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segunda-feira, 20 de julho de 2020



EM DIA COM O MACHADO 428
TENTATIVA FRUSTRADA DE ALFABETIZAR VITALINA E SUA PREDIÇÃO (Jó)
Centro de Convivência da Pessoa Idosa completa um ano de ...
           
            Aos vinte anos, precisei trancar a matrícula quando cursava o segundo ano de técnico de contabilidade no Colégio Nossa Senhora do Brasil, na Penha, RJ, com bolsas de estudos sempre fornecidas pelo diretor do colégio, Sr. Rossini Lopes da Fonte.  Eu incorporara-me ao Exército, onde, três anos depois, concluí o curso de formação de sargentos. Fui então transferido para o 19º Batalhão de Caçadores, em Salvador, BA.
            Após ano e meio lá, transferiram-me para o 4º Batalhão de Engenharia de Construção, situado em Barreiras, BA, que, na época, estava construindo a estrada Barreiras, BA- Brasília, DF. Foi ali, em Barreiras, que cheguei a ser convidado por um colega de farda a dar aula de português em cursinho que ele dirigia na cidade. Como eu só cursara até o segundo ano incompleto do atual ensino médio, recusei o convite.
            Algum tempo depois, conheci Vitalina, já idosa, que esteve na inauguração do centro espírita que eu frequentava. Ela possuía o dom da vidência e sempre me convidava a participar sem cobrar, a ninguém, um centavo sequer, como pagamento de suas sessões mediúnicas. Colocava um pouco d’água num copo, concentrava-se nele e passava a revelar-me o que os Espíritos lhe permitiam ver. Uma dessas revelações, confirmada, anos após, foi a de que eu escreveria diversas obras futuramente. Isso foi-me dito quando eu jamais imaginara ser escritor...
            Vitalina, essa alma simples e boa, era analfabeta. Então, tive a ideia de tentar alfabetizá-la, mesmo sem eu possuir conhecimento didático para isso. Consegui um livro com o abecedário, comprei algum material escolar e passei a tentar ensiná-la a ler. E ela, com toda a boa vontade, mas com alguma dificuldade, lia e ria encantada:
— Bê a... bá; bê é... bé...
Não demorou muito tempo, porém, conheci Lourdes, com quem me casei. E Vitalina conheceu o senhor Antônio, com o qual passou a viver. Um dia, já transferidos para Brasília, fomos a Barreiras nas férias e, em visita ao casal, perguntei-lhe:
— E as aulas de alfabetização, Vitalina, têm continuado com o Sr. Antônio? — Ao que ela respondeu, com tristeza nos olhos e ante o sorriso dele:
— Antônio não tem paciência em me ensinar a ler, mas também minha cabeça, nessa idade, já não ajuda...
Nunca mais os vimos. Anos depois, Vitalina desencarnou.
Tudo o que a baiana Vitalina me disse concretizou-se em Brasília, onde residimos desde 1980. O mais interessante é que os baianos parecem ser os que mais adotam, nas escolas, nosso livro didático: Texto Acadêmico: técnicas de redação e de pesquisa científica, cuja décima edição a Editora Vozes, de Petrópolis, RJ, reimprimiu em 2019. Tanto é assim que, anos atrás, fui convidado a proferir palestra num seminário sobre técnicas de pesquisa, com base nessa obra, na faculdade situada em Paripiranga, cidade do interior baiano.
“— Os Espíritos influem em nossos pensamentos e em nossos atos?” — pergunta Allan Kardec na questão 459 d’O Livro dos Espíritos.
“— Muito mais do que imaginais, pois frequentemente são eles que vos dirigem”. — É o que lhe foi respondido. E temos constatado, ano após ano, a verdade desta resposta. Sim, os Espíritos guiam-nos. Mas há anjos encarnados que os auxiliam e nos deixam marcas indeléveis, ainda que façamos tão pouco por estes...


sábado, 18 de julho de 2020




11 AMAR O PRÓXIMO COMO A SI MESMO



O maior mandamento – Fazer aos outros o que gostaríamos que eles fizessem por nós. Parábola dos credores e dos devedores. Dê a César o que é de César. Instruções dos Espíritos: A lei de amor - O egoísmo. A fé e a caridade - Caridade para com os criminosos. Deve-se expor a vida por um malfeitor?

