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terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Em dia com o Machado 85 (jlo)

            Eram da mesma família felina. O primeiro chamava-se Abdul; a segunda, Aimee. Desencarnados, ambos conversavam sobre a influência dos pensamentos em nossas vidas. Dizia a gata Aimee para o filho:
            — Cria minha, o pensamento é quase tudo em nossas vidas. Ele nos permite criações maravilhosas, mas também tenebrosas. As mentes que se alimentam de ideias nefastas, ligadas ao sexo deseducado, ao ódio, aos crimes hediondos e vícios torpes, ao desencarnarem vão direto para as zonas trevosas. Lugar triste e ermo.
            — O que é feito de meu felino pai, mamãe? Ele faleceu há vinte anos e, como estou aqui há apenas dez, nunca tive notícias dele.
            — Amore mio... Como você sabe, seu pai foi um engenheiro renomado, no mundo físico, que construiu belos arranha-céus na Terra, mas arranhou também duas gatas, ligadas às zonas trevosas de nossa dimensão, embora aparentasse ser um pai de família exemplar e frequentasse a missa aos domingos. Quando desencarnou, as gatas também já libertas do corpo físico o esperavam para continuar enredando-o nas malhas da paixão inconsequente. Atormentam-se os três até hoje. Now they are lost in the threshold umbral.
            — E como se chamam essas gatas assanhadas, mamma?
            — A loira chama-se Zypp; a morena, Cher.
            — Não tem como livrá-lo de tais influências nocivas, mother?
        — O problema é de vibração, meu gatinho, eu o visito muitas vezes, mas ele não identifica minha presença. Zypp e Cher sempre o retiram das minhas influências e o arrastam para as zonas sombrias, onde se enroscam, há anos, num novelo de lã negra, do qual não se conseguem soltar.
            — Miau! E como faremos para libertá-lo dessa escatológica fascinação, maman?
          — Somente quando Juan aderir mentalmente, pelo remorso e desejo sincero de se libertar dos fluidos mentais funestos,  poderei exercer influência sobre ele e libertá-lo das garras dessas gatas sensuais.
            — Então, mamãe, vamos miar por ele, mas não nos esqueçamos também delas.
            — É verdade, meu filho, miaremos igualmente por nossas inimigas, a fim de que sejam iluminados, pois, segundo Augusto dos Anjos,

Se devassássemos os labirintos
Dos eternos princípios embrionários,
A cadeia de impulsos e de instintos,
Rudimentos dos seres planetários;
[...]

No profundo silêncio dos inermes,
Inferiores e rudimentares,
Nos rochedos, nas plantas e nos vermes,
A mesma luz dos corpos estelares!

É que, dos invisíveis microcosmos,
Ao monólito enorme das idades,
Tudo é clarão da evolução do cosmos,
Imensidade das imensidades!

Nós já fomos os germes doutras eras,
Enjaulados no cárcere das lutas,
Viemos do princípio das moneras,
Buscando as perfeições absolutas[1].

               — Mas então, Augusto, você quer dizer que nós, os gatos, ainda seremos humanos?
          — Exatamente, Abdul, mas não como imagina. Precisarão, antes, passar por um processo depuratório, no princípio inteligente universal, para, só então, com o acréscimo do pensamento contínuo, virarem humanos.
           — Se é assim, agradeço, mas prefiro continuar felino.
         — Assim dizem os brutos, mas não se esqueça de que mesmo os ignorantes, ainda que involuntários, terão de responder pelas marcas dos seus gatos. Continue, então, miando pelo seu pai... Quem sabe um dia...
          — E quem são os brutos, nós, ou vocês, que fazem churrasquinho de gato, assistem rinhas de galos e de cães, aos gritos ferozes que mais parecem urros de feras que de humanos, enquanto nos dilaceramos para seu gáudio?
           — É verdade, sob esse prisma, ainda somos mais animais que vocês... Mie por nós, gatinho!




