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sábado, 8 de abril de 2023

 

EM DIA COM O MACHADO 570:
ALERTA AOS MÉDIUNS (Irmão Jó)



            Alma amiga, hoje falaremos dum assunto muito sério: mediunidade. Para que serve e cuidados que o médium deve ter para não se tornar obsidiado, em vista do orgulho e egoísmo, fontes de todos os males.

            Na introdução d’O Livro dos Espíritos, Allan Kardec esclarece que a mediunidade é uma faculdade com características físicas e morais (item IV). Existem médiuns — continua ele a explicar-nos — de idades diversas e independente de sua sexualidade, bem como em “todos os graus de desenvolvimento intelectual”. A faculdade desenvolve-se pelo exercício.

            N’O Livro dos Médiuns, 2.ª parte, item 306, Kardec esclarece-nos de que a finalidade da mediunidade é o exercício do bem. Quem a utiliza visando aos seus interesses egoístas afasta os bons espíritos e fica à mercê das influências negativas dos maus espíritos.

            Sintetizo, então, o que diz o Espírito Manoel Philomeno de Miranda, na obra intitulada Mediunidade: desafios e bênçãos, psicografada por Divaldo Pereira Franco, que enumero e destaco abaixo em itálico: 

1.      [...] a prática mediúnica reveste-se de seriedade e de entrega pessoal, não dando espaço para o estrelismo, as competições doentias e as tirânicas atitudes de agressão a quem quer que seja...

2.      Devendo ser passivo, o médium, a fim de captar o pensamento que verte das Esferas Superiores, cuida do próprio comportamento, que se deve caracterizar pela jovialidade, pela compreensão das dificuldades alheias, pela compaixão em favor de tudo e de todos que encontre pelo caminho.

3.      As rivalidades entre médiuns, que sempre existiram e continuam, defluem da inferioridade moral dos mesmos, porque a condição mais relevante a ser adquirida é a de servidor incansável, convidado ao trabalho na seara por Aquele que é o Senhor.

4.      O verdadeiro médium espírita é discreto, como convém a todo cidadão digno, evitando, quanto possível, o empenho em impor as revelações de que se diz instrumento.

5.      De igual maneira, quando o médium passa a defender-se, a criticar os outros, a autopromover-se, a considerar-se melhor do que os demais, encontra-se enfermo espiritualmente, a caminho de lamentável transtorno obsessivo ou emocional.

6.      A sua sensibilidade é considerada não apenas pelo fato de receber os espíritos superiores, mas pela facilidade de comunicar-se com todos os espíritos, conforme acentua o insigne codificador.

7.      [...] a mediunidade é, em si mesma, neutra, podendo ser encontrada em todos os tipos humanos, razão pela qual não se trata de uma faculdade espírita, porém humana, que sempre existiu em todas as épocas da sociedade, desde os tempos mais remotos até os atuais (op. cit., cap. 10 Advertência aos médiuns). 

            Qualidades de grande importância do bom médium são a humildade e a simplicidade. Desse modo, ele evita tornar-se foco de aplausos e aceita sem melindre qualquer manifestação em relação àquilo que os espíritos lhe transmitem, ciente de que é apenas o instrumento de que eles fazem uso para a elevação de todos, a principiar dele mesmo, e de que deve orar  pelos espíritos infelizes. O modelo a ser seguido, como diz Philomeno de Miranda, é Jesus.

            Atente, pois, o médium, às palavras de Miranda, com as quais encerro estas linhas: “A mediunidade é instrumento que se pode transformar em vínculo de luz entre a Terra e o Céu, ou em furna de perturbação e sofrimento onde se homiziam os invigilantes e desalmados, em conflitos e pugnas contínuas”. Então, que o médium jamais se esqueça da recomendação de Jesus: “Vigiai e orai, para não cairdes em tentação...” (Mateus, 26:41).


sexta-feira, 7 de abril de 2023

 


AMOR E VIDA

 
Na sala extensa da delegacia,
Estavam de plantão
O chefe e um escrivão
Agindo atentamente.
 
Diante deles se reconhecia
Um nobre advogado em companhia
De um filho adolescente.
 
Algo distantes, lado a lado,
Erguia-se um soldado,
Guardando a prisioneira, uma doente,
Triste e pobre mulher, maltratada e abatida
Que, conquanto sentada,
Parecia a visão da dor, ansiosa e conformada,
Entre a ronda da morte e a presença da vida.
 
