promoveu um movimento social e político de grande impacto, como ação coletiva de emancipação social. A ahimsa se configurou como uma proposta de luta política que se articulou com princípios morais e espirituais. A revolução não violenta promovida pelo gandhismo foi a revolução de homens e mulheres sem poder, capazes de se opor ao colonialismo britânico e conquistar a independência dos povos indianos. A ahimsa foi muito mais do que um simples método de persuasão, mas um modo de ação para enfrentar o dominador, mas sem fazer uso da violência, ainda que tivesse a capacidade de fazê-lo. A não violência não é uma postura passiva diante das injustiças sociais ou de alguém que se abstém do combate contra maldade. A força da não violência não está na força física que se possa empregar ou em uma submissão ao mal feitor, mas em uma vontade indomável de fazer frente às injustiças e de “opor a força da alma à vontade do tirano” (GANDHI, 1969 apud CORONA, 2011, p. 78). Com esta disposição de ideias, pensamento e ação, fundados na força da verdade (satyagraha) e na não violência (ahimsa), Ghandi se dispôs a enfrentar a luta pela independência de seu povo e a radical transformação social da Índia. O esforço de Gandhi consistiu em

promover um conjunto de práticas que contribuíram para configurar a não violência como um campo de experimentação e de construção do pensamento resistente moderno adequado às condições da Índia. Para isso, ele recuperou a tradição da ahimsa presente nas culturas indostânicas (Jainismo, Budismo e Hinduísmo) e as colocou em diálogo com outras formas de nomear a não-violência entre os partidários da desobediência civil, os abolicionistas da escravidão, os pacifistas religiosos e os “não-resistentes”, entre outros (USECHE, 2016, p. 70 – tradução nossa).

            A doutrina da não violência de Ghandi teve a improvável influência de um romancista russo: Liev Tolstói (veja em nosso website um texto sobre a doutrina oriunda das ideias de Tolstói: O Tolstoismo: uma visão social fundamentada no amor cristão e na não violência). O primeiro contato de Ghandi com as ideias de Tolstói se deu através de uma carta que o romancista russo escreveu para o hindu Tarak Nath Das (essa carta é conhecida como Carta a um hindu). Tarak Nath Das era contrário as ideias de não violência e acreditava que a única forma de libertar a Índia seria através da luta (mais tarde Tarak Nath Das iria se tornar amigo íntimo e colaborador de Ghandi). Esta carta, onde Tolstói inicia citando o livro sagrado dos Vedas e termina citando Krishna, pode ser vista como um “verdadeiro tratado de não-violência. Nela, [Tolstói] expõe suas teorias sobre a não-violência e sobre o amor, e tenta, igualmente, alertar os hindus sobre a falta que cometiam  ao renegar sua antiga sabedoria para abraçar o erro do Ocidente” (RABELLO, 2009, p. 241). Foi a partir desta carta que Ghandi passou a conhecer as ideias de Tolstói e começou a se corresponder com o romancista russo. Na dissertação de mestrado de Rabello (2009) encontramos algumas correspondência que Tolstói trocou com Ghandi. Nestas correspondências os dois grandes defensores da não violência falam de suas convicções e de que como compreendem a ideia de não violência. Em uma destas correspondências de 07 de setembro de 1910, Tolstói afirma como a doutrina da não violência é, no fundo, uma doutrina de amor, do amor como aspiração das almas humanas que foi pregado por todos os sábios de todos os cantos da terra: hindus, chineses, hebreus, gregos, romanos. Por isso, “o emprego da violência é incompatível com a lei de amor, lei básica da vida. Enquanto a violência é praticada, sejam quais forem as circunstâncias, admite-se a insuficiência da lei de amor e, por conseguinte, essa mesma lei é negada” (apud RABELLO, 2009, p. 237). Tolstói reconheceu a importância do ativismo pacífico de Ghandi, como “o mais importante dentre todos os já realizados ultimamente no mundo, em que participarão, certamente não apenas os povos cristãos, mas povos do mundo todo” (id. ibidem, p. 238). Comparando estes dois grandes mestres da sabedoria universal, Rabello (2009, p. 243) ressalta que: “de um lado, Gandhi, sob a influência de Tolstói, bem como de sua própria origem indiana, e, de outro lado, Tolstói, sob a influência também do hinduísmo, prezam a simplicidade, o respeito não apenas ao próximo, mas também pela natureza em geral”.

