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quarta-feira, 26 de outubro de 2016




Em dia com o Machado 234 (jlo)


Acompanhei meu secretário e esposa em passeio que fizeram ao Rio de Janeiro. No centro da cidade, eles resolveram fazer umas compras na Av. Nossa Senhora de Copacabana.
Como de praxe, viram deitados ou sentados nas calçadas diversos mendigos. Um deles era Simão, idoso e enfermo, cujo cajado estava encostado na porta fechada de uma loja.
Vagara, incerto, após fugir da seca no Piauí e fora despejado do pardieiro onde se hospedara, após acabar-se o pouco dinheiro que trouxera, resultante da venda de seu pequeno sítio a parentes que prometeram ajudá-lo, mas o deixaram desamparado. Agora, não lhe restava outra opção a não ser a de ser mais um dentre tantos seres humanos (ser, ser, seres, notou, leitor?) sem lar, sem cama, sem pão (sem, sem, sem, leitora, você viu isso?) e maltrapilho a vagar incerto, pelas longas e, por vezes, tumultuadas avenidas cariocas (as, as, as... isso é coisa da carioca Cecília Malan, rs).
Os cabelos alvos, a face enrugada, as mãos encarquilhadas de Simão muito pouco comoviam os transeuntes, que não se importavam em saber de onde viera e por que ali se encontrava. Os que o viam, apenas sabiam que se tratava de um mendigo. Não lhe conheciam o passado e nem lhes interessava seu futuro.
Com o passar dos dias, sem condições de comprar remédios para as feridas que surgiam em seu corpo encarquilhado, em virtude da desidratação e quedas, muitos pedestres o tratavam mal. Diversas pessoas afastavam-se enojadas. Alguns diziam que era “leproso”, outros alegavam que se fazia de doente e necessitado, mas que era farsante explorador da bolsa alheia.
Muitas vezes, Simão refletia em como fora difícil sua vida na caatinga nordestina; todavia, quando moço, possuía corpo robusto e boa saúde, a tudo superando, até chegar ali, na esperança de encontrar ao menos um biscate, um pequeno quarto onde repousar da velhice, alguma roupa limpa para vestir e o pão de cada dia. O tempo foi passando e Simão foi ficando cada vez mais fraco, mais desiludido, mais enfermo e cansado. Já não tinha forças nem mesmo para tentar localizar seus parentes no Piauí. Muito menos coragem para tal, pois sabia que seus três “filhos homens” e suas “cinco filhas mulheres” viviam em situação de penúria material e sua viagem para a “Cidade Maravilhosa” fora, para todos, uma boca a menos para comer a mandioca ralada com o pouco feijão da cuia; mais caldo do que feijão.
Um dia, porém, quando Joteli e esposa já não mais caminhavam pela avenida Nossa Senhora de Copacabana, após uma noite de chuva e de frio, o velho sofredor tentou levantar-se do seu canto na calçada onde dormira e caiu. Perdeu os sentidos e... horas depois, um rabecão que por ali passava recolheu seu corpo sem vida e o enterrou como indigente.
Assim é o destino de milhões de seres humanos.
Esta e outras cenas, vistas por meu amigo, o poeta português João de Deus, inspirou-lhe o seguinte poema, que compartilho com meus trinta ou quarenta fiéis leitores semanais:

Simão, o mendigo

Doente, pobre, velhinho,
O desditoso Simão,
Arrimado a seu bordão,
Andava devagarinho...

Pés e mãos em chaga aberta,
Lá ia o velho, coitado!
Enfermo, desamparado
E humilde na estrada incerta.

Cabelo todo branquinho,
Rugosa a face morena,
O pobre metia pena
A vagar pelo caminho...

De onde viera? Ora, quem
Buscava saber ao certo?
Vinha de longe ou de perto?
Ninguém sabia, ninguém.

Só lhe sabiam do nome,
E que, em miséria, sem nada,
Ele esmolava na estrada,
A fim de matar a fome.

Estendendo seu chapéu,
Pedia, cheio de dor:
— Uma esmola, meu senhor,
Por amor ao Pai do Céu!...

Mas, oh! Deus, que desalento
Neste mundo de aflição!
Ninguém ouvia Simão
Nas horas do sofrimento.

— Passai de largo! é leproso!... 
Diziam homens cruéis
— Oh! não vos   aproximeis
Deste  ancião  perigoso!...

— Ah! que graça! Põe-te à brisa! —
Exclamava outro passante —
— Nada de esmola ao tratante,
Que este  velho não precisa!...