11.1 O MAIOR MANDAMENTO

Os fariseus, quando ouviram que Ele tinha feito calar a boca aos saduceus, juntaram-se em conselho. E um deles, que era doutor da lei, para o tentar, fez-lhe esta pergunta: Mestre, qual é o maior mandamento da lei? Jesus lhe respondeu: Ame o Senhor seu Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todo o seu entendimento, esse é o maior e o primeiro mandamento. E aqui está o segundo, semelhante a esse: Ame seu próximo como a si mesmo. Toda a lei e os profetas estão contidos nesses dois mandamentos (Mateus, 22:34-40).
Façam aos homens tudo o que vocês quiserem que os homens lhes façam. Porque esta é a lei e os profetas (Mateus, 7:12).
Tratem todos os homens como gostariam que eles os tratassem. (Lucas, 6:31).
O Reino dos Céus é comparado a um rei que quis tomar contas a seus servidores. E tendo começado a fazê-lo, apresentaram-lhe um que lhe devia dez mil talentos. Mas como não tinha meios de os pagar, mandou seu senhor que o vendessem a ele, a sua mulher, a seus filhos e tudo o que tinha, para pagamento da dívida. O servidor, lançando-se-lhe aos pés, fazia-lhe esta súplica: Senhor, tenha um pouco de paciência, que eu lhe pagarei tudo. Então o senhor daquele servidor encheu-se de compaixão, deixou-o ir e perdoou-lhe a dívida. Mas esse servidor, ao sair, encontrou um de seus companheiros que lhe devia cem dinheiros e, apertando sua garganta com as mãos, quase o asfixiava, dizendo-lhe: Pague-me o que deve. E seu companheiro, lançando-se aos seus pés, rogava-lhe dizendo: Tenha um pouco de paciência e eu lhe pagarei tudo. Porém ele não o quis escutar: retirou-se e fez que o metessem na prisão, onde deveria ficar até pagar a dívida.
Os outros servidores, seus companheiros, vendo o que se passava, ficaram extremamente aflitos e foram comunicar a seu senhor tudo o que tinha acontecido. Então seu senhor o fez vir e lhe disse: Mau servidor, eu lhe perdoei a dívida toda, porque você me veio rogar isso; não devia você, desde então, compadecer-se igualmente do seu companheiro, assim como também eu me compadeci de você? E seu senhor, tomado de cólera, mandou que o entregassem aos algozes, para que o retivessem, até que ele pagasse tudo o que devia.
É assim que meu Pai que está no Céu os tratará se não perdoarem, do fundo do coração, as faltas que seus irmãos houverem cometido contra cada um de vocês (Mateus, 18:23-35).
"Amar ao próximo como a si mesmo; fazer aos outros o que gostaríamos que nos fizessem", é a expressão mais completa da caridade, porque ela resume todos os deveres para com o próximo. Não se pode ter guia mais seguro, a esse respeito, do que tomar como medida do que se deve fazer aos outros o que se deseja para si mesmo. Com que direito exigiríamos de nossos semelhantes melhor tratamento, mais indulgência, benevolência e devotamento, do que lhes damos? A prática dessas máximas leva à destruição do egoísmo. Quando os homens as tomarem como regras de conduta e como base de suas instituições, compreenderão a verdadeira fraternidade, e farão reinar entre si a paz e a justiça. Não haverá mais ódios nem dissensões, mas união, concórdia e benevolência mútua.

Tradução livre do Prof. Dr. Jorge Leite de Oliveira.


quinta-feira, 16 de julho de 2020





O ESPIRITISMO, A MISSÃO DO BRASIL E DA FEB
Jorge Leite de Oliveira

Prédio frontal da FEB em Brasília. SGAN 603, Conj. F, Av. L2 Norte

Em Jerusalém, ao narrar a Parábola dos vinhateiros homicidas, na qual se referia à morte dos profetas pelos judeus, Jesus diz a estes que, assim como assassinaram aqueles, também o matariam. “Por isso — conclui — vos afirmo que o Reino de Deus vos será tirado e confiado a um povo que o fará produzir seus frutos [...]” (Mateus, 21: 33- 43). E João, 14:15-16, registra a promessa do Cristo de enviar-nos outro Consolador, para permanecer conosco para sempre.
            Passaram-se os séculos e, em 18 de abril de 1857, a primeira edição d’O livro dos espíritos iniciaria o pujante trabalho dos Espíritos, cuja obra seria ampliada por outros quatro livros e a Revista Espírita. Esse trabalho teve, em Allan Kardec, seu organizador metódico e autor inspirado de grande número de comentários, os quais demonstram sua destacada missão a serviço do Cristo. Iniciava-se assim a promessa de Jesus narrada por João no citado capítulo 14 e em 16:12 a 14:

Tenho ainda muito que vos dizer, mas não podeis agora suportar. Quando vier o Espírito da Verdade, ele vos guiará na verdade plena, pois não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará as coisas futuras. Ele me glorificará porque receberá do que é meu e vos anunciará (BÍBLIA de Jerusalém, 2004).

            Segundo Mary Del Priori (2014, p. 63), já em 1860 Casimir Lieutaud publica o primeiro livro espírita no Brasil, intitulado Os tempos estão chegados, cuja influência, na divulgação da Doutrina Espírita em nosso país, foi muito grande. Lieutaud, professor francês, “dono do renomado Colégio Francês”, foi correspondente do baiano Luiz Olímpio Teles de Menezes, “a quem incentivava contra as forças conservadoras da Igreja”.
Em abril de 1861, o Espírito Massilon transmite-nos poética mensagem, publicada por Kardec na Revista Espírita, cuja frase final foi a seguinte: “Esta criança não tem pátria; percorre toda a Terra, procurando o povo que há de ser o primeiro a arvorar a sua bandeira, e esse povo será o mais poderoso entre os povos, pois tal é a vontade de Deus” (In KARDEC, 2004, p. 193).
            Em 1865, Teles de Menezes fundou a primeira Sociedade Espírita na Bahia. E em 1872 foi fundado o Grupo Confúcio no Rio de Janeiro. Deste grupo, formar-se-ia a Federação Espírita Brasileira (FEB) em 1º de janeiro de 1884.
Em 1869, Teles de Menezes lançou o primeiro jornal espírita do Brasil: O Eco de Além-Túmulo. De cada assinatura vendida, ele destinava mil réis para a compra de cartas de alforria para a libertação de crianças escravas nascidas na pátria brasileira.
            Sobre esse periódico, disse Allan Kardec que era preciso “grande coragem de opinião para criar, num país refratário”, como o nosso, um jornal destinado a popularizar os ensinamentos espíritas. Destacamos o seguinte, do longo e belo trecho de Teles de Menezes, citado por Kardec na Revista Espírita de novembro de 1869:

A ação moralizadora do Espiritismo se demonstra quando consideramos que o egoísmo, essa chaga cancerosa da Humanidade, engendrada pelo materialismo, negação formal de todo princípio religioso, se acha profundamente abalado por esta aurora celestial, que o Todo-Poderoso, em sua infinita misericórdia, dignou-se a enviar à Terra como precursora dessa nova e bem-aventurada Era, em que os homens, melhor compreendendo os seus deveres recíprocos, de boa vontade cumprirão os salutares preceitos de Jesus: “Ama ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Tudo o que queres que te façam os homens, faz também a eles”.

