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terça-feira, 12 de outubro de 2021

 

EM DIA COM O MACHADO 492:

Nova aventura de Dinis (Jó)

 


Novamente, da janela, vi meu vizinho dirigir-se ao mercado levando consigo a vontade de contribuir com sua doação semanal. Então, resolvi observar de perto o que ele faria. Dinis seria apenas um desses fanfarrões que incentiva os outros a fazer o bem que ele mesmo não faz? Ou não?... É o que eu iria descobrir.

Para que o vizinho não me identificasse, antes de descer, pus máscara nova e, para  não ser traído pelo olhar, coloquei uns óculos pretos da marca Ray Ban, que ainda não usara. Além disso, usei um boné, camisa e short do Flamengo, embora ele saiba que sou torcedor do Fluminense. Devidamente disfarçado, fui à empresa...

Dinis adentrou o mercado, foi direto ao corredor das cestas básicas, pegou um pacote e encaminhou-se para a fila do caixa destinado ao atendimento a idosos, grávidas etc., pois, como eu disse na crônica anterior, somos idosos. Ali chegando, viu que havia três pessoas na fila, mas apenas a terceira era idosa. As duas primeiras, quando muito, estavam na casa dos cinquenta anos de idade, não eram grávidas, portadoras de necessidades especiais e nem levavam ao colo crianças. Uma delas já estava sendo atendida pelo caixa, que nem se deu ao trabalho de conferir a idade das clientes. O idoso, à frente de Dinis, bengala na mão, conduzia um carrinho cheio de compras, e a jovem, antes daquele, carregava dois ou três pequenos volumes.

Uma senhora idosa postou-se atrás de Dinis e, vendo-o com a cesta básica nos braços, perguntou-lhe qual era o preço do pacote. Após ser informada, disse-lhe que gostava de, por vezes, comprar uma cesta básica e doá-la. Dinis, discretamente, respondeu-lhe que fazer o bem é sempre bom. E nada mais disse.

Ao sair do mercado, meu vizinho foi abordado por uma jovem que trazia um bebê no colo e lhe pediu dinheiro. Dinis parou, ajeitou sua cesta básica, e respondeu-lhe:

— Vou ver se tenho algum... — Puxou sua carteira do bolso e, antes de abri-la, a jovem estipulou a quantia que desejava. Demonstrando certa contrariedade, meu amigo deu-lhe o valor solicitado e o seguinte conselho:

— Senhora, quando pedir auxílio financeiro, nunca diga o valor que deseja receber...

Tão logo a jovem mãe afastara-se com a espórtula recebida, aproximei-me de Dinis, identifiquei-me e cumprimentei-o por tudo que o vi fazer. Meu amigo agradeceu-me, mas reconheceu não ter agido bem com a jovem mãe.

— Por que não? Vi quando você lhe deu exatamente o que ela lhe pedira — protestei. Dinis baixou os olhos tristes e, como se monologasse, concluiu:

— Não devemos, mesmo a título de orientação, repreender quem se humilha nos pedindo ajuda material. Aquela jovem mãe pode ter ouvido meu conselho como uma crítica. Por outro lado, não basta que tiremos do bolso um pequeno valor e o entreguemos a quem nos pede auxílio. É também muito importante que ouçamos essa pessoa, que nos interessemos por sua situação e lhe sejamos solidários, até mesmo para tentarmos auxiliá-la com uma ocupação digna, caso isso seja possível.

Agradeci ao meu vizinho amigo e também passei a refletir...

sábado, 9 de outubro de 2021

 


16.8.3 Emprego da fortuna

Cheverus

Bordeaux, 1861

 

Vocês não podem servir a Deus e a Mamon. Lembrem-se bem disso, vocês que são dominados pelo amor do ouro, vocês que venderiam sua alma para possuir tesouros, porque isso poderia elevá-los acima das outras pessoas e proporcionar-lhes o gozo das paixões. Não, não se pode servir a Deus e a Mamon! Se, portanto, sentem sua alma dominada pelas cobiças da carne, apressem-se em sacudir o jugo que os esmaga, pois Deus, justo e severo, lhes perguntará: Que fizeram, ecônomos infiéis, dos bens que lhes confiei? Esse poderoso motivo de boas obras vocês o utilizaram somente na sua satisfação pessoal.

