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terça-feira, 18 de maio de 2021

 

EM DIA COM O MACHADO Nº 471:

Marx, Espiritismo e Cristianismo (Jó)

jojorgleite@gmail.com

 



             Salve, leitores amigos!

            Neste tempo de pandemia, como jamais ocorreu, as ideias cristãs espíritas vêm-se expandindo mundo afora. Então, creio que chegou a hora de esclarecer certos equívocos cometidos por espíritas bem-intencionados, mas influenciados por ideologias aprendidas nos meios acadêmicos ou mesmo por autodidatas.

            Como as ideias marxistas têm sido apoiadas por alguns adeptos espíritas que se autodenominam "espíritas progressistas" e outros inovadores, certamente bem-intencionados, creio que seria bom conhecermos o pensamento de Marx sobre a Doutrina Espírita.  Segundo João Alberto Vendrani Donha, estão no Facebook "Imagens e registros históricos do Espiritismo" e "Allan Kardec.online", dos pesquisadores Carlos Seth Bastos e Adair Ribeiro, informações de algumas cartas de Karl Marx enviadas a Maurice Lachâtre, em 11 de fevereiro de 1873, com o conteúdo abaixo:

Quanto à sua última obra, não posso julgá-la, porque dela só tive um primeiro contato. Mas ela está infestada, como o Socialismo francês, de sua época, de sentimentalismo. Ela mistura isso ao Espiritismo que eu detesto (DONHA. Marx e o Espiritismo. In: Blog do Bruno Tavares, de 23 nov. 2020).

        As informações de Donha são bem mais profundas do que o abordado aqui, e recomendo sua leitura no blog citado. Na França da época, socialistas e espíritas tinham pontos em comum. Alguns Espíritos expressam ideias de justiça social, no que têm de afinidade com o Cristianismo, como Lammenais, Charles Fourier, Eugene Sue e Jean Reynaud. Essas entidades transmitiram mensagens citadas por Kardec na Revista Espírita. No século XIX, diversas pessoas espíritas simpatizavam com o Socialismo francês, chamado "Socialismo utópico", rejeitado por Marx. Uma delas foi Léon Denis, autor da obra Cristianismo e Espiritismo. Mas entre o Socialismo francês e o pregado por Marx há grande diferença. O primeiro é espiritualista; o segundo, materialista.

            O articulista do texto, a nosso ver bem documentado, explica-nos ainda que:

Além de Marx, seu parceiro Engels também hostiliza o Espiritismo. Com mais acidez ainda. Em sua "Dialética da Natureza", no último capítulo, depois de discorrer sobre o que considera a inutilidade da pesquisa psíquica, chega a dizer, citando Huxley, que o Espiritismo é o maior antídoto contra o suicídio, porque o sujeito vai preferir varrer a gare da estação a morrer e ser condenado a dar consultas a um xelim a hora por uma médium.

        Ao contrário do que muitos religiosos cristãos pregam, o Espiritismo não rejeita a revelação bíblica. Kardec demonstra, mesmo, no capítulo primeiro d'O Evangelho Segundo o Espiritismo, que Deus enviou à humanidade três revelações: a primeira está simbolizada em Moisés, o que não exclui tudo o que nos é revelado no Antigo Testamento; embora Jesus, o portador da segunda revelação, tenha dito que "A lei e os profetas duraram até João [...]" (Lucas, 16:16); e o Espiritismo, que não é obra de uma cabeça e, sim, dos Espíritos, sob a coordenação e supervisão do Cristo, é mais cristão do que muitos dos que comercializam a religião, pois sua máxima é a caridade como principal virtude a ser observada por todos nós, a quem o próprio Cristo chamou de irmãos e filhos de Deus.

         Quanto às ideias de Marx, são contrárias à religião, e nelas predomina a concepção ateia e materialista, defendida por ele, Engels e seus seguidores. Não há, portanto, a nosso ver, compatibilidade entre o Espiritismo e o Materialismo marxista, desde suas origens. O primeiro, revelação divina; o segundo, concepção humana que, seguida à risca, leva à destruição da sociedade.

        Lamentavelmente, porém, diz Allan Kardec que o Espiritismo tem entre os seus inimigos, além dos materialistas, os próprios religiosos contrários às suas ideias, que não se fundam em teorias humanas, mas na revelação dos Espíritos emissários do Cristo.

           Segundo afirmam alguns estudiosos das religiões cristãs, entre outras infâmias, foram os adeptos do Espiritismo que adotaram o Cristianismo como crença para escaparem das perseguições da Igreja. Puro desconhecimento do que seja o Espiritismo, ou má-fé. Todos eles são refutados pela Doutrina Espírita, que nos esclarece ter sido o próprio Cristo que a prometera aos seus apóstolos e, simbolicamente, à humanidade, como lemos nos capítulos 14 e 16 do Evangelho escrito por João. E, no capítulo sexto d'O Evangelho Segundo o Espiritismo, é ele mesmo, Jesus que, por meio de seu emissário espiritual, O Espírito de Verdade, nos confirma essa condição em quatro mensagens.

domingo, 16 de maio de 2021

 O Céu e o Inferno

Allan Kardec

Parte 3

 Por: Astolfo Olegário de Oliveira Filho 


Continuamos o estudo metódico do livro “O Céu e o Inferno ou A Justiça Divina segundo o Espiritismo”, de Allan Kardec, com base na 1ª edição da tradução de João Teixeira de Paula publicada pela Lake.

Caso o leitor queira ter em mãos o texto consolidado dos estudos relativos à presente obra, para acompanhar, pari passu, o presente estudo, basta clicar em http://www.oconsolador.com.br/linkfixo/estudosespiritas/principal.html#ALLAN e, em seguida, no verbete "O Céu e o Inferno”.

