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sexta-feira, 16 de junho de 2023

 


PATERNO AMOR
 
Na entrada do asilo,
Um homem robusto, jovem e tranquilo,
Apresentava o pai, um velho que contava
Oitenta e dois janeiros de existência,
À funcionária atenta que o ouvia...
Após sentá-lo num pequeno banco,
Falou à moça em tom seguro e franco:
 
— O velho já não sabe o que pensa ou o que diz,
A gritar e a gemer de exigência a exigência,
Formou de minha casa
Um recanto infeliz,
Cujo clima de luta é fogo que me arrasa.
Não quero ver meu filho
Crescendo com o avô inconveniente,
Quero-lhe a internação
De modo permanente.
Quanto custa a pensão?
 
A moça respondeu indiferente:
— A pensão é de quatro mil cruzeiros
A serem pagos mensalmente.
 
O senhor fez o cheque
Fazendo o pagamento da quantia
E depois de informar que voltaria,
Foi-se ao pai fatigado, explicando ao velhinho:
— Meu pai, aqui é a nossa casa de descanso
Terás aqui mais sossego e carinho,
Ao voltarmos da Europa
Virei buscar-te, imediatamente.
 
O pranto deslizou sobre a face enrugada
E o velho respondeu em voz tremente:
— O que será, meu Deus? Que medonho empecilho!...
Estar aqui a sós, sem te encontrar, meu filho!...
E como aguentarei a falta de meu neto?
Não queria afastar-me de meu teto!...
Peço por Deus!... Não te demores
E vem logo buscar-me...
 
O filho replicou, quase asperamente:
— Sem dúvida, meu pai, que podes esperar-me,
Mas não faças alarme...
Nada fará de mim um filho diferente;
Creio que ao fim do mês que vem,
Regressarei como convêm...
Mas o moço partiu e nunca mais voltou,
E ante a expressão do velho, triste e amarga,
Notava-se que o filho ali se despedira
Como quem se desliga de uma carga,
Agindo alegremente.
 
O velhinho viveu por lá, três anos,
De saudade, de dor e desenganos
A esperar pelo filho desertor;
A fadiga alterara-lhe a memória,
Não sabia contar a própria história,
Declarava-se um rico possuidor
De terras e fazendas produtivas,
Mas entregara tudo ao filho sem amor
Numa procuração,
Sem julga-lo capaz de alguma ingratidão,
E embora o filho lhe pagasse o asilo,
Sem questionar o preço,
Não lhe enviava notas de endereço...
Após trinta e seis meses de clausura,
O velhinho ralado de amargura,
Morreu clamando a falta da família...
O cadáver desceu à vala da indigência,
Por fim se lhe acabara a penosa existência.
 
Mas o tempo não para em parte alguma...
Quarenta anos passados,
De coração batido e passos retardados,
O homem que internara o esquecido velhinho,
Nota que a morte chega a cercar-lhe o caminho.
Poderoso senhor, não consegue expressar-se
Sob qualquer disfarce,
Tomba, inerte, no leito,
E ante o infortúnio da separação,
Grita por Deus, quer vida e proteção,
Mas a morte o reclama... o corpo se lhe esfria...
Vê-se desencarnado, em noite atroz,
Terrível e sombria...
Chora quase sem voz,
Quando sente que alguém lhe toma o cérebro cansado,
E lhe diz brandamente:
— Filho do coração, não te aflijas, nem temas,
Acabaram-se agora os teus problemas;
Confia em Deus, não percas a esperança,
Acalma-te e descansa...”
E beijando-lhe os cabelos,
Dedos mostrando carinhosos zelos,
Exclamou com ternura:
— Agora, sim, achei minha ventura,
Eu sou teu pai!... Meu filho, estou aqui...
Amo-te agora, mais do que te amava,
E só Deus sabe a dor com que eu chorava
Com saudades de ti!...
 