            Já o Satyagraha é um neologismo criado por Gandhi para caracterizar sua estratégia de luta não violenta que, de alguma forma, está relacionada com a busca pela verdade. É uma luta contra a opressão “que significa verdade e firmeza, ambos atributos do espírito: sat: verdade ou amor, agraha: firmeza ou força. Também pode significar ‘ater-se à verdade e à justiça’” (CORONA, 2011, p. 71 – tradução nossa). “O satyagraha [...] é um método para defender os direitos através do sofrimento pessoal; o contrário da resistência armada” (FISCHER, 1982, p. 54-55 apud CORONA, 2011, p. 72 – tradução nossa). López Martínez (2012, p. 55) reforça a tradução do termo satyagraha como busca, força ou persistência da/na verdade.

Satya e ahimsa, que Gandhi frequentemente traduz com os termos ingleses “truth” (verdade), e “non-violence” (não-violência), são os dois componentes fundamentais. Ahimsa é o meio, satya o fim. A não-violência é o único meio que nos permite captar a verdade: “... sem a ahimsa é impossível buscar e encontrar a verdade. A ahimsa e a verdade tem uma interdependência tal que é praticamente impossível distinguir e separar uma da outra. São como as duas faces de uma moeda, ou melhor ainda, de um disco metálico sobre o qual não se há gravado nenhuma figura. Quem pode distinguir uma da outra? Com efeito, a ahimsa é o meio e a verdade é o fim” (GANDHI, 1961, p. 42 apud PONTARA, 2016, p. 35 – tradução nossa).

            Para distinguir o Satyagraha de outras formas de luta não violenta, sobretudo aquela que considerava a não violência como uma forma de resistência passiva, Gandhi propunha que sua forma de ação não era a não violência do covarde ou do fraco que se transforma em passividade, que renuncia a luta contra a servidão e opressão. A Satyagraha é uma filosofia de transformação por meio da ação, que se fundamenta em valores éticos e políticos que exclui qualquer forma de luta violenta armada ou não armada (para mais detalhes sobre em que consiste a modalidade de “luta” Satyagraha, veja López Martínez, 2012, p. 55-59).

            Gandhi procurou colocar em práticas tais ideias principalmente na Índia, depois de seu retorno a Bombaim em 1919, quando organizou “o Satiagrafa, movimento político e religioso, com o objetivo de estabelecer o swaraj (governo autônomo). Sua campanha desenvolveu-se sempre no sentido da resistência pacífica; da não-cooperação e, da desobediência civil” (LISTA, 1980, p. 1620). López Martínez (2006) destaca, além dos conceitos já abordados como ahimsa e satyagraha, pelo menos outros quatro que são igualmente importantes para compreender o pensamento e a ação de Gandhi: satya (o equivalente a verdade), sarvodaya (o bem estar de todos), swaraj (com vários sentidos, podendo ter o significado de autonomia, autodeterminação, autogoverno, independência política) e swadeshi (literalmente “pertencente ao próprio país”; valorizar o próprio sem menosprezar o estrangeiro).

Swaraj é o objetivo final da nação e da revolução não violenta, fazendo honra a etimologia deste termo védico que pode ser traduzido também como governo (raj) de si mesmo (swa). Consistente com isso o Swaraj não pode operar sem satyagraha, a força da alma e do amor, que é a única arma legítima da não violência (ahimsa) (USECHE, 2016, p. 77).