Eis as questões de hoje:

 

17. Quando surgiu o purgatório na teologia católica e o que ele compreende exatamente? 

O purgatório foi admitido pela Igreja no ano de 593. Trata-se de um dogma mais racional e mais conforme com a justiça de Deus que o inferno, porque estabelece penas menos rigorosas e resgatáveis para as faltas de gravidade mediana. Na concepção católica, o purgatório seria um inferno menos tenebroso, visto que as almas aí também ardem, embora em fogo mais brando. As almas do purgatório não se livram dele por efeito do seu adiantamento, mas em virtude das preces que se dizem ou que se mandam dizer em sua intenção, do que se originaram muitos abusos, visto que as preces pagas transformaram o purgatório em mina mais rendosa que o inferno. Como sabemos, o purgatório deu origem ao comércio escandaloso das indulgências, por intermédio das quais se vende a entrada para o céu. Esse abuso foi a causa primária da Reforma, o que levou Lutero a rejeitá-lo. (O Céu e o Inferno, Primeira Parte, cap. V, itens 1 a 3.)

18. Qual é a causa das misérias terrenas, segundo o Espiritismo?

As misérias terrenas decorrem necessariamente das imperfeições da alma, pois se esta fosse perfeita não cometeria faltas nem teria de sofrer-lhes as consequências. O homem que na Terra fosse em absoluto sóbrio e moderado, por exemplo, não padeceria enfermidades oriundas de excessos. O mais das vezes ele é desgraçado por sua própria culpa; contudo, se é imperfeito, é porque já o era antes de vir à Terra, expiando não somente faltas atuais, mas faltas anteriores não resgatadas. Repara, então, em uma vida de provações o que a outrem fez sofrer em anterior existência. As vicissitudes que experimenta são, por sua vez, uma correção temporária e uma advertência quanto às imperfeições que lhe cumpre eliminar de si, a fim de evitar outros males e progredir para o bem. (Obra citada, Primeira Parte, cap. V, itens 3 e 4.)

19. A duração da expiação do Espírito culpado é eterna?

Não. O prazo da expiação está subordinado ao melhoramento do culpado. O Espiritismo não nega, antes confirma, a penalidade futura. O que ele destrói é o inferno localizado com suas fornalhas e penas irremissíveis. Seja qual for a duração do castigo, na vida espiritual ou na Terra, onde quer que se verifique, ela tem sempre um termo, próximo ou remoto. (Obra citada, Primeira Parte, cap. V, itens 7 e 8.)

20. O Espiritismo nega a existência do purgatório?

Não o nega, e diz mais: que nele nos achamos, pois é em um planeta como a Terra – de provas e expiações – que expiamos os equívocos, os erros e os males que cometemos. Segundo o Espiritismo, não há para o Espírito mais que duas alternativas, a saber: punição temporária e proporcional à culpa, e recompensa graduada segundo o mérito. Repele o Espiritismo a terceira alternativa: a eterna condenação. A palavra purgatório sugere a ideia de um lugar circunscrito: eis por que mais naturalmente se aplica à Terra do que ao Espaço infinito onde erram os Espíritos sofredores, e tanto mais quanto a natureza da expiação terrena tem os caracteres da verdadeira expiação.  (Obra citada, Primeira Parte, cap. V, itens 8 a 10.)

21. De onde se originou a crença na eternidade das penas futuras? 

Quanto mais próximo do estado primitivo, mais material é o homem e isso tem influência na sua concepção a respeito do Criador. Um Deus manso e cordato não poderia ser Deus, porque sem meios com que se fazer obedecer. A vingança implacável e os castigos terríveis e eternos nada tinham, pois, de incompatível com a ideia que se fazia de Deus e não lhes repugnavam à razão. Ora, como eram pessoas implacáveis nos seus ressentimentos, cruéis para com os inimigos e inexoráveis para os vencidos, Deus, que lhes era superior, deveria ser ainda mais terrível.

Para tais homens eram, pois, necessárias crenças religiosas assimiladas à sua natureza rústica, uma vez que uma religião toda espiritual, toda amor e caridade, não poderia aliar-se à brutalidade de seus costumes e paixões. Não devemos, assim, censurar Moisés e sua legislação draconiana, nem o fato de nos ter apresentado um Deus vingativo, visto que a época assim o exigia. A crença na eternidade das penas foi, em face disso, mera consequência das condições em que tal doutrina passou a ser ensinada. (Obra citada, Primeira Parte, cap. VI, itens 2, 3 e 20.)

22. Qual o principal argumento dos que defendem o dogma das penas eternas e como o Espiritismo o refuta? 

O principal argumento invocado em seu favor: "É doutrina sancionada entre os homens que a gravidade da ofensa é proporcionada à qualidade do ofendido. O crime de lesa-majestade, por exemplo, o atentado à pessoa de um soberano, sendo considerado mais grave do que o fora em relação a qualquer súdito, é, por isso mesmo, mais severamente punido. E sendo Deus muito mais que um soberano, pois é infinito, deve ser infinita a ofensa a Ele, como infinito o respectivo castigo, isto é, eterno”.

A refutação a tal argumento baseia-se nos próprios atributos de Deus: eterno, imutável, imaterial, onipotente, soberanamente justo e bom, infinito em todas as perfeições. Ora, um ser infinitamente bom e justo não pode ter a menor parcela de maldade. Admitindo-se que uma ofensa temporária à Divindade pudesse ser infinita, Deus, vingando-se por um castigo infinito, seria logo infinitamente vingativo; e sendo Deus infinitamente vingativo não pode ser infinitamente bom e misericordioso, visto como um destes atributos exclui o outro. Se não for infinitamente bom não é perfeito; e não sendo perfeito deixa de ser Deus. Se Deus é inexorável para o culpado que se arrepende, não é misericordioso; e se não é misericordioso, deixa de ser infinitamente bom.

E por que daria Deus aos homens uma lei de perdão, se Ele próprio não perdoasse? Resultaria daí que o homem que perdoa aos seus inimigos e lhes retribui o mal com o bem seria melhor que Deus, surdo ao arrependimento dos que o ofendem, negando-lhes por todo o sempre o mais ligeiro carinho. (Obra citada, Primeira Parte, cap. VI, itens 10, 12, 15, 16 e 17.)

23. Se o Espírito pode progredir, o progresso é lei natural. O dogma da eternidade das penas é compatível com a lei do progresso? 