O mendigo, nos seus ais,
Dizia: — Viva a saúde!
Trabalhei enquanto pude,
Agora, não posso mais...

Toda a gente lhe fugia,
Ninguém lhe dava uma sopa,
Nem um trapinho de roupa
Para a noite da agonia.

Muito tempo era passado,
E o desditoso velhinho
Sentia-se mais sozinho,
Mais doente, mais cansado...

Chegou, enfim, um  momento
Em que o velho sofredor
Caiu de frio e de  dor
Na estrada do sofrimento.

Caiu e sonhou, contente,
Embora a sede e o cansaço,
Que Jesus vinha do Espaço
Dizendo-lhe, docemente:

— Escuta, meu bom Simão,
Não temas, querido amigo!
Sê forte! Eu estou contigo.
Chegaste à ressurreição.

Não chores. Estou aqui!...
Terminou tua aflição,
Estás em meu coração!
Pensavas que te esqueci?

Enquanto o mundo enganado
Atormentava-te ao peso
De zombaria e desprezo,
Eu sempre estive ao teu lado.

Teus prantos e tuas dores
São, hoje, a luz que te veste
No campo do amor celeste,
Repleto de eternas flores.

E Jesus, em voz mais terna,
Concluía: — Vem, Simão,
À doce consolação
Do mundo de luz eterna!...

E Simão, chorando e rindo,
A seguir, ditoso, o Mestre,
Esqueceu a dor terrestre,
No céu venturoso e lindo.

O caminho era de   estrelas
De tão sublime matiz
Que o pobre ria,                feliz,
Sem saber como entendê-las.

No outro dia, ao reconforto
Do Sol de coroa erguida,
Acharam Simão sem vida...
O mendigo estava morto.

Amiga leitora, você que é sensível e gosta de poesia poderá ler este e outros belos poemas na obra Antologia Mediúnica do Natal, psicografada por Chico Xavier e publicada pela FEB.
O livro também possui belas mensagens de Emmanuel, Humberto de Campos e outros escritores e poetas que já atravessaram o Campo da Esperança e me fazem companhia no Clube Beethoven ou na Academia Celestial de Letras de cidade vizinha a Nosso Lar. Ótimo presente de Natal! que poderá ser adquirido em dezembro nas livrarias espíritas ou na livraria da FEB, em Brasília, na Av. L2 Norte, ou no Rio de Janeiro, Centro, na Av. Passos, número 30.

terça-feira, 18 de outubro de 2016



Em dia com o Machado 233 (jlo)


A visão materialista da vida na Terra não traz benefícios ao seu possuidor. Ela açoda todos os instintos negativos da pessoa, incrementa o egoísmo e a impiedade humanos.
Há pessoas que se formam em determinadas áreas do conhecimento visando exclusivamente lucros materiais. Desse modo, podem até mesmo possuir grandes saberes em seu ofício, mas nem sempre os utilizam em prol de uma sociedade melhor e, sim, de suas vantagens pessoais.
Na área médica ou odontológica, por exemplo, não é raro constatarmos, entre a maioria de profissionais responsáveis, aqueles que se prevalecem da falta de conhecimento e necessidade orgânica de seus pacientes para realizarem procedimentos cirúrgicos absolutamente desnecessários e, por vezes, desastrosos. Não vou citar mais do que dois casos, ocorridos com um amigo.
O primeiro foi quando uma azia o levou a um cirurgião gastroenterologista. Este, após ver os resultados dos exames solicitados, diagnosticou-o com a doença intitulada Esôfago de Barret. Então, foi logo marcando uma série de exames pré-operatórios, sem ao menos propor-lhe um tratamento alternativo. Procurado outro especialista da área, este propôs ao meu amigo que fizesse tratamento clínico de alguns meses. Caso isso não resolvesse, indicaria o procedimento cirúrgico. Resultado: após esse período de tratamento, meu amigo nunca mais teve problemas gastresofágicos.
E a cirurgia, resolveria também? Sic, nem sempre... Sem contar que ninguém quer ser furado quando uma simples cápsula ou o “emplasto Brás Cubas” pode curá-lo.
O segundo caso pode também ser visto sob diferentes procedimentos adotados por dois dentistas: o primeiro deles realizou uma restauração de um dente do maxilar inferior do meu amigo, ao qual provocou uma grande fenda na gengiva. É o que em odontologia se chama de recessão ou retração gengival, que pode ter também outras causas, como o bruxismo, etc., e assim fica difícil à vítima provar a imperícia do profissional. Isso foi há cinco anos. Nunca mais meu amigo conseguiu mastigar alimentos sólidos, além de não suportar líquidos muito gelados nesse lado da boca.
O procedimento de outra profissional, em relação a um dente restaurado, do maxilar superior desse meu amigo, que lhe provocara dores, foi mais responsável: fez o RX dentário, analisou-o, detidamente, prescreveu-lhe um potente anti-inflamatório, como opção alternativa ao tratamento do canal do dente, e... heureca! Deu certo.
Nesta semana, um homem de 62 anos, jovem para os dias atuais, morreu por falta de transporte, em tempo hábil, de um hospital a outro, especializado no tratamento de problemas renais. O motivo? Falta de gasolina na ambulância. A família propôs ao responsável da área pagar o combustível, mas sua proposta foi recusada porque a “instituição pública” não admitia tal procedimento. Ou seja, a burocracia estatal e a falta de espírito humanitário levou a óbito um cidadão que precisava de atendimento urgente.
Será que se o paciente fosse um parente muito querido do tal “Estado” teria havido sua morte? Duvido!
Termino com um soneto de Cruz e Sousa, para nossa reflexão, intitulado:

CLAMANDO...

Bárbaros, vãos, dementes e terríveis
Bonzos tremendos de ferrenho aspecto,
Ah! deste ser todo o clarão secreto
Jamais pôde inflamar-vos, Impassíveis!

Tantas guerras bizarras e incoercíveis
No tempo e tanto, tanto imenso afeto,
São para vós menos que um verme e inseto
Na corrente vital pouco sensíveis.

No entanto nessas guerras mais bizarras
De sol, clarins e rútilas fanfarras,
Nessas radiantes e profundas guerras...

As minhas carnes se dilaceraram
E vão, das Ilusões que flamejaram,
Com o próprio sangue fecundando as terras...


quarta-feira, 12 de outubro de 2016




Em dia com o Machado 232 (jlo)

Após a conclusão de Memórias Póstumas, fui à editora entregar os textos digitados na atual versão do iPhone 7.0, adquirida em minha última viagem a New York, e dirigi-me à seção de entrega do arquivo original, conhecida pela sigla AAS, da editora Braziliense, na Capital do Brasil. 
Ali, fui informado sobre a necessidade de, antes, ir a três outras seções para carimbar uma pequena guia de entrada do original. Depois de ter rodado como pião, voltei à ASS, às 10h15, mas dei com os burros n’água desse setor. Pois li com meus próprios olhos o seguinte aviso, colado internamente, no vidro da porta agora fechada:

   Tendo em vista termos dedetizado a sala da AAS, não mais haverá expediente para o público externo hoje. Nossos funcionários estão trabalhando apenas internamente.
Horário de atendimento:  das 8h15 às 16h, de segunda a sexta-feira.

Na segunda-feira, voltei lá, pois fora informado de que a AAS seria a primeira e a última etapa da entrega. Ao ser atendido, porém, a funcionária da recepção esclareceu-me que o carimbo final do cupom seria dado no protocolo da editora, noutro setor, mas antes, eu deveria preencher um formulário, com todos os meus dados, inclusive telefone celular, e anexar cópia de minha identidade, após o que teria de percorrer cem metros até o fim da linha da burocracia...
Perguntei-lhe onde havia copiadora, para xerocar minha identidade e o formulário preenchido. A jovem disse-me que na biblioteca da editora eu encontraria uma dessas máquinas. A biblioteca ficava a duzentos metros do local onde estávamos.
Para lá fui e providenciei as cópias da documentação que levava em mãos. Em seguida, retornei ao sonhado protocolo, distante da AAS cerca de cem metros. Sem problema, pois sou um caminhante das ruas cariocas e, portanto, não há distância que me impeça alcançar meus objetivos.
Entreguei os documentos ao atendente do protocolo e ouvi deste a seguinte pergunta: — E a cópia da identidade, você a trouxe?
— ?... Meu Deus! As muitas letras estão acabando com o meu fosfato. A cópia esqueceu-me...
O jovem, todavia, numa demonstração de desprendimento inusitada, disse-me que copiaria minha identidade gratuitamente. Só havia uma condição, que aceitei: após a edição, eu deveria doar-lhe um dos meus livros com dedicatória de agradecimento.
Creio que, depois disso, fiquei mais desmemoriado do que se estivesse sofrendo do Mal de Parkinson. A cabeça doeu tanto, que tomei um AAS (ácido acetilsalicílico) para melhoral da cefaleia.
E nem me peça para explicar como é que pode haver expediente interno numa seção fechada e dedetizada, porque aí já é exigir demais, caro leitor. Pergunte lá na AAS.
Ainda bem que aquela não era uma repartição pública, onde somos SEMPRE muito bem atendidos.










sábado, 8 de outubro de 2016



Em dia com o Machado 231 (jlo)

Amiga leitora, hoje Joteli  prestará justa homenagem a uma linda mulher. Com a palavra meu secretário, que deseja expor seus devaneios poéticos em seu poema Rainha Iluminada.