            Através do swaraj e, por conseguinte, do swadeshi e sarvodaya, Gandhi abriu o caminho para a transformação do próprio modo de ser do povo indiano.

A autonomia local (swadeshi) se materializou como uma extensa confederação de aldeias autossuficientes e autogovernadas de caráter local e predominantemente rural. Esta é uma ideia plenamente libertária que Gandhi descreveu ao estabelecer seu programa de sarvodaya (bem comum ou bem de todos) que devia emergir nas aldeias indianas (USECHE, 2016, p. 78)

            Através da articulação destes três princípios Gandhi propunha que cada pessoa pudesse trabalhar para ganhar o seu próprio pão, havendo igualdade de oportunidades para todos, atenção as necessidades dos mais próximos, auto suficiência na alimentação e na produção de algodão. O conceito de bem estar de todos (sarvodaya) é uma convicção ética que propõe que a riqueza da sociedade seja distribuída para produzir o bem de todos de forma igualitária. “O que devemos fomentar [...] não é o bem de uns poucos nem tampouco o bem de muitos, senão o bem de todos” (GANDHI, 1977, p. 21-22, 24 apud USECHE, 2016, p. 80). O swadeshi, por sua vez, faz referência a autossuficiência econômica e ruptura com os laços de dependência econômica colonial.

            Gandhi utilizava também como método a prática do jejum para pressionar a Inglaterra a entrar em um acordo sobre as reivindicações dos hindus. “Através do jejum, Gandhi forçava seus opositores a refletirem sobre a realidade e conseguiu dessa forma grandes avanços, até conseguir a independência da índia que era colônia Inglesa” (BOERI, 2001, p. 49).

            A originalidade das teses e da prática do ghandismo está em estabelecer “uma estratégia não violenta da conquista do poder, um método para transformar as relações sociais e as relações de poder, transferindo o poder ao povo, ou mais propriamente, se propondo a constitui-se em poder autônomo” (CORONA, 2011, p. 76 – tradução nossa).

 

A atuação de Gandhi como ativista social

            Gandhi começou a utilizar seu método de luta não violenta quando esteve na África do Sul, no início do século XX, mais precisamente entre 1906 e 1911, sobretudo  em apoio aos imigrantes que residiam naquele país. “A resistência passiva em seus primeiros anos na África do Sul foi chamada objeção de consciência pelo general inglês Jan Smuts, um de seus perseguidores” (CORONA, 2011, p. 81 – tradução nossa).

Disponível em: Recreio Brasil. Acesso em 17/02/2018

            Mas foi na Índia que ele levou adiante sua intensa luta contra a exploração e opressão. “Em 1917 empreendeu sua primeira campanha de satyagraha no distrito de Champarán, província de Bihar, contra o sistema de escravidão dos camponeses que os obrigava a trabalhar sem compensação, imposto pelos proprietários de terras há mais de um século” (CORONA, 2011, p. 81-82 – tradução nossa).

Disponível em: Blog Olhe Através.

Acesso em 02/2018.

            O ápice de sua atuação como ativista social aconteceu em 1930, quando, acompanhado por adeptos, Gandhi marchou cerca de 300 quilômetros em direção ao mar para obter sal, que era monopolizado e só poderia ser obtido pelas vias britânicas. O imposto do sal castigava os camponeses e monopolizava sua produção. A iniciativa de Gandhi consistiu em mobilizar a população para que ela própria pudesse produzir o sal, violando sua proibição. Este episódio ficou conhecido como a Marcha do Sal, e atraiu e mobilizou a atenção da imprensa internacional. Gandhi foi preso, mas a Inglaterra, pressionada pela opinião pública, o libertou e também revogou a lei do monopólio do sal.