Qual é, então, o melhor emprego da riqueza? Procurem nestas palavras: "Amem-se uns aos outros", a solução desse problema. Nelas está o segredo da boa aplicação das riquezas. Quem ama seu próximo tem aí sua linha de conduta toda traçada. O emprego que agrada a Deus é o da caridade. Não essa caridade fria e egoísta, que consiste em distribuir ao redor de si o supérfluo de uma existência dourada, mas a caridade plena de amor, que procura o infeliz e o socorre sem o humilhar.

Rico, dê do seu supérfluo; faça ainda mais; dê um pouco do seu necessário, porque o seu necessário é também supérfluo, mas dê com sabedoria. Não rejeite a queixa, com medo de ser enganado, mas vá à fonte do mal. Ajude primeiro; informe-se depois, para ver se o trabalho, os conselhos, a afeição mesmo, não serão mais eficazes do que sua esmola. Espalhe ao seu redor, com a abastança, o amor de Deus o amor do trabalho, o amor do próximo. Ponha sua riqueza sobre uma base que nunca lhe faltará e que lhe garantirá grandes lucros: as boas obras. A riqueza da inteligência deve servir-lhe como a do ouro. Derrame em torno de si os benefícios da instrução, reparta com seus irmãos os tesouros do amor, e eles frutificarão.

quinta-feira, 7 de outubro de 2021

 

Pragmatismo e Utilitarismo

Pragmatismo e Utilitarismo

por Alexsandro M. Medeiros

lattes.cnpq.br/6947356140810110

postado em abr. 2016

          O pragmatismo deriva do vocábulo prágma que significa em grego a ação e depois prática, originou-se entre pensadores norte-americanos como explicação para o valor concedido pela burguesia ao lucro e ao bem-estar proporcionado pelos bens materiais. Charles Sanders Peirce (1854-1914) foi considerado criador do Pragmatismo e William James (1842-1910) e John Dewey (1859-1952) foram seus principais representantes (PASSOS, 2004).

            Segundo Vásquez essa doutrina tem como particularidade a sua identificação da verdade com a utilidade, no sentido de que vê o útil como o único caminho da verdade.

No terreno da ética, dizer que algo é bom equivale a dizer que conduz eficazmente à obtenção de um fim, que leva ao êxito. Por conseguinte, os valores, princípios e normas são esvaziados de um conteúdo objetivo, e o valor do bom – considerado como aquilo que ajuda o indivíduo na sua atividade prática – varia de acordo com cada situação (2003, p.288).

            Em relação à moral, alguma coisa pode ser considerada boa caso proporcione o alcance dos objetivos propostos, não existindo, dessa forma, valores absolutos no sentido de que o que é bom ou mau é relativo e pode variar em diferentes situações.

            Para Vásquez (2003, p.288), a redução do comportamento moral às ações que proporcionam o sucesso pessoal torna o pragmatismo uma versão utilitarista caracterizada pelo interesse individual e que “por sua vez, rejeitando a existência de valores ou normas objetivas, apresenta-se como mais uma visão do subjetivismo e do irracionalismo”.

            Já o utilitarismo é uma corrente de pensamento no campo da ética e da política e que tem sua origem nas ideias do pensador francês Claude-Adrien Helvétius(1715-1771) e do filósofo inglês do direito Jeremy Bentham (que foi influenciado por Helvétius) e que teve como seguidor o filósofo e economista inglês John Stuart Mill. “Jeremy Bentham (1748-1832) e John Stuart Mill (1806-1873) são dois dos mais notórios pensadores que assentaram as bases do que se convencionou chamar de utilitarismo em ética” (FERRAZ, 2014, p. 220). E segundo Danilo Marcondes, estes pensadores “[...] formularam o ‘princípio de utilidade’ como critério de valor moral de um ato” (p. 116).

            Nos fundamentos de sua estrutura, o utilitarismo considera o indivíduo como a expressão da utilidade, do prazer, da felicidade ou do desejo de realização. A ética utilitarista retoma o princípio epicurista: o desejo de felicidade e a fuga do sofrimento. Afirma que as ações são boas na medida em que tendem a promover a felicidade e más quando produzem sofrimento.

            Bentham define a ética como a arte de conduzir as ações humanas no sentido de gerar a felicidade para o maior número possível de pessoas:

(...) II. – Em sentido amplo, a ética pode definir-se como a arte de dirigir as ações do homem para a produção da maior quantidade possível de felicidade em benefício daqueles cujos interesses estão em jogo.