Em 1875 e 1876, as primeiras traduções das obras básicas de Allan Kardec para o português já haviam sido feitas por Joaquim Carlos Travassos, membro do Grupo Confúcio, no Rio de Janeiro.  E Augusto Elias da Silva, em 21 de janeiro de 1883, fundou a revista Reformador, que se tornaria o mensário de divulgação do Espiritismo Cristão da FEB. Esta revista, atualmente, é um dos mais antigos periódicos espíritas do Brasil, ao longo de seus 137 anos de existência.
Informa-nos Luciano dos Anjos que,

Anos depois, em 1920, a espiritualidade faz a primeira menção direta ao Brasil. Na Casa de Ismael, a Federação Espírita Brasileira, o médium Albino Teixeira recebe a célebre mensagem assinada pelo Espírito da Verdade, confirmando a missão do “rincão de Santa Cruz”: “A árvore do Evangelho, semeada há dois mil anos na Palestina, eu a transplantei para o rincão de Santa Cruz, onde o meu olhar se fixa, nutrindo o meu Espírito a esperança de que breve florescerá, estendendo a sua fronde por toda a parte e dando frutos sazonados de amor e perdão [...]” (In: MACHADO, 1996, prefácio).

Em 1938, no prefácio da obra Brasil, coração do mundo, pátria do evangelho, publicada pela FEB Editora e ditada pelo Espírito Humberto de Campos, Chico Xavier psicografou o seguinte esclarecimento de Emmanuel, seu guia espiritual, antecipando-nos sobre o que ocorreria, atualmente, no mundo:

Se outros povos atestaram o progresso, pelas expressões materializadas e transitórias, o Brasil terá a sua expressão imortal na vida do Espírito, representando a fonte de um pensamento novo, sem as ideologias de separatividade, e inundando todos os campos das atividades humanas com uma nova luz [...]. Peçamos a Deus que inspire os homens públicos, atualmente no leme da Pátria do Cruzeiro, e que, nesta hora amarga em que se verifica a inversão de quase todos os valores morais, no seio das oficinas humanas, saibam eles colocar muito alto a magnitude dos seus precípuos deveres. E a vós, meus filhos, que Deus vos fortaleça e abençoe, sustentando-vos nas lutas depuradoras da vida material (XAVIER, 2013, p. 8).

Ante tantos problemas políticos e socioeconômicos atuais em nossa nação, algumas pessoas vêm questionando a obra do Espírito Humberto de Campos, por atribuir a condição de “pátria do evangelho” ao nosso país de dimensão continental. Por outro lado, dizem, “coração do mundo só se for pelo formato geográfico do Brasil”, porque aqui a violência atingiu índices mais altos do que os de muitos países ainda em guerra.
Com todo o respeito, discordamos de quem não crê, ou não mais acredita, nessa predestinação de nosso país. Não é na comparação entre a política brasileira atual (em 2018) e a das demais nações democratas que o Brasil se enquadra como pátria do Evangelho. Também não o é pela sua situação socioeconômica decorrente da corrupção e más administrações. Isso é temporário. É pelo predomínio do sentimento fraterno e religioso da maioria de nossa gente...
            Esse sentimento deve-se ao fato de ser o Brasil uma das maiores nações cristãs e o maior país espírita da Terra. E, embora sejamos minoria, em relação aos demais cristãos, o trabalho social desenvolvido aqui pelos espíritas e suas instituições é digno da admiração e respeito em todo o mundo. Como exemplo, pesquisa realizada pelo Sistema Brasileiro de Televisão, em 2012, elege Chico Xavier como “O maior brasileiro de todos os tempos”, tanto pelas mensagens de consolação que ele recebeu, dos Espíritos elevados, quanto pela obra social que realizou, de auxílio material a famílias brasileiras e estrangeiras. Chico jamais aceitou qualquer pagamento pelas centenas de obras psicografadas por ele, destinando os valores de suas vendas às editoras espíritas e instituições beneficentes.
Outros valorosos médiuns de nosso país, igualmente, adotaram seu princípio, que também é o de Cristo: “Dai de graça o que de graça recebestes”, pois consideraram sempre as obras que psicografaram como produtos dos ensinamentos dos Espíritos e não de seu exclusivo trabalho intelectual. Como exemplo, citamos a médium Zilda Gama, Yvonne do Amaral Pereira, Raul Teixeira e Divaldo Pereira Franco. Os dois últimos ainda desenvolvem um trabalho social da mais alta relevância, em Niterói e Salvador, respectivamente.
O Espiritismo, como dissemos no início, possui caráter consolador, ou seja, de nos dar satisfação e ânimo pela felicidade que nos reserva a vida espiritual após a existência na Terra, se bem agirmos ante nossas expiações e provas. Porém, essa nova revelação não se assenta na cabeça de um só homem, como reconheceu Allan Kardec. Ela tem por coordenador e supervisor o Cristo, representado pelo Espírito da Verdade, e por divulgadores os Espíritos superiores convocados ao trabalho de restauração do Evangelho.
Então, quem teria, atualmente, entre nós, a função de direção do Espiritismo? Esse tema está desenvolvido por Allan Kardec em Obras póstumas, no seu capítulo Constituição do Espiritismo, do qual destacamos, do item III, os seguintes trechos: “Reconhecida a necessidade de uma direção [...] ninguém conviria menos do que um ambicioso, por isso mesmo orgulhoso, para chefiar uma doutrina que se baseia na abnegação, no devotamento, no desinteresse, na humildade” (KARDEC, 2009, p. 452).
Mais adiante, acrescenta: “Como não é racional admitir-se que Deus confie tais missões a ambiciosos ou a orgulhosos, as virtudes características de um verdadeiro messias têm que ser, antes de tudo, a simplicidade, a humildade, a modéstia, numa palavra, o mais completo desinteresse material e moral” (id., p. 454). Allan Kardec diz, ainda, com sua autoridade moral:

O progresso geral é a resultante de todos os progressos individuais; mas o progresso individual não consiste tão só no desenvolvimento da inteligência, na aquisição de alguns conhecimentos. Isto é apenas uma parte do progresso, que não conduz necessariamente ao bem, visto que há homens que usam mal do seu saber. O progresso consiste, sobretudo, no melhoramento moral, na depuração do Espírito, na extirpação dos maus germens que existem em nós. Eis o verdadeiro progresso, o único que pode garantir a felicidade ao gênero humano, por ser o oposto mesmo do mal. O homem de inteligência mais cultivada pode fazer muito mal; aquele que se houver adiantado moralmente só fará o bem. É, pois, do interesse de todas as criaturas o progresso moral da Humanidade (KARDEC, 2009, p. 494).

Por fim, diz o Codificador do Espiritismo que

Em vez de um chefe único, a direção será confiada a uma direção central permanente, cuja organização e atribuições serão definidas de maneira a não permitir arbitrariedades [...]. A comissão central será, pois, a cabeça, o verdadeiro chefe do Espiritismo, chefe coletivo, que nada poderá fazer sem o assentimento da maioria. (Op. cit., it. IV – Comissão central).

            Nunca é demais lembrar o caráter de Cristianismo redivivo da Doutrina Espírita, que restaura a pureza inicial da mensagem de Jesus Cristo, iniciada na Casa do Caminho, sob a direção de Pedro e outros apóstolos, e com a extraordinária divulgação de Paulo de Tarso aos gentios, narrada na obra Paulo e Estêvão, ditada por Emmanuel a Chico Xavier.
No Brasil, a missão de orientação, visando à unificação do Espiritismo cabe à Federação Espírita Brasileira, por meio do seu Conselho Federativo Nacional (CFN). Podemos comparar a situação do Espiritismo, tanto em nossa Nação como no mundo atual, e a missão da Federação Espírita Brasileira, com a vivida pelos primeiros apóstolos e discípulos do Cristo. Em conversa com Barnabé sobre a situação de Jerusalém, que dava a “[...] impressão de profundo desmantelo e acentuada indiferença pelas lições do Cristo [...]” Paulo diz-lhe o seguinte:

Nada podemos fazer sem o Mestre, mas não é lícito esquecer que Jesus instituiu no mundo uma obra eterna e, para iniciá-la, escolheu doze companheiros. Certo, estes nem sempre corresponderam à expectativa do Senhor; contudo, não deixaram de ser os escolhidos. Assim, também precisamos examinar a situação de Pedro. Ele é, sem contestação, o chefe legítimo do colégio apostólico, por seu espírito superior afinado com o pensamento do Cristo, em todas as circunstâncias; mas, de modo algum poderá operar sozinho [...]. Que será de Pedro se lhe faltar a cooperação devida? (XAVIER, 2002, cap. 4, p. 351).

            Referindo-se ao extraordinário trabalho em prol da unificação do movimento espírita, iniciado pelos pioneiros trabalhadores da Doutrina no Brasil, com o estabelecimento de um órgão federativo nacional, à frente dos quais se destacou Bezerra de Menezes, nos planos físico e espiritual, diz o Espírito Humberto de Campos, sobre a missão da FEB:

Podem as inquietações da Terra separar, muitas vezes, os trabalhadores humanos no seu terreno de ação, mas a sociedade benemérita, onde se ergue a flâmula luminosa — “Deus, Cristo e Caridade” — permanece no seu porto de paz e de esclarecimento A sua organização federativa é o programa ideal da Doutrina no Brasil, quando chegar a ser integralmente compreendido por todas as agremiações de estudos evangélicos do país (XAVIER, 2013, p. 175).
           
Conclusão, o Espiritismo é o Consolador prometido por Jesus para restaurar seu Evangelho e revelar ao mundo as Leis Divinas, ainda pouco conhecidas e tidas por milagres, que não existem, pois todos os fenômenos tidos como tais não passam de leis até então desconhecidas. O Brasil é a Pátria escolhida por Ele, o Cristo de Deus, para expandir essa terceira Revelação à luz do seu Evangelho. Finalmente, à FEB, por sua organização nos moldes propostos pelo Codificador, cabe a missão de orientar a unificação do movimento espírita, sem imposições, mas observando o princípio de decisão majoritária, em todas as suas decisões, sob o lema: “Trabalho, solidariedade, tolerância” (KARDEC, 2009, p. 23).