[1] XAVIER, F. C. Parnaso de além-túmulo. Pelo Espírito Augusto dos Anjos. Brasília: FEB. Evolução.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014


Em dia com o Machado 84 (jlo)

            Desculpem, se lhes não estendo a mão; estou muito constipado. Observem; mal posso falar. Gripe dos infernos. Passo as noites respirando pela boca. Imagino até que estou magro e pálido.
            Não? Estou sim; vejam como fungo; fungo sem o mínimo sinal de poder; mas não fungo à toa como já funguei junto a você, amiga leitora, quando estive no corpo físico.
            Minha preocupação agora não é mais a saúde, como dantes ocorria. Entretanto, tenho ainda algumas razões para lhe falar de minha fungação. E não são por razões políticas. Citarei duas ou três:
            A primeira foi quando soube por André do caso do grande comerciante que sempre proporcionou uma vida folgada para seus filhos e, após a morte física, passou a ter ódio de um deles, que era médico. Sua família tinha dois filhos, duas filhas vivas e uma filha morta.
            — Quatro vivos e uma morta, Machado?
            — Uma viva, dois mortos e duas mortas.
            — Dois vivos, duas vivas e uma morta, Bruxo...
            — Dois mortos, duas mortas e uma viva, amigo leitor.
            — Não seriam quatro vivos e uma morta?
            — Quem é vivo não enterra mortos, entendeu, amiga leitora?
            — Nadinha!
            — Então, pergunte ao Senhor.
            — “Deixa aos mortos o cuidado de enterrar os seus mortos” (Lucas, 19: 60).
            — Exatamente...
            — Pois não é?
            — Perfeitíssimo.
            Dados esses esclarecimentos claros como água turva, pediria ao Dr. André que me explicasse o que ocorreu para que o comerciante falecido odiasse tanto seu filho doutor. Eis a resposta:
           — O genitor passara a vida trabalhando e ajuntara grande patrimônio. Entretanto, já idoso, adoecera gravemente e Agenor, o filho médico, resolvera antecipar o retorno do pai à pátria espiritual. Agora, enquanto os quatro filhos vivos disputavam, a tapas, a herança familiar e a mãe enlouquecera, o espírito paterno remoía-se de ódio pelo filho que cometera a eutanásia daquele antes que o pai pudesse deliberar sobre quem ficaria com o quê de seus imensos bens materiais.
            Bem dizia Jesus: “Não ajunteis tesouros na Terra, onde o verme rói, a ferrugem corrói e o ladrão rouba. Ajuntai-os no céu, onde nem a traça nem a ferrugem consomem e onde os ladrões não os podem roubar” (Mateus, 6: 19).
            — Machado, você está muito conselheiral, o que houve? Você não era disso...
            — Ah, meu amigo, nada melhor do que atravessar o rio Aqueronte, para nos convencermos de que as almas valem a pena, ainda que sua lama não seja pequena, parodiando meu amigo Fernando Pessoa. Vamos à segunda razão:
            Quando criança você se assustou quando viu na TV ou leu uma revista em quadrinhos sobre história de vampiros? Pois a TVS mostrou, no último domingo, uma pegadinha em que uma pessoa vestia uma roupa que lhe encobria a cabeça e, com um machado na mão, saía correndo atrás de outras pessoas, à noite, se fazendo passar por um fantasma sem cabeça. O susto era tão grande que vários perseguidos tropeçavam e caíam. Numa dessas, o suposto fantasma tropeçou, caiu sobre uma dessas pessoas e, descoberto, apanhou de todos os fugitivos que viram a cena e voltaram correndo para agredir o engraçadinho.
            Onde já se viu fantasma tropeçar e cair como qualquer de nós?
            Pois então, talvez você não saiba que, nas cidades espirituais de fluidos energéticos densos, como Nosso Lar, e nas zonas umbralinas que o antecedem somos surpreendidos por mais intensas sensações do que as dos corpos de matéria bruta. Por mais estranho lhe pareça, nossa existência terrena é cópia grosseira do que há ali. A Física e a Biologia Quânticas já têm explicações para tais fenômenos. Então, continue acompanhando nossa narrativa e você se surpreenderá.
            O jovem Francisco não queria nem saber de pensar na morte física. Muito apegado ao corpo, após um desastre, foi parar em Nosso Lar, depois de um período de transição pelo Umbral, onde ficou prisioneiro do próprio cadáver, quando sentiu os vermes roerem-lhe as carnes no túmulo, do qual se afastou correndo, apavorado e demente.
            Foi socorrido nas Câmaras de Retificação de Nosso Lar, enlouquecido, por se julgar perseguido por um monstro, que nada mais era senão a visão do próprio corpo cadavérico. Tempo depois, recebeu a visita do espírito paterno, ser evoluído, que orou por ele e lhe deu um passe. Depois disso, o jovem melhorou bastante, mas continuou sob os cuidados dos médicos e enfermeiros espirituais.
            Perguntei a André, penalizado, como era possível que alguém fosse assombrado pela imagem do próprio cadáver. Eis sua resposta:
            — Meu amigo, também tive essa dúvida e fiz a mesma pergunta ao espírito Narcisa, uma enfermeira bondosa do Ministério da Regeneração. Eis sua resposta:

A visão de Francisco [...] é o pesadelo de muitos Espíritos depois da morte carnal. Apegam-se demasiadamente ao corpo, não enxergam outra coisa, e nem vivem senão dele e para ele, votando-lhe verdadeiro culto, e, vindo o sopro renovador, não o abandonam. Repelem quaisquer ideias de espiritualidade e lutam desesperadamente pelo conservar. Surgem, no entanto, os vermes vorazes e os expulsam. A essa altura, horrorizam-se do corpo e adotam nova atitude extremista. A visão do cadáver, porém, como forte criação mental deles mesmos, atormenta-os no imo da alma. Sobrevêm perturbações e crises, mais ou menos longas, e muito sofrem até a eliminação integral do seu fantasma (XAVIER, F. C. Nosso Lar. Pelo Espírito André Luiz. Cap. 29: A visão de Francisco).

— Caramba, Machado! Depois dessa, fiquei morrendo de medo de morrer.
— Deixa de ser bobo, rapaz; a morte não existe, disso nunca duvidei. Basta que leia minhas obras, a começar pelos poemas; raros são aqueles que não se refiram ao aspecto sacrossanto da vida, como este, que dedico a todos os vivos, estejam no corpo físico ou no espiritual, intitulado:

OS SEMEADORES (Século XVI)

            ... Eis aí saiu o que semeia a semear...
            Mat., XIII, 3.

Vós os que HOJE colheis, por esses campos largos
         O doce fruto e a flor,
Acaso esquecereis os ásperos e amargos
         Tempos do semeador?
Rude era o chão; agreste e longo aquele dia;
         Contudo, esses heróis
Souberam resistir na afanosa porfia
         Aos temporais e aos sóis.

POUCOS; mas a vontade os poucos multiplica,
         E a fé e as orações
Fizeram transformar a terra pobre em rica
         E os centos em milhões.

Nem somente o labor, mas o perigo, a fome,
         O frio, a descalcez,
O morrer cada dia, uma morte sem nome,
         O morrê-la, talvez.

Entre bárbaras mãos, como se fora crime,
         Como se fora réu
Quem lhe ensinara aquela ação pura e sublime
         De as levantar ao céu!

Ó Paulos do sertão! Que dia e que batalha!
         Venceste-la; e podeis
Entre as dobras dormir da secular mortalha;
         Vivereis, vivereis!

(ASSIS, M. Machado de Assis: obra completa. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1973, p. 134.)