Quando, no centro de Barreiras, vi
Tua chegada alegre, de repente,
Senti, no nosso encontro frente a frente,
Marcante sensação de déjà-vu.

Teu sorriso sem igual até então
Fez florescer em mim uma certeza:
Estava ali presente uma princesa
Que reinaria um dia em ma maison.

E por saber que eu folgaria vê-las
Deus não tardou a me mandar, do Céu,
Três belos astros, três lindas estrelas:
Fabiane, Cristiane e Daniel.

Minha querida e sempre amada Lourdes,
Agora que outros três astros chegaram,
Temos também Mateus, João e Lucas
Mas outros três também já se preparam...

Tu és prova de que, mais que o saber,
Será preciso amor e muita ação
Para que o ser não venha a padecer
Por falta de respeito ao seu irmão.

Tu és prova de que a simplicidade
E a doação de amor, mais que a ciência,
Expandem-se por toda a humanidade
Pois Deus é Pai de amor e de clemência.

O teu amor ao próximo  me faz
Sentir pequeno ante tua altura.
Às agressões respondes com brandura,
Seguir teus passos é viver em paz.

E assim termina Joteli sua homenagem à esposa amada, que faz da caridade ao próximo um exemplo de vida e jamais demonstra soberba, em razão de seu trabalho à frente da assistência aos mais necessitados, como humilde servidora de Jesus. 
Maria de Lourdes Pereira de Oliveira, muito obrigado pela pessoa maravilhosa que és.

Eu te amo.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016



Em dia com o Machado 230 (jlo)

Amiga leitora, ouvi dizer que Tancredo Neves dizia o seguinte: “Quando algum político precisa explicar, depois de dito, algo que repercutiu mal perante a nação, melhor teria sido não ter dito nada antes”. A clareza é qualidade fundamental na comunicação. Sem ela, tudo são trevas.
É exatamente assim que ocorre com os textos mal escritos: se o aluno ou uma pessoa qualquer escreve algo que só está claro para si e não para quem lê, melhor seria não ter escrito aquilo. A ambiguidade ou duplo sentido pode ser interessante na literatura, quando o narrador escreve alguma coisa com um sentido literal e outro metafórico. Era o que eu fazia, quando encarnado pela última vez, no Rio de Janeiro, após minha encarnação como Laurence Sterne, na Inglaterra, no século XVIII. Por isso mesmo, lia suas obras e imitava seu estilo burlesco e satírico. Algo ali era-me familiar...
Houve um tempo em que os animais falavam. Se os cidadãos da atualidade se inspirassem na sabedoria daqueles seres, por certo, o mundo seria bem mais prático. Cito um caso.
Acompanhei Joteli e esposa em visita a uma amiga recém-operada do ombro ontem. Ao adentrarem a casa da convalescente, sua cadela Pequinês recebeu os recém-chegados com estardalhaço, latindo insistentemente. Entretanto, logo parou de latir quando os anfitriões lhe pediram para se calar. Chama-se Lis e é bastante agitada. Acompanhou o dono da casa e seus amigos até a sala e sentou-se num dos sofás, atenta às suas conversas com os recém-chegados.
De vez em quando, latia, como quando o genro e a filha do Paulo, o anfitrião, que lá estavam há algum tempo, despediram-se. No entanto, um pouco mais tarde, fiquei impressionado com sua manifestação de respeito, no momento em que a esposa de Joteli propôs fazer uma prece de rogativa aos céus em benefício da melhora da amiga enferma que ali já estava.
Lis fechou seus olhos e manteve-se num silêncio profundo e reverencioso, assim permanecendo até o fim da prece.
Talvez seja por isso que um ex-ministro afirmou, ao lhe ser perguntado sobre a razão de seu profundo amor ao seu cãozinho de estimação: — Cachorro também é gente. O problema não é esse e, sim, o de que muita gente é tratada pior do que cachorro, mas muito cachorro demonstra ter mais respeito às coisas divinas do que nós.
Estendemos as mãos, aplicamos um passe na convalescente e em seu esposo. Lis fechou os olhinhos e nos acompanhou, enquanto orávamos, como se entendesse tudo. Certamente que não pescava uma só palavra do que dizíamos, mas sentiu as vibrações positivas e delas também desfrutou. É a alma, em processo de transformação, como disse o filósofo espírita francês Léon Denis em sua obra intitulada O problema do ser, do destino e da dor: “A alma dorme nos minerais, sonha nos vegetais, agita-se nos animais e desperta no homem”.
Eu diria que, antes, a alma já despertou nos cachorros...
Depois disso, o ser espiritual continua trabalhando os sentimentos, errando e acertando. Percorre a estrada eterna da lei de evolução, submetido à lei de ação e reação, até aprender que somente o amor é lei divina. Então, após o seu despertar, passa a se esforçar permanentemente no bem, até alcançar o objetivo máximo da recomendação do Cristo: “Brilhe a vossa luz!”