III. – Quais são, porém, as ações que o homem pode dirigir? Serão necessariamente ou as suas próprias ações ou as de outros agentes. A ética, enquanto arte de dirigir as próprias ações do homem, pode ser denominada a arte do autogoverno, ou seja, a ética privada (1974, p.69).

            Com efeito, “um dos aspectos centrais do utilitarismo é que ele sustenta que as pessoas devem agir de tal forma que promovam, com suas ações, a maior felicidade para o maior número de indivíduos” (FERRAZ, 2014, p. 220).

Disponível em: Slideplayer, slide 12 (Acessado em 26/03/2016)

            De modo semelhante, para Stuart Mill, o legislador deveria propor leis com o objetivo de produzir a maior felicidade (concebida como o prazer ou a inexistência da dor) para o maior número de pessoas.

A doutrina que aceita a utilidade ou o Princípio da Maior Felicidade como o fundamento da Moral, sustenta que as ações estão certas na medida em que elas tendem a promover a felicidade e erradas quando tendem a produzir o contrário da felicidade. Por felicidade entende-se prazer e ausência de dor, por infelicidade, dor e privação de prazer [...] o prazer e a ausência de dor são as únicas coisas desejáveis como fins, e que todas as coisas desejáveis (que são tão numerosas no esquema utilitarista como em qualquer outro) são desejáveis, seja pelo prazer inerente a elas, seja como meios para promover o prazer e prevenir a dor (MILL, 2000, p. 30).

            Stuart Mill “[...] foi um dos maiores defensores do utilitarismo no século XIX. Foi o primeiro a de fato usar este termo, procurando argumentar contra seus críticos, sobretudo em sua principal obra de ética, intitulada precisamente Utilitarismo de 1863” (MARCONDES, p. 116).

            Os princípios da doutrina utilitarista envolvem todas as ações humanas consideradas comuns na tentativa de elevar ao nível máximo o grau de satisfação, como afirmado por Arruda, Whitaker e Ramos (2003 p.36): “De acordo com o princípio da maior felicidade, o fim último é uma existência isenta de dor e pródiga em gozos, no maior grau possível tanto quantitativa como qualitativamente”. A influência do utilitarismo se estendeu ao longo do século XX e permanece “[...] como uma das principais correntes contemporâneas no campo da ética e tendo inspirado concepções políticas como a de ‘bem-estar social’ e conceitos como o de ‘maximização do benefício’” (MARCONDES, p. 117).

            Por outro lado, Vásquez (2003, p.171) afirma que uma série de contestações podem ser feitas ao princípio distributivo do utilitarismo, observando que se o conteúdo do que é útil se identifica com a felicidade, o poder ou a riqueza haverá uma limitação na distribuição desses bens haja vista as imposições inerentes à estrutura econômico-social da própria sociedade.

 

Referências Bibliográficas

ARRUDA, M. C.; WHITAKER, M. C.; RAMOS, J.M. Fundamentos de Ética Empresarial e Econômica. 2.ed. São Paulo: Ed. Atlas, 2003.

BENTHAM, Jeremy. Uma Introdução aos Princípios da Moral e da Legislação. 2. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1979. (Coleção Os Pensadores).

FERRAZ, Carlos Adriano. Elementos de ética. Pelotas: NEPFil online, 2014. Acessado em 18/03/2016.

MARCONDES, Danilo. Textos básicos de ética. De Platão à Foucault. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 2007.

MILL, John Stuart. Utilitarismo. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

PASSOS, Elizete. Ética nas Organizações. São Paulo: Atlas, 2004.

VÁSQUEZ, Adolfo Sanchez. Ética. 24. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.

 

A Política e suas Interfaces → Ética e Política → Ética e Filosofia → Pragmatismo e Utilitarismo



Leia mais: https://www.sabedoriapolitica.com.br/products/pragmatismo-e-utilitarismo/

terça-feira, 5 de outubro de 2021

 

EM DIA COM O MACHADO 491:
um abençoado dia (Jó)



Salve, leitores!

 

Tenho um vizinho amigo que, toda semana, vai ao mercado, em frente ao nosso bloco, compra uma cesta básica e coloca em grande caixa da portaria do bloco. Contribui, assim, com a Campanha de Doação de Alimentos, promovida, há meses, pela "prefeitura" local. Vez ou outra, vejo-o voltando do mercado com a cesta...

