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quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020




A psicopictografia[1]

Jorge Leite de Oliveira

A arte espírita não somente emociona, consola e esclarece sobre a realidade da vida futura, após a desencarnação do ser humano. Ela também serve como autoajuda e proporciona aos temas literários sua confirmação do sagrado como parte essencial da nossa interexistência em dois planos de uma mesma vida: o físico e o espiritual. Por outro lado, a arte espírita, com seu grande destaque na literatura, mas não somente nela, contrapõe ao Materialismo a teoria do Espiritualismo confirmada pela Doutrina Espírita, baseada no método científico da observação e da experimentação, como anunciou Allan Kardec. Desse modo, essa arte torna-se cada vez mais apreciada no Brasil e no exterior.
Já tivemos a oportunidade de escrever sobre a arte espírita, cujo artigo foi publicado em Reformador de agosto de 2016. Naquele texto, enfatizamos a posição de Allan Kardec sobre essa arte, ressaltando suas palavras, publicadas em Obras póstumas (2009, p. 211), quando diz que esse era, ainda, “campo inteiramente novo, imenso e ainda inexplorado”. Por meio das artes, os Espíritos interagem conosco, de modo direto ou indireto, uma vez que sabemos, por seu intermédio mesmo, que sua influência “em nossos pensamentos e em nossos atos” é muito mais vasta do que se imagina (questão 459 d’O livro dos espíritos).
De meados do Séc. XIX até os nossos dias, a influência dos Espíritos nas artes, em vários países, mas principalmente no Brasil, tornou-se maciça e muito rica, confirmando, cada vez mais, as palavras do Codificador do Espiritismo. Como vimos, no artigo citado, a literatura, o teatro, a música e a pintura vêm sendo utilizados, ao longo dos séculos, acrescidos, modernamente, da sétima arte, o cinema, como manifestações criativas do espírito nos dois planos existenciais: físico e metafísico.
Além das obras literárias psicografadas e outras artes, como o cinema, o teatro e a música, temos na pintura diversos médiuns que produzem quadros com as mãos e até com os pés, sob a influência de pintores célebres, como Picasso, Monet, Renoir, Van Gogh e muitos outros. Tais sensitivos são denominadas médiuns de psicopictografia. Um desses médiuns é Lívio Barbosa que, segundo Romero (2016), no dia 19 de junho de 2015, pintou, ao vivo, com as mãos, um quadro de Oscar-Claude Monet, “o mais consagrado pintor impressionista do mundo” na TV Cidade Verde, do Piauí, causando grande espanto e emoção nas pessoas presentes e telespectadores.
De acordo com Romero (2016), durante o evento citado acima, Lívio Barbosa esclareceu que não é fácil a pintura mediúnica, uma vez que há necessidade de os Espíritos artistas transmitirem um pouco de sua técnica e gênio a alguém que nada ou quase nada sabe sobre essa arte, como é o caso dos médiuns psicopictógrafos. Pode estar aí a razão pela qual alguns dos entendidos nessa arte descreem da autenticidade da autoria do Espírito, ainda que sejam incomuns a velocidade e os processos utilizados na produção dos quadros pintados. É também uma característica desses trabalhos a sua elaboração com os dedos das mãos e dos pés, em substituição aos pincéis, quando produzidos mediunicamente. Além disso, observa-se, muitas vezes, que o médium nem ao menos olha para a tela ou mantém-se de olhos fechados, enquanto pinta.  As tintas coloridas são misturadas no recipiente apropriado, mas quando essa massa policrômica é levada ao quadro, pelos dedos das mãos ou dos pés do médium, ela reassume o seu colorido específico, de acordo com o desejo do Espírito manifestante.
Outra médium psicopictógrafa é a senhora Valdelice Salum, de 78 anos, (5/11/1938), semianalfabeta, originária de família rural baiana. Essa médium pinta com as mãos e com os pés, há mais de trinta anos, telas atribuídas aos Espíritos Aleijadinho, Anita Malfatti, Monet, Picasso, Portinari, Renoir, Vincent, etc. A renda obtida com a venda dos quadros é doada às instituições de caridade. E Valdelice é reconhecida por sua obra voltada para a assistência aos necessitados.
Desde jovem, Valdelice Salum via quadros “caindo sobre sua cabeça” e não entendia o que se passava. Somente após estar casada, animou-se a procurar Chico Xavier, pois era católica fervorosa. O médium mineiro incentivou-a a frequentar uma instituição espírita e estudar o Evangelho segundo o espiritismo, após lhe dizer que havia muitos Espíritos pintores ao seu redor, aguardando sua disposição de divulgar a vida espiritual pela pintura mediúnica.
Segundo Zanella (2016), a pintura de Valdelice, em 2008, quando se apresentou ao vivo, em TV italiana, foi um sucesso nacional naquele país. Constata-se, atualmente, que o Espiritismo ocupa espaço cada vez mais proeminente, tanto na área científica, quanto nos mais diversificados gêneros artísticos, além da literatura.

Cogitar sobre a imortalidade e sobre a possibilidade de os Espíritos desencarnados intervirem no nosso mundo, de modo tão palpável, era como quebrar barreiras de conceitos e preconceitos, de incertezas e de ceticismo. O próprio apresentador disse de público que seria muito difícil esquecer o ar de tranquilidade e serenidade que se respirou durante a gravação do programa e admitiu que ele nunca havia imaginado ver algo similar acontecer diante dos seus próprios olhos (ZANELLA, 2016).

       
                            Pintura mediúnica de Valdelice Salum, disponibilizada por sua filha
Suely Salum em  12 set. 2016, assinada pelo Espírito Monet.


Estas duas imagem foram-nos disponibilizadas para publicação pela filha da médium, Suely Salum, que gentilmente nos cedeu o direito de publicar as obras de sua mãe. Lembramos que as pinturas de Valdelice são feitas tanto com os dedos das mãos como também com os pés, embora ela não possua qualquer limitação física que pudesse impedi-la de usar os pincéis normalmente. O objetivo primacial é provar-nos a sobrevivência desses grandes pintores e, consequentemente, nossa própria imortalidade.


                     Pintura mediúnica de Valdelice Salum, disponibilizada por sua filha
   Suely Salum em  12 set. 2016, assinada pelo Espírito Vincent.

Outras entidades espirituais que atuam mediunicamente por essa médium psicopictográfica assinam seus quadros, que já contam por centenas de obras, com os nomes de P. Cezanne, H. Matisse, Renoir, Salvador Dali, Toulouse Lautrec, etc.
Atualmente, há diversos médiuns da arte pictográfica no Brasil. Cito apenas esses dois e destaco a mediunidade de Valdelice, sem desmerecer o trabalho recebido dos Espíritos por outros médiuns, tendo em vista a simplicidade de Salum que, sendo representada por sua filha, em virtude de sua condição de pouco letrada, há décadas vem sendo instrumento humilde e fiel da Espiritualidade Superior. Essa e outros médiuns são canais utilizados pelos artistas desencarnados para confirmarem as palavras do profeta Joel, citadas por Pedro:

E nos últimos dias acontecerá, diz o Senhor, que do meu Espírito derramarei sobre toda a carne; e os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão, os vossos jovens terão visões, e os vossos velhos sonharão; e também do meu Espírito derramarei sobre os meus servos e minhas servas, naqueles dias, e profetizarão; farei aparecer prodígios em cima no céu e sinais em baixo na terra: sangue, fogo e vapor de fumaça (Atos, 2: 17 a 19).

Certa vez, Jesus foi procurado por alguns fariseus que lhe pediram um sinal, para que cressem neles. O Mestre Divino respondeu-lhes que nenhum sinal lhes seria dado a não ser o de Jonas. Como sabemos, esse profeta teria sido supostamente engolido por uma baleia e teria ficado três dias em seu ventre, após o que fora expelido com vida. O primeiro grande sinal que Jesus nos deu está aí representado, simbolicamente, pois ele fora crucificado e sepultado numa gruta, mas três dias após isso, manifestou-se primeiro a Madalena, depois a seus discípulos. Outro sinal, também, o Cristo nos deu e continua dando, pelo dom da mediunidade, moderno nome que atribuímos às profecias. Os dons são diversos, mas a finalidade precípua é provar a imortalidade da alma por meio das manifestações mediúnicas dos mais variados tipos: psicografia, psicofonia, vidência, materialização, audição e psicopictografia, entre outros tipos de mediunidade.
Comprovada a nossa imortalidade, cabe-nos, principalmente, o dever de retribuir todas essas bênçãos, pelo estudo, pela observação, pela reflexão e, fazendo uso do bom senso, repelir, ainda que sejam dez verdades, antes que aceitar uma só teoria falsa, como nos alerta o Espírito Erasto, n’O livro dos médiuns (In: KARDEC, 2013b, cap. XX), mas observar a máxima de Jesus: “pelos frutos reconhecereis a boa árvore” (Lucas, 6:44).
Pelo que se pode observar, os trabalhos psicopictográficos dos médiuns abnegados, em prol da comprovação da imortalidade do Espírito, e a atuação beneficente dessas pessoas credenciam-nas como exemplos de servidores leais de Jesus, pelo bem que sua obra produz à Humanidade. O bom médium está sempre buscando aprender para melhor servir, atento à recomendação do Cristo: “Dai de graça o que de graça recebestes” (Mateus, 10:8).
Ele não se envaidece de sua mediunidade, porque sabe que esse é um dom que, assim como lhe foi dado por Deus, também lhe pode ser retirado. Não faz disso um meio de enriquecimento material próprio, pois não ignora que, desse modo, estará se afastando da influência dos bons Espíritos e atraindo a companhia das entidades ignorantes. Aprende sempre, pois sabe que, quanto maior for o seu conhecimento, melhor é a sua sintonia com os Espíritos elevados, desejosos de nos transmitir, por seu intermédio, as mensagens de suas artes sublimes.
Médiuns como Valdelice Salum, mesmo não tendo tido oportunidade de se alfabetizar regularmente, tornam-se dóceis às influências dos Espíritos, em virtude de seus conhecimentos adquiridos em outras existências. Seu dom agiganta-se na prática da oração, da vigilância e do serviço desinteressado ao próximo, consoante recomendação de Jesus. Desse modo, ao se desprender do corpo físico pelo sono, à noite, o bom médium adentra as elevadas regiões espirituais, onde assiste sublimes aulas de iluminação de sua alma e ouve recomendações para que exercite a humildade, o perdão e o amor ao próximo, ao qual deverá servir incondicionalmente e esclarecer, por meio de sua obra mediúnica e exemplificação diuturna no bem.
Sua dedicação incansável ao próximo e sua boa vontade em aprender as técnicas da pintura mediúnica com esses artistas do Além permitem a médiuns como Valdelice Salum reproduzir, com a máxima fidelidade possível, as telas provenientes dos laboratórios do mundo espiritual, cujo objetivo é, principalmente, demonstrar-nos nossa imortalidade. Desse modo, passamos a refletir na importância de sermos protagonistas de cada etapa de nossa vida eterna e nos conscientizamos de que nos cabe trabalhar, aprender e servir em toda parte, a fim de alcançarmos a felicidade dos justos.
As artes são instrumentos de Deus que nos proporcionam a verdade, a beleza e a alegria de viver. Por isso, os bons Espíritos sempre as utilizam para o nosso deleite e aprendizado. Uma delas é a psicopictografia.

Referências
KARDEC, Allan. Obras póstumas. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2009.
______. O livro dos espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 93. ed. Brasília: FEB, 2013. Edição histórica.
______. O evangelho segundo o espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 131. ed. Brasília: FEB, 2013a. Edição histórica.
______. O livro dos médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. 81. ed. Brasília: FEB, 2013b. Edição histórica.
ROMERO, Maria. Artista faz pintura mediúnica de Monet ao vivo na TV Cidade Verde. Disponível em: <http://cidadeverde.com/noticias/195571/artista-faz-pintura-mediunica-de-monet-ao-vivo-na-tv-cidade-verde>. Acesso em 07 maio 2016.
ZANELLA, Regina. Pintura mediúnica é destaque na mídia italiana. Disponível em: <www.oconsolador.com.br. Internacional. 7 jun. 2009>. Acesso em 10 jan. 2016.



[1]  Texto adaptado de capítulo da tese de doutorado do autor, intitulada Chamados de Assis: espaços fantásticos do rio mutante na obra machadiana, aprovada na Universidade de Brasília em 12 set. 2016. Publicado em Reformador, periódico mensal da Federação Espírita Brasileira em fev. 2017 e no site www.oconsolador.com.br em 30.9. 2017.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020




EM DIA COM O MACHADO 406:
A CONVERSÃO DE BARRABÁS (Jó)


         Certa noite, quando adormeci, um anjo apareceu-me em sonho e relatou-me o seguinte poema sobre a imensa bondade de Deus, que ratifica as palavras de Pedro: "Mas, sobretudo, tende ardente  amor uns para com os outros, pois o amor cobre a multidão de pecados" (1Pedro 4:8):
A conversão de Barrabás

Fui Barrabás, ladrão e assassino
Condenado a morrer crucificado,
E já estava certo do destino
Que a Justiça me havia reservado.

Na noite anterior... vi-me menino
Largado ao mundo, pobre e desprezado.
Meu pai morrera após um desatino
E ter levado tiro de um soldado.

Então, largado em gueto fescenino,
Cada vez mais, vivia eu revoltado,
Vendo mamãe lá se prostituindo
E eu, ali, com fome e abandonado.

Saí dali, ainda pequenino,
Levado para o crime por malvado...
Tornei-me então, ladrão e assassino
Fazendo jus ao que me foi imputado.

Foi com justiça que fui condenado,
Pois só vivera em prol do mal, ferino,
E sempre agira como celerado
Enlouquecido em brutal desatino.

Mas, de repente, eis-me transportado
A um jardim, e ouvi de alguém sorrindo:
— Vim resgatar-te das mãos do pecado.
Era Jesus, Sublime Peregrino.

— Em seu lugar, serei crucificado.
Complementou, e eu também só rindo,
Vi-me abraçado pelo Ser amado
E, à nossa volta, anjos cantavam hino.

— Oh! não, Senhor, és puro e eu celerado,
É justo esteja eu o mal carpindo...
— O Amor compensará teu vil pecado;
Segue meus passos, pois Eu já vou indo...

E levantei dali já transformado,
Tanta era a luz, tanto era o seu carinho,
Que, desde então, por Cristo convidado,
Carrego humilde a cruz do Seu caminho.


         Naquele instante, emocionado, acordei chorando e refletindo nas últimas palavras de Jesus que ouvi. Elas eram dirigidas, não mais a Barrabás, mas a mim:
 Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vem ao Pai a não ser por mim (João 14:6). E completou sereno, mas sorrindo: "Quem desejar vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a cada dia sua cruz e siga-me" (Lucas 9:23).



sábado, 8 de fevereiro de 2020


Continuação da tradução livre d'O Evangelho Segundo o Espiritismo, 3ª ed. francesa.


8 BEM-AVENTURADOS OS PUROS DE CORAÇÃO

Deixem vir a mim as criancinhas. Pecado por pensamento. Adultério. Verdadeira pureza. Mãos não lavadas. Escândalos. Se suas mãos são motivo de escândalo, cortem-nas. Instruções dos Espíritos: Deixem vir a mim as criancinhas. Bem-aventurados os que têm os olhos fechados.

8.1 Deixem vir a mim as criancinhas

Bem-aventurados os que têm puro o coração, porque verão a Deus (Mateus 5:8). 

Então apresentaram-lhe algumas crianças, para que as tocasse; e, como os discípulos ameaçavam os que as apresentavam com palavras duras, vendo isso, Jesus zangou-se e lhes disse: Deixem vir a mim as criancinhas, e não as impeçam, porque o Reino de Deus é daqueles que se lhes assemelham. Eu lhes digo, em verdade, que aquele que não receber o Reino de Deus como uma criança, nele não entrará. E, abraçando-as, as abençoava e lhes impunha as mãos (Marcos 10: 13-16).
A pureza de coração é inseparável da simplicidade e da humildade. Exclui todo pensamento de egoísmo e de orgulho. É por isso que Jesus toma a infância como símbolo dessa pureza, como já a tomara por símbolo da humildade.
Essa comparação poderia não parecer justa, se considerarmos que o Espírito da criança pode ser muito antigo, e que ele traz ao renascer na vida corpórea as imperfeições de que não se livrou nas existências precedentes. Somente um Espírito que chegou à perfeição poderia dar-nos o tipo da verdadeira pureza. Mas a comparação é exata do ponto de vista da vida presente, porque a criancinha,  ainda não podendo manifestar nenhuma tendência perversa, apresenta a imagem da inocência e da candura. Além disso, Jesus não diz de modo absoluto que o Reino de Deus é para elas, mas para os que se lhes assemelham.
Desde que o Espírito da criança já viveu, por que não se mostra, ao nascer, como ele é? Tudo é sábio nas obras de Deus. A criança necessita de cuidados delicados, que só a ternura materna lhe pode dispensar, e essa ternura aumenta, diante da fragilidade da ingenuidade da criança. Para a mãe, seu filho é sempre um anjo, e é necessário que assim seja, para lhe cativar a solicitude. Ela não poderia tratá-lo com a mesma abnegação, se, em vez da graça ingênua, nele encontrasse, sob os traços infantis, um caráter viril e as ideias de um adulto; e menos ainda, se conhecesse o seu passado.
É necessário, aliás, que a atividade do princípio inteligente seja proporcional à fraqueza do corpo, que não poderia resistir à atividade excessiva do Espírito, como verificamos nas pessoas precoces. É por isso que, aproximando-se a encarnação, o Espírito começa a perturbar-se e perde pouco a pouco a consciência de si mesmo. Durante certo período, ele permanece numa espécie de sono, em que todas as suas faculdades se conservam em estado latente.
Esse estado transitório é necessário, para que o Espírito tenha um novo ponto de partida, e por isso o faz esquecer, na nova existência terrena, tudo o que o possa entravar. Seu passado, entretanto, reage sobre ele, que renasce para uma vida melhor, mais forte, moral e intelectualmente, sustentado e secundado pela intuição que conserva da experiência adquirida.
A partir do nascimento, suas ideias retomam gradualmente seu impulso, à medida que os órgãos se desenvolvem,  donde se pode dizer que, no curso dos primeiros anos, o Espírito é realmente criança, pois as ideias que formam o fundo do seu caráter estão ainda adormecidas. Durante o tempo em que seus instintos permanecem latentes, ela é mais dócil, e por isso mesmo mais acessível às impressões que podem modificar sua natureza e fazê-la progredir, o que facilita a tarefa imposta aos pais.
O Espírito reveste, pois, por algum tempo, a roupagem da inocência, e  Jesus está com a verdade, quando, a despeito da anterioridade da alma, toma a criança como símbolo da pureza e da simplicidade.

Tradução do prof. dr. Jorge Leite de Oliveira.



quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020




Allan Kardec e a Arte Espírita
Jorge Leite de Oliveira



Neste artigo, trataremos sobre a importância da arte espírita para Allan Kardec, o Codificador do Espiritismo, e da difusão dessa Filosofia e Ciência do Espírito. Kardec foi  grande apreciador da obra de Fénelon que, por sua vez, exerceu influência filosófica sobre Rousseau e Voltaire. A obra literária Telêmaco, de autoria de Fénelon, “epopeia em prosa poética”, pelo seu estilo moralista, influenciou fortemente o então educador francês Rivail. Os três primeiros volumes de Telêmaco foram vertidos por ele para o alemão (WANTUIL; THIESEN, 2004, p. 140).
O genial poeta-romancista Victor Hugo realizava reuniões mediúnicas em sua casa e assumiu, publicamente, sua crença no Espiritismo. Segundo o autor de Os Miseráveis e O Corcunda de Notre-Dame, não se justificavam as críticas e preconceitos da sociedade de sua época em relação aos fenômenos espíritas, para ele suficientemente comprovados como verdadeiros. Em homenagem a uma jovem amiga falecida, atendendo ao pedido da família dela, Victor Hugo disse o seguinte, no discurso que fez, durante os funerais da moça: "[…] O ser chorado desapareceu, mas não partiu. Não mais percebemos o seu rosto suave… Os mortos são os invisíveis, mas não estão ausentes" […] (Apud KARDEC, 2015, p. 87).
Tais foram os enunciados hugoanos, em concordância com os postulados espíritas, dos quais transcrevemos apenas pequena frase, que Kardec não titubeou em escrever, na Revista Espírita (op. cit.), todo o seu conteúdo e em dizer que só faltou a palavra Espiritismo para confirmar a essência do discurso.
A grande tarefa da literatura espírita, como arte, é exatamente esta: demonstrar, por seu método científico de investigação própria, baseado na observação e na experimentação, a realidade e a beleza da vida espiritual, em contraposição às teorias materialistas. E, da segunda metade do século XIX até os nossos dias, vêm cada vez mais se consolidando no mundo as provas sobre a imortalidade do Espírito e sua manifestação espiritual, além do nosso retorno à vida física, pela reencarnação, até nossa completa depuração espiritual, quando não mais precisaremos reencarnar. A literatura espírita, além de agradar o leitor, proporciona-lhe a esperança de sua sobrevivência após a extinção do corpo físico, esclarece-o sobre todo um mundo real, até então pouco claro nas falas dos padres, presbíteros e pastores do passado, e mesmo da atualidade, salvo exceções.
Na Revista Espírita, publicada mensalmente por Allan Kardec, durante os anos de 1858 a 1869, são abundantes as obras de diversos gêneros textuais recebidas mediunicamente. Assim é que, ali, lemos poemas admiráveis, textos bíblicos, filosóficos e mitológicos, explicados à luz da Nova Revelação, e descrições de seres e sociedades do Mundo Espiritual.
Segundo Kardec (2009, p. 208), os grandes artistas são aqueles cujas obras se imortalizam em virtude da certeza que possuem sobre o futuro espiritual. É preciso ter fé na continuação da vida para se produzir um trabalho artístico que emocione e transforme para melhor o ser humano. Para o Codificador da Doutrina Espírita (id., p. 210), ao longo dos séculos a arte vem evoluindo do Paganismo para o Cristianismo e deste para o Espiritismo, o qual nos dá, sobre a vida após a morte física, os seguintes esclarecimentos:
[…] As moradas dos eleitos e dos condenados já não se acham isoladas; há incessante solidariedade entre o Céu e a Terra, entre todos os mundos de todos os Universos; a felicidade consiste no amor mútuo de todas as criaturas chegadas à perfeição e numa constante atividade, tendo por objetivo instruir e conduzir àquela mesma perfeição os que se tornaram retardatários. O inferno está no próprio coração do culpado, que tem nos remorsos o seu castigo, que não é eterno; e o mau, ao tomar o caminho do arrependimento, se depara novamente com a esperança, esta sublime consolação dos infelizes.
[…]
Sem dúvida, o Espiritismo abre à arte um campo inteiramente novo, imenso e ainda inexplorado. Quando o artista houver de reproduzir com convicção o mundo espiritual, colherá nessa fonte as mais sublimes inspirações […] (KARDEC, 2009, p. 210- 211).

Após a desencarnação de Allan Kardec, o mundo conheceu obras artísticas de extraordinária beleza, provindas do além-túmulo. Entre incontáveis obras de inspiração mediúnica, pode-se citar, rapidamente, as do médium Fernando de Lacerda, de nacionalidade portuguesa, que psicografou a obra intitulada Do País da Luz, em quatro volumes, com textos em poesia e prosa de renomados poetas e romancistas desencarnados, tais como Eça de Queirós, Camilo Castelo Branco, Júlio Dinis, Alexandre Herculano, Victor Hugo, Michelet, entre outros. Outra grande psicógrafa foi Wera Krijanowski, médium russa que psicografou, entre outras obras maravilhosas, O Chanceler de Ferro, A Vingança do Judeu e Herculânum, ditadas pelo Espírito John Wilmot Rochester.
A médium brasileira Zilda Gama, psicografou diversas obras, ditadas pelo Espírito Victor Hugo: Na Sombra e na LuzAlmas CrucificadasRedenção e Do Calvário ao Infinito. Há também, na literatura espírita, belas obras psicografadas por Yvonne do Amaral Pereira, entre as quais se destaca Memórias de um Suicida, com mais de 500 páginas, ditada pelo Espírito Camilo Castelo Branco, sob o pseudônimo de Camilo Cândido Botelho.
Duzentas e sessenta obras já foram psicografadas pelo médium baiano Divaldo Pereira Franco, que completou 93 anos, no dia 5 de maio de 2020, e ainda realiza conferências espíritas no Brasil e no exterior.
Indubitavelmente, porém, Francisco Cândido Xavier (Chico Xavier), que até a sua desencarnação, em 2010, havia publicado 412 obras psicografadas, destaca-se como o mais completo médium de nosso tempo. Parnaso de Além-Túmulo, em relançamento atual, com poemas de dezenas de poetas brasileiros e portugueses desencarnados, foi publicado quando Chico Xavier estava ainda com 21 anos. Após este livro, surgiram centenas de outras publicações do médium mineiro, nos gêneros poético, crônica, romances históricos e outros, confirmando, desse modo, a predição dos Espíritos Superiores a Allan Kardec sobre o extraordinário valor e missão da arte espírita: trazer à Humanidade informações seguras sobre quem somos, de onde viemos e para onde vamos após esta breve existência na Terra.
No Brasil, após o sucesso dos livros, o tema espírita foi transposto para a televisão e o cinema. Algumas novelas espíritas foram muito apreciadas, como Alma Gêmea, de Walcyr Carrasco e Thelma Guedes, exibida pela TV Globo nos anos 2005 e 2006 e reprisada alguns anos depois, relatando o caso de um homem apaixonado por uma índia, que se tratava de sua ex-mulher falecida e reencarnada. Outra novela de grande sucesso foi Páginas da Vida, também exibida pela Globo, de autoria de Manoel Carlos, entre 2006 e 2007, no chamado horário nobre das 21 horas. A história se refere às manifestações mediúnicas do Espírito de uma jovem mãe desencarnada. Tanto a filhinha dessa jovem quanto sua avó viam esse Espírito, segundo Cânepa (2013, p. 55).
Também no cinema, a sétima arte, no início deste século, nosso País, considerado a maior nação espírita do mundo, vem assistindo a filmes com essa temática, de longa-metragem, com grande número de espectadores. Os dois principais são Chico Xavier e Nosso Lar. O filme Chico Xavier, dirigido por Daniel Filho, baseia-se na vida do médium mineiro Francisco Cândido Xavier. Foi o filme brasileiro, até a data de sua estreia, com o maior número de espectadores. Cerca de 590 mil pessoas assistiram-no durante os três primeiros dias de sua exibição, segundo informou Fernanda Ezabela em reportagem publicada na Folha de São Paulo, em 5 de setembro de 2010. Calcula-se que esse longa-metragem foi assistido por cerca de três milhões e 400 mil espectadores, de acordo com Cânepa (2016).
Quanto a Nosso Lar, embora de início tenha sido assistido por pouco menos espectadores, do que o filme Chico Xavier, pois foi visto por cerca de 500 mil pessoas, nos três primeiros dias de estreia, ao final de sua exibição alcançou quatro milhões de espectadores, segundo Cânepa (id.).
Em relação ao cinema hollywoodiano, no decorrer do século XX, alguns filmes abordaram os temas da reencarnação e aparições de Espíritos aos chamados vivos. Esses filmes faziam parte do gênero comédia. Como exemplo, Cânepa (2013, p.52) cita a comédia clássica Heaven Can Wait (O Céu Pode Esperar), que teve três versões para o cinema. O filme fala sobre um milionário que morre antes do previsto pelo Plano Espiritual e, por isso, deve reencarnar. Esse filme inspirou outros, não somente no Brasil, mas também em outros países. Entre nós, seu título foi traduzido para O Diabo Disse Não.
No teatro, são comuns as peças de temática espírita. O filme Nosso Lar, por exemplo, devido ao sucesso de bilheteria nos cinemas, também foi adaptado para o teatro. Outra obra espírita best-seller, transformada em peça de teatro, é Violetas na Janela, psicografada por Vera Marinzek de Carvalho. Sua produção foi de Júlio César de Sá Roriz; a direção ficou com o ator Guilherme Correa e a adaptação da atriz Ana Rosa. Entre 1997 e 2007, mais de 300.000 pessoas assistiram ao espetáculo em tournée nacional.
Na pintura, encontram-se diversos médiuns que pintam quadros até com os pés, atribuídos a pintores célebres, como Picasso, Monet, Renoir, entre outros.
Há vários médiuns pintores, mas citarei apenas dois, também denominados médiuns de psicopictografia: Lívio Barbosa e Valdelice Salum. O primeiro, segundo Romero (2016), no dia 19 de junho de 2015, pintou ao vivo um quadro de Oscar-Claude Monet, “o mais consagrado pintor impressionista do mundo”, na TV Cidade Verde, do Piauí. Esclarece-nos Barbosa que para os Espíritos pintarem “por um médium é muito difícil, porque esses artistas [desencarnados] precisam transmitir um pouco ou muito do que sabem por uma pessoa que não tem o conhecimento que eles tinham em vida” (ROMERO, 2016). Talvez aí esteja o motivo pelo qual alguns dos entendidos nessa arte duvidam da autenticidade da autoria do Espírito, ainda que seja espantosa a velocidade de produção das obras e os recursos utilizados para tal, como a pintura com os pés, tudo isso aliado ao desconhecimento, por vezes completo, dessa arte.
Como exemplo, citamos o caso da senhora Valdelice Salum, de 77 anos, semianalfabeta, originária de família rural baiana. Essa médium pinta também com os pés, há mais de 40 anos, telas atribuídas aos Espíritos Aleijadinho, Anita Malfatti, Monet, Picasso, Portinari, Renoir, entre outros. A renda obtida com a venda dos quadros é doada, e Valdelice é reconhecida por sua obra voltada à assistência aos necessitados.
Desde jovem, ela via quadros caindo sobre sua cabeça e não entendia o que se passava. Somente após estar casada, animou-se a procurar Chico Xavier, pois era católica fervorosa. O médium mineiro incentivou-a a estudar o Evangelho e a frequentar uma instituição espírita, após lhe dizer que havia muitos Espíritos pintores ao seu redor, aguardando sua disposição de divulgar a vida espiritual pela pintura mediúnica.
Segundo Zanella (2016), quando Valdelice se apresentou na TV italiana, em 2008, sua pintura fez muito sucesso naquele país.

Cogitar sobre a imortalidade e sobre a possibilidade de os Espíritos desencarnados intervirem no nosso mundo, de modo tão palpável, era como quebrar barreiras de conceitos e preconceitos, de incertezas e de ceticismo. O próprio apresentador disse de público que seria muito difícil esquecer o ar de tranquilidade e serenidade que se respirou durante a gravação do programa e admitiu que ele nunca havia imaginado ver algo similar acontecer diante dos seus próprios olhos (ZANELLA, 2016).

No gênero musical, entre outros compositores cantores da atualidade, destaca-se Elizabete Lacerda, que compôs e adaptou diversas músicas, baseadas em mensagens psicografadas por Chico Xavier, do autor espiritual Emmanuel. Uma delas, que faz parte do álbum Elizabete Lacerda – Filhos das Estrelas, tem por título Aceita, que nos deleita com bela mensagem.
Além de emocionar, consolar e proporcionar, por diversos gêneros artísticos, a confirmação do sagrado como parte indissociável da existência humana, a arte espírita, com seu grande destaque na literatura, contrapõe ao Materialismo a teoria do Espiritualismo, confirmada pela Doutrina Espírita, com base no método científico da observação, como anunciou Allan Kardec. Nesse sentido, a arte espírita vem se tornando cada vez mais apreciada, não somente no Brasil, mas também no mundo inteiro; e as obras psicografadas continuam chamando a atenção pela beleza de seu enredo narrativo.
Por meio da manifestação artístico-espírita mediúnica diversa e, em grande parte, da psicografia, confirma-se a promessa de Jesus, em João (14:16) de enviar-nos o Consolador para ficar eternamente conosco.

1 N.R.:  Recebido pelo médium Victorien Sardou. Revista espírita: jornal de estudos psicológicos. ano 1, n. 8, ago. 1858, cap. Observações a propósito dos desenhos de Júpiter; Habitações do planeta Júpiter.

REFERÊNCIAS

CÂNEPA, Laura Loguercio. Notas para pensar a onda dos filmes espíritas no Brasil. Rumores (USP), v. 7, p. 46-64, 2013.

KARDEC, Allan. Obras póstumas. Trad. Evandro Noleto Bezerra. Rio de Janeiro: FEB, 2009. pt. 1, cap. Influência perniciosa das ideias materialistas…, p. 210.

____. Discurso de Victor Hugo junto ao túmulo de uma jovem. Revista espírita: jornal de estudos psicológicos. ano 8, n. 2, fev. 1865. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 4. ed. 1. imp. Brasília: FEB, 2015.

ROMERO, Maria. Artista faz pintura mediúnica de Monet ao vivo na TV Cidade Verde. Disponível em: . Acesso em: 7 mai. 2016.

WANTUIL, Zêus; THIESEN, Francisco. Allan Kardec: o educador e o codificador. v. 1. 3. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2004. cap. 22.

ZANELLA, Regina. Pintura mediúnica é destaque na mídia italiana. Disponível em: , 7 jun. Acesso em: 7 mai. 2016.

(Transcrito de Reformador/Federação Espírita Brasileira em ago. 2016, p. 42-46. Atualizado em 06 de fevereiro de 2020, com relação à idade de Divaldo Franco.)


terça-feira, 4 de fevereiro de 2020





EM DIA COM O MACHADO 405:
Esmola (Jó)
                 
"Dai antes esmola do que tiverdes." Jesus (Lucas, 11:41).

Na questão 888a d'O Livro dos Espíritos, após ter sido questionado por Allan Kardec se reprovava a esmola, o Espírito Vicente de Paulo respondeu-lhe que não condenava a esmola, e, sim, o modo como ela é feita, pois aquele que, realmente, é considerado homem de bem socorre o infeliz sem esperar que este lhe peça algo. A caridade não deve ser ostensiva, nem arrogante.
A esmola, acrescenta, distingue-se da beneficência, pois há casos em que o necessitado não tem coragem de pedir, por receio de ser humilhado.
No final de sua longa resposta, Vicente de Paulo recomenda:

[...] Sede, pois, caridosos, não somente dessa caridade que vos faz tirar do bolso o óbolo que dais friamente a quem vos ousa pedi-lo, mas da que vos leve ao encontro das misérias ocultas. Sede indulgentes com os defeitos dos vossos semelhantes. Em vez de desprezardes os ignorantes e os viciados, instruí-os e moralizai-os. Sede brandos e benevolentes para com tudo o que vos seja inferior, mesmo para com os seres mais ínfimos da Criação, e tereis obedecido à Lei de Deus (Op. cit.). Destaque meu. 

Analisando o que o canonizado Espírito Vicente de Paulo disse: 1) devemos, sim, dar esmolas, embora o ideal seja fazê-lo com verdadeira caridade, ou seja, aquela que demonstre interesse pelo "infeliz" e não o trate com arrogância, nem o humilhe; 2) há uma diferença entre a esmola e a beneficência. Esta vai além do "óbolo" dado ao necessitado, por vezes, friamente, e trata-o com brandura e benevolência. Sem o desprezar, procura instruí-lo, moralizá-lo; a esmola, quando dada sem esse zelo, humilha e pode levar o carente de ajuda à revolta, ainda que o níquel recebido o auxilie a minimizar temporariamente sua fome.
Mas ainda pior do que isso é recusar o auxílio ao infeliz que não conhecemos, por prejulgar seu pedido. Não é isso que Jesus deseja. Sua recomendação é para darmos "esmola" do que tivermos.
O Espírito Emmanuel, comentando o versículo de Lucas, diz o seguinte:

O Dono de todo o poder e de toda a riqueza no Universo é Deus, nosso Criador e Pai, que empresta recursos aos homens, segundo os méritos ou as necessidades de cada um.
Não olvidemos, assim, as doações de nossa esfera íntima e perguntemos a nós mesmos: Que temos de nós próprios para dar? Que espécie de emoção estamos comunicando aos outros? Que reações provocamos no próximo? Que distribuímos com os nossos companheiros de luta diária? Qual é o estoque de nossos sentimentos? Que tipo de vibrações espalhamos?[1]

        Para finalizar, diz Emmanuel:

O aviso do Instrutor Divino nas anotações de Lucas significa: — dai esmola de vossa vida íntima, ajudai por vós mesmos, espalhai alegria e bom ânimo, oportunidade de crescimento e elevação com os vossos semelhantes, sede irmãos dedicados ao próximo, porque, em verdade, o amor que se irradia em bênçãos de felicidade e trabalho, paz e confiança, é sempre a dádiva maior de todas (id.).

        Os tempos são outros, em especial em nosso país, que acolhe milhares de imigrantes de outras nações amigas, além do nosso povo, com imensa carência de alimentação, vestuário, abrigo e nossa solidariedade fraterna. Nas grandes cidades, esbarramos com pessoas carentes por toda a parte. Embaixo das marquises de lojas, de madrugada; nas paradas dos semáforos; nos estacionamentos; nos restaurantes; e, principalmente, nos self-services.
        Seria demagogia nossa dizer que prefere atender a todos esses necessitados com incentivos a procurar a instituição a ou b, levá-los para nossas casas, dar-lhes banho, fornecer-lhes roupas, abrigos etc. A não ser que tivéssemos disponibilidade de tempo e recursos para passar os dias nas ruas atendendo a multidão de pedintes que ali se encontra
Por outro lado, não temos como comprovar se quem nos pede ajuda é realmente miserável ou faz da mendicância profissão. Se não temos como saber o que o pedinte fará com os níqueis que lhe damos, não nos cabe prejulgá-lo. Caso contrário, Jesus teria dito: — Mas antes, verifique se quem lhe pede esmola está mesmo precisando de sua ajuda.
O Cristo nos pede amor, que não dispensa a misericórdia, e se traduz pela máxima inspirada a Allan Kardec pelo Espírito de Verdade, representante da Vontade Divina: "Fora da caridade não há salvação". E Kardec ainda comenta: "Logo, tudo o que se faça contra o próximo é o mesmo que fazê-lo contra Deus"[2]. Tudo!
Tudo aqui, em releitura, significa: o mínimo que fizermos em benefício de um irmão faremos a favor de Deus. O que não é dar auxílio material a quem, realmente, sabemos que não necessita dele, mas, sim, do amparo espiritual, conforme lemos nos comentários de Emmanuel.
O que o próximo, à nossa revelia, fará do que lhe doarmos é assunto dele com Deus, que lhe deu livre-arbítrio, e não nosso. Não sendo assim, não exercitaremos bem a abnegação e o devotamento recomendados pelo Espírito de Verdade em sua quarta mensagem, item 8 do cap. 6 d'O Evangelho Segundo o Espiritismo.




[1] EMMANUEL (Espírito). Fonte Viva. Psicografado por Francisco Cândido Xavier. Rio de Janeiro: FEB, 2005, cap. 60. Esmola.

[2] KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 5. imp. Brasília: FEB, 2017, p. 204.

sábado, 1 de fevereiro de 2020




7.5 Missão do homem inteligente na Terra

7.5.1 Ferdinando
Espírito protetor, Bordeaux, 1862

Não se orgulhem do que sabem, porque esse saber tem limites bem estreitos no mundo que vocês habitam.  Ninguém tem o direito de se envaidecer, mesmo supondo que seja uma das sumidades inteligentes desse globo.
Se Deus, nos seus desígnios, os fez nascer num meio onde puderam desenvolver sua inteligência, foi por querer que a usassem em benefício de todos. Porque é uma missão que Ele lhes dá, pondo em suas mãos o instrumento com o qual podem desenvolver, por sua vez, as inteligências retardatárias e conduzi-las a Ele.
A natureza do instrumento não indica o uso que dele se deve fazer? A enxada que o jardineiro põe nas mãos do seu ajudante não indica que ele deve cavar? E que diriam vocês se o trabalhador, em vez de trabalhar, erguesse a enxada para ferir seu senhor? Diriam que isso é horroroso, e que ele deve ser expulso. Pois bem, não se passa o mesmo com aquele que se serve da sua inteligência para destruir a ideia de Deus e da Providência entre seus irmãos? Não ergue contra o seu Senhor a enxada que lhe foi dada para preparar o terreno? Ele terá direito ao salário prometido, ou merece, pelo contrário, ser expulso do jardim? Pois o será, não duvidem, e arrastará existências miseráveis e cheias de humilhação, até que se curve diante d'Aquele a quem tudo deve.
A inteligência é rica de méritos para o futuro, mas com a condição de ser bem empregada. Se todos os homens bem dotados se servissem dela segundo a vontade de Deus, a tarefa dos Espíritos de fazer progredir a humanidade seria bem mais fácil. Infelizmente, muitos a tornam instrumento de orgulho e de perdição para si mesmos. O homem abusa de sua inteligência, como de todas suas outras faculdades, e, no entanto, não lhe faltam lições que o advirtam de que uma poderosa mão pode retirar o que lhe deu.
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Tradução do Prof. Dr. Jorge Leite de Oliveira

  Rumo à perfeição   Em nossa luta contra o mal em nós, O mal que não queremos sobreleva Por nossa imersão em densa treva Desde o tempo de n...