sexta-feira, 23 de setembro de 2016



Em dia com o Machado 229 (jlo)

Boa noite!
Que há vocábulos idênticos ou parecidos que se prestam a vários significados, amiga leitora, ninguém desconhece. A isso, os gramáticos chamam de homonímia e paronímia. Parônimos são palavras muito parecidas, no som, e de significação diversa. Exemplos: ratificar: confirmar; retificar: corrigir. Homônimas são palavras iguais na escrita ou na pronúncia e de significados diferentes.
Uma palavra homônima é pichar.
Primeiro significado desse vocábulo: maldizer algo ou alguém. Exemplo: o procurador pichou de propinocrata o ex-presidente. Nesse caso, temos também um neologismo, que é a palavra criada com base no substantivo propina, ou seja, benefício ilegal, mais o sufixo -crata, derivado de cracia, do grego kratía, que significa poder, força; o significado dado pelo procurador à palavra propinocrata é o de alguém que comanda o esquema do favorecimento financeiro ilegal.  O vocábulo pichar é um homônimo homógrafo e homófono, ou seja, que possui a mesma grafia e o mesmo som de pronúncia.
Segundo significado de pichar: escrever ou desenhar palavras, frases ou símbolos semelhantes a letras em muros, fachadas de edifícios, paredes de casas ou apartamentos, pontes, etc.
Outro dia, um senhor perdeu o braço e o filho dentista para um bando de pichadores surpreendidos por aquele quando pichavam o muro de sua casa. Enraivecido, por tudo observar de câmaras existentes nas dependências internas de sua casa, o senhor não refletiu e, em vez de ligar para a polícia, pegou um pedaço de pau e saiu de casa sozinho para enfrentar os quatro jovens pichadores.
Não deu outra, também armados com paus, os rapazes agrediam-no, covardemente, quando seu filho dentista, que chegara a casa naquele instante, viu o pai sendo brutalmente surrado e tentou defendê-lo. Resultado, apanhou até morrer, e seu pai acabou ficando sem um dos braços em virtude das pauladas recebidas.
Até o momento da reportagem, dois agressores estavam presos, e outros dois foragiram-se.
Outro dia, foi feita uma reportagem com pichadores, por jornalista de canal de tv. A maioria é empregada e faz esse “trabalho” por pura diversão ou, segundo diz uma pichadora, por crítica ao sistema político, em altas horas da noite.
Um deles fazia parte de dupla pioneira famosa. Hoje é advogado e não mais picha. Seu concorrente do passado tornou-se designer e também abandonou a pichação.
Caso interessante é o de outro pichador, homem maduro, que tem mulher, filha e trabalha como comerciante. Disse ao repórter que há mais de trinta anos se diverte pichando paredes altas de prédios, pontes, etc. Considera-se grande artista.
Observando, porém, que sua casa não possui qualquer marca de pichação, o profissional de imprensa perguntou-lhe o motivo disso. Sua resposta foi a de que não queria sujar o seu lar tão querido, onde residia com sua mulher, pichada no braço e perna, e sua filha, que nenhuma marca de pichação trazia no corpo, mas dizia-se admiradora da “arte” paterna.