            Au revoir, cher ami!

sábado, 4 de janeiro de 2014

 poema metamorfose (jlo)

o ato de elaborAr um conteÚdo
não é tarefa Fácil, certamEnte
é preciso pensAr em algo em mEnte
para se sEr objetIvo em tUdo
mas se desEjo redigIr em vErsos
não me basta rimAr feijÃo com pÃo
nem mesmo a rIma torna bOa a estrOfe
tampouco a mÉtrica lhe dÁ valor
escrever versos sObre o acontecIdo
é tentar fazer do poEma um tExto
informatIvo ou narratIvo em sUma
a poesIa nAda infOrma ou nArra
sem se vestIr de simbolIsmo e de Arte
em cada tErmo da composiçÃo

brasília, dez dez. 2013
Jorge Leite de Oliveira


Separa as estrofes do poema acima e terás um soneto.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

O cogumelo de Hirosaki (jlo)

1945,
o Sol de agosto nascia
em bela segunda-feira,
e Hiroshima sorria.

De repente, um avião
sobrevoando a cidade
lança-lhe a estúpida bomba,
e a “rosa atômica” se abre...

Não, não era aquilo rosa,
era, sim, um cogumelo,
um cogumelo fatal
desintegrador de anelo.

— Meu Deus! que fizemos nós?
Como fizemos, Deus meu,
um tormento tão atroz
a indefesos irmãos nossos?!

— Meu Deus! o que nós fizemos?
Como, Senhor, nós pudemos
destruir tanta esperança
em tanto ser inocente?!

— Meu Deus! que fizemos nós
à humanidade inteira
com nossa ação sorrateira
covarde, cruel, atroz?!

E os gritos gemem abaixo
e são ouvidos de cima:
— Monstros, monstros, assassinos,
destruístes Hiroshima!

Cem mil vidas já tirastes:
idosos, mulheres, jovens...
Somente de uma só vez
uns cem mil assassinastes...

Então, fera agonizante,
ante o triste e vão suspiro
gemeu também: — Foi bem mais
foram milhões de animais...

Como se isso não bastasse,
três dias perto dali
a chama radioativa
destruirá Nagasaki.

E novamente os lamentos
erguer-se-iam aos céus:
— Meu Deus, que fizestes vós
homens cruéis, maus ateus!?

Do alto, branco albatroz
crocitou ao projetar
o corpo abaixo das nuvens:
— Ó morte cruel, atroz!

Filhos, pais, netos, avós,
em seu lamento terrível,
gritaram no mesmo nível:
— Meu Deus, que fizestes vós?!

Oppenheimer, o criador
da bomba atômica, ao ver
todo um país arrasado
também disse com horror:

— O drama maior da Terra
É o cientista alienado,
e o soldado enlouquecido
pela cegueira da guerra...

É o político alienado
é o aluno, é o professor,
é o cidadão alienado
por não ter Deus por Senhor.

E quando futuramente
Nosso neto perguntar
Com sua voz inocente:
— Por que dois nomes juntar?...

— Pela morte das cidades
De Hiroshima e Nagasaki
na mais cruel das maldades:
cogumelo de Hirosaki.

Brasília, 2 de janeiro de 2014.
Jorge Leite de Oliveira

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Em dia com o Machado 83 (jlo)