DOLORES, Maria (Espírito). Coração e vida. Psicog. Chico Xavier. Brasília: FEB; São Paulo, SP: IDEAL, 2022.


quinta-feira, 15 de junho de 2023

 


A humanidade regenerada


A humanidade regenerada

Marta Antunes Moura

 

A época atual, denominada pelo Espiritismo Período de Transição,  apresenta significativas características: a) acelerado desenvolvimento tecnológico  e científico; b) convulsões sociais e morais; c) alterações na estrutura geológica e atmosférica do Planeta. Muitas dessas condições ainda transmitem inquietações, a despeito do progresso intelectual alcançado pela humanidade. Contudo, as coisas irão se acomodar gradualmente e o reinado da paz será estabelecido na comunidade planetária, como ensinam os  Espíritos orientadores: “[…] a Terra não deverá transformar-se por meio de um cataclismo que aniquile de súbito uma geração. A atual desaparecerá gradualmente e a nova lhe sucederá do mesmo modo, sem que haja mudança alguma na ordem natural das coisas.”1 

“Para que os homens sejam felizes na Terra, é preciso que somente a povoem Espíritos bons, encarnados e desencarnados, que só se dediquem ao bem. Havendo chegado o tempo, grande emigração se verifica neste momento entre os que a habitam: a dos que praticam o mal pelo mal, ainda não tocados pelo sentimento do bem, os quais, já não sendo dignos do planeta transformado, serão excluídos, visto que, se assim não fosse, lhe ocasionariam de novo perturbação e confusão e constituiriam obstáculo ao progresso.”2 

Os Espíritos refratários ao bem  irão “[…] expiar o endurecimento de seus corações, uns em mundos inferiores, outros em raças ainda atrasadas, equivalentes  a mundos inferiores, aos quais levarão os conhecimentos que hajam adquirido, tendo como missão fazê-las avançar […].”3 

Passado o período da Transição Planetária, surge a Era da Regeneração, assinalada por importante transformação da sociedade humana da Terra: “Nestes tempos, porém, não se trata de uma mudança parcial, de uma renovação limitada a certa região, ou a um povo, a uma raça. Trata-se de um movimento universal, que se opera no sentido do progresso moral.”4  

Na humanidade regenerada encontram-se unidos dois tipos de progresso: o intelectual — caracterizado pela marcante aquisição do conhecimento em todos os campos do saber, o qual proporcionará mais bem-estar à vida na existência física; e  o moral — assinalado  pela solidariedade, fraternidade e  prática da caridade entre os indivíduos e os povos.  

Obviamente, esse duplo progresso não ocorrerá sem oposições , sem comoções sociais, sobretudo no campo das ideias,  fazendo surgir conflitos  e perturbações , mas de natureza temporária, fazendo restabelecer o equilíbrio:  “É, pois, da luta de ideias que surgirão os graves acontecimentos preditos e não de cataclismos ou catástrofes puramente materiais. Os cataclismos gerais foram consequência do estado de formação da Terra. Hoje, não são mais as entranhas do globo que se agitam: são as da humanidade.”5 

À agitação dos encarnados somam-se a influência dos desencarnados e as  catástrofes da Natureza, estabelecendo momentos de desarmonia  que serão melhor administrados ou eliminados, considerando a melhoria intelecto-moral existente. São os acontecimentos que estarão presentes, em maior ou menor escala nos tempos iniciais da regeneração.   Contudo, à medida que o caráter do ser humano vai se aprimorando, a solidariedade  e a cooperação mútua serão utilizadas como instrumento de paz e progresso:

“A humanidade, tornada adulta, tem novas necessidades, aspirações mais vastas e mais elevadas; compreende o vazio com que foi embalada, a insuficiência de suas instituições para lhe dar felicidade; já não encontra, no estado das coisas, as satisfações legítimas a que se sente com direito. É por isso que se despoja das fraldas da infância e se lança, impelida por uma força irresistível, para margens desconhecidas, em busca de novos horizontes menos limitados.”6 

O sentimento de espiritualidade estará presente, inevitavelmente, na humanidade regenerada, pois somente  “[…] o progresso moral pode assegurar aos homens a felicidade na Terra, refreando as paixões más; somente esse progresso poderá fazer que reinem entre as criaturas a concórdia, a paz a fraternidade.”7 

O Espiritismo  ocupará um papel de destaque na humanidade regenerada que disponibilizará conhecimentos a respeito de onde vem o Espírito porque está aqui e qual será a sua destinação. Haverá, então, compreensão geral  de fundamentos básicos ensinados pela Doutrina Espírita: noção sobre Deus, sobre Jesus, enquanto o Messias Celestial, sobrevivência do Espírito, a vida no plano extrafísico, influência e comunicabilidade dos Espíritos, reencarnação… 

O Evangelho é a referência a ser utilizada para o crescimento moral do indivíduo que se esforçará para ser não apenas um servidor da Seara do Cristo, mas um bom trabalhador:

“O bom trabalhador, no entanto, compreende, antes de tudo, o sentido profundo da oportunidade que recebeu. Valoriza todos os elementos colocados em seus caminhos, como respeita as possibilidades alheias.