Com a Marcha do Sal, Gandhi mostrou ao mundo que não só a não violência era a resposta para combater ou diminuir a violência física, senão que poderia ser uma arma eficaz para liberar-se da violência estrutural [...] A Marcha do Sal foi, além de um exercício de desobediência civil, o ponto de partida de uma longa campanha, respaldada pelo Congresso Nacional da Índia, para protestar contra o projeto de autonomia oferecido pelos britânicos e para galvanizar os indianos em favor da causa da independência (LÓPEZ MARTÍNEZ, 2012, p. 63 - tradução nossa).

            Gandhi lutou também pela união de duas religiões conflitantes: o Hinduísmo e o Islamismo. Foi morto exatamente por um extremista hindu por causa de suas ideias. Em 30 de janeiro de 1948 – um anos após a Índia ter alcançado sua independência –, Gandhi estava em Deli prestes a fazer um discurso público quando um homem – Nathuram Vinayak Godse, hindu ortodoxo, da casta dos brahmanes –, armado, se aproxima de Gandhi, “o saúda: “Namastê!” (olá!). Com a mão esquerda retira a uma das jovens que o sustentava e, com a direita, descarrega a queima roupa três tiros. Gandhi morre instantaneamente” (PONTARA, 2016, p. 20 – tradução nossa).

Disponível em: Blog Folha Uol. Acesso em 17/02/2018.

 

Referências Bibliográficas

BOERI, Hélio A. A. Desobediência Civil: um estudo da resistência como ato ao direito de cidadania. Dissertação (Mestrado em Direito). Programa de Pós-Graduação em Direito. Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis, 2001.

CORONA, Armando R. Gandhi: la resistencia civil activaPolis, Revista Latinoamericana, vol. 7, n. 1, p. 69-103, 2011. Acesso em 07/02/2018.

DÍAZ, Hermann. El tiempo miente, no pasa. LibrosEnRed, 2007.

FISCHER, Louis. Gandhi. Barcelona: Plaza y Janés, 1982.

GANDHI, M. K. An Autobiography. The Story of My Experiments with Truth. Boston: Beacon Hill, 1957.

____. Satyagraha in South Africa(tr. del original en gujarati por V. G. Desai), Navajivan Publishing House (1928), Ahmedabad, 1961.

____. Hacia un socialismo no violentoBuenos Aires: Las Pléyade, 1977.

LISTAEliana Maia. Enciclopédia Universal Brasileira, 1980. Vol 6.

LÓPEZ MARTÍNEZ, Mario. Política sin violencia. La noviolencia como humanización de la política. Bogotá: Uniminuto, 2006.

____. Gandhi, Política y SatyagrahaRa-Ximhai, vol. 8, n. 2, p. 39-70, jan./abr. 2012. Acesso em 03/02/2018.

PONTARA, Giuliano. Gandhi: el político y su pensamentoPolis, Revista Latinoamericana, vol. 15, n. 43, p. 19-40, 2016. Acesso em 04/02/2018

QUIÑONES, Sergio R. Sobre La Naturaleza de Las Decisiones. Palibrio: Bloomington, 2011.

RABELLO, Belkiss. As Cartilhas e os Livros de leitura de Lev N. Tolstói. Dissertação (Mestrado em Línguas Orientais). Programa de Pós-Graduação em Literatura e Cultura Russas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2009.

USECHE, Óscar. La resistencia social India y el bien de todos. Aportes de Gandhi para una economía no violenta. Polis, Revista Latinoamericana, vol. 15, n. 43, p. 67-87, 2016. Acesso em 04/02/2018

Espiritualidade e Política → Mahatma Gandhi: quando a busca pela verdade se transforma em ativismo social. 


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terça-feira, 4 de maio de 2021

 

EM DIA COM O MACHADO 469:

nova versão da história do barqueiro analfabeto (Jó)

 


      Salve, leitores amigos! Hoje daremos nova versão à história do barqueiro que não sabia ler nem escrever e do professor que ele transportava no rio Negro.