Dia desses, ele disse-me que, após pegar uma cesta básica de 14 quilos, enquanto caminhava para um dos caixas, lembrou-se de comparar o preço do pacote com o de um pote de manteiga de meio quilo. Preço da cesta básica: R$ 60,00 (sessenta reais), aproximadamente. Preço da manteiga mais barata: R$ 30,00 (trinta reais). Na cesta não há manteiga, nem ao menos, margarina. Que pena!

Outro mistério que meu amigo ainda não conseguiu decifrar: o preço da cesta básica, que até hoje está afixado abaixo dos pacotes, no primeiro corredor do mercado, é de aproximadamente R$ 67,00 (sessenta e sete reais), mas há um mês, semana após semana, são-lhe cobrados sete reais a menos. E não adianta "reclamar" ao caixa: — Moço (ou moça), o preço da etiqueta é maior... A resposta, após consulta ao sistema é sempre a mesma: — O preço é esse mesmo que o senhor está pagando (R$ 60,00).

— Que mais lhe aconteceu no mercado? — indaguei-lhe.

— Quando me dirigi ao caixa, havia uma senhora com um carrinho cheio de compras à minha frente. Fiquei tranquilo, porém, pois acabara de praticar exercícios e, embora já seja idoso, segurar 14 quilos por uns cinco a dez minutos é moleza, para mim. Foi o que pensei, mas a senhora cedeu-me a vez e ainda me aconselhou: — Coloque o pacote sobre o balcão, para aliviar seus braços desse peso. Agradeci-lhe, paguei ao caixa e, na saída, enquanto ela olhava para os lados, agradeci-lhe novamente. Com a maior simplicidade, a alma bondosa respondeu-me:

— Por nada, vá com Deus!

— Uma atitude assim até merece uma crônica, meu caro Dinis. Mais alguma cousa?

— Sim. Ao sair do mercado, um vigia de carros abordou-me e falou:

— Que Deus o abençoe e que o senhor tenha um excelente dia. Dei-lhe uns trocados e segui em frente. Depois disso, amigo Jó, fui à farmácia, que fica do outro lado da rua. Ali, comprei remédio e sabão líquido. Informado do valor, dirigi-me à moça do caixa para pagar os produtos. O remédio era X e o sabão, Y. Na hora de pagar, porém, verifiquei que a jovem do caixa me cobrou X + Y + z. Como sou bom em cálculo mental, percebi o erro, mas calei-me. Na entrega dos produtos, contrariamente ao que sempre ocorre ali, quando nunca me perguntam isso, a moça indagou-me:

— O senhor quer a nota?

— Não precisa — respondi-lhe... Já havia percebido que a diferença fora pouco maior do que o aporte dado ao vigia de carros da via pública.

— Quanto? — perguntei ao Dinis.

Ele, com simplicidade, respondeu-me:

— Só o suficiente para, cada um, comprar um litro de leite e dois pãezinhos. E arrematou: Que bom será quando todos agirmos como aquela gentil senhora, que pratica o bem no cotidiano de nossa existência neste maravilhoso mundo azul.

— Por quê?

— Porque cedeu-me parte do seu tempo, e isso, para muitos de nós, é mais importante do que alguns trocados...

Quanto ao rapaz, deu-me o ensejo de aliviar-lhe um pouco a carência material. Disse, por fim.

— E a moça do caixa? — Perguntei-lhe.

— Com ela aprendi o que não se deve fazer em prejuízo do próximo, ainda que  seja mínimo, pois Jesus nos ensinou que da prisão não sairemos, sem sofrimento, até que paguemos o último centavo de nossas dívidas. Isso está em Mateus, 5:25,26. Essa prisão é a da consciência culpada, que nos cobra reparação do mal feito a alguém.

— Você agiu bem —  falei ao amigo Dinis —. Como disse o apóstolo Pedro, devemos ter "[...] ardente amor uns para com os outros, pois o amor cobre a multidão de pecados."  (I Pedro, 4:8). Mas não seria melhor esclarecer o que houve com a moça do caixa farmacêutico? Quem sabe se não teria havido engano?... Muitas vezes, algo que nos parece prova da má-fé não passa de nosso juízo errado.

Dinis, então, concluiu com esta pérola de raciocínio:

— Jó, se houve ou não má-fé, a nota fiscal recusada poderia confirmar. Mas nada justifica que subtraiamos um centavo sequer de alguém sem seu consentimento. Se, porém, o que nos tiram é insignificante para nós, por que humilhar o nosso próximo, acusando-o, em vez de amá-lo e socorrê-lo?