REFERÊNCIAS
BÍBLIA de Jerusalém. 3. impr. São Paulo: Paulus, 2004.
KARDEC, Allan. Obras póstumas. Trad. Evandro Noleto Bezerra. Rio de Janeiro: FEB, 2009.
______. Revista Espírita 1861: jornal de estudos psicológicos. Ano 4, n. 4, abr. 1861. Ensinos e dissertações espíritas, it. Vai nascer a verdade.  Trad. Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2004.
______. ______. ano 12, n. 11, nov. 1869. Biografia – O Eco de Além-Túmulo. Trad. Evandro Noleto Bezerra. Brasília: FEB, 2005.
MACHADO, Ubiratan. Os intelectuais e o espiritismo: de Castro Alves a Machado de Assis. 2. ed. Niterói: Publicações Lachâtre, 1996.
PRIORE, Mary del. Do outro lado: a história do sobrenatural e do espiritismo. São Paulo: Planeta, 2014.
XAVIER, Francisco Cândido. Brasil, coração do mundo, pátria do evangelho. Pelo Espírito Humberto de Campos. 33. ed. Brasília: FEB, 2013.
______. Paulo e Estêvão. Pelo Espírito Emmanuel. 2. ed. espec. Rio de Janeiro: FEB, 2002.

Publicado em Reformador/FEB set. 2018, p. 18- 22.


terça-feira, 14 de julho de 2020


EM DIA COM O MACHADO 427
 O CORONAVÍRUS E O NOVO NORMAL (Jó)

Jornalistas arriscam a vida na crise do coronavírus em meio a ...
            

           Quando o jornalista de famoso canal de TV saiu às ruas e adentrou algumas casas para saber de seus entrevistados o que estavam sentindo em relação à pandemia provocada pelo coronavírus, ouviu as mais curiosas respostas.
— Sinto pânico! — respondeu-lhe uma jovem senhora de quarenta anos.
— Muita raiva — completou sua mãe de 63 anos —, porque estou presa em casa sem ter cometido nenhum crime.
— Pois eu já estou impaciente de tanto ouvir reclamação de Maria — acrescentou o marido da anciã —. É um tal de dizer que eu não a ajudo em nada, que passo o dia vendo televisão, que eu tenho de jogar o lixo fora, que está com medo de morrer... Não está fácil. Se eu não estivesse com 65 anos de idade, pediria o divórcio!
Saindo dali, o jornalista viu um casal sem máscara caminhando de mãos dadas na rua. Então perguntou-lhes se não ficaram sabendo da proibição do governador para que ninguém andasse assim em via pública. A jovem, timidamente, respondeu-lhe, com o assentimento de cabeça do namorado:
— É mesmo? Não sabíamos disso. Ontem mesmo vimos o governador passeando nesta rua sem máscara!? E o entrevistador não encontrou outra resposta a não ser esta:
— Ah! sim, mas ele é o governador... E saiu de fininho para não apanhar do musculoso jovem que acompanhava a moça.
Avistando um casal acompanhado de sua filhinha de oito anos, perguntou à menina se ela estava sentindo falta dos coleguinhas da vizinhança e da escola. A resposta o fez sorrir:
— Dos vizinhos eu não sinto falta, pois estamos sempre brincando juntos, mas de máscara, não é mesmo, mamãe?
— E da escola, você não sente falta?
— Só um pouquinho, pois agora, toda a tarde, mamãe liga o computador e eu acompanho a aula on-line.
— E você está gostando das aulas on-line?
— São horríveis — respondeu a menina, quase chorando.
O pai apressou-se em socorrer a filha. Disse que a menina ainda não se acostumara a ouvir a professora a distância sem poder interagir com seus coleguinhas, ainda que os visse pelo vídeo.
Em seguida, o jornalista foi ao apartamento de um advogado e ficou sabendo que este fechara seu escritório, mas estava muito feliz.
— Como! — respondeu-lhe o entrevistador — como pode estar feliz, se precisou fechar seu escritório? — A resposta foi esta:
— Fechei o escritório, que funcionava no 29º andar de edifício comercial situado a uma hora de trânsito daqui, mas agora faço todo o trabalho de casa, onde montei meu novo escritório. E nem preciso ir ao cartório, pois seus serviços são on-line.
De uma vendedora de bolos, soube que sua clientela delivery aumentara tanto, que ela precisou contratar mais cinco auxiliares. De um vendedor de livros e-book, soube que os brasileiros estão lendo bem mais. Em consequência, obras clássicas como as de Machado de Assis, Graciliano Ramos, Clarice Lispector, Arthur Conan Doyle, Agatha Christie e outros estão vendendo mais que picolé Kibon na praia.
Enfim, leitora, o mundo está mudando. Estamos reaprendendo a conviver com as ideias contrárias às nossas, dentro do próprio lar, e respeitá-las. Percebemos que é desumano alguém precisar deslocar-se durante três, quatro horas ou mais para fazer o que de sua própria casa poderia ser feito. Descobrimos que as crianças precisam de aulas, mas também da educação dos pais, que podem agora acompanhá-las de perto, no dia a dia. E que elas precisam de lazer e companhia...
É isso! Depois do coronavírus, o mundo nunca mais será como antes. Mas não podemos esquecer que, regendo todos os fenômenos da natureza, está Deus, aquele Pai amoroso que Jesus nos lembrou:
— Até os cabelos de suas cabeças estão contados. E não cai uma folha de uma árvore sem que Deus o perceba.
Amemo-nos, pois, e respeitemo-nos como filhos e filhas de Deus que todos somos. Quando a pandemia passar, o mundo estará bem melhor!

domingo, 12 de julho de 2020



Questões propostas por Kardec e respondidas pelo Espirito Luís[1]


Ninguém sendo perfeito, isso significa que ninguém tem o direito de repreender seu próximo?