                Estávamos no último dia do ano e  vimos, pela TV, a corrida de São Silvestre; constatamos que os quenianos voltaram a vencer, que o melhor corredor brasileiro só conseguiu ser o quarto colocado e que a melhor corredora ficou em sexto lugar. O tempo de cada um? A metade do que eu ou você, amigo leitor e habitual corredor, costumamos gastar numa corrida de 15 km.
            Mas não desanimemos, continuemos correndo ou, se não pudermos correr, uma caminhadinha diária de meia hora ainda é mais vantajosa do que duas ou três corridas de 5 ou 10 km por semana.
            O mais importante, em tudo isso, é que estejamos vivos e produzindo algo, senão em prol de nós mesmos, ao menos em prol de nós mesmos, pois quando produzimos algo em benefício alheio, ainda que não o saibamos ou não pensemos nisso (o que seria ideal), estamos fazendo por nós próprios.
            Chegado um novo ano e já tendo dobrado novo século, as expectativas para 2014 são várias: os adeptos do futebol desejam ver nossa seleção campeã, para não darmos o vexame de 1950, em pleno Maracanã; os políticos desejam ver a situação mudar: os da situação para melhor, os da oposição para pior; os religiosos esperam ver o Cristo voltar, pois ainda não perceberam que quem precisa se transformar somos nós mesmos e não os outros... Enfim, deixemos a morte, pois a vida nos chama.
            Ontem, vi e ouvi na televisão um apresentador perguntando o que algumas pessoas do palco desejariam jogar fora, antes de iniciarem o ano novo. Um disse que gostaria de se livrar da sogra, o que é uma crueldade, pois há sogras melhores do que algumas mães; o outro disse que jogaria fora a pança, mas se não se esforçar em praticar exercícios e ser comedido na alimentação vai perder seu tempo; a outra se propôs jogar fora as contas a pagar, o que não resolveria o problema de suas dívidas; teve até uma jovem que sonha ficar livre do namorado chato. E eu me pergunto: como alguém consegue namorar um chato?
            A vida ruidosa chama-nos, leitor amigo, com os seus 214 milhões de reais que correram pela megassena nesta semana. Quem apostou até as 14h de 31 de dezembro de 2013 apostou, quem não o fez que o fizesse, afinal, com essa grana na mão, até o Anderson Silva se convenceria de que não vale mais a pena lutar, o que dizem que ele não aceita admitir, após quebrar os dois ossos da perna em sua última luta. A essa altura, já temos quatro ganhadores: dois do Paraná, um de Alagoas e um da Bahia. Do Paraná, as cidades de Curitiba e Palotina foram contempladas; de Alagoas, o prêmio foi para Maceió e na Bahia, Teofilândia ficou conhecida nacionalmente, graças ao seu felizardo milionário.
            O que vale a pena mesmo, amiga leitora, é investir, a partir de agora, em trabalhar incansavelmente no bem, como dissemos acima, ainda que tal propósito obedeça, antes, ao nosso bem pessoal, pois o que nos pode deixar mais felizes do que ver nosso próximo feliz? Que, após as justas comemorações de mais um ano percorrido, “trabalhemos sempre com o pensamento voltado para Jesus, reconhecendo que a preguiça, a suscetibilidade e a impaciência nunca foram atributos das almas desassombradas e valorosas” (XAVIER, Chico. Emmanuel. 27. ed. FEB, 2008, cap. 23).
            O mais importante, é continuar aprendendo e convivendo para melhor servir, pois, knowledge is everything. So we meet again in 2014.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Em dia com o Machado 82 (jlo)

            Este é um dia especial, é Natal e, como tal, todos os peitos palpitam de emoções, os abraços efusivos são constantes, juntamente com os votos de felicidade, saúde, paz e prosperidade, principalmente monetária, pois, se o dinheiro não lhe traz felicidade, amigo leitor, deposite-o em minha conta e seja feliz.
            Rebusquei meus textos sobre a data e trago-lhe as duas únicas flores, dentre meus poemas e crônicas, que fiz desabrochar nesta data tão metafísica quanto os restos arrancados da terra que nos viu passar unidos, eu e Carolina.
            Uma dessas pétalas raras em minha produção literária intitulei:

Soneto de Natal
Um HOMEM, — era aquela noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno, —
Ao relembrar os dias de pequeno,
E a viva dança, e a lépida cantiga,

Quis transportar ao verso doce e ameno
As sensações da sua idade antiga,
Naquela mesma velha noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno.

Escolheu o soneto... A folha branca
Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca,
A pena não acode ao gesto seu.

E, em vão lutando contra o metro adverso,
Só lhe saiu este pequeno verso:
“Mudaria o Natal ou mudei eu?”

(ASSIS, Machado. Ocidentais (1879). In: ______. Machado de Assis: obra completa. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1973, p. 167.)
           