 […]

Os cegos de espírito continuarão queixosos; no entanto, os que acordaram para Jesus sabem que sua época de trabalho redentor está pronta, não passou, nem está por vir. É o dia de hoje, é o ensejo bendito de servir, em nome do Senhor, aqui e agora...”8

Mudanças  para melhor acontecerão em todas as áreas do saber humano, inclusive em relação às ideias religiosas, eliminando-se os antagonismos que dividam pessoas e povos: 

Essa fase já se revela por sinais inequívocos, por tentativas de reformas úteis, por ideias grandes e generosas que começam a encontrar eco. É assim que vemos fundar-se uma imensidade de instituições protetoras, civilizadoras e emancipadoras, sob o influxo e por iniciativa de homens evidentemente predestinados à obra da regeneração; que as leis penais se impregnam dia a dia de sentimentos mais humanos. Os preconceitos de raça se enfraquecem, os povos começam a considerar-se membros de uma grande família; pela uniformidade e facilidade dos meios de realizarem suas transações, eles suprimem as barreiras que os separavam, e de todos os pontos do mundo reúnem-se em comícios universais, para os torneios pacíficos da inteligência […].”9

REFERÊNCIAS  

1.     KARDEC, Allan. A gênese. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 2. imp. Brasília: FEB, 2019. Cap. XVIII. It. 27, p. 357.

2.     KARDEC, Allan. A gênese. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 2. imp. Brasília: FEB, 2019. Cap. XVIII. It. 27, p. 356.

3.     KARDEC, Allan. A gênese. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 2. imp. Brasília: FEB, 2019. Cap. XVIII. It. 27, p. 356-357.

4.     KARDEC, Allan. A gênese. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 2. imp. Brasília: FEB, 2019. Cap. XVIII. It. 6, p. 346.

5.     KARDEC, Allan. A gênese. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 2. imp. Brasília: FEB, 2019. Cap. XVIII. It. 7, p. 346.

6.     KARDEC, Allan. A gênese. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 2. imp. Brasília: FEB, 2019. Cap. XVIII. It. 14, p. 351.

7.     KARDEC, Allan. A gênese. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 2. imp. Brasília: FEB, 2019. Cap. XVIII. It. 19, p. 353.

8.     XAVIER, Francisco Cândido. Caminho, verdade e vida. Pelo Espírito Emmanuel. 1. ed. 17. imp. Brasília: FEB, 2020. Cap. 73, p. 161 e 162.

9.     KARDEC, Allan. A gênese. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 2. imp. Brasília: FEB, 2019. Cap. XVIII. It. 21, p. 354.



Disponível em: www.febnet.org.br. Acesso em 15 de junho de 2023.

 

quarta-feira, 14 de junho de 2023

 


O ANJO E A CRUZ
 
Quando mãos devotas e piedosas
 Arrancaram da cruz o Cristo Amado,
 Certo amigo,
 A revelar extremo desconforto,
 Exclamou para o lenho áspero, erguido:
 
 — Antes nunca tivesses existido,
 Cruz infamante, horrível instrumento,
 Pouso de criminosos,
 Ódio a ti para sempre, cruz maldita!
 
 Mas eis que, em tudo, a vida brilha a estua...
 A cruz assinalando a maldição,
 Mostrou sentir a própria humilhação...
 Atormentada e triste,
 Relegada, por fim, à sombra merencória,
 Acreditou-se a escória
 De tudo quanto existe.
 
