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terça-feira, 13 de julho de 2021

 

EM DIA COM O MACHADO 479:

entrevista com D. José Amigó y Pellícer, mártir do Espiritismo (Jó)[1]

                Hoje resolvi entrevistar o elevado Espírito D. José Amigó y Pellícer, autor da obra Roma e o Evangelho, a ser reeditada breve pela Federação Espírita Brasileira.

        Jó: — Quando e onde o Sr. e sua equipe, composta de clérigos, filósofos, cientistas, resolveram investigar os fenômenos espíritas, e qual era a intenção do grupo?

        Pellícer: — Foi em Lérida, na Catalunha, que começamos nosso trabalho, assim que as informações sobre as manifestações mediúnicas provindas de Paris chegaram à Espanha. A intenção inicial era a de desmascarar o movimento espírita iniciado, oficialmente, em Paris com a publicação d'O Livro dos Espíritos, por Allan Kardec. Imaginava-se, mesmo, ridicularizar as teorias e fenômenos espíritas.

        Jó: — Que resultou dessas pesquisas?

        Pellícer: — Ao contrário de teorias ilógicas, superstições e falsa moral, deparamo-nos com uma filosofia racional e lógica, que viria ratificar, com base nos fatos, os elevados ensinamentos de Jesus. Então, fundamos o Círculo Cristiano-Espiritista, decididos a divulgar publicamente o resultado de nossas pesquisas e continuar esses estudos e práticas sob o pálio da ciência experimental.

        Jó: — O Sr. não pensou nas consequências dessa corajosa iniciativa, num tempo em que a Igreja imperava sobre o Estado e impunha ao mundo sua doutrina?

        Pellícer: — Sabia que viriam represálias, que do exercício de nossa convicção conscienciosa e do dever da publicação dos resultados de nossos trabalhos resultariam represálias, mas não nos podíamos calar. Sacrificamos tudo às verdades que nos eram reveladas. "Como os primeiros cristãos, tivemos a fé precisa para desenrolar o divino estandarte dos ensinos de Jesus, ainda que houvéssemos de sucumbir à sua gloriosa sombra".

        Jó: — E quais foram as já esperadas consequências da publicação do livro Roma e o Evangelho, além de outros trabalhos no gênero?

        Pellícer: — Alguns meses após publicada essa obra, o Ministro da Instrução Pública na Espanha, marquês de Orovio, suspendeu D. Domingo de Miguel do cargo de Diretor da Escola Normal de Lérida e a mim, segundo professor dessa escola, em virtude de nossas opiniões filosófico-religiosas divulgadas no Círculo Cristiano-Espiritista.

        Jó: — Essa represália o fez desistir de lutar pela divulgação da nova revelação do Cristo?

        Pellícer: — Pelo contrário, deu-me mais coragem para continuar os trabalhos já iniciados com a fundação do Círculo Cristiano-Espírita, que se expandiu de modo considerável, graças à adesão de grande número de espanhóis e o apoio de estudiosos de mente aberta à nova revelação cristã.

        Jó: — Quais são suas palavras finais ao nosso leitor?

        Pellícer: — Repito o que disse em "Quatro palavras ao leitor":

       

Quando censuramos, referindo-nos ao clero ou às autoridades da Igreja, deve isso ser entendido como dirigido aos erros e abusos, nunca porém aos indivíduos ou classes; pois que, se nos julgamos autorizados a censurar mistificações, direitos, não presumimos ter de condenar os que porventura veem o bom uso no abuso — e a verdade no erro.

E como poderíamos condenar, se o princípio capital da nossa Doutrina é a caridade e o perdão?

Tudo tem sua razão de ser — e tudo contribui e coopera para o cumprimento da Lei que preside à Criação.

Moisés não podia deixar de preceder a Jesus, porque o povo hebreu, então grosseiro, material e prevaricador, não estava em condições de receber o Evangelho.

Tampouco Jesus não ensinou tudo o que sabia, porque a geração do seu tempo não suportaria o peso de todas as verdades (João, 16:12).