Não. O dogma da eternidade das penas é irracional e incompatível com a lei do progresso. (Obra citada, Primeira Parte, cap. VI, itens 17, 18 e 19.)

24. A carne é fraca, ou a alma é que é fraca? 

A expressão a carne é fraca diz respeito à fragilidade dos homens, isto é, aos Espíritos quando encarnados, sujeitos a todas as influências possíveis, sob as quais muitos sucumbem. A carne só é fraca porque o Espírito é fraco, o que inverte a questão, visto que deixa ao ser pensante, e não ao seu envoltório físico, a responsabilidade por todos os seus atos. A carne, destituída de pensamento e vontade, não pode prevalecer jamais sobre o Espírito, que é o ser que pensa e obra. (Obra citada, Primeira Parte, cap. VII, parte inicial.)

 

 

Publicado também, às quintas-feiras, em: https://espiritismo-seculoxxi.blogspot.com/2021/04/blog-post_08.html


sábado, 15 de maio de 2021

 


O maior mandamento

 

Mas os fariseus, tendo sabido que Jesus tinha calado a boca aos saduceus, se reuniram. E um deles, que era doutor da lei, para o tentar, propôs-lhe esta questão: Mestre, qual é o grande mandamento da lei? Jesus lhe respondeu: Ame o Senhor seu Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todo o seu entendimento. Esse é o maior e primeiro mandamento. Eis aqui o segundo, semelhante a esse: Ame o seu próximo como a si mesmo. Esses dois mandamentos contêm toda a lei e os profetas (Mateus, 22:34-40).

        Caridade e humildade, tal é a única via de salvação; egoísmo e orgulho, tal é a via da perdição. Esse princípio é formulado em termos precisos nestas palavras: "Ame a Deus de toda a sua alma, e a seu próximo como a si mesmo; esses dois mandamentos contêm toda a Lei e os profetas". E para que não houvesse equívoco na interpretação do amor a Deus e ao próximo, acrescenta: "Eis aqui o segundo, semelhante ao primeiro", ou seja, que não se pode verdadeiramente amar a Deus sem amar o próximo, nem amar o próximo sem amar a Deus; pois tudo quanto se faz contra o próximo é contra Deus que se faz. Não se podendo amar a Deus sem praticar a caridade para com o próximo, todos os deveres do homem se encontram resumidos nesta máxima: Fora da caridade não há salvação.

 Necessidade da caridade segundo Paulo

 Ainda eu falasse as línguas dos homens e mesmo a língua dos anjos, se não tiver caridade, sou como o bronze que soa, ou como o sino que tine. E ainda que eu tivesse o dom de profecia, que penetrasse todos os mistérios e tivesse perfeita ciência de todas as coisas; ainda que tivesse a fé possível,  a ponto de transportar montanhas, se não tiver caridade, nada sou. E mesmo que houvesse distribuído os meus bens para alimentar os pobres, e se entregasse meu próprio corpo para ser queimado, se não tivesse caridade, nada disto me serviria.

A caridade é paciente, é branda e benfazeja; a caridade não é invejosa, não é temerária nem precipitada, não se enche de orgulho, não é desdenhosa, não busca os seus próprios interesses, não se agasta, nem se azeda com coisa alguma, não suspeita mal, não se rejubila com a injustiça, mas se rejubila com a verdade. Ela tudo suporta, tudo crê, tudo espera, tudo sofre.

Agora, permanecem estas três virtudes: a fé, a esperança e a caridade, mas dentre elas a mais excelente é a caridade (Paulo, I Coríntios, 13:1-7; 13).

         Paulo compreendeu de tal modo essa grande verdade, que disse: "Ainda que eu tenha a linguagem dos anjos, que eu tenha o dom de profecia, que penetre todos os mistérios, que tenha toda a fé possível,  a ponto de transportar montanhas, se não tiver caridade, nada sou. Dentre estas três virtudes: a fé, a esperança e a caridade, a mais excelente é a caridade". Coloca, assim, sem equívoco, a caridade acima mesmo da própria fé. É que a caridade está ao alcance de todo o mundo: do ignorante e do sábio, do rico e do pobre; e porque independe de qualquer crença particular. Ele faz mais: define a verdadeira caridade; mostra-a, não somente na beneficência, mas na reunião de todas as qualidades do coração, na bondade e na benevolência para com o próximo.

 

quinta-feira, 13 de maio de 2021

 

Martin Luther King Jr.: sonho e pesadelo na luta pelos direitos civis

Martin Luther King Jr.: sonho e pesadelo na luta pelos direitos civis

por Alexsandro M. Medeiros

lattes.cnpq.br/6947356140810110

postado em mar. 2018

            Martin Luther King (1929-1968) foi o filho primogênito de uma família de negros norte-americanos do Estado da Georgia: “de elevada educação, profundamente religioso, de personalidade ousada, e dramaturgo excepcionalmente dotado” (ALEXANDER, 2017, p. 215), “pastor evangélico [...] Prêmio Nobel da Paz, discípulo de Gandhi, líder anti-segregacionista [...] apóstolo da não violência” (BOERI, 2001, p. 52) e uma das mais importantes figuras norte americanas do século XX (BRANCH, 1988).

            Aos 19 anos seguiu os mesmos passos que seu pai e se tornou pastor batista, formando-se mais tarde em teologia no Seminário de Crozer. Com 25 anos tornou-se pastor da igreja batista de Montgomery e foi onde iniciou a luta pelos direitos civis nos Estados Unidos. Três anos depois se tornou líder de um movimento que tinha como objetivo acabar com as leis de segregação por meio de manifestações e boicotes pacíficos através da  Conferência da Liderança Cristã no Sul (SCLC): uma organização de igrejas e sacerdotes negros.