 Destacou-se, porém, generoso emissário,
 Dentre os Espíritos Sublimes,
 Assessores de Cristo no Calvário,
 Que acompanhando a cena,
 Falou à cruz silente e abandonada,
 Carregando de amor e a voz serena:
 
 — Não te sintas ferida ou desprezada,
 Cruz generosa e amiga!
 Por mais que o homem te maldiga,
 Ninguém te arredará do quadro e da memória
 Onde o Cristo estiver nos destaques da História.
 É preciso te lembres
 Que Jesus te escolheu, racionalmente,
Para atender a Deus, no sacrifício ingente,
A que se deu para elevar o mundo...
O Mestre poderia
Ter escolhido outro instrumento
Para fazer-lhe companhia,
Na amarga agitação que vimos neste dia,
Talvez algum punhal brasonado e violento,
Alguma lança de aguçado corte,
 Lapidação ou açoite
 Fossem a escolha dele para a morte...
 Entretanto, o Senhor
 Para remate da missão de amor,
 Elegeu-te como és,
 Madeira despojada,
 Obscura madeira,
 Para expressar contigo a lição derradeira
 Que nos podia ser doada...
 Ele, Jesus, sabia
 Que tiveste um passado de alegria...
 Eras árvore linda, em vigor opulento,
 Crescendo para o Sol, às carícias do vento...
 Vivias descuidada,
 A cobrir-se de flores e de frutos,
 Que oferecias sem quaisquer tributos
 A quem te procurasse o verde tronco...
 Eras o doce lar dos passarinhos.
 Encantava-te a música dos ninhos,
 Mas sob os golpes de machado bronco,
 Tombaste, certo dia...
 Ninguém mais te lembrou a bela ramaria,
 Nem mais te recordou o refúgio e a riqueza
 Que trazias nos braços
 Pela Bênção de Deus na luz da Natureza...
 Logo após abatida,
 Foste feita aos pedaços,
 Maltratada, vendida e revendida...
 A Terra não conhece a dor que te consome
 E, para quem te veja como estás,
 És madeira sem nome...
 Mas o Mestre da Vida e Príncipe da Paz
 Elegeu-te a presença dolorida
 Para exaltar com ele as lágrimas da vida...
 Contigo, o Cristo Amado quer dizer
 Ao sublime futuro por nascer
 Que o Céu não desampara os fracos e os caídos,
 Que a vitória do bem, criando resplendores,
 Nem sempre nascerá dos vencedores
 Mas sempre dos vencidos!...
 Por isto, oh! Cruz de bênçãos salvadoras,
 Na civilização que se aproxima,
 Brilharás muito acima
 De quaisquer expressões renovadoras.
 Terás imitações de prata e ouro
 Por sinal de Jesus, no caminho vindouro,
 Resplenderás, no mundo, em muitas leis,
 Serás consolação dos pobres deserdados,
 Tanto quanto prestígio e poder conjugados,
 Desde a choça da fé ao palácio dos reis!...
 Por tudo isso,
 O Céu mandou fazer-te em dois pedaços,
 Um deles vertical
 Apontando no Além a amplidão dos Espaços,
 O outro horizontal em traços certos,
 Simbolizando o amor universal,
 Muito embora, entre os homens esquecido,
 Escorraçado, preso, combatido,
 Mas de braços abertos...
 Cruz amiga de forças benfazejas,
 Deus de guarde e abençoe, bendita sejas!...
 
 Nesse exato momento,
 Desfizeram-se nuvens
 Descerrando a visão do firmamento...
 A Lua apareceu em remoto horizonte,
 Concentrando clarões nos ápices do monte,
 Abrilhantando em tudo os detalhes da cruz
 Que não mais resguardava
 Qualquer nota de dor e de agonia...
 Cintilante no alto, o lenho parecia
 O caminho real da Perfeita Alegria
 Para o Reino da Luz.
DOLORES, Maria; MEIMEI. (Espíritos). Somente amor. 1. ed. – Impressão pequenas tiragens. Brasília: FEB; São Paulo: IDEAL, 2022.

terça-feira, 13 de junho de 2023

 


RECADO DA ESPERANÇA
 
Nas provações que te surjam,
Ergue a fronte e segue à frente,
Aceita, firme e contente,
O caminho tal qual é...
De pensamento tranquilo,
Não pares. Segue e não temas,
Sem crises e sem problemas
Ninguém sabe se tem fé.
 
Contratempo, desencanto,
Infortúnio, prejuízo,
Tribulações de improviso,
Dificuldades no lar...
Tudo isso se resume
Na escola que nos ensina
A entender a Lei Divina
Que nos impele a marchar.
 