Concordei com Dinis e nos despedimos fraternalmente com um abraço.

O mundo precisa do nosso auxílio material e espiritual: nos pensamentos, nas palavras, nos gestos e nos atos. Agindo assim, breve o vírus passará... o vírus do mal.

No encerramento desta crônica, lembrei-me de que, tempos atrás, eu postava um link de música para acesso de meus leitores, e esta, cantada pela bela voz do Renato Russo, vem bem a calhar aqui: Monte Castelo.

Clique, para ouvir, em: https://www.letras.mus.br/renato-russo/176305/    

Paz, saúde e caridade, meus amigos!

sábado, 2 de outubro de 2021

 


16.8.2 M. Espírito Protetor

Bruxelas, 1861

 

Os bens da Terra pertencem a Deus, que os dispensa de acordo com sua vontade e o homem nada mais é do que seu usufrutuário, administrador mais ou menos íntegro e inteligente. Eles pertencem tão pouco ao homem, como sua propriedade individual, que Deus frequentemente frustra todas as previsões, o que faz a fortuna escapar daqueles mesmos que creem possuí-la com os melhores títulos.

Vocês dirão talvez que isso se compreende em relação à fortuna hereditária, mas não àquela que o homem adquiriu pelo seu trabalho. Sem dúvida que, se há uma fortuna legítima, é a que foi adquirida honestamente, porque uma propriedade só é legitimamente adquirida quando, para conquistá-la, não se prejudicou a ninguém.

Serão pedidas contas de cada centavo mal adquirido, em prejuízo de alguém. Mas por que um homem conquistou por si mesmo a sua fortuna, terá alguma vantagem ao morrer? As precauções que ele toma para transmiti-la a seus descendentes não são muitas vezes inúteis? Porque se Deus não quiser que ela lhes seja transmitida, nada prevalecerá sobre a sua vontade. Poderá ele usar e abusar de seus haveres, impunemente, durante a vida, sem ter de prestar contas? Não, pois ao lhe permitir adquiri-los, Deus pode ter querido recompensar, durante essa vida, seus esforços, sua coragem, sua perseverança. Se ele somente os empregou para a satisfação dos seus sentidos e do seu orgulho, se tais haveres tornaram-se para ele uma causa de queda, melhor seria não os ter possuído. Desse modo, ele perde de um lado o que ganhou de outro, anulando o mérito do seu trabalho. E quando deixar a Terra, Deus lhe dirá que já recebeu sua recompensa.

Tradução livre da terceira edição francesa por Jorge Leite de Oliveira

http://lattes.cnpq.br/0494890808150275

quinta-feira, 30 de setembro de 2021

 

Filosofia Cristã: Interioridade e Dever

Filosofia Cristã: Interioridade e Dever

por Alexsandro M. Medeiros

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postado em abr. 2016

            Na Idade Média a Filosofia sofrerá uma forte influência da tradição cristã. Os filósofos deste período são, ao mesmo tempo, teólogos, bispos, abades, padres. Ao tentar conciliar fé e razão, a filosofia permanecerá, ao longo de todo período medieval, subordinada à teologia, de tal modo que, neste período, é impossível separar o pensamento filosófico da tradição grega, do pensamento teológico cristão.

            Os primeiros filósofos cristãos, ao procurar conciliar fé e razão, procuraram interpretar, de forma racional, aquilo que era justificado pela fé através da revelação. Se somos seres dotados de razão, não poderíamos então utilizar esta mesma razão como instrumento de análise e reflexão sobre os pressupostos fundamentais da fé cristã? É assim que a filosofia se insurge no campo da ética cristã, como tentativa racional de justificar seus princípios e normas de comportamento, submetendo a lei divina revelada ao crivo da razão.

            Em um contexto de intensa relação entre filosofia e teologia, a ética cristã assume um lugar de destaque sendo definida por sua relação espiritual e interior com Deus (através da fé) e com o próximo (pela caridade). Além disso, por meio da revelação divina (Antigo e Novo Testamento), Deus manifestou aos homens sua vontade e suas leis, definindo o que é o bem e o mal, felicidade e infelicidade, salvação e castigo. Esta revelação é fundamento para a vida ética do cristão que deve obedecê-la reconhecendo nela a vontade e a lei de Deus, introduzindo assim no campo da moral a ideia do dever. Desta forma, uma conduta será considerada ética ou moral se realizada de acordo com as normas impostas pelo dever e imoral ou antiética, se realizada em contrariedade com tais normas. No cristianismo, o que o Homem seria ou deveria ser definia-se em relação à divindade. A essência da felicidade tornou-se a contemplação de Deus; a ordem sobrenatural passou a ter primazia sobre a natural.