Parodiando antigo refrão popular, diremos: “Pichação em imóvel alheio é refresco”.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016



Em dia com o Machado 228 (jlo)

Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco foi um dos mais célebres e produtivos escritores portugueses que, aos 65 anos, suicidou-se com um tiro de revólver na têmpora direita. Seu gesto desesperado foi em consequência de ter ficado cego, após ter sido contaminado pela sífilis em grau avançado.
Camilo nasceu em 16 de março de 1825, em Mártires, Lisboa, e seu falecimento deu-se em 1º de junho de 1890, em Vila Nova de Famalicão, Portugal. Tivera vida boêmia e de jogatina, embora tenha escrito mais de 260 obras, com linguagem primorosa, o que lhe rendeu justas homenagens do governo português.
Despertou, cerca de seis meses depois, aprisionado num vale profundo e sombrio. Ali, ouvia insistentes uivos enfurecidos de espíritos em profundo sofrimento. O solo cheirava mal, “era imundo, pastoso, escorregadio, repugnante!” Sentia-se asfixiar num clima gelado, escuro e com nuvens de tempestade pairando no espaço enegrecido de uma gruta gigantesca, repleta de espíritos criminosos e agressivos, com os quais, inúmeras vezes, tinha de lutar e rolar na lama fluídica onde se encontrava, com os sentidos mais apurados e, consequentemente, mais sofridos.
O insulto e o ridículo, a truculência e o sarcasmo feriam-no imensamente naquele lugar, onde a palavra Deus não existia...
Percebe, então, que todos os espíritos prisioneiros, como ele, naquela região trevosa e de tormentos inauditos, não usufruiriam paz e esperança jamais. O inferno narrado por Dante Alighieri era como o paraíso, em vista do que observava e sentia em torno de si. O vale dos hansenianos, em Jerusalém, repulsivo e humilhante, seria um lugar reconfortador, em relação àquele em que eles estavam.
Lá havia, ao menos, solidariedade. Cá somente existia choro e “ranger de dentes”, em vista da dor moral sentida pelos réprobos do lugar. No vale dos hansenianos, desfrutava-se do sol benfazejo, do orvalho das madrugadas, do aconchego dos que se amavam e até... diversões. Podia-se ver e ouvir, ali, o canto dos pássaros, o voo das andorinhas, o brilho das estrelas, e até mesmo era possível namorar e sonhar com uma alvorada libertadora.
Mas no vale dos suicidas, na caverna onde Camilo fora aprisionado, só havia sombras, espectros tenebrosos, aves agourentas, risos sinistros, gritos de revolta, de loucura e de dor inauditos. Ali, não havia céu, não havia sol, não havia trégua para a dor causada pelos atos desatinados dos trânsfugas da Lei Divina, do Pai  que nos destinou a vida eterna e, com ela, a responsabilidade de colher aquilo que semeamos, de bom ou de mal.
A vida além-túmulo é real. Dali saem as inspirações para a existência no corpo físico. Dela decorrem os planejamentos para que avancemos em conhecimentos e, sobretudo, em sabedoria. Porém, todos somos dotados de livre-arbítrio e, do uso que fizermos dessa liberdade, podemos encontrar, após a vida material, o bem ou o mal, a tristeza ou a alegria, o sofrimento ou a felicidade.
E o espírito criminoso, somente após um período indefinível de tormentos espirituais, que lhe parece uma eternidade, encontra, desde que sinceramente arrependido, mas também profundamente atormentado, o socorro dos espíritos superiores, enviados de Deus, Pai amoroso que não desampara nenhum dos seus filhos.
Por isso, leitor amigo, mais uma vez, neste mês dedicado mundialmente à prevenção do suicídio, deixo consigo o alerta de quem precisou passar um longo tempo no mundo espiritual sofrendo as consequências de uma vida profana e uma “morte” voluntária: jamais se deixe levar por esse gesto extremo, em tempo algum.
Viva com alegria e lembre-se da frase citada por Chico Xavier: “Ninguém pode voltar atrás e fazer um novo começo, mas todos podemos começar agora e construir um novo fim”. Que esse fim seja sempre o do bem e o do respeito à vida, dom inviolável de Deus, nosso Pai Eterno.
E se você ainda tem dúvida quanto às consequências terríveis do gesto do suicídio, faço-lhe um último apelo: leia a obra psicografada pela médium Yvonne do Amaral Pereira, editada pela Federação Espírita Brasileira, intitulada Memórias de um suicida. Com certeza, após essa leitura, sua vontade de viver e de amar estará mais robustecida.

  Rumo à perfeição   Em nossa luta contra o mal em nós, O mal que não queremos sobreleva Por nossa imersão em densa treva Desde o tempo de n...