Esquece os males do mundo,
Mesmo os mais rudes e amargos,
Abraço os próprios encargos
Por íntimos cireneus;
Onde estiveres, relembra
Que o mérito vem da prova,
Que o sofrimento renova
E a dor é bênção de Deu
 
DOLORES, Maria (Espírito). In: Marcas do caminho. Psicografado por Francisco Cândido Xavier. 1. ed. – 1.ª impr. por demanda (P.O.D.). Brasília: FEB, São Paulo: IDEAL, 2021.


sábado, 10 de junho de 2023

 

EM DIA COM O MACHADO 579:
OBRIGATÓRIO LER (Irmão Jó)

 

        Há alguns anos, estivemos em Portugal. País maravilhoso! Lá, observamos, por onde passamos, extrema limpeza nas ruas e tratamento altamente atencioso aos turistas. Também encantadora é sua escultura de castelos medievais, de escolas e de catedrais, assim como nos encanta sua literatura.

        Qual ocorre em qualquer país, em especial no Brasil que tanto amamos, algumas curiosidades linguísticas observadas lá são motivo de riso. Então, com licença da estimada comunidade portuguesa, reproduzo abaixo o conteúdo lido por mim em cartaz colocado em espaço vazio ao lado duma loja: "Proibido estacionar. Obrigatório ler".

        Houve um tempo em que Machado de Assis recomendou aos jovens não serem tão açodados na elaboração de seus textos, o que se aplica, no caso citado, aos cartazes, mesmo que sejam criativos. Lembrei-me agora de ter lido uma frase de Allan Kardec sobre a formação intelecto-moral dum sábio. Dizia ele que, para se produzir um médico medíocre, são necessários alguns anos de estudos compenetrados, mas para se formar um sábio é preciso dedicar três quartas partes da existência ao conhecimento (O Livro dos Espíritos, introd., item 13).

        Logicamente, Kardec não baseou seu exemplo em quem tenha curta existência, salvo raras exceções, mas na pessoa que alcance algumas décadas de vida. Fazendo-se as contas, se morresse aos 60 anos, o sábio necessitaria de 45 anos de estudos aplicados.

        Recomendo-lhe também, alma querida, as considerações machadianas sobre a pureza da linguagem. Estão na sua crônica intitulada A língua. O problema é muito sério, em especial para os copidesques.

        Suponhamos que uma obra para revisão e avaliação crítica tivesse duzentas páginas, cada página tivesse 30 linhas e cada linha, setenta toques digitais em média. Calculei o total de 420.000 toques.

        Por aí se vê a dureza do trabalho do copidesque. Além das ideias, ele igualmente precisa estar atento à forma. E ai do revisor que, desses 420.000 toques, deixar passar erros em 0,1% deles, o que dá 420 toques e 60 palavras, com média de sete toques cada uma. Mas essas 60 palavras estão escondidas entre outras 60 mil...

        O copidesque precisa ver, naqueles milhares de termos, se eles não se repetem, em cada frase, se estão concordes gramaticalmente e se expressam, com objetividade, clareza, singeleza, pensamento criativo, alma sensível, senso de humor, originalidade...

        Há algum tempo, estive revisando uma cópia de obra tão mal digitada que, logo de início, me deparei com a seguinte frase: "Triste vi meti pai morrendo na bigorna". Sem entender nada, conferi com o texto original, cuja frase correta era a seguinte: "Triste, vi meu pai morrendo na bigorna". Era o relato de um filho ao contemplar, junto de sua mãe, o pai morto em acidente de trabalho.

        Se até para copiar os outros, alguns redatores têm dificuldade, quanto mais duro é o que eles escrevem precipitadamente. No domínio linguístico e literário, é preciso esforço persistente para se obter sucesso, como em tudo na vida.

         Como disse Thomas Edison: "O gênio se faz com 99% de transpiração e 1% de inspiração". O bom escritor também...


sexta-feira, 9 de junho de 2023

 


DESOBSESSÃO

 
O templo engalanava-se de luz.
 Era uma festa em honra de Jesus.
 
 As rosas pareciam joias solitárias,
 Emoldurando extensas luminárias.
 As flores do recinto eram doce fragrância
 E os crentes demonstravam cimos de elegância.
 