       João do Barco era um jovem simples, que morava às margens do rio Negro, um dos afluentes do rio Amazonas. Possuía duas profissões: pescador e barqueiro. Nesta última, trabalhava das 7h às 19h, diariamente, transportando as pessoas de margem a outra do rio, sem folga nos feriados e fins de semana. Pescava entre 5h e 6h da manhã.

     Toda a sua existência atual, até então, baseara-se nos conhecimentos herdados do pai, falecido quando João do Barco estava com a idade de 15 anos. O pai narrava-lhe muitas histórias. Uma delas era a de um professor que morrera quando o barco virara e aquele, com muita raiva do professor, deixara de tentar salvá-lo, por se ter melindrado com as palavras do mestre, que lhe dissera que o conhecimento das letras era fundamental para abrir nossas mentes para viagens do espírito, muito além das meras travessias duma margem à outra do rio.

      Quando o barco virara, Sr. Joaquim, o pai de João, perguntara ao professor:

      — O senhor sabe nadar? – Em resposta, ouviu uma desesperada vítima, antes de se afogar, dizer-lhe, entre glub, glub, glub:

        — Não sei... Salve-me, por favor! – E Sr. Joaquim, após refletir um instante no quanto era importante para ele garantir a própria sobrevivência, recomendou-lhe que se agarrasse à pequena tábua que boiava, solta do barco, a distância.

        — Assim que eu nadar até a margem, virei noutro barco para salvá-lo. — O detalhe é que a citada tábua estava fora do alcance de quem não sabia nadar, mas não  de um bom nadador, como Sr. Joaquim.

        Passados os anos, o pai de João do Barco ocultava seus remorsos com as seguintes palavras ditas ao filho:

        — Se um dia você encontrar quem lhe ensine a ler e escrever, esforce-se em aprender, para que não venha, por despeito, a deixar alguém morrer. Afinal, aprender nunca é demais, mas fazer o que se aprende é fundamental.

       Como a vida continua, Joaquim também morreu. Não afogado, como o pobre docente, que deixou família sem provedor e dezenas de alunos privados do único professor local, mas porque, não sabendo ler, num dia em que, mais uma vez, se aventurara a atravessar a nado para a outra margem do rio, por esporte, ignorou o aviso, numa grande placa, à sua frente, com a seguinte frase: "Nado interditado, pois o rio foi invadido por piranhas vorazes".

       Anos após o infausto acontecimento da morte do professor, agora era João do Barco que transportava o substituto daquele. Em dado momento, o rapaz, então com 18 anos, perguntou ao docente:

      — O senhor sabe nadar?

      — Não sei, mas e você, sabe ler e escrever?

     — Também não, professor, mas vou propor-lhe uma troca de aprendizagens: eu lhe ensino a nadar e o senhor me ensina  a ler e escrever. Que acha disso?

      Aprovado! — Disse o mestre, ainda com o hábito de avaliar...

        O professor aprendeu a nadar, e João aprendeu a ler e escrever com seu mestre e amigo. Vinte anos após, o agora dr. João, que se formara em agropecuária, no Campus da Universidade Federal do Amazonas, em Parintins, tornou-se um dos maiores comerciantes de peixes, proprietário dalgumas das melhores embarcações da região e dono de famosa escola local.      

        Atualmente, João do Barco proporciona emprego e estudos a cerca de 3.000 famílias amazonenses. Seu ex-professor é o atual diretor de sua instituição de ensino...

       Moral da história: Não importa o que sabemos, se não passamos isso adiante com humildade e desejo permanente de aprender e compartir. Somente assim nos livramos da ignorância e da falta de compaixão pelo próximo.

     Esta é uma história fictícia. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.

 


domingo, 2 de maio de 2021

 O Céu e o Inferno

Por: Astolfo Olegário de Oliveira Filho

 

Allan Kardec

 

Parte 1

Iniciamos hoje o estudo metódico do livro "O Céu e o Inferno ou A Justiça Divina segundo o Espiritismo", de Allan Kardec, com base na 1ª edição da tradução de João Teixeira de Paula publicada pela Lake.