Luís
Paris, 1860

Com certeza, tem, pois cada um de vocês deve trabalhar para o progresso de todos, e sobretudo daqueles cuja tutela lhes foi confiada. Mas isso é também uma razão para o fazer com moderação, com uma intenção útil, e não como geralmente se faz, pelo prazer de denegrir. Neste último caso, a censura é uma maldade; no primeiro, é um dever que a caridade manda cumprir com todos os cuidados possíveis; e, ainda assim, a censura que se faz ao outro deve também ser endereçada a si mesmo, perguntando-se se também não a merece.

Será repreensível observar as imperfeições dos outros, quando disso não possa resultar nenhum benefício para eles, mesmo que não as divulguemos?

Luís
Paris, 1860

Tudo depende da intenção. Certamente, não é proibido ver o mal, quando o mal existe. Haveria até inconveniente ver-se por toda a parte somente o bem, pois essa ilusão prejudicaria o progresso. O erro está em fazer essa observação em prejuízo do próximo, desacreditando-o sem necessidade na opinião pública. Seria ainda repreensível fazê-la com um sentimento de malevolência e de satisfação por apanhar os outros em falta. Mas dá-se inteiramente o contrário, quando, lançando um véu sobre o mal, para ocultá-lo do público, limitamo-nos a observá-lo para proveito pessoal, ou seja, para estudá-lo e evitar aquilo que censuramos nos outros. Essa observação, aliás, não é útil ao moralista? Como descreveria ele as extravagâncias humanas, se não estudasse os modelos?


Há casos em que seja útil revelar o mal dos outros?

Luís
Paris, 1860


Esta questão é muito delicada, e aqui se deve apelar à caridade bem compreendida. Se as imperfeições de uma pessoa só prejudicam a ela mesma, não haverá utilidade em divulgá-las. Mas se elas podem prejudicar a outros, deve-se preferir o interesse do maior número ao de um só. Conforme as circunstâncias, desmascarar a hipocrisia e a mentira pode ser um dever, pois é melhor que um homem caia, do que muitos sejam enganados ou se tornarem suas vítimas. Em semelhante caso, é necessário pesar a soma das vantagens e dos inconvenientes.




[1] Notas do tradutor: 1) Frase criada pelo tradutor livre, para dar maior clareza sobre a autoria das perguntas e respostas. 2) Embora o Espírito tenha-se identificado como São Luís, para melhor reconhecimento de sua santidade, optei por retirar o qualificativo por uma razão muito simples: se é para usar São ou Santo antes do nome, todos os Espíritos comunicantes tidos como santos pela Igreja Católica, presentes na obra, deveriam ser precedidos dessa designação, como é o caso de Paulo, o apóstolo, São Mateus, São Marcos, São Lucas, São João, São Miguel, Santo Antônio de Pádua, entre outros, que não são assim designados n’O Evangelho Segundo o Espiritismo. 3) Pode-se também propor nota de rodapé com a identificação do Espírito como ele é conhecido no seio das igrejas.

quinta-feira, 9 de julho de 2020



A POESIA E AS MARCAS DO SUICÍDIO EM ANTERO DE QUENTAL
Jorge Leite de Oliveira

Língua Portuguesa

Em setembro de 1861, Kardec publicou, na Revista Espírita, um debate literário e filosófico entre os Espíritos Buffon, Lamennais, Gerard de Nerval, Visconde de Launay e Bernardin de Saint-Pierre. A conclusão coube ao Espírito Erasto, discípulo de Paulo que, entre outras coisas, disse o seguinte:

[...] Logicamente deveis deduzir que o ser pessoal pensante prossegue, mesmo depois da tumba, seus estudos e trabalhos e que, por meio dessa lucidez que é o apanágio particular dos Espíritos, comparando seu pensamento espiritual com o seu pensamento humano, deve eliminar tudo quanto o obscurecia materialmente. Muito bem! o que é verdadeiro para Lamennais o é igualmente para os outros, e cada um, no vasto país da erraticidade[1], conserva suas aptidões e sua originalidade. Buffon, Gérard de Nerval, o Visconde de Launay, Bernardin de Saint-Pierre conservam, como Lamennais, os gostos e a forma literária que observáveis neles, quando vivos. Creio útil chamar vossa atenção sobre essa condição de ser do nosso mundo de além-túmulo, para que não venhais a crer que abandonamos instantaneamente nossas inclinações, costumes e paixões quando despimos as vestes humanas. Na Terra, os Espíritos são como prisioneiros, que a morte deve libertar; no entanto, assim como aquele que está sob grades tem as mesmas propensões conserva a mesma individualidade quando em liberdade, os Espíritos conservam suas tendências, originalidade e aptidões, ao chegarem entre nós. [...] Que Deus seja convosco! Erasto (In: KARDEC, 2004, p. 392- 394).