            Esse único soneto, que dediquei, segundo Manuel Bandeira (op. cit., p. 14) à “melancolia de não encontrar mais, numa noite de Natal, as sensações da idade antiga”, tornou-se profético. Atualmente, o espírito natalino é substituído pelo excessivo consumo de bebidas alcoólicas e comilanças. Poucas famílias lembram-se de buscar a presença do aniversariante em sincera oração de agradecimento por sua incomparável exemplificação do amor entre nós.
            À atual Sociedade protetora dos animais, faço um apelo para que oremos também em prol da alma de um leitão que foi sacrificado, no Natal citado em minha crônica publicada no periódico A Semana de 1893; ou seja, há exatos 120 anos. Mas o que são 120 anos, senão, por vezes, o tempo entre uma e outra reencarnação?
            É bem verdade que alguns espíritos, como o meu, costumam ficar séculos ou milênios nesta outra dimensão da vida, observando e interferindo no orbe terrestre, buscando aperfeiçoá-lo; mas somos minoria. Talvez uns 0,00001% de toda a população terráquea atual.
            Que mais dizer do leitão? Triste leitão, pobre leitor. Se desejar ler mais sobre o assunto, clique em www.dominiopublico.gov.br e leia, na íntegra, a crônica citada. Afianço-lhe, de antemão, amiga leitora, que, de tudo o que ali está, sobrou apenas esse parágrafo, que não vou reproduzir para não lhe tirar da língua o gosto do pernil.
            O fato é que de tanto comerem leitão e peru no Natal, essa pobre ave nem ao menos comemora o dia do advento do Senhor. Morre na véspera.
            Não sejamos perus, amigos; ante os desafios da vida, ainda que venhamos a perecer, que o seja durante o combate.
            Mas que também tenho um grande dó do peru, lá isso tenho. Pobre peru, triste ser penado.
            É um dó que dá cada pena ou cada pena de dar um dó? Você decide...
            Enfim... que o Natal nos traga a doce reflexão sobre a vida do Cristo, que trouxe consigo a “mensagem da verdadeira fraternidade e, revelando-a, transitou vitorioso, do berço de palha ao madeiro sanguinolento”.
            Concluamos, pois, com a continuação desta mensagem de meu amigo Emmanuel:
Irmão, que ouves no Natal os ecos suaves do cântico milagroso dos anjos, recorda que o Mestre veio até nós para que nos amemos uns aos outros.
Natal! Boa-Nova! Boa-Vontade!...
Estendamos a simpatia para com todos e comecemos a viver realmente com Jesus, sob os esplendores de um novo dia. (XAVIER, F. C. Fonte viva. Ed. FEB.)
            Feliz Natal, amigo, e não se esqueça de que cerveja cria pança; cuidado para não engordar, amiga... E que o espírito da tolerância, a fraternidade e o amor do Cristo possam nos tornar melhores e saudáveis, desde já.
           




terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Em dia com o Machado 81 (jlo)