Este estudo será publicado sempre às quintas-feiras, no link abaixo, e aos domingos, neste blog. Caso o leitor queira ter em mãos o texto consolidado dos estudos relativos à presente obra, para acompanhar, pari passu, o presente estudo, basta clicar em http://www.oconsolador.com.br/linkfixo/estudosespiritas/principal.html#ALLAN e, em seguida, no verbete "O Céu e o Inferno".

Eis as questões de hoje:


1. Em que consiste o panteísmo? 

O panteísmo propriamente dito considera o princípio universal de vida e de inteligência como constituindo a Divindade. Deus é o conjunto de todas as inteligências reunidas; cada indivíduo, sendo uma parte do todo, é Deus ele próprio; nenhum ser superior e independente rege o conjunto. O Universo é uma imensa república sem chefe, ou antes, onde cada qual é chefe com poder absoluto. (O Céu e o Inferno, Primeira Parte, cap. I, itens 6, 7, 8 e 9.)

2. Segundo Kardec, três são as alternativas que se apresentam aos homens. Quais são elas?

O nada, conforme o materialismo; a absorção no Todo Universal, conforme o panteísmo; e a individualidade da alma antes e depois da morte, segundo o espiritualismo. É para esta última crença que a lógica nos impele irresistivelmente, crença que tem formado a base de todas as religiões desde que o mundo existe. (Obra citada, Primeira Parte, cap. I, item 10.)

3. Por que o Espiritismo é, geralmente, bem acolhido pelos atormentados da dúvida?

O Espiritismo tem por si a lógica do raciocínio e a sanção dos fatos, e é por isso que inutilmente o combatem. Ao ensinar-nos a individualidade da alma antes e depois da morte, o Espiritismo oferece-nos uma perspectiva melhor a respeito da vida e é por isso que é acolhido pressurosamente por todos os atormentados da dúvida, os que não encontram nem nas crenças nem nas filosofias vulgares o que procuram. (Obra citada, Primeira Parte, cap. I, itens 13 e 14.)

4. Qual será, na opinião de Kardec, o primeiro ponto de contato dos diversos cultos, com vistas a uma futura fusão das crenças?

A unificação feita relativamente à sorte futura das almas será o primeiro ponto de contato dos diversos cultos, um passo imenso para a tolerância religiosa em primeiro lugar e, mais tarde, para a completa fusão. (Obra citada, Primeira Parte, cap. I, item 14.)

5. Quais as causas do temor da morte? 

O temor da morte é um efeito da sabedoria da Providência e uma consequência do instinto de conservação comum a todos os viventes. Ele é necessário enquanto não se está suficientemente esclarecido sobre as condições da vida futura, como contrapeso à tendência que, sem esse freio, nos levaria a deixar prematuramente a vida e a negligenciar o trabalho terreno que deve servir ao nosso próprio adiantamento. À proporção que o homem compreende melhor a vida futura, o temor da morte diminui; uma vez esclarecida a sua missão terrena, aguarda-lhe o fim calma, resignada e serenamente. A certeza da vida futura dá-lhe outro curso às ideias, outro fito ao trabalho; antes dela, nada que não se prenda ao presente; depois dela, tudo pelo futuro sem desprezo do presente, porque sabe que o futuro depende da boa ou da má direção dada ao presente. A certeza de reencontrar seus amigos depois da morte, de reatar as relações que tivera na Terra, de não perder um só fruto do seu trabalho, de engrandecer-se incessantemente em inteligência e perfeição, dá ao homem paciência para esperar e coragem para suportar as fadigas transitórias da vida terrestre. A solidariedade entre vivos e mortos faz-lhe compreender a que deve existir na Terra, onde a fraternidade e a caridade têm desde então um fim e uma razão de ser, tanto no presente como no futuro. (Obra citada, Primeira Parte, cap. II, itens 1 a 4; 8 e 9.)