Por isto, Ele serviu-se de alegorias e de parábolas que, se no momento se prestavam a errôneas interpretações, mais tarde deveriam ser entendidas em seu verdadeiro sentido.

Quem, entretanto, poderá com razão acusar Moisés, pela dureza das suas leis, e Jesus, por haver falado ou dito em linguagem obscura o que não convinha revelar?

A inspiração e a palavra de Deus são sucessivas, e a humanidade vai recolhendo-as à medida das suas necessidades.

Por conseguinte, não podemos culpar a Igreja Romana por erros que não são seus, mas, sim, da miséria dos tempos e da ignorância das gerações que se têm sucedido após a morte de Jesus.

Julgamos ter manifestado com bastante clareza os nossos pensamentos: tudo pela ideia — nada contra as pessoas (PELLÍCER, J. A. y. In: Roma e o Evangelho. 8. ed. FEB, 1995).

 

        Jó: — É verdade, Amigó, as palavras que Jesus disse que ainda tinha de nos revelar, em sua época, não podiam ser ditas. Por isso, ele retornou, e, através do Espírito de Verdade, que preside, em seu nome, o Espiritismo, volta ao mundo atual, para, acima de todo preconceito, má vontade e perseguição humana, permanecer conosco para sempre. Siga em paz e continue, onde estiver, sua bela obra em nome do Cristo.

        Pellícer: — ¡Adiós, amigo, salud y paz!



[1] Crônica fictícia, mas baseada em fatos reais contidos na obra Roma e o evangelho, de José Amigó y Pellícer, publicada pela Federação Espírita Brasileira.

domingo, 11 de julho de 2021

 O Céu e o Inferno

 

Allan Kardec

Por Astolfo Olegário Oliveira Filho  

Parte 11

 

Continuamos o estudo metódico do livro “O Céu e o Inferno ou A Justiça Divina segundo o Espiritismo”, de Allan Kardec, com base na 1ª edição da tradução de João Teixeira de Paula publicada pela Lake.



Eis as questões de hoje:

 

81. Orar sobre o túmulo pode ajudar o desprendimento do Espírito?

Sim. O fato foi comprovado com o caso Augusto Michel, que insistiu para que determinado médium orasse sobre seu túmulo. Feito isso, ele sentiu-se liberto. A insistência do Espírito tinha sua razão de ser se levarmos em conta a tenacidade dos laços que ao corpo o prendiam e a dificuldade do seu desprendimento, em consequência da materialidade de sua existência. Compreende-se que, mais próxima, a prece pudesse exercer uma espécie de ação magnética mais poderosa no sentido de auxiliar o desprendimento. Kardec, aliás, referindo-se a esse caso, deixou no ar esta pergunta: - O costume quase geral de orar junto aos cadáveres não provirá da intuição inconsciente de um tal efeito? (O Céu e o Inferno, Segunda Parte, cap. IV, Augusto Michel.)

82. Que tipo de arrependimento é mais profícuo e útil?

O arrependimento é inútil quando apenas produzido pelo sofrimento. O arrependimento profícuo tem por base a mágoa de haver ofendido a Deus, e importa no desejo ardente de uma reparação. Essa a razão pela qual o arrependimento nem sempre acarreta a imediata libertação do Espírito. Mas o predispõe para ela, sendo-lhe preciso, além disso, provar a sinceridade e a firmeza de sua resolução, por meio de novas provações reparadoras do mal praticado. (Obra citada, Segunda Parte, cap. IV, Lisbeth.)

83. Qual é o efeito do orgulho sobre os indivíduos?

Orgulho, pai de todos os defeitos morais, gera a soberba, a tirania, o egoísmo, e é, por isso mesmo, a fonte de todos os sofrimentos que acabrunham a criatura, em decorrência da lei de causa e efeito, que rege os destinos humanos. (Obra citada, Segunda Parte, cap. IV, Príncipe Ouran.)