            Amiga leitora, estou agora refletindo sobre legalidade e moralidade.
            Nem tudo que é legal é moral e, consequentemente, a recíproca é verdadeira. Quer um exemplo? Quando Jesus esteve entre nós, afirmou peremptoriamente:
            — Não vim destruir a lei, mas dar-lhe cumprimento.
            No entanto, também disse:
            — Ouviste o que foi dito: olho por olho, dente por dente. Eu, porém, vos digo, não resistais ao mal; antes, porém, amai os vossos inimigos e, ao que lhe bater na face direita, oferece também o lado esquerdo.
            — Mas, Machado, onde entram, nos casos citados, a lei divina e a lei humana?
            — Ainda não entendeu, dona Justa? Vamos, então, a novo exemplo, com base na fábula do lobo e da ovelha. Certo dia, a ovelha bebia água no rio, tranquila e despreocupada, quando o lobo se lhe aproximou e disse:
            — Por que você está bebendo água neste rio, não sabe que ele é meu?
            Ao que respondeu o ovino:
             — Não sabia que o rio era seu; mas, se é assim, prometo-lhe nunca mais beber dessa água.
            — Além do mais — disse o lobo — ouvi dizer que anda falando mal de mim.
            — Como posso estar falando mal do senhor se acabei de conhecê-lo?
            — Se não foi você, foi seu pai, foi sua mãe, seu avô ou um dos seus parentes. E nhac, abocanhou a ovelha.
            Moral da história: contra a lei do mais forte, não existe argumento.
            Essa é uma lei humana.
            Vejamos o que aconteceu, depois, com o lupino. Saindo dali com a barriga cheia, após devorar inteiramente sua vítima, o lobo começou a sentir uma terrível cólica; rolou, no chão, em terríveis convulsões e veio a falecer, em algumas horas, de indigestão.
            Essa é uma lei divina.
            A lei humana é manipulada pela força do poder, ou pelo poder da força. A lei divina é resultante da chamada causa e efeito, ou “a cada um, segundo suas obras”.
            Vou ainda ilustrar com um caso folclórico, ocorrido na Atlântida.
            Nesse país, houve um torneio em que determinado time foi rebaixado da primeira para a segunda e, em seguida, para a terceira divisão, da qual seria campeão. Essa equipe, entretanto, conseguiu voltar novamente à primeira divisão, graças ao que se chamou ali de “virada de mesa”, sem disputar a “segundona”.
            Resultado, as torcidas adversárias e a própria mídia não davam descanso a torcedores e clube, que chamaremos de F*.
            Passados treze anos, a gozação continuava:
            — Deve uma segunda divisão, dizia um torcedor.
            — Acaba de chegar um oficial de justiça à sede do F* para lhe cobrar uma “segundona”, brincava outro. E, assim por diante, as piadas continuavam implacáveis...
            Mesmo quando o time era legitimamente campeão da primeira divisão, os torcedores adversários não perdoavam a antiga “virada de mesa” e diziam:
            — Só foi campeão porque os outros times são de terceira divisão. Então, não poupavam nem seu próprio time...
            Chegou um ano em que a equipe F*, que fora campeã da primeira divisão, no ano anterior, teve suas contas bloqueadas pela justiça comum. Desse modo, não pôde pagar salários e muito menos prêmios aos seus atletas...
            O time, então, passou a jogar visivelmente desmotivado, sem contar que, ao se machucar, cada seu atleta de ponta ficava tanto tempo no departamento médico que não mais atuava durante grande número de jogos, senão em todo o resto do campeonato.
            No último jogo do torneio nacional, outro time, que chamaremos P**, escalou “equivocadamente” um jogador impedido pela justiça desportiva de atuar naquela partida; e o time F*, que novamente seria rebaixado à segunda divisão, tomou a posição do time P**, rebaixado em seu lugar.
            Antes de isso ocorrer, entretanto, o clube C***, temendo seu rebaixamento, já andava procurando “provas” na escalação pelo time P** (mera coincidência) de maior número de jogadores contratados por P** a outros clubes do que o permitido no regulamento, para rebaixar P** em seu lugar. Vendo, porém, que isso seria o mesmo que procurar chifres em cabeça de cavalo, C*** desistiu da ideia; mas P**, coitado, ainda que não corresse mais perigo de rebaixamento, “descuidou-se” do regulamento e escalou um jogador proibido na última partida, conforme dissemos atrás.
            E deu no que deu...
            Que lamentável, não é, amiga?
            Essa foi a justiça dos homens.
            — Aí tem dente de coelho... Mas, e a justiça de Deus, Machado, qual foi?
            — Um tsunami varreu a Atlântida do globo terrestre.
            Mas não falemos mais de baseball, dona Justa.

_______
F* - Por certo que não é o Fluminense, basta ler até o fim e você comprovará isso.
F* - Já lhe disse que não é o Flu... Não insista!
P** - Não, leitora, não é a Lusa.
P** - Não seja teimosa, não é a Portuguesa...
C*** - E quem lhe disse que é o Coxa?

C*** - Pelo amor de Deus, tira o Coritiba dessa lama.

  Rumo à perfeição   Em nossa luta contra o mal em nós, O mal que não queremos sobreleva Por nossa imersão em densa treva Desde o tempo de n...