— Doutor — falou o chefe vigilante,
Dirigindo a palavra ao visitante —,
Embora o furto confessado,
Não sei o que fazer da velha, aqui detida,
Todo o processo-crime está formado,
Mas a infeliz não tem qualquer defesa...
Já nomeei um bacharel amigo
Que lhe proteja a causa
De mulher sofredora, em extrema pobreza,
Mas a doença dela é febre sem pausa,
Segundo o nosso médico em serviço,
É um caso grave de pneumonia...
Que fazer? Conservá-la na prisão?
Aguardar do juiz alguma decisão?
Recolhê-la em asilo hospitalar?
Ou guardá-la em custódia no seu lar?
 
O causídico explode em tom severo:
— Absolutamente, não a quero;
Trata-se aqui de ladra astuta e estranha
Que desde a meninice me acompanha...
Lavadeira na cada de meus pais,
Confesso que em meus tempos de menino
Ela foi ama generosa e boa,
Ajudou-me e serviu-me em pequenino,
Algum tempo de amparo, cousa à toa...
Mas foi sempre um trambolho em meu caminho.
Desorientada e analfabeta,
Sempre me pareceu a burrice completa...
 
Minha mãe há dez anos, falecida,
Pediu-me, antes da morte, agasalhar-lhe a vida.
Tornei-a lavadeira em minha residência...
Infelizmente agora,
Furtou minha senhora
Em joias no valor de alguns milhões!...
Fale, pois Excelência.
Como ampará-la com paciência,
Se esta velha se fez agora simples ladra?
Resguardá-la em meu lar? Isso não quadra.
 
Ouvindo a acusação, a pobre estarrecida,
Caiu, desfalecida.
 
Enternecido, o próprio delegado
Fitou o advogado,
Como a lhe perguntar de que modo agiria;
Ele apenas, porém, respondeu friamente:
— Que se lhe dê qualquer enfermaria...
Desmaio de gatuno é antigo expediente...
Depois, erguendo mais a voz:
— Pode espantar aos tolos, não a nós...
Nada posso fazer,
Devo esperar meu pai que volta ainda hoje
De uma visita a Portugal.
Coloquem esta ladra no hospital,
A Polícia dispõe de ação segura e pronta,
A despesa será por minha conta.
 
Pai e filho, no carro, a deslizar lá fora,
Eis que o rapaz revela, enquanto chora:
— Papai, ao ver tia Lina desmaiada
(Lina era o nome da acusada),
Já não devo ocultar o erro que fiz,
Num momento infeliz,
Roubei todas as joias da Mãezinha,
Tenho-as todas em minha escrivaninha;
E Tia Lina me viu quando as furtei,
Sabe o erro que fiz
E porque se calou, realmente não sei...
 
Pálido, o genitor espantado e abatido,
Colhe das mãos do filho o tesouro escondido...
Quer gritar, acusar, mas a hora é de ação;
O pai estava à porta,
Regressando feliz da ditosa excursão.
 
Depois das manifestações de amor e de alegria,
Ambos se trancaram numa sala;
O velho escuta a história e, ao registrá-la,
Tanto mais chora, quanto mais a ouvia...
 
Em silenciando o filho, o distinto senhor,
Sem poder disfarçar a profunda emoção,
Falou-lhe, coração a coração:
— Filho, de qualquer modo, és sempre, o nosso amor,
Eis chegado, no entanto, o instante justo,
Em que devo contar-te, mesmo a custo,
Algo que foi passado...
Minha esposa, depois de nosso enlace,
Precisava de alguém que lhe compartilhasse
Os cuidados do lar, a limpeza, o serviço...
Nossa querida Lina
Surgiu-nos, certo dia...Era quase menina,
No entanto, estava grávida e solteira
Nela encontramos nobre companheira,
Dela nasceste em nosso próprio lar,
Minha mulher beijou-te a sorrir e a cantar...
Desde então, tua mãe – tua mãe verdadeira,
Deu-se, de todo, a nós, de espírito cativo,
Esqueceu-se por nós, nunca pôde estudar,
Ela era o serviço, o apoio em nosso lar...
Nada nos reclamou, nem mesmo uma só vez,
Declarava-te o filho de nós três,
Nunca foste adotivo...
Criança recém-nata, eras fraco e doente;
Lina te resguardou, constantemente.
Mãe, servidora, irmã e escrava pelo afeto
Agora, certamente,
Aceitou a prisão para salvar o neto...
 
 
Sufocado de pranto, acompanhando o pai,
O advogado na delegacia
Apagou toda a queixa
Que já não mais vigoraria...
Perguntou por notícias da acusada,
Soube que Lina foi transportada
Para uma enfermaria de indigentes.
 
Correm os dois, ansiosos e impacientes,
Querem Lina de volta, por sinal;
Mas sobre o leito humilde do hospital,
Acham-na muda e inerte...Esclarece a enfermeira
Que a doente chegara à hora derradeira...
 
Põem-se os visitantes a chorar,
Mas Lina lhes dirige um último olhar...
E nesse último olhar que envolve os três
A verdade se fez...
 
Descem-lhe grossas lágrimas na face,
Qual se a pobre ao vertê-las,
Por elas encontrasse
Um caminho de luz para a luz das estrelas...
 
O filho a soluçar, sem conforto e sem voz,
Reconheceu, por fim, de alma abatida,
Que a mais simples mulher, em renúncia na vida,
Pode ser nossa mãe, junto de nós...
 
DOLORES, Maria (Espírito). Alma e vida. Psicografado por: Francisco Cândido Xavier. São Paulo: Cultura Espírita União, 1984.


quarta-feira, 5 de abril de 2023

 


REPORTAGEM

Reportagens!... Tantas vejo,
Entre pessoas e fatos,
Revelando altos contatos
No campo da informação!...
São estudos de armamentos,
Informes de grandes vultos,
Entrevistas de homens cultos,
Assuntos de ocasião...
 
Lendo as letras das cidades,
Busquei as periferias,
Tentando outras companhias
Que desejava escutar;
Pareceu-me estar num mundo,
Desvairado e diferente,
Onde existe tanta gente
Entre a revolta e o pesar.
 
Vi pobre mãe a estender-me,
No auge do desconforto,
Triste seio semimorto
E uma criança a gemer,
— Minha irmã — ela me disse —,
Que dizer do que me ocorre,
Grito e ninguém me socorre,
Vendo meu filho a morrer...
 
Numa choupana de lata,
Falou cansado ancião:
— Explicar-me? Por que não?
Note a mágoa que senti...
Sou cego, mas tive casa,
Com mesa rica e seleta,
Dei o que eu tinha a uma neta
E a neta largou-me aqui...
 
Foi num telheiro afastado
Que encontrei mais adiante
A irmã quase agonizante
Com febre alta a pedir:
— Minha irmã rogue, em meu nome,
À pessoa que me aceite
Um pires de pão com leite
Para que eu possa dormir...
 
Mais além, outra mulher,
Transportava, a curtos passos,
Um filho morto nos braços
Para dá-lo a um rabecão:
Ela chamava: — “Oh! Meu Deus,
Se entreguei meu filho à morte,
Quem será meu braço forte,
Nas horas de privação?!...
 
Entrevistas, reportagens?...
Em serviço, trago esta...
Não tem o gosto de festa,
Nem verbo renovador;
Traduz apenas convite
Ao trabalho, em qualquer hora,
Para darmos a quem chora
Uma centelha de amor.
 
DOLORES, Maria (Espírito). Alma e vida. Psicografado por: Francisco Cândido Xavier. São Paulo: Cultura Espírita União, 1984.


terça-feira, 4 de abril de 2023

 


REGRESSO DE SIMÃO PEDRO
 
Simão Pedro desperta, além da vida humana.
Retoma, pouco a pouco, as forças da memória.
Terminara, por fim, a luta insana
Do flagelo por grande pesadelo.
Recorda a cruz do fim, levantada ao avesso,
Que aceitara na Terra por vitória...
Sabe que está no Além, pensando em recomeço
Do próprio apostolado...
 
Onde estaria o Mestre Sempre Amado?
E os outros companheiros
De ânimo nobre e forte,
Que o haviam no mundo, precedido,
Sob a perseguição sem pausa e sem sentido,
Ao encontro da morte.
 
A brisa da manhã suave e cristalina
Trazia-lhe perfume ao leito novo e alvo...
Indagara Simão: “Que surpresa teria?”
Tocou o próprio corpo, achou-se são e salvo
E chorava, enlevado, em suprema alegria...
 
Alguns instantes mais e ouviu, enternecidamente,
Cânticos de louvor e saudação;
Alguém surgiu à porta, de repente,
Envolto em doce luz
A doar-lhe conforto e proteção...
Pedro entendeu quem era e bradou-lhe: “Jesus!”
 
Erguendo-se, em seguida,
Leve e ágil, gritou: “Ave, Senhor da Vida!...”
Cristo abeirou-se dele, a enlaçá-lo sorrindo,
Depois vieram outros companheiros,
Instrutores, amigos, mensageiros,
Do júbilo fazendo o festival mais lindo...
 
Pedro enxergou, feliz, os vergéis exteriores...
Eram jardins imensos,
Recheados de flores.
 
Em profunda euforia,
O ditoso Simão
Tomou a si a mão
Que Jesus lhe estendia
E disse, quase em pranto:
— Senhor, estou cansado,
Não mais me distancies de teu lado...
Trago comigo a dor
Dos que moram no mundo,
Aquele imenso caos, cada vez mais profundo,
De penúria, fadiga e sofrimento...
Não desejo perder as luzes que hoje alcanço,
Permite-me, Senhor ficar contigo,
Neste celeste abrigo...
Necessito de paz, de socorro e descanso...
Louvor a ti por me buscares...
Deixa-me nestes bosques estelares...
Ao mundo de onde venho,
Pelas tribulações padecidas no lenho,
Não mais quero voltar...
Desejo aqui viver contigo, neste lar...
 
Mas Jesus apontou-lhe o imenso espaço à frente
E falou-lhe a sorrir:
— Fica, Simão, se estás contente...
Estes sítios são teus,
Tanto quanto de todos os irmãos
Que serviram, na Terra, à bondade de Deus...
 
Cristo fez pausa e, logo após,
Explicou: “Quanto a mim,
Não posso repousar;
A construção do bem é o meu lugar...
Ouve, Simão!... Enquanto
Houver na Terra um só gemido
Numa gota de pranto,
Enquanto houver no mundo um coração caído,
Devo esforçar-me por permanecer
No trabalho do amor que é meu dever...
Mas, descansa, Simão!... Ver-nos-emos depois,
Nunca houve distância entre nós dois ...
 
Afastou-se Jesus,
Entretanto, Simão fitando o Excelso Amigo,
Bradou sem vacilar:
— Senhor, eu vou contigo!...
 
No passo firme do Divino Mestre,
Ambos se retiraram das Alturas,
Buscando a direção das faixas obscuras
Da vastidão terrestre...
 
Na retaguarda, em paz, ficou a multidão
De almas angelicais, numa doce canção,
Cujo estribilho recordava
Esta expressão de luz dos hinos galileus:
— Louvado seja o amor!... Bendito seja Deus!...
 
DOLORES, Maria (Espírito). Alma e vida. Psicografado por: Francisco Cândido Xavier. São Paulo: Cultura Espírita União, 1984.


segunda-feira, 3 de abril de 2023


 
OFENSORES
 
À frente do dia a dia,
Não olvides, alma boa,
Se alguém te fere, perdoa,
Na lutas que vêm e vão;
Resguarda-te em paz no mundo,
Ofensa, às vezes, na vida,
Vem da lágrima escondida,
Sob a forma de agressão.
 
Nas áreas do pensamento,
Sem queixas e sem consultas,
Existem dores ocultas,
Estradas que ninguém vê;
Vemos certos ofensores
Que espalham pedras em bando
Trazendo o peito sangrando...
Só eles sabem por que...
 
Esse carrega consigo
Enfermidade obscura,
Outro guarda a desventura
De uma afeição infeliz;
Outro deseja esquecer
A rebeldia tenaz,
Mas já não sabe o que faz
E nem pondera o que diz.
 
Outro surge em doce face,
Por vezes é quem mais amas,
Traz, por dentro, o peito em chamas,
Embora disfarce a dor;
A pessoa que te agride
É sempre, quando reponte,
Deserto pedindo fonte,
Angústia esmolando amor.
 
Também nós, além do mundo,
Buscando as Luzes Supremas,
Atravessamos problemas,
Exames de amor e paz;
Alma querida, o ofensor,
Nas sendas de cada dia,
É um teste que Deus te envia
Para saber como estás.
 
DOLORES, Maria (Espírito). Maria Dolores. Psicografado por Chico Xavier. 1. ed. Imp. pequenas tiragens. Brasília: FEB; São Paulo: IDEAL, 2022, p. 71.


sábado, 1 de abril de 2023

 

EM DIA COM O MACHADO 569
Camilo Castelo branco e sua Dolorosa Surpresa no Além (Irmão Jó)

        


        Salve, alma irmã!

        Hoje, o assunto é um alerta de Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco, um dos maiores romancistas portugueses, mais conhecido como Camilo Castelo Branco, que nos relata sua surpresa no Além após imaginar que a morte é panaceia, nome dado, na mitologia grega, à deusa da cura; nome também conhecido como “remédio para todos os males”. Ledo engano dele, como veremos nas citações de monumental obra mediúnica de Yvonne do Amaral Pereira. Talvez a mais completa obra que trata sobre as consequências dolorosíssimas do suicídio no Além: Memórias de um Suicida.

        Selecionamos, do capítulo primeiro dessa obra, intitulado O Vale dos Suicidas, alguns tópicos que nos fazem refletir sobre os horrores sofridos por esse e outros espíritos, em consequência de tentarem livrar-se de seus sofrimentos exterminando a vida do corpo físico.

        Camilo suicidou-se em 1.º de junho de 1890, mas somente se vê lúcido em janeiro de 1891, sem especificar o dia. Viu-se prisioneiro no que depois descobriu chamar-se Vale dos Suicidas, região espiritual de vales profundos, abjeta e sombria.

        Após dizer que o chamado Vale dos Leprosos, na antiga Jerusalém, “último grau de abjeção e de sofrimento humano” seria como um local de repouso consolador, em relação ao local em que se viu aprisionado, passa a narrar os horrores sofridos no Vale dos Suicidas: “Aqui, era a dor que nada consola, a desgraça que nenhum favor ameniza, a tragédia que ideia alguma tranquilizadora vem orvalhar de esperança! Não há céu, não há luz, não há Sol, não há perfume, não há tréguas”.

        Em seguida, lembra o “choro e ranger de dentes” da advertência de Jesus Cristo, nas regiões infernais, como aquela em que estava. Ali, o que há, continua Camilo, “[...] é o desaponto, a surpresa aterradora daquele que se sente vivo a despeito de se haver arrojado na morte! É a revolta, a praga, o insulto, o ulular de corações que o percutir monstruoso da expiação transformou em feras!”

        E, após dizer sobre a dor na consciência, da alma envolvida nas “trevas de si mesma”, prossegue: “É o inferno, na mais hedionda e dramática exposição, porque, além do mais, existem cenas repulsivas de animalidade, práticas abjetas dos mais sórdidos instintos, as quais eu me pejaria de revelar aos meus irmãos, os homens!”

        As páginas se sucedem na narração dos horrores das torturas morais de quem deserta da vida física:

 

O além-túmulo acha-se longe de ser a abstração que na Terra se supõe, ou as regiões paradisíacas fáceis de conquistar com algumas poucas fórmulas expressivas. Ele é, antes, simplesmente, a vida real, e o que encontramos ao penetrar suas regiões é Vida! Vida intensa a se desdobrar em modalidades infinitas de expressão (loc. cit.).

 

        Vou parar por aqui, pois o relato ainda vai longe. Como se sabe, Camilo Castelo Branco suicidou-se após ser acometido pela cegueira e não mais poder fazer o que tanto gostava: escrever. Escrever romances que retratam a vida amorosa da sociedade em que vivera. Sociedade que, ante a atual, cabe também a comparação que ele faz com o Vale dos Leprosos em relação ao dos suicidas.

        Sugiro-lhe ler a obra mediúnica objeto de nossos comentários, alma amiga, para que tire suas conclusões. Alertas do plano espiritual, em nosso tempo, nas quais, como lemos em obras de Kardec, o suicídio no mundo atual seria pandêmico. Esses alertas são da mais alta importância, a fim de que possamos dizer a todas as almas aflitas: Pare! não prossiga! a vida segue adiante e somente vivendo em prol da felicidade alheia encontraremos a própria felicidade. Pois, como disse o Mestre Excelso da Humanidade: “Bem-aventurados os aflitos, pois estes serão consolados!” (Mateus, 5:4).

        Aflitos, sim. Inconformados, revoltados e rebeldes, não, pois somente quem entendeu o sentido da abnegação, do devotamento e da caridade, recomendadas por Jesus, saberá suportar suas provas na Terra e será consolado no Além!

        Paz e luz!


segunda-feira, 27 de março de 2023


 

DEPOIS DO  TEMPORAL
 
Cansado coração, ouve, lá fora,
O turbilhão do temporal violento,
Cai o granizo, ruge a voz do vento...
É a Natureza que se desarvora.
 
O firmamento é anônima cratera,
Quando o raio estraçalha a noite escura,
E choras, ante o caos e a desventura,
A prova que te ensombra e dilacera.
 
Ao furacão que passa, caem ninhos,
Tombam troncos, a ímpetos medonhos,
E recordas as pedradas dos caminhos,
Que varaste perdendo os próprios sonhos!
 
Espera e crê!...O temporal vai longe!
Amanhã seguirás em nova estrada,
E, ao teu olhar, a luz será mais linda,
Quando o Sol acender a madrugada...
 
DOLORES, Maria (Espírito). Estrelas no chão. In: ESPÍRITOS Diversos. 3. ed. São Bernardo do Campo, SP: Grupo Espírita Emmanuel — GEEM, 2010.


  Rumo à perfeição   Em nossa luta contra o mal em nós, O mal que não queremos sobreleva Por nossa imersão em densa treva Desde o tempo de n...