            Segundo o escritor Georges-Louis Leclerc, conde de Buffon, “o estilo é o próprio homem”. Augusto Meyer vai além e diz que “[...] o estilo é mais que o homem [...], o autor transcende o homem, projeta-se no tempo, salta por cima da sua cova, com toda a vantagem de poder transformar-se em essência transmissível por meio da leitura e renascer indefinidamente, ao calor da compreensão [...]” (MEYER, apud TAVARES, 1984, p. 398). Nosso estilo, tanto no que falamos quanto no que escrevemos, para Proença Filho (1989, p. 54), expressa nossas emoções e apelo aos receptadores de nossa mensagem, mais do que o seu sentido referencial, o que não significa a inexistência deste, mas a predominância da escolha daqueles sentidos, chamados de funções da linguagem pelos linguistas Karl Bühler e Roman Jakobson.
            Como comprovação da realidade do Espírito imortal, exemplificaremos a seguir de que modo o ser desencarnado se manifesta como “autor que transcende o homem”.  Para isso, escolhemos três médiuns: Fernando de Lacerda, Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira; e o Espírito Antero de Quental, que foi um dos maiores sonetistas mundiais. Confrontamos o estilo literário de sua obra quando esteve encarnado e sua produção de Espírito desencarnado.
            Antero nasceu na ilha de São Miguel em 1842 e desencarnou em 1891. Em artigo, Eça de Queirós o considerou “gênio e santo”, devido à sua poesia metafísica e grande bondade. Entretanto, vítima de tenaz hipocondria, Quental optou pelo suicídio, sofrendo no Além todos os horrores desse ato, como narra na obra do médium Lacerda (2003, v.2).
Segundo Tufano (1990), identifica-se em Antero a “[...] poesia marcadamente filosófica, angustiada por incertezas religiosas e metafísicas, claramente presentes em seus sonetos”. Neste poema, escrito quando o poeta ainda estava vivo, percebemos sua incerteza quanto à vida espiritual:  A ideia                           
                        
Força é pois ir buscar outro caminho!
Lançar o arco de outra nova ponte
Por onde a alma passe — e um alto monte
Aonde se abra à luz o nosso ninho.

Se nos negam aqui o pão e o vinho,
Avante! É largo, imenso esse horizonte...
Não, não se fecha o mundo! E além, defronte,
E em toda a parte há luz, vida e carinho.

Avante! Os mortos ficarão sepultos...
Mas os vivos que sigam, sacudindo
Como o pó da estrada os velhos cultos!

Doce e brando era o seio de Jesus...
Que importa? Havemos de passar, seguindo,
Se além do seio dele houver mais luz! (TUFANO,  1990, v. 2, p. 143).

            Percebemos, no soneto acima, um paradoxo espiritual. Inicialmente, o poeta propõe novo rumo à alma humana. Nova direção onde possa encontrar abrigo (ninho) e alimento (pão e vinho). E afirma que “esse horizonte” é pleno de possibilidades (é largo, imenso), abrindo-se em vastas alternativas, pois “em toda a parte há luz, vida e carinho”.
            No primeiro terceto, porém, se continua incentivando-nos a seguir adiante, conclui que cabe aos vivos sacudir, como pó, os “velhos cultos”, inúteis, pois “Os mortos ficarão sepultos”. No último terceto, o poeta parece desiludido com mensagem “doce e branda” de Jesus, e dá-nos a esperança de seguir adiante, mas isso somente ocorrerá “se” além de sua pessoa (metáfora d’o seio dele) houver mais luz, ou mais vida.
            Noutro soneto de Quental, escrito quando ele ainda estava vivo, percebemos, também, no último verso do terceto final, a expressão de sua angústia, devido à possibilidade de nada mais encontrar, após a morte. Ei-lo: O palácio da ventura

Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por deserto, por sóis, por noite escura,
Paladino do amor, busco anelante
O palácio encantado da Ventura!

Mas já desmaio, exausto e vacilante,
Quebrada a espada já, rota a armadura...
E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa a aérea formosura!

Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, o Deserdado...
Abri-vos, porta d’ouro, ante meus ais!

Abrem-se as portas d’ouro, com fragor...
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio, escuridão — e nada mais! (in: TAVARES, 1984, p. 479).

            O soneto abaixo não apenas marca a tendência à descrença total do poeta-filósofo,                     como também a má influência dos Espíritos sobre sua mente atormentada: Espectros                                        

Espectros que velais, enquanto a custo
Adormeço um momento, e que inclinados
Sobre os meus sonos curtos e cansados
Me encheis as noites de agonia e susto!...

De que me vale a mim ser puro e justo,
E entre combates sempre renovados
Disputar dia a dia a mão dos Fados
Uma parcela do saber augusto,

Se a minh'alma há de ver, sobre si fitos,
Sempre esses olhos trágicos, malditos!
Se até dormindo, com angústia imensa,

Bem os sinto verter sobre o meu leito,
Uma a uma verter sobre o meu peito
As lágrimas geladas da descrença! (QUENTAL, 2019).

            Vinte e oito anos depois do seu suicídio, ou seja, em 1919, Antero ditou ao médium português Fernando de Lacerda longo texto, no qual se lamentava pelo ato de rebeldia e covardia perante a Lei Divina e relatava os sofrimentos decorrentes disso. O Espírito narrou então as terríveis consequências de seu ato desesperado aos 49 anos, no segundo dos quatro volumes da obra intitulada Do país da luz, que contém texto de diversos Espíritos portugueses e franceses. Ainda nessa obra psicografada por Lacerda, nos volumes três e quatro, encontramos cinco poemas do Espírito Antero de Quental, dentre os quais selecionamos este primeiro de uma trinca de sonetos: À morte
                            I
Tu, não és o Ser único, absoluto,
Ó Morte, que eu amei em outra era,
Quando a meus olhos foste a primavera
Que encantava o meu ser irresoluto.

Eu amava o teu negro olhar de luto,
A tua estranha forma de Quimera,
Deusa da Liberdade então te crera
E sorrindo, busquei-te resoluto.

Mas como me enganei! Tu não me deste
O descanso que tanto apetecia!
Do sofrer nova forma ofereceste!