            Em seus estudos inspirou-se nas ideias de Mahatma Gandhi, principalmente por causa de seu ativismo não violento e foi até a Índia em 1959 para conhecer as formas de protesto pacífico de Gandhi. Outra fonte inspiradora sobre Luther King foi a obra A Desobediência Civil, de Henry D. Thoreau (1817-1862). A partir das influências de Gandhi e Thoreau, King se tornou um

desobediente que utilizou formas de atuação não violentas para tentar combater a hostilidade existente entre duas comunidades que formavam parte da mesma unidade política [...] O reverendo Martin Luther King, foi uh dos dirigentes do movimento a favor dos direitos civis da população negra americana durante os anos cinqüenta e sessenta (ARAÚJO, p. 17 apud BOERI, 2001, p. 51).

            Não podemos deixar de levar em consideração que, como pastor evangélico, Luther King era um homem temente a Deus e foi a sua crença na verdade dos ensinamentos de Cristo que o levaram adiante em sua luta em favor dos direitos civis.

            Mesmo preso, Luther King jamais deixou de levar em consideração a influência inspiradora de Ghandi e do Evangelho. Foi assim quando escreveu uma das inúmeras cartas endereçadas aos seus companheiros de Ministério, a Carta da prisão de Birminghan, escrita em 1963: “Logo no início de sua carta ele chama a atenção de todos para o perigo da prática da injustiça, eis que esta pode pôr em risco toda uma sociedade, ao mesmo tempo em que destaca a importância da luta não violenta, obedecendo princípios, regras e organização” (BOERI, 2001, p. 56).

Disponível em: Missio Alliance (Acesso em 06/03/2018)

            É também graças a esta Carta que conhecemos  a convicção de Luther King:

sobre “a interrelação existente entre todas as comunidades” e a força de sua crença que “nos encontramos presos nas ineludíveis de reciprocidade, unidos à mesmo carruagem do destino” (King, 1968). Desde 1957 King havia iniciado a expressar sua visão da “comunidade amada” unida pela boa vontade e compreensão mútua (VOPARIL, 2013, p. 97 – tradução nossa)

            Essa concepção de comunidade amada, de raízes cristãs, consiste em “um esforço para reconstruir – ou criar em primeiro lugar – um forte sentido de comunidade capaz de sustentar e empoderar um povo subjugado” (VOPARIL, 2103, p. 97 – tradução nossa).

            A ética cristã, fundada na justiça e no amor, como uma força para fomentar a mudança social.

“o amor cristão, funcionando como o método gandhiano da não violência, foi uma das armas mais potentes disponíveis para os negros em sua luta pela liberdade” (King, 1991: 16). Em sua visão, ágape se entende como “o amor em ação [...] o amor que buscar preservar e criar comunidade” (King, 1991: 20) (apud VOPARIL, 2013, p. 98).

 

A luta por direitos civis nos Estados Unidos

            A existência da discriminação racial nos Estados Unidos  foi algo bastante acentuado. Dentre as principais conquistas do movimento afro-americano pelos direitos civis nos anos 1950-1960, Andrews (1985, p. 52) destaca a superação da segregação, o sufrágio estendido aos negros através  do Ato dos Direitos de Voto de 1965, além de programas do governo federal norte americano para promover a igualdade de oportunidades e ações afirmativas para combater o racismo. “Em 1964 e 1965, o Congresso, atuando na esteira do assassinato de JFK, aboliu as leis de segregação e aprovou legislação que assegurava aos negros direitos civis e políticos” (ALEXANDER, 2017, p 218).

Os avanços políticos dos negros continuaram nos anos 70, mas principalmente nos níveis locais e estaduais. Afro-americanos foram eleitos para câmaras municipais e legislativos estaduais em crescente número, e muitas cidades e comarcas americanas (incluindo Los Angeles, Chicago, Detroit, Washington, Filadélfia, para nomear algumas) são governadas por prefeitos negros (ANDREWS, 1985, p. 52).

            Martin Luther King se notabilizou precisamente pelo seu engajamento político e defesa dos direitos civis da população negra norte americana, promovendo uma nova vivência da fé religiosa mesclada com a solidariedade cívica. Há que se considerar, todavia, que a ampla maioria dos pastores negros não participou dessa luta e militância. Paiva (2010, p. 124) chega a mensurar “que somente 14 das mais de 400 igrejas negras de Birmingham eram anfitriãs das reuniões do movimento [dos Direitos Civis]”. Esses poucos pastores negros do Sul dos Estados Unidos, dentre os quais Luther King, amparados pelos valores cristãos, defendiam valores como justiça, igualdade, liberdade.

Nessa ação cristã, o amor cristão era necessariamente acompanhado por um desejo de justiça. É o que propunha King no seu primeiro discurso em 1955: “Vamos ser cristãos em todas nossas ações. (Está bem) Mas eu quero dizer a vocês esta noite que não é suficiente falar sobre amor. O amor é um dos pontos primordiais da fé cristã. Há um outro lado chamado justiça. E a justiça é realmente o amor vivenciado. (É certo) A justiça é o amor corrigindo tudo aquilo que revolta contra o amor” (PAIVA, 2010, p. 125-126).

            Em Luther King se mesclavam o homem religioso e o militante dos direitos civis, em que o amor se torna capaz de levar à solidariedade social e à virtude política, em uma combinação harmoniosa entre religião e política. O amor entendido como ação e comunhão com a comunidade, como cimento que pode unir a comunidade, lutar contra as injustiças e prover as necessidades  de seus irmãos espirituais.

            E não podemos esquecer que foi em outro homem profundamente religioso que Luther King buscou inspiração para criar uma método de luta. Esse método foi o da não violência, preconizado por Mahatma Gandhi.

Disponível em: The Sun. Acesso em 06/03/2018

Aplicando o método da não violência, Luther King liderou em 1963 “A Marcha para Washington” um protesto pelos direitos civis que contou com a participação de mais de 200.000 pessoas que se manifestaram em prol dos direitos civis de todos os cidadãos dos Estados Unidos.