6. Por que o homem é geralmente apegado às coisas terrenas? 

No Espírito atrasado a vida material prevalece sobre a espiritual. Apegando-se às aparências, o homem não distingue a vida além do corpo, esteja embora na alma a vida real. Aniquilado o corpo, tudo se lhe afigura perdido, desesperador. A vida futura é-lhe uma ideia vaga, mais uma probabilidade do que uma certeza absoluta. Ele acredita, desejaria que assim fosse, mas apesar disso exclama: "Se, todavia, assim não for! O presente é positivo, ocupemo-nos dele primeiro, que o futuro por sua vez virá". É considerável o número dos dominados por este pensamento. Outra causa de apego às coisas terrenas, mesmo nos que mais firmemente creem na vida futura, é a impressão do ensino que relativamente a ela se lhes tem dado desde a infância. Convenhamos que o quadro pela religião esboçado sobre o assunto é nada sedutor e ainda menos consolador. (Obra citada, Primeira Parte, cap. II, itens 4, 5 e 6.)

7. Qual o futuro dos homens, na visão do Espiritismo? 

A Doutrina Espírita transforma completamente a perspectiva do futuro. A vida futura deixa de ser uma hipótese para ser realidade. O estado das almas depois da morte não é mais um sistema, porém o resultado da observação. Ergueu-se o véu; o mundo espiritual aparece-nos na plenitude de sua realidade prática; não foram os homens que o descobriram pelo esforço de uma concepção engenhosa: são os próprios habitantes desse mundo que nos vêm descrever sua situação. E aí os vemos em todos os graus da escala espiritual, em todas as fases da felicidade e da desgraça, assistindo, enfim, a todas as peripécias da vida de além-túmulo.

A vida futura é, segundo o Espiritismo, a continuação da vida terrena em melhores condições e por isso os espíritas a aguardam com a mesma confiança com que aguardariam o despontar do Sol após uma noite de tempestade. Os motivos dessa confiança decorrem dos fatos testemunhados e da concordância desses fatos com a lógica, com a justiça e com a bondade de Deus. (Obra citada, Primeira Parte, cap. II, item 10.)

8. Que significa o vocábulo céu e onde a teologia católica o situa? 

A palavra céu designa o espaço indefinido que circunda a Terra, e mais particularmente a parte que está acima do nosso horizonte. Vem do latim coelum, côncavo, porque o céu parece uma imensa concavidade. A teologia cristã reconhece três céus: o primeiro é o da região do ar e das nuvens; o segundo, o espaço em que giram os astros, e o terceiro, para além deste, é a morada do Altíssimo, a habitação dos que o contemplam face a face. É conforme a esta crença que se diz que S. Paulo foi alçado ao terceiro céu. (Obra citada, Primeira Parte, cap. III, itens 1 e 2.)

 

 

 





 

 


sábado, 1 de maio de 2021

 

A ingratidão dos filhos e os laços de família  - Agostinho (conclusão)

 

     


    Desde o berço, a criança manifesta os instintos bons ou maus que traz de sua existência anterior. É para estudá-los que devemos nos aplicar. Todos os males iniciam-se no egoísmo e no orgulho. Espreitem, pois, os menores sinais que revelam o germe desses vícios, e tratem de combatê-los, antes que eles lancem raízes profundas. Façam como o bom jardineiro, que arranca os brotos daninhos à medida que os vê apontar na árvore. Se vocês deixarem desenvolver-se o egoísmo e o orgulho, não se espantem de ser pagos mais tarde com ingratidão.

Quando os pais fizeram tudo para o adiantamento moral dos filhos, se não conseguiram êxito, não têm do que lamentar, e sua consciência pode estar tranquila. Quanto à amargura muito natural que experimentam, pelo insucesso de seus esforços, Deus reserva-lhes uma grande, imensa consolação, pela certeza de que é apenas um atraso momentâneo, e que lhes será dado acabarem noutra existência a obra então começada, e que um dia o filho ingrato os recompensará com o seu amor (Ver cap. 13, it. 19).