84. O Espírito ainda perturbado entende como é que se dá o fenômeno da manifestação mediúnica?

Não. O Espírito perturbado não tem liberdade de escolha e é conduzido instintiva e atrativamente para o médium que demonstre aptidão especial para as comunicações desse gênero. (Obra citada, Segunda Parte, cap. IV, F. Bertin, 2ª mensagem.)

85. Que acontece àqueles que só pensam em si?

O depoimento de Clara é expressivo quanto a essa pergunta. Disse ela: “Malditas sejam as horas de egoísmo e inércia, nas quais, esquecida de toda a caridade, de todo o afeto, eu só pensava no meu bem-estar! Malditos interesses humanos, preocupações materiais que me cegaram e perderam! Agora o remorso do tempo perdido”. Comentando o caso, São Luís acrescentou: “Perguntar-se-á talvez o que fez essa mulher para ser assim tão miserável. Cometeu ela algum crime horrível? roubou? assassinou? Não; ela nada fez que afrontasse a justiça dos homens. Ao contrário, divertia-se com o que chamais felicidade terrena; beleza, gozos, adulações, tudo lhe sorria, nada lhe faltava, a ponto de dizerem os que a viam: – Que mulher feliz! E invejavam-lhe a sorte. Mas, quereis saber? Foi egoísta; possuía tudo, exceto um bom coração. Não violou a lei dos homens, mas a de Deus, visto como esqueceu a primeira das virtudes – a caridade. Não tendo amado senão a si mesma, agora não encontra ninguém que a ame e vê-se insulada, abandonada, ao desamparo no Espaço, onde ninguém pensa nela nem dela se ocupa. Eis o que constitui o seu tormento. Tendo apenas procurado os gozos mundanos que hoje não mais existem, o vácuo se lhe fez em torno, e como vê apenas o nada, este lhe parece eterno. Ela não sofre torturas físicas; não vêm atormentá-la os demônios, o que é aliás desnecessário, uma vez que se atormenta a si mesma, e isso lhe é mais doloroso, porquanto, se tal acontecesse, os demônios seriam seres a ocuparem-se dela. O egoísmo foi a sua alegria na Terra; pois bem, é ainda ele que a persegue – verme a corroer-lhe o coração, seu verdadeiro demônio”. (Obra citada, Segunda Parte, cap. IV, Clara, itens 2 e 4.)

86. Que são as trevas?

Quando se diz que certos Espíritos estão imersos em trevas, deve-se depreender daí uma verdadeira noite da alma comparável à obscuridade intelectual do idiota. É uma inconsciência com relação a tudo que os rodeia, a qual se produz quer na presença, quer na ausência da luz material. É, principalmente, a punição dos que duvidaram do seu destino. Pois que acreditaram em o nada, as aparências desse nada os supliciam, porque coisa alguma percebem em torno de si, somente trevas. As trevas para o Espírito são, em resumo, a ignorância, o vácuo, o horror ao desconhecido... (Obra citada, Segunda Parte, cap. IV, Clara, Estudo sobre as comunicações de Clara, pergunta feita a São Luís e mensagem assinada por Clara.)

87. Que estado sobrevém aos suicidas?

A um suicida, Kardec perguntou se foi doloroso o momento em que a vida dele se extinguiu. Ele respondeu: “Menos doloroso que depois”. Tal estado, segundo São Luís, sobrevém sempre ao suicídio, porque o Espírito do suicida – como regra geral – continua ligado ao corpo até o termo da vida que foi abreviada. A decepção que daí advém é, portanto, muito grande. No caso do suicida da Samaritana, ele experimentava, ainda, o suplício de sentir os vermes a corroerem o corpo, um estado comum aos suicidas, embora nem sempre se apresente em idênticas condições, variando de duração e intensidade conforme as circunstâncias atenuantes ou agravantes da falta. (Obra citada, Segunda Parte, cap. V, O suicida da Samaritana.)

88. Por que muitos Espíritos têm dúvida sobre a própria desencarnação?

A dúvida com relação à morte é muito comum nas pessoas recentemente desencarnadas, e principalmente naquelas que, durante a vida, não elevaram a alma acima da matéria. É um fenômeno que parece singular à primeira vista, mas que se explica naturalmente. Se a um indivíduo, pela primeira vez sonambulizado, perguntarmos se dorme, ele responderá quase sempre que não, e essa resposta é lógica: o interlocutor é que faz mal a pergunta, servindo-se de um termo impróprio. Na linguagem comum, a ideia do sono prende-se à suspensão de todas as faculdades sensitivas; ora, o sonâmbulo que pensa, que vê e sente, que tem consciência da sua liberdade, não se crê adormecido, e de fato não dorme, na acepção vulgar do vocábulo. Eis a razão por que responde “não”, até que se familiariza com essa maneira de apreender o fato. O mesmo acontece com o homem que acaba de desencarnar; para ele a morte era o aniquilamento do ser, e, tal como o sonâmbulo, ele vê, sente e fala, e assim não se considera morto. E isso ele afirmará até que adquira a intuição do seu novo estado. Essa ilusão é sempre mais ou menos dolorosa, uma vez que nunca é completa e pode dar ao Espírito uma ansiedade muito grande. (Obra citada, Segunda Parte, cap. V, O suicida da Samaritana, nota de Kardec após a pergunta 18.)

 

Leia mais em:

 https://espiritismo-seculoxxi.blogspot.com/2021/06/blog-post_03.html

 

 

sábado, 10 de julho de 2021

 


16.8 Instruções dos Espíritos: a verdadeira propriedade

16.8.1 Pascal

Genebra, 1860

 

O homem não possui como seu senão aquilo que pode levar deste mundo. O que ele encontra ao chegar e deixa ao partir, ele desfruta enquanto permanece aqui; mas desde que é forçado a deixá-lo, só tem simplesmente o usufruto, e não a posse real. Que possui ele então? Nada que é de uso do corpo, e tudo o que é de uso da alma: a inteligência, os conhecimentos, as qualidades morais. Eis o que ele traz e leva consigo, o que ninguém tem o poder de tirar-lhe, e o que ainda mais lhe servirá no outro mundo do que neste. Dele depende estar mais rico ao partir do que ao chegar, porque do que ele houver adquirido no bem dependerá sua posição futura.

Quando um homem vai a um país longínquo, arruma a sua bagagem com objetos de uso nesse país, mas não leva coisas que lhe seriam inúteis. Faça, pois, o mesmo, em relação à vida futura, e aprovisione-se de tudo o que nela lhe poderá servir.

Ao viajante que chega a uma estalagem, é dado um bom alojamento se ele pode pagar; ao que pode menos, é dado um pior; e o que pouco possui deita-se sobre a palha. Assim acontece com o homem à sua chegada no mundo dos Espíritos: seu lugar ali depende de seus haveres.  Não será com o ouro que ele o pagará. Não se lhe perguntará: Quanto você tinha na Terra? Que posição ocupava? Era príncipe ou operário? Mas lhe será perguntado: Que você traz de volta? Não serão avaliados os seus bens, nem os seus títulos, mas a soma das suas virtudes. Ora, sob esse aspecto o operário pode ser mais rico do que o príncipe. Em vão alegará que, antes de partir, pagou em ouro a sua entrada no outro mundo, pois lhe será respondido: As posições daqui não são compradas, mas conquistadas pela prática do bem; com o dinheiro terrestre, você pode comprar campos, casas, palácios; aqui tudo se paga com as qualidades do coração. É rico dessas qualidades? Seja bem-vindo,  e seu lugar é de primeira categoria, onde todas as venturas o esperam. É pobre? Vá para um dos últimos lugares, onde será tratado conforme suas posses.

Tradução livre da terceira edição francesa por Jorge Leite de Oliveira

http://lattes.cnpq.br/0494890808150275

quinta-feira, 8 de julho de 2021

 

Princípios de uma nova ética (resenha)

Princípios de uma nova ética (resenha)

por Alexsandro M. Medeiros

lattes.cnpq.br/6947356140810110

postado em set. 2016

atualizado em out. 2020

 

            A ética de Pietro Ubaldi deve ser compreendida à luz de um sistema mais amplo de ideias que, conforme o próprio autor orienta, está contida em obras como: A Grande Síntese, Deus e Universo, O Sistema Queda e Salvação. O pensamento de Ubaldi está contido em uma série de 24 volumes, das quais estas quatro oferecem um sistema científico-filosófico-ético-teológico completo e as demais obras, como Princípios de uma nova ética, explica os pormenores e amplia aspectos particulares. Por isso, alguns conceitos do pensamento ubaldiano devem ser levados em consideração para se compreende melhor o tema do qual aqui nos propomos destacar. Dentre estes conceitos, é necessário ter em mente que a ética ubaldiana é uma ética profundamente espiritualista e reencarnacionista, que toma como princípio fundante a existência de Deus, do espírito, e a ideia de que este mesmo espírito evolui através de vidas sucessivas cujo principal propósito é aperfeiçoar-se sempre mais e melhor, seja do ponto de vista gnosiológico, seja do ponto de vista moral. A teoria da reencarnação explica os aspectos da personalidade humana e do biótipo terrestre, abordados entre os capítulos IV e V, e serve de base para a teoria evolucionista segundo a qual a perfeição deve ser atingida pelo espírito e envolve aspectos filosóficos, científicos, religiosos e práticos, de uma moral que tem na moral do Evangelho do Cristo, sua expressão mais profunda e sublime.

            Por isso o capítulo I é dedicado à existência de Deus e as consequências que a visão que se tem da divindade tem para a ética. Não se trata tanto de provar sua existência, pois a mesma já foi realizada nas obras anteriores que compõem as bases da filosofia ubaldiana. O materialismo ateu nega a existência de Deus mas essa negação representa apenas a negação daquilo que o homem, num dado momento histórico, pensa que seja a representação de Deus. Mas existe um Deus em Si mesmo, absoluto, acima de toda e qualquer representação e compreensão humana, que não pode ser negado. Neste capítulo Ubaldi analisa, portanto, a ideia de Deus concebida pelo homem no seu relativo, a imagem antropomórfica que é feita de Deus e, por isso mesmo, criticada e negada; e a ideia de Deus em si mesmo que nos foge completamente porque está além da nossa compreensão.

Assim, na economia da vida, o materialismo ateu não foi um meio para chegar à negação de Deus, mas só para destruir a velha ideia que Dele o homem fazia nas religiões, e com isso atingir outra nova, mais evoluída, completa, convincente. Tal processo se está ainda realizando. De fato, a nova ciência destruiu a concepção materialista da matéria, que desintegrou, desmaterializando-a em energia. Hoje está acontecendo isto: a ciência está constrangida pe­los fatos, que não pode negar, a abstrair-se cada vez mais da ma­terialidade sensória para chegar a entender a matéria como uma rea­lidade imaterial, e a explicar a substância das coisas com um concei­to que cada vez mais se aproxima e tende a coincidir com aquele imponderável inteligente, que no passado foi chamado espírito (1988, p. 4).

            O conceito que as religiões podem nos oferecer de Deus e, portanto, a ética dele decorrente, corresponde ao grau de amadurecimento evolutivo da humanidade. Chegou, portanto, a hora de compreender uma moral mais condizente com a realidade do espírito, cujas bases, de tempos em tempos, foi revelada pelos grandes missionários e gênios da nossa história. Sendo o biótipo predominante na Terra o de tipo involuído, ele não pode compreender um conceito mais adiantado que esteja além da sua forma mental. Evoluído, ele pode agora compreender novas ideias, chegar a um nível mais alto de compreensão e entender que existe uma moral de base egoísta, em certos pontos arbitrária e baseada no princípio da força, mas que existe uma outra, de base altruísta e baseada no princípio da Lei e da Ordem. Com efeito, a Lei representa um princípio de ordem inviolável, porque representa o pensamento do próprio Deus e a Sua vontade.

            A questão antropomórfica de Deus também é discutida na obra Queda e Salvação, no capítulo que tem como tema exatamente Princípios de uma nova ética. Onde Ubaldi já havia afirmado como o homem criou para si uma ideia de Deus relativa ao seu estado mental e a única que ele poderia compreender.

O homem acabou criando para si um Deus à sua imagem e semelhança, conforme a sua forma mental e instintos. Tudo isto foi trabalho despercebido, fruto de instintos, feito sem querer, nem saber, sem má fé, trabalho realizado no passado [...] trabalho profundo do subconsciente das massas, do qual as próprias Igrejas fazem parte, porque elas no seu conjunto não podem ser constituídas por biótipos diferentes do comum (UBALDI, 1984, p. 112).

            Ninguém pode conceber algo que esteja além do limite da sua forma mental. Por isso não pode compreender um Deus que esteja completamente acima da sua psicologia. A única concepção que ele pode ter nos níveis inferiores de evolução é a de um Deus que se faz respeitar pelo medo do castigo em um inferno além deste mundo. Mas basta que sua inteligência comece a se desenvolver e algumas ideias lhe parecem absurdas. Deus não pode ser um chefe tirano “morando nos céus qual soberano no meio da Sua corte, olhando de longe para o nosso inferno selvagem só para receber na Sua glória egoísta as nossas humildes homenagens” (UBALDI, 1984, p. 114).

            Na ética ubaldiana a dor representa um papel importante. Ela tem a função de ensinar a conhecer a Lei e a não mais errar, já que a dor é a consequência imediata da transgressão à Lei divina. Pela dor, o espírito humano vai aprendendo cada vez mais que cada ação sua tem uma consequência imediata, dolorosa quando essa ação vai de encontro à Lei divina. Evoluindo, homens e mulheres saberão libertar-se desse ciclo doloroso, pois se a Lei é justa, ela também trabalha para o progresso, impulsionando-os a evoluir e atingir sempre um nível mais elevado de amadurecimento espiritual. Evoluindo, aprendemos que existem leis na vida que não podemos enganar. Que cada ato desonesto ou injusto terá uma reação que a princípio pode parecer desonesta ou injusta, sendo que nada mais é do que a Lei procurando encontrar o equilíbrio. Não se rompe o equilíbrio das Leis divinas sem sofrer suas consequências, assim como cada ato honesto e justo trará consigo como reação uma compensação, uma vez que ao cumprir o seu dever de obediência à Lei cada indivíduo recebe, por direito, uma resposta do impulso criador da vida que sustenta o homem honesto, tal como foi dito na máxima: bem-aventurados os que têm sede e fome de justiça, pois serão saciados.

            Há, portanto, duas éticas diferentes, em consonância com dois tipos mentais diferentes do espírito humano: uma ética dos involuídos (psicologia egocêntrica individualista que se baseia na desconfiança e na luta) e outra, dos evoluídos (psicologia altruísta orgânica, que se baseia na colaboração). O evoluído exige virtude antes de tudo, de si mesmo, exige honestidade antes de tudo em si mesmo (O livro A Nova Civilização do Terceiro Milênio dedica um capítulo inteiro ao que Ubaldi (1982, p. 79-93) chama de A Lei da Honestidade e do Mérito), para benefício dos outros e se pede que pratiquem a honestidade é porque ele mesmo a pratica. O involuído exige virtude, antes de tudo, nos outros, porque a sua lógica mental é diversa do primeiro, e procura a honestidade nos outros, para melhor explorá-los em seu proveito e se pede que pratiquem a honestidade, ele mesmo não a pratica, para proveito próprio.

            No nível dos involuídos, a regra é que os bons devem ser explorados, a bondade é uma forma de fraqueza, a força e a astúcia são reverenciadas com glória. Mas perante as Leis divinas “é loucura querer ser astuto, porque não há escapatórias. Quem faz o mal tem de pagá-lo à sua custa, não importando se é crente ou não. A nossa opinião, a nossa fé religiosa ou filosófica, não pode fazer mudar as leis da vida” (1988, p. 8). Se a injustiça e a desonestidade imperam neste mundo é porque os honestos ainda são poucos