            Foi nessa passeata histórica onde proferiu seu famoso discurso “I have a dream” (Eu tenho um sonho). Eis um trecho do seu pronunciamento:

O caminho está cheio de asperezas, mas não obstante fadigas e humilhações, eu tenho ainda um sonho(..) Sonho que sobre as colinas vermelhas da Geórgia, os filhos de antigos escravos e os filhos dos escravizadores possam sentar-se juntos à mesa da fraternidade. Sonho que o Estado do Mississipi, repleto de opressão e brutalidade, seja transformado numa terra de liberdade e justiça. Sonho que um dia o Alabama se transforme num Estado onde às crianças negras possam dar as mãos as crianças brancas e andar juntas como irmãos e irmãs. Eu tenho ainda um sonho(..) Com esta fé eu volto para o Sul. Com esta fé, arrancaremos da montanha da angústia um pedaço de esperança. Com esta fé poderemos trabalhar juntos, orar juntos, ir juntos à prisão, certos de que um dia seremos livres (apud BOERI, 2001, p. 54).

            Neste mesmo discurso, Luther King fala da urgência do momento e ressalta uma vez mais o método da não violência

Disponível em: VOA News. Acesso em 06/03/2018

Seria fatal para a nação desconsiderar a urgência do momento e subestimar a determinação do negro (...). Não haverá nem paz nem tranquilidade até que aos negros lhes sejam dados os seus direitos de cidadania [...] “Não podemos permitir que nosso protesto criativo degenere em violência física. A cada momento, precisamos alçar às alturas majestosas para defrontar a força física com a força da alma (...) (apud PAIVA, 2010, p. 138)

            Foi na sua luta pelos direitos civis que Luther King se viu diante da necessidade da desobediência civil, ou seja, lutar contra as injustiças significava ter que desobedecer leis injustas. A sua forma de luta é um exemplo claro de desobediência civil, todavia, uma desobediência que não faz uso da violência, mas que é pacífica, não violenta. Luther King lutou pelos direitos civis por considerar que as leis segregacionistas eram injustas e diante de uma lei injusta, acreditava ele, era necessário se pôr em luta.

            Um ano depois, aos 35 anos, foi premiado com o Nobel da Paz, o mais jovem até então a ser agraciado com o prêmio. “O telegrama que comunicava que o prêmio havia sido concedido dizia assim: ‘O Prêmio Nobel da Paz de 1964 foi concedido a Martin Luther King, por ter firme e continuamente sustentado o princípio da não-violência na luta racial no seu país e no mundo’” (BOERI, 2001, p. 52-53).

          Em 4 de abril de 1968, Luther King Jr, com apenas 39 anos,. foi assassinado com um tiro na sacada do seu aposento, no Lorraine Motel, em Memphis, Tennessee, EUA, onde estava hospedado.

Referências

ALEXANDER, Jeffrey C. A tomada do palco: performances sociais de Mao Tsé-Tung a Martin Luther King, e a Black Lives Matter hojeSociologias, Porto Alegre, ano 19, no 44, p. 198-246, jan/abr 2017.

ANDREWS, George Reid. O negro no brasil e nos estados unidosLua Nova: Revista de Cultura e Política, v. 2, n. 1, p. 52-56, jun. 1985. Acesso em 06/03/2018

BOERI, Hélio A. A. Desobediência Civil: um estudo da resistência como ato ao direito de cidadania. Dissertação (Mestrado em Direito). Programa de Pós-Graduação em Direito. Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis, 2001.

BRANCH, T. Parting the Waters: America in the King Years, 1954-63. New York: Simon and Schuster, 1988.

KING JÚNIOR, Martin Luther, Jr. A Testament of Hope: The Essential Writings and Speeches of Martin Luther King, JrNew York: HarperCollins, 1991.

____. Carta desde la Cárcel de Birmingham. In: Antología de Martin Luther KingMéxico: D.F., pp. 3-28, 1968.

PAIVA, Angela Randolpho. Novos valores religiosos: referência para o exercício da cidadania. In: ____. Católico, protestante, cidadão: uma comparação entre Brasil e Estados Unidos [online]. Rio de Janeiro: Centro Edelstein de Pesquisas Sociais, 2010, p. 124-146. Acesso em 08/03/2018.

VOPARIL, Christopher J. Religión y lucha por la justicia social en el pensamiento político estadounidense: Richard Rorty, John Rawls, y Martin Luther King, Jr. Análisis político, Bogotá, n. 79, p. 93-102, sep./dic., 2013. Acesso em 08/03/2018.

Espiritualidade e Política → Martin Luther King Jr.: sonho e pesadelo na luta pelos direitos civis



Leia mais: https://www.sabedoriapolitica.com.br/products/marthin-luther-king-jr/

terça-feira, 11 de maio de 2021

 

EM DIA COM O MACHADO 470

Desencarnando antes do tempo (Jó)

 


        Salve, amigos!

        Nesta época de pandemia, muitas pessoas estão desencarnando antes do tempo. Duvidam?

        Maricota, por exemplo, estava com 50 anos de idade. Foi programado, antes de seu renascimento, nova existência, no corpo físico, até seus 80 anos; entretanto, meses após o surgimento da pandemia do coronavírus, por morar em casa espaçosa, promoveu festas com amigos e familiares sem quaisquer cuidados higiênicos. Resultado, contraiu o vírus e, em poucos dias, veio a óbito.

        João das Couves, contrariando decreto do governo para o uso de máscaras e álcool a 70%, em contato com o público, não usava máscara em seu comércio de água de coco. Resultado, um cliente espirrou próximo ao seu rosto, quando acabara de fazer sua compra, e João adoeceu, falecendo após um mês de entubado. Se se cuidasse, viveria mais trinta anos.

        Os jovens Cássio e sua irmã Catilanga, com 20 e 21 anos, respectivamente, tanto participaram de baladas ao vivo, contrariando decreto da prefeitura local, que faleceram após três meses de internação hospitalar. No entanto, se não se expusessem desse modo, ainda viveriam mais 60 a 70 anos.