            Vale salientar que a moral cristã, ao destacar a interioridade dos seres humanos, introduziu um outro conceito na constituição da moralidade ocidental que é a ideia de intenção. O dever se refere, inclusive, àquilo que pode ser chamado de ações invisíveis (e não apenas visíveis), que devem ser julgadas eticamente. Isto quer dizer que deve ser levado em consideração no julgamento ético não apenas os atos, mas as intenções que nos levaram a praticar determinado ato. E o cristão tem tanto mais razão para levar em consideração suas próprias intenções quanto sabe que mesmo aquilo que é invisível aos olhos humanos, é visível aos olhos de Deus. Nada Lhe está oculto, nem mesmo o que acontece no interior dos homens.

            O cristianismo se afirma ainda na ideia do livre-arbítrio, sendo que o primeiro impulso da liberdade dirige-se para o mal (pecado). O homem passa a ser fraco, pecador, dividido entre o bem e o mal. O auxílio para a melhor conduta é a lei divina. Também é possível afirmar que a ética cristã se fundamenta no amor: “ainda que eu fale a língua, dos homens e dos anjos, se eu não tiver amor... eu nada sou”. O amor foi colocado como o primeiro e maior mandamento: o amor a Deus acima de todas as coisas e o amor ao próximo. É no amor que o cristianismo encontra sua realização espiritual mais profunda.

            O cristianismo se apresenta muito mais como uma religião, uma sabedoria do que como uma filosofia, mas que pressupõe uma específica concepção do mundo e da vida, pressupõe uma precisa solução do problema filosófico. O cristianismo fornece uma imprescindível integração à filosofia, no tocante à solução do problema do bem e do mal, mediante os dogmas do pecado original e da redenção pela cruz. E, enfim, além de uma justificação histórica e doutrinal da revelação judaico-cristã em geral, o cristianismo implica uma determinação, elucidação, sistematização racional do próprio conteúdo sobrenatural da Revelação, mediante uma disciplina específica, que será a teologia dogmática.

            Sob a influência da Igreja, as especulações se concentraram em questões filosófico-teológicas, tentando conciliar a fé e a razão. E é nesse esforço que Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, dois dos maiores expoentes da filosofia cristã, trouxeram à luz reflexões fundamentais para a história do pensamento cristão. Santo Agostinho e Tomás de Aquino foram os principais responsáveis pelo resgate cristão das filosofias de Platão e de Aristóteles, respectivamente. O primeiro é um dos maiores representantes do período da filosofia cristã conhecido como Patrística, e o segundo, da Escolástica.

Disponível em: Blog Entremundos (Acessado em 26/03/2016)

 

Santo Agostinho

            A aproximação entre Platão e o cristianismo constitui a primeira grande síntese entre a filosofia grega e o pensamento cristão, o assim chamado: platonismo cristão. A Filosofia de Santo Agostinho foi elaborada com base em uma aproximação entre o neoplatonismo de Plotino e Porfírio e a doutrina cristã. Mas o verdadeiro e legítimo conhecimento é o da teologia, e é a esses ensinamentos que o homem deve dedicar-se, pois só ele prepara sua alma para a salvação e para a visão de Deus.

            Tal como Sócrates e PlatãoAgostinho é um homem profundamente voltado para a sua interioridade, para esse grande mistério que é o homem, e sua obra prima, as Confissões (AGOSTINHO, 1955), põe a nu o seu espírito e o intenso drama vivido interiormente por ele mesmo, para alcançar um mais alto grau de espiritualidade, uma vez que é nessa interioridade, ou se se preferir, nas profundezas do nosso eu, que podemos realizar nosso encontro com Deus e nossa verdadeira essência. Assim, esse mergulho na nossa interioridade mostra-nos a nossa real essência, revela-nos que há dentro de nós algo de mais profundo que o nosso eu exterior e é dentro desta perspectiva de uma filosofia introspectiva que Agostinho agrega uma série de conceitos fundamentais.