Atiraste-me a nova gemonia,
Onde, em lugar de luz que me acendeste,
Só a Noite encontrei, que não tem Dia! (LACERDA, 2003, v. 3, p. 220).

            A partir de 1932, Chico Xavier publica dezenove sonetos do Espírito Antero de Quental, nos quais este ratifica sua decepção por não ter confiado em Deus e ter optado pelo suicídio. Mais uma vez, o poeta utiliza-se, num de seus novos sonetos, do título anterior para expressar seu tormento espiritual: À morte

Ó morte, eu te adorei, como se foras
O fim da sinuosa e negra estrada,
Onde habitasse a eterna paz do Nada
Às agonias desconsoladoras.

Eras tu a visão idolatrada
Que sorria na dor das minhas horas,
Visão de tristes faces cismadoras,
Nos crepes do Silêncio amortalhada.

Busquei-te, eu que trazia a alma já morta,
Escorraçada no padecimento,
Batendo alucinado à tua porta;

E escancaraste a porta escura e fria,
Por onde penetrei no Sofrimento,
Numa senda mais triste e mais sombria (XAVIER, 2002, p. 86).

            Por fim, foi o médium Waldo Vieira quem psicografou um soneto do Espírito Quental. Neste, como em outros poemas psicografados por Fernando de Lacerda e Chico Xavier, o poeta português faz sua reverência a Deus, conclama o leitor a suportar com coragem suas provas e expiações e esforçar-se para alcançar, a perfeição na Eternidade: A lâmpada e a chama
             
A alma clamou cansada ao corpo, um dia:
— Por que me prendes, barro vil e escuro?
Quem te sustenta por lodoso muro,
Acalentando a noite que me espia?

Quem te mandou, algema da agonia,
Escravizar-me o sonho vivo e puro?
Quem te criou, cadeia de monturo,
Excitando-me a dor e a rebeldia?

E o corpo respondeu, calmo e sublime:
— Eu sou, na Terra, a cruz que te redime,
Não me interpretes por sinistra grade...

Deus modelou-me lâmpada de lodo,
Na qual és chama do Divino Todo
Para fulgir além, na Eternidade... (VIEIRA, 2002, p. 132).

Quando Pilatos indaga a Jesus se este é rei, o Senhor lhe responde que seu Reino não é deste mundo. Em seguida, o Governador da Galileia reitera a pergunta: “Logo, tu és rei?” e ouve a resposta que o atormentaria até o fim de sua existência terrena: “Tu o dizes; sou rei; não nasci e não vim a este mundo senão para dar testemunho da verdade. Aquele que pertence à verdade escuta a minha voz” (João, 18: 33, 36 e 37).
Antero de Quental enveredou pela ciência positiva, conforme ele próprio afirmou num de seus sonetos. Se houvera estudado a Doutrina Espírita, já consolidada no mundo pelas obras de Allan Kardec e ratificada pelas experiências de William Crookes, Ernesto Bozzano, Alexandre Aksasof, Gabriel Dellane, Léon Denis, Cesare Lombroso e outros renomados filósofos e cientistas do século XIX, incluindo-se entre esses grandes homens o poeta Victor Hugo e o romancista Arthur Conan Doyle, certamente optaria por acrescentar ao desses sábios o esforço de sua mente racional. Com certeza, jamais optaria pelo suicídio ante os tormentos de Espíritos obsessores e seus conflitos mentais, dos quais se arrepende amargamente, como observamos em sua produção literária provinda do Além.
Entretanto, contribui com a revelação espírita o estilo inconfundível de Antero de
Quental, além de suas mensagens poéticas, porque ele proporciona-nos a certeza, uma vez mais, sobre a imortalidade da alma. Seus poemas, psicografados por três médiuns distintos, conservam integralmente seu estilo, o que reforça a fé à luz da razão de quem se dedique a estudar os ensinamentos morais do Cristo, restaurados, em toda a sua pureza, pelos Espíritos Superiores sob a coordenação do Espírito Verdade.

Referências
KARDEC, Allan. Revista Espírita, set. 1861. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2004.
LACERDA, Fernando de. Do país da luz. v. 2, 7. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2003.
______. ______. v.3, 6. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2003.
MEYER, A. In: TAVARES, Hênio. Teoria literária. 8. ed. rev. e atual. Belo Horizonte, MG: Itatiaia, 1984.
PROENÇA FILHO, Domício. Estilos de época na literatura. 11. ed. São Paulo: Ática, 1989.
QUENTAL, Antero. Os sonetos completos de Antero de Quental. Disponível em: Wikisourse. Acesso em 23 fev. 2019.
TUFANO, Douglas. Estudos de língua e literatura. v. 2, 4. ed. rev. e ampl. São Paulo: Moderna, 1990.
XAVIER, Francisco Cândido. Parnaso de além-túmulo. (poesias mediúnicas). 16. ed. Pelo Espírito Antero de Quental. Rio de Janeiro: FEB, 2002.
______; VIEIRA, Waldo. Antologia dos imortais. Diversos Espíritos. 4. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2002.

(Publicado em Reformador/FEB em maio 2019.)




[1] Erraticidade é o nome dado pelos Espíritos ao Mundo Espiritual, modo predominante de designar o plano de existência em que vivemos, após a vida física, todos aqueles que ainda estamos sujeitos à reencarnação para evoluir, até a perfeição, quando então o Espírito não mais reencarna. Outras denominações: Plano Espiritual, Além, Mundo dos Espíritos, Vida Maior, Além-Túmulo.

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