        Há casos, entretanto, em que outras são as causas da desencarnação. É o que lemos na obra de autoria do Espírito Manoel Philomeno de Miranda, psicografada por Divaldo Pereira Franco, que fez 94 anos de proveitosa existência no dia 5 do mês corrente. Cita Miranda, na obra intitulada Entre dois Mundos, que D. Lucinda, segundo lhe informou o Espírito José Petitinga, teve desencarnação antecipada por decisão dos benfeitores espirituais. Ante a estranheza do amigo Miranda, Petitinga esclareceu-lhe:

 

É natural que produza estranheza, quando se acom­panha um processo desencarnatório promovido pelos espí­ritos-guias. Isso, porém, não constitui exceção. Há maior número de processos libertadores provocados pelos anjos da guarda do que se tem notícia na Terra. O amor não é co­nivente com o erro. Diante de determinadas situações graves, quando podem esfacelar-se labores cuidadosamente traba­lhados ou periclitam decisões importantes, como resultado das torpezas humanas, a interferência dos programadores da reencarnação, interrompendo-a, torna-se necessária, a fim de serem recambiados ao lar aqueles que antes foram conduzidos ao processo experimental (op. cit., cap. 10: Discussões oportunas sobra a desencarnação).

 

         Mais adiante, Petitinga continua suas importantes informações, que nos servem de alerta em relação aos nossos pensamentos negativos:

 

Não é raro notar-se, em verdadeiros apóstolos do amor e da caridade, reações humanas desconcertantes, quais o ciúme, a mágoa, quando não acolhidos ou desafiados por ou­trem, que não concorda com as suas ideias, ou se ressentem com outros que lhes parecem competidores (op. cit., loc. cit.).

 

        O Espírito Germano, compartilhando do diálogo, cita um dos inúmeros casos em que a Espiritualidade superior interfere no retorno ao mundo espiritual de alguém que já possua grandes méritos. Diz Germano que um missionário do amor e do conhecimento retornou à espiritualidade quando já desempenhara grande parte da missão que lhe fora atribuída antes de sua reencarnação cujos resultados em benefício da sociedade humana já se faziam presentes. Eis a história:

       

Desincumbia-se muito bem do compromisso, arrostando todas as consequências da sua decisão de ser fiel ao dever assumido. O orgulho não o perturbara, nem as calúnias o desanimaram. O veneno do ódio não encontrou campo para instalar-se-lhe na mente nem no sentimento nobre. As perseguições tornaram-se-lhe estímulo para o prosse­guimento. No entanto, quando percebeu a proximidade da morte, pôs-se a elaborar projetos e diretrizes que, não obstante fossem muito importantes, poderiam desvirtuar o conjunto do trabalho, que sempre acompanha a marcha do progresso, não devendo ficar atado a programas estatutários rígidos. Em cada época o processo da evolução faculta as atribuições compatíveis para o desenvolvimento dos ideais, que devem permanecer abertos às naturais contribuições da cultura e da experiência. Porque o risco de mudança de diretriz viesse ocorrer, abrindo espaço para novas surtidas na obra que não era dele, para o seu e o bem do trabalho, foram tomadas providências em altas esferas, a fim de que retornasse antes do tempo, sem qualquer prejuízo para o ministério concluído com grande êxito (op. cit., loc. cit.).

 

         Isso me faz refletir sobre a pergunta de Allan Kardec, contida n'O Livro dos Espíritos, número 459:

"Os Espíritos influem em nossos pensamentos e em nossos atos?

Muito mais do que imaginais, pois frequentemente são eles que vos dirigem".

         Vivemos entre dois mundos: o espiritual e o físico. Mas se, como também os Espíritos nos informam, o mundo espiritual preexiste ao físico, é neste que realizamos, como estagiários, a maior parte de nossos esforços evolutivos, em busca da perfeição. Desse modo, deixo aos amigos leitores um último conselho, para que não desencarnem antes do tempo: Cuidem-se!

domingo, 9 de maio de 2021

 O Céu e o Inferno

Por Astolfo Olegário de O. Filho

 

Allan Kardec

Parte 2

 

Continuamos o estudo metódico do livro O Céu e o Inferno ou A Justiça Divina Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec, com base na 1.ª ed. da tradução de João Teixeira de Paula publicada pela Lake.

[...]

Caso o leitor queira ter em mãos o texto consolidado dos estudos relativos à presente obra, para acompanhar, pari passu, este estudo, clique em http://www.oconsolador. com.br/linkfixo/estudosespiritas/principal.html#ALLAN e, em seguida, no verbete "O Céu e o Inferno”.

Eis as questões de hoje:

 

9. Existe, segundo a Doutrina Espírita, um lugar chamado céu? 

Não. A felicidade está na razão direta do progresso realizado, de sorte que, de dois Espíritos, um pode não ser tão feliz quanto o outro, unicamente por não possuir o mesmo adiantamento intelectual e moral, sem que por isso precisem estar, cada qual, em lugar distinto. Ainda que juntos, pode um estar em trevas, enquanto que tudo resplandece para o outro, tal como um cego e um vidente que se dão as mãos: este percebe a luz da qual aquele não recebe a mínima impressão. Sendo a felicidade dos Espíritos inerente às suas qualidades, haurem-na eles em toda parte em que se encontram, seja à superfície da Terra, no meio dos encarnados, ou no Espaço. (O Céu e o Inferno, Primeira Parte, cap. III, itens 6 e 18.)

10. De qual fator dependem o progresso e a felicidade dos Espíritos? 

O progresso dos Espíritos é fruto do seu próprio trabalho; mas, como eles são livres, trabalham no seu adiantamento com maior ou menor atividade, com mais ou menos negligência, segundo sua vontade, acelerando ou retardando o progresso e, por conseguinte, a própria felicidade. Enquanto uns avançam rapidamente, entorpecem-se outros, quais poltrões, nas fileiras inferiores. São eles, pois, os próprios autores da sua situação, feliz ou desgraçada, conforme esta frase do Cristo: A cada um segundo as suas obras. (Obra citada, Primeira Parte, cap. III, itens 6 e 7.)

11. Qual a necessidade da reencarnação para o progresso dos Espíritos? 

A reencarnação é necessária ao progresso moral e intelectual do Espírito. Ao progresso intelectual, pela atividade obrigatória do trabalho; ao progresso moral, pela necessidade recíproca que têm os Espíritos de relacionar-se uns com os outros. A vida social é a pedra de toque das boas ou más qualidades. A bondade, a maldade, a doçura, a violência, a benevolência, a caridade, o egoísmo, a avareza, o orgulho, a humildade, a sinceridade, a franqueza, a lealdade, a má-fé, a hipocrisia, em uma palavra, tudo o que constitui o homem de bem ou o perverso tem por móvel, por alvo e por estímulo as relações do homem com os seus semelhantes. Para o homem que vivesse insulado não haveria vícios nem virtudes. (Obra citada, Primeira Parte, cap. III, itens 8 a 10.)

12. Onde se dá a reencarnação dos Espíritos? 

A reencarnação pode dar-se na Terra ou em outros mundos. Há entre os mundos alguns mais adiantados onde a existência se exerce em condições menos penosas que na Terra, física e moralmente, mas onde também só são admitidos Espíritos chegados a um grau de perfeição relativo ao estado desses mundos. (Obra citada, Primeira Parte, cap. III, item 11.)

13. Como é descrito o inferno pela teologia católica? 

O inferno católico teve por modelo o inferno pagão e apresenta com este numerosas analogias. Ambos têm o fogo material por base de tormentos, como símbolo dos sofrimentos mais atrozes. Mas, coisa singular! os cristãos exageraram em muitos pontos o inferno dos pagãos. Exemplo disso são as caldeiras ferventes cujos tampos os anjos levantam para ver as contorções dos supliciados, enquanto Deus, sem piedade alguma, ouve-lhes os gemidos por toda a eternidade. Os católicos têm, como os pagãos, o seu rei dos infernos - Satã - com a diferença, porém, de que Plutão se limitava a governar o sombrio império, que lhe coubera em partilha, sem ser mau; retinha em seus domínios os que haviam praticado o mal, porque essa era a sua missão, mas não induzia os homens ao pecado para desfrutar e tripudiar dos seus sofrimentos. Satã, porém, recruta vítimas por toda parte e regozija-se ao atormentá-las com uma legião de demônios armados de forcados a revolvê-las no fogo. Quanto à localização do inferno, alguns doutores o têm colocado nas entranhas mesmas do nosso globo; outros não sabemos em que planeta, sem que o problema se haja resolvido por qualquer concílio. (1) (Obra citada, Primeira Parte, cap. IV, itens 3 a 5, 11 e 12.)

14. Segundo a Igreja, as crianças falecidas em tenra idade iriam para o limbo. Que significa essa palavra? 

As crianças falecidas em tenra idade, como não fizeram mal algum, não poderiam ser condenadas ao fogo eterno. Mas, também, não tendo feito bem, não lhes assiste direito à felicidade suprema. Ficariam, então, no limbo, diz-nos a Igreja, numa situação jamais definida, na qual, se não sofrem, também não gozam da bem-aventurança. A natureza do limbo, contudo, não foi jamais definida. (2) (Obra citada, Primeira Parte, cap. IV, itens 7 e 8.)

15. Segundo a descrição da teologia católica, Deus produz dois milagres para tornar ainda mais terríveis os sofrimentos dos condenados ao inferno. Que milagres são esses? 

O primeiro milagre seria a ressurreição dos corpos, algo inimaginável sobretudo quando o corpo do indivíduo que morreu se tenha dissolvido com o decurso do tempo. O segundo milagre é dar a esses corpos mortais a virtude de subsistirem sem se dissolverem numa fornalha, onde se volatilizariam os próprios metais. (Obra citada, Primeira Parte, cap. IV, item 13.)

16. O inferno católico excede o inferno pagão. Quais as suas diferenças? 

Além das observações já mencionadas, no inferno pagão não se vê o requinte das torturas que constituem o fundo do inferno admitido pela Igreja. Juízes inflexíveis, porém justos, proferem a sentença, sempre proporcional ao delito, ao passo que no império de Satã são todos confundidos nas mesmas torturas, com a materialidade por base, e banida toda e qualquer equidade. No inferno católico, as sentenças não são proporcionais à gravidade do pecado cometido, mas, sim, iguais para todos os que nele se encontrem (Op. cit., 1.ª Parte, cap. IV, itens 9 a 15).


(1) Em 4 de agosto de 1999, o papa João Paulo II declarou ao L'Osservatore Romano que "o inferno está a indicar, mais do que um lugar, a situação em que se vai encontrar quem de maneira livre e definitiva se afasta de Deus, fonte de vida e de alegria", uma ideia próxima do que ensina o Espiritismo.

(2) Recentemente a Igreja Católica tornou sem efeito todas as disposições que se referiam ao limbo, por entender que Deus tem meios invisíveis, não comunicados aos homens, para salvar todas as crianças, mesmo as que morrem sem o batismo.

 

 

Observação: Para acessar a 1ª Parte deste estudo, publicada na semana passada, clique aqui: https://espiritismo-seculoxxi.blogspot.com/2021/04/blog-post.html

 

sábado, 8 de maio de 2021

 


CAPITULO 15 - FORA DA CARIDADE NÁO HÁ SALVAÇÃO

 

O que é preciso para ser salvo – Parábola do bom samaritano - O maior mandamento – Necessidade da caridade segundo Paulo - Fora da igreja não há salvação - Fora da verdade não há salvação - Instruções dos Espíritos: Fora da caridade não há salvação

 

O QUE É PRECISO PARA SER SALVO – PARÁBOLA DO BOM SAMARITANO

 

Ora, quando o Filho do Homem vier na sua majestade, acompanhado de todos os anjos, Ele se assentará sobre o trono de sua glória; e todas as nações se reunirão diante dele, e Ele separará uns dos outros, como o pastor que separa dos bodes as ovelhas; e assim porá as ovelhas à direita, e os bodes à esquerda.

Então dirá o rei aos que estarão à sua direita: Venham, benditos de meu Pai, possuam o reino que lhes está preparado desde o princípio do mundo; porque tive fome, e vocês me deram de comer; tive sede, e deram-me de beber; precisei de hospedagem e vocês me acomodaram; estava nu, e vestiram-me; estava doente, e visitaram-me; estava preso, e me vieram ver.

Então os justos lhe responderão: — Senhor, quando é que nós o vimos faminto e lhe demos de comer; ou com sede, e lhe demos de beber? E quando precisou de hospedagem e o acomodamos; ou nu e o vestimos? Ou quando o vimos doente ou na prisão e o visitamos? E o rei lhes responderá: Em verdade lhes digo, que quantas vezes vocês fizeram isto a um destes mais pequeninos dos meus irmãos, a mim é que o fizeram.

Em seguida dirá aos que estarão à esquerda: — Afastem-se de mim, malditos, vão para o fogo eterno que foi preparado para o diabo e seus anjos; porque tive fome, e não me deram de comer; tive sede, e não me deram de beber; precisei de hospedagem e não me acomodaram; estava nu, e não me vestiram; estava doente e na prisão e não me visitaram.

Então eles também responderão: Senhor, quando é que nós o vimos faminto, com sede, ou sem hospedagem, ou nu, ou doente, ou na prisão, e deixamos de assisti-lo? E Ele lhes responderá: Em verdade, digo-lhes que quantas vezes o deixaram de fazer a um destes mais pequeninos, a mim o deixaram de fazer.

E irão estes para o suplício eterno, e os justos para a vida eterna (Mateus, 25:31-46).

Então, levantou-se um doutor da lei, e lhe disse, para o tentar: Mestre, que preciso fazer para  possuir a vida eterna? Respondeu-lhe Jesus: Que está escrito na lei? Como lê você? Ele respondeu-lhe: Ame o Senhor seu Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma, com todas as suas forças, de todo o seu espírito e a seu próximo como a si mesmo. E Jesus lhe disse: Respondeu muito bem; faz isso, e viverá.

Mas o homem, querendo parecer que era justo, disse a Jesus: E quem é meu próximo? E Jesus, retomando a palavra, disse-lhe:

— Um homem, que descia de Jerusalém para Jericó, caiu nas mãos de ladrões, que o despojaram, cobriram de ferimentos e se afastaram, deixando-o semimorto. Aconteceu em seguida que um padre descia pelo mesmo caminho, mas quando o viu passou adiante. Um levita, que vinha também àquele lugar, tendo observado-o, passou também adiante. Mas um samaritano, que estava viajando, chegando ao lugar onde estava o homem, quando o viu, foi tomado de compaixão. Aproximou-se dele, derramou óleo e vinho nas feridas e as cobriu; e, pondo-o sobre seu cavalo, o levou a uma hospedaria, e  cuidou dele. No dia seguinte, tirou dois denários, deu-os ao hospedeiro, e lhe disse: — Trate muito bem deste homem; e, tudo que gastar demais, eu lhe pagarei quando voltar.

Qual destes três lhe parece ter sido o próximo daquele que caiu nas mãos dos ladrões? O doutor respondeu-lhe: — Aquele que usou de misericórdia para com ele. Então vá — disse Jesus — e faça  o mesmo (Lucas, 10:25-37).

           

            Toda a moral de Jesus se resume na caridade e na humildade, ou seja, nas duas virtudes contrárias ao egoísmo e ao orgulho. Em todos os seus ensinamentos, mostra essas virtudes como sendo o caminho da felicidade eterna. Bem-aventurados, diz Ele, os pobres de espírito — quer dizer: os humildes —, porque deles é o Reino dos Céus; bem-aventurados os que têm coração puro; bem-aventurados os mansos e pacíficos; bem-aventurados os misericordiosos. Amem seu próximo como a si mesmos; façam aos outros o que desejariam que lhes fizessem; amem seus inimigos; perdoem as ofensas, se querem ser perdoados; façam o bem sem ostentação; julguem a si mesmos antes de julgar os outros. Humildade e caridade, eis o que não cessa de recomendar, e o de que Ele mesmo dá o exemplo. Orgulho e egoísmo, eis o que não cessa de combater. Mas Ele fez mais do que recomendar a caridade; põe-na claramente, em termos explícitos, como a condição absoluta da felicidade futura.

            No quadro que Jesus dá, do juízo final, como em muitas outras coisas, temos de separar o que faz parte da figura e da alegoria. A homens como aos que falava, ainda incapazes de compreender as coisas puramente espirituais, devia apresentar imagens materiais, surpreendentes e capazes de impressionar. Para que fossem melhor aceitas, não podia mesmo afastar-se muito das ideias em voga, no tocante à forma, reservando sempre para o futuro a verdadeira interpretação das suas palavras e dos pontos que ainda não podia explicar claramente. Mas, ao lado da parte acessória e figurada do quadro, há uma ideia dominante: a da felicidade que espera o justo e da infelicidade reservada ao mau.

            Nesse julgamento supremo, quais são os considerandos da sentença? Sobre que se baseia a inquirição? Pergunta o juiz se foram atendidas estas ou aquelas formalidades, observadas mais ou menos estas ou aquelas práticas exteriores? Não, ele só pergunta por uma coisa: a prática da caridade. E se pronuncia assim: Vocês que socorreram seus irmãos passem à direita; vocês que foram duros para com eles passem à esquerda. Informa-se pela ortodoxia da fé? Faz distinção entre o que crê de um modo, e o que crê de outro? Não, pois Jesus coloca o samaritano, considerado herético, mas que tem amor ao próximo, acima do ortodoxo a quem falta caridade. Jesus não faz, portanto, da caridade, apenas uma das condições da salvação, mas a única condição. Se outras devessem ser preenchidas, ele as teria expressado. Se ele coloca a caridade à frente de todas as virtudes, é porque ela encerra implicitamente todas as outras; a humildade, a gentileza, a benevolência, a justiça etc.; e porque ela é a negação absoluta do orgulho e do egoísmo.

  Rumo à perfeição   Em nossa luta contra o mal em nós, O mal que não queremos sobreleva Por nossa imersão em densa treva Desde o tempo de n...