Deus não coloca as provas acima das forças daquele que as pede; só permite as que podem ser cumpridas; se isto não se verifica, não é por falta de possibilidades, mas de vontade, pois quantos existem que, em lugar de resistir aos maus arrastamentos, neles se comprazem. É para estes que estão reservados o choro e lamentações, em suas existências posteriores.

Admirem, porém, a bondade de Deus, que não fecha jamais a porta ao arrependido. Um dia surge em que o culpado se cansa de sofrer, e seu orgulho é por fim abatido. É então que Deus abre os braços paternais para o filho pródigo que se lança aos seus pés. Provas fortes, ouça-me bem, quase sempre são o sinal do fim do sofrimento e do aperfeiçoamento do Espírito, quando são aceitas diante de Deus. É um momento supremo em que, sobretudo, importa não falir pela murmuração, se não se quiser perder o fruto da prova e ter de recomeçar.

Em vez de reclamarem, agradeçam a Deus, que lhes oferece a ocasião de vencer, para lhes dar o prêmio da vitória. Então, quando, saídos do turbilhão do mundo terrestre, vocês entrarem no mundo dos Espíritos, serão ali aclamados, como o soldado que saiu vitorioso do meio da luta.

De todas as provas, as mais penosas são as que afetam o coração. Alguém que suporta com coragem a miséria das privações materiais, sucumbe ao peso das amarguras domésticas, machucado pela ingratidão dos seus. Oh, é uma pungente angústia isso! Mas que pode, nessas circunstâncias, reerguer a coragem moral, senão o conhecimento das causas do mal, e a certeza de que, se há longas dilacerações, não há desesperos eternos, apesar disso? Pois não é da vontade de Deus que sua criatura sofra para sempre.

Que há de mais consolador, de mais encorajador, do que esse pensamento de que depende de si, de seus próprios esforços, abreviar o sofrimento, destruindo em si as causas do mal? Mas, para isso, é necessário não reter o olhar na Terra e só ver uma existência. O olhar precisa elevar-se, pairar no infinito do passado e do futuro. Então, a grande justiça de Deus se revela a seus olhos. Esperem com paciência, porque isso lhes explica o que lhes parecia monstruosidades da Terra. Então, os ferimentos que vocês receberam não lhes parecem mais que simples arranhaduras. Nesse golpe de vista lançado sobre o conjunto, os laços de família aparecem no seu verdadeiro sentido. Com a reencarnação, já não são mais os laços frágeis da matéria que ligam seus membros, mas os laços duráveis do Espírito, que se perpetuam e se consolidam ao se depurarem, em vez de se quebrarem.

Os Espíritos que a semelhança de gostos, identidade de progresso moral e de afeição levam a reunir-se, formam famílias. Esses mesmos Espíritos, nas suas migrações terrenas, buscam-se para agrupar-se, como faziam no espaço, dando origem às famílias unidas e homogêneas. E se, nas suas peregrinações, eles são momentaneamente separados, mais tarde se reencontram, felizes pelos seus novos progressos.

Mas como não devem trabalhar somente para si mesmos, Deus permite que Espíritos menos adiantados venham encarnar-se entre eles, a fim de receberem conselhos e bons exemplos, no interesse do seu próprio progresso. Estes causam, às vezes, problemas, mas esta é a prova, esta é a tarefa. Acolham-nos, pois, como irmãos; ajudem-nos e, mais tarde, no mundo dos Espíritos, a família se felicitará por haver salvado do naufrágio os que, por sua vez, poderão salvar outros.

 

  Rumo à perfeição   Em nossa luta contra o mal em nós, O mal que não queremos sobreleva Por nossa imersão em densa treva Desde o tempo de n...