            Evidentemente, a moral agostiniana é teísta e cristã e, desta forma, a virtude não é uma ordem de razão, hábito conforme a razão, como dizia Aristóteles, mas uma ordem do amor. É fácil constatar em sua obra Confissões que a essência do homem está no amor: “ama et fac quod vis” – ama e faça o que quiseres[1]Santo Agostinho fundamenta seu conceito de ética no Amor a Deus (amar a Deus acima de todas as coisas) que se desdobra no amor da criatura pelo Criador, no amor a si mesmo e ao próximo (ama ao teu próximo como a ti mesmo): o amor é o primado da vida moral. O princípio da supremacia de Deus é significativo por que assim consta nas Escrituras e, consequentemente, visa o respeito à lei de Deus que ordena todos os homens a amarem-se como irmãos.

            Os livros 7 e 8 das Confissões merecem aqui maior destaque pois que retratam os dois momentos cruciais da experiência mística agostiniana: sua conversão intelectual e sua conversão moral. O livro 7 trata do encontro decisivo de Agostinho com Platão, através do neoplatonismo. Agostinho percebe muitos traços de semelhança entre o neoplatonismo e o cristianismo. A sabedoria antiga pôde pressentir a finalidade da vida humana: sua união com Deus. Mas os filósofos antigos não viram (e nem poderiam ver) o caminho para alcançar esta felicidade: Cristo, o único caminho pelo qual os homens alcançam a salvação. Agostinho afirma que o neoplatonismo e o cristianismo se assemelham, por exemplo, no que diz respeito a uma metafísica do ser e do não-ser, a doutrina do mal como privação do bem, a divina providência e uma teoria epistemológica da iluminação divina. Todavia, o que Agostinho não encontrava era a encarnação de Cristo e a salvação por meio desta encarnação. O livro 8 é o ponto culminante da obra. Agostinho narra de forma até poética as experiências que o conduziram definitivamente a conversão ao cristianismo: “tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova; estavas comigo e não eu contigo; seguravam-me longe de ti as coisas que não existiriam senão em ti, chamaste, clamaste por mim, afugentaste minha solidão, e eu ardi por tua paz”.

            No pensamento agostiniano, tal como no platonismo, encontramos igualmente a ideia de purificação da alma através da necessidade de uma elevação ascética para se compreender os desígnios de Deus (veja, por exemplo, a Alegoria da Caverna). O homem precisa se libertar de suas paixões para poder alcançar o equilíbrio espiritual, elevando-se à Deus, ao qual também é necessário o auto-conhecimento. Estando a alma purificada, está preparado o terreno para o verdadeiro conhecimento.

 

São Tomás de Aquino

            A Filosofia de São Tomás de Aquino (1224-1274) representa uma aproximação entre o cristianismo e o aristotelismo, assim como Santo Agostinho representou uma aproximação com o platonismo.

            Os filósofos medievais herdaram alguns elementos da tradição filosófica grega, reconfigurando-os no interior de uma ética cristã. São Tomás de Aquino recuperou da ética aristotélica a ideia de um agir racional teleológico e de que a felicidade é o fim último dos homens, mas cristianizou essa noção quando identificou Deus como a fonte dessa felicidade. A Filosofia de São Tomás de Aquino representa uma aproximação entre o cristianismo e o aristotelismo, assim como Santo Agostinho representou uma aproximação com o platonismo.

Tomás de Aquino assumirá diversos elementos fundamentais da filosofia aristotélica. Por exemplo, ele assume a ideia segundo a qual todos tendemos a um fim, sendo tal fim a nossa felicidade. Ele assume, também, a perspectiva teleológica. Também está em Tomás de Aquino a divisão entre as três funções anímicas: vegetativa, sensitiva e intelectual/racional. Isso se insere na divisão mais geral entre alma e corpo. Para Tomás de Aquino, o corpo é mutável e perecível. Mas, apesar de seu aspecto corruptível, ele pode colaborar para com o aperfeiçoamento humano. Na linguagem aristotélica, dir-se-ia que assim como a potência está para o ato, o corpo está para a alma (FERRAZ, 2014, p. 94).

            Assim como a quase totalidade dos teólogos medievais, para São Tomás, tudo o que existe é bom, porque é fruto e expressão da bondade suprema e livremente difundida por Deus. Todas as coisas, singularmente e em seu conjunto, são boas, porque de origem Divina. Por isso a ética tomista parte do princípio da existência de Deus, porque nenhuma ética seria possível sem pensar Sua existência. Além dessa bondade divina, é preciso levar em consideração também que o homem é de natureza racional, e é essa concepção de homem que vamos encontrar na base da ética tomista (uma clara influência do racionalismo aristotélico).

            Por isso alguns autores afirmam que a moral tomista é essencialmente intelectualista. A ordem moral depende da necessidade racional da divina essência, isto é, a ordem moral é imanente, essencial, inseparável da natureza humana, que é uma determinada imagem da essência divina, que Deus quis realizar no mundo. Desta sorte, agir moralmente significa agir racionalmente, em harmonia com a natureza racional do homem.

            Mas além da razão é preciso considerar o fator “vontade”, pois mesmo que a vontade não determine a ordem moral, é a vontade todavia que executa livremente esta ordem. Tomás afirma e demonstra a liberdade da vontade, recorrendo a um argumento metafísico fundamental. A vontade tende necessariamente para o bem em geral. Se o intelecto tivesse a intuição do bem absoluto, isto é, de Deus, a vontade seria determinada por este bem infinito, conhecido intuitivamente pelo intelecto. Porém, no mundo, a vontade está em relação imediata apenas com seres e bens finitos que, portanto, não podem determinar a sua infinita capacidade de bem e que pode conduzir ao mal e ao erro. É mister acrescentar que, para a integridade do ato moral, são necessários dois elementos: o elemento objetivo, a lei, que se atinge mediante a razão; e o elemento subjetivo, a intenção, que depende da vontade.

            Vemos assim que Tomás de Aquino destaca, como raiz do mal (concebido como em Agostinho como falta de bem), a ausência do conhecimento da ordem estabelecida por Deus. Se o intelecto humano pudesse oferecer a visão beatífica de Deus, a vontade humana não poderia deixar de desejar o fim ao qual está destinada sua natureza, que tende para Deus como bem supremo. Mas na vida terrena o intelecto só conhece o bem e o mal de coisas e ações que não são de Deus e a vontade é livre para querê-las ou não querê-las. Assim, podemos dizer que a raiz do mal está não apenas nesta ausência de conhecimento, como também na nossa liberdade, na vontade de poder escolher livremente o bem ou o mal. O homem, porque é livre, peca quando se afasta deliberadamente e infringe as leis de Deus que a razão lhe dá a conhecer e Deus a manifesta por meio da revelação. Nesse sentido, o mal é desobediência, e sua raiz está na liberdade, que pode ou não reconhecer nossa dependência em relação a Deus.

         

 

Referências Bibliográficas

AGOSTINHO, Santo. Confissões. Tradução de J. Oliveira e A. Ambrósio de Pina. 5. ed. Porto: Portugal, 1955.

BONINO, José Miguez. Ama e faze o que quiseres: uma ética para o novo homem. São Bernardo do Campo: Imprensa Metodista, 1982. Versão digital disponível em: Igreja Metodista de Vila Isabel. Acessado em 19/03/2016.

FERRAZ, Carlos Adriano. Elementos de ética. Pelotas: NEPFil online, 2014. Acessado em 18/03/2016.


[1] Segundo José Bonino esta frase aparece nas “Exposições da Epístola de S. João aos Partos” (AGOSTINHO, Exp. VII, 8) e expressa a ideia de que o amor constitui, simultaneamente, “[...] a motivação de nossas ações e possibilita o discernimento para realizá-las concretamente. O amor a Deus e ao próximo constituem uma só realidade” (BONINO, 1982, p. 150 – nota 9).

 

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Leia mais: https://www.sabedoriapolitica.com.br/products/filosofia-crista-interioridade-e-dever/

quarta-feira, 29 de setembro de 2021

 


A Literatura em Vários Escritos de Antônio Cândido - Post de Ana Cláudia


Função humanizadora da literatura está no post da Profª Drª  de Literatura da UnB Ana Cláudia. Recomendo muito a leitura em:

https://anchor.fm/ana-claudia-da-silva2/episodes/Literatura-e-direitos-humanos-e181ojc

Vale a pena ouvir e reouvir. Exposição maravilhosa que nos motiva a ler e conhecer a literatura como direito fundamental de todos e seus objetivos éticos, políticos, religiosos e sociais.

  Rumo à perfeição   Em nossa luta contra o mal em nós, O mal que não queremos sobreleva Por nossa imersão em densa treva Desde o tempo de n...