 No átrio, de onde se via o edifício repleto,
 Eis um guarda a exclamar: “Sou um homem correto;
 Pobres aqui não entram. Sou mandado.
 Tenho as prerrogativas de um soldado.
 Não quero ouvir pessoas descontentes,
 A festa de Jesus não comporta indigentes”.
 
 Certos grupos de damas mal vestidas
 Carregavam crianças em feridas.
 O chicote do guarda agitou-se no escuro
 E ele disse: “Aqui não pode haver monturo”.
 
 Mas aparece, ali, família desolada
 Que traz consigo jovem obsedada.
 Ele profere frases sem respeito
 E a mãezinha lhe diz com carinho e com jeito:
 “Cala-te, minha filha; esperemos a paz....”
 
 O obsessor cruel exclama: “Para trás!
 Sou das trevas e não suporto a luz,
 Não queremos a fé, nem queremos Jesus...”
 
 O guarda conduziu todo o grupo ao recanto,
 Enquanto a mãe dizia, a desmandar-se em pranto:
“Quem nos trará, oh! Céus, a Bênção do Senhor,
 Se não temos aqui acolhimento e amor?!...”
 
Das filas da pobreza, um moço desliza,
Vem à jovem que sofre e fala em voz amiga:
“Posso tentar algum socorro agora?”
“Tente, senhor!” – rogou a mãezinha que chora.
 
Quando o estranho, porém, se aproxima de todo,
O verdugo infeliz se atira no chão de lodo
E brada: “Sai daqui, Messias Nazareno,
A fim de injuriar-te eu não me desordeno.”
 
Calmo o moço lhe pediu: “Oh! Deixa a menina.
Acomodado à treva, o ódio te domina!...”
A entidade infeliz saiu, desesperada...
Logo o moço tocou a jovem desmaiada...
Ela acordou, beijando a mamãe com desvelo,
Qual se livrasse, ali, de horrível pesadelo.
 
Entre os pobres se ouviu enorme gritaria...
O salvador da moça quem seria?
 
O povo discutia tudo o que sucedeu...
No entanto, o herói da noite desapareceu...
 
DOLORES, Maria (Espírito). Dádivas de amor. Psicog. Chico Xavier. 1. ed. Brasília: FEB: São Paulo, SP: IDEAL, 2022.

 


quinta-feira, 8 de junho de 2023

 


JORNARDA
 
A senda é rude, mas sigamos
Na tarefa de amor que nos espera...
Abre-se o Mundo para a Nova Era,
O milênio da Guerra chega ao fim!...
Muitas tribulações estão em pauta...
 Ao longe,
 Surgem homens amados em conflito,
 Mas a nossa missão é a sementeira
 De transformar a Terra inteira
 Em formoso jardim.
 
 A violência distende as próprias garras,
 Corrompe, avilta, fere, desordena,
 Mas falaremos nós a palavra serena
 Que desfaça a vingança,
 Porque todos estamos na esperança
 De que a Lei de Deus se cumprirá perfeita
 Na hora justa e eleita
 Que promove e executa a reencarnação.
 Através das estradas em que vamos
 Notaremos, enfim, a luta imensa
 Da crença, combatendo as sombras da descrença,
 Do mal de que procede ao estigma da dor,
 Se a revolta domina
 Tens a paz na bênção da Doutrina
 Que Jesus nos legou ao coração.
 
Prossigamos no bem!
Não te amedrontes, alma boa,
Não estamos a sós nesta jornada...
Alguém segue conosco,
A ensinar-nos justiça, caridade e perdão...
Nada receies... Sigamos para a frente,
Trabalhando e servindo alegremente.
Esse alguém que nos segue, passo a passo,
Sem exigência e sem cansaço,
Dando-nos paz e luz
Acima dos problemas e das crises,
Apagando os momentos infelizes,
Esse alguém é Jesus.
 
DOLORES, Maria (Espírito). Dádivas de amor. Psicog. Chico Xavier. 1. ed. Brasília: FEB: São Paulo, SP: IDEAL, 2022.


Vitória espiritual   Você crê que eu já me aposentei... Sim, se for no sentido de ganho Monetário no que eu ocupei; Não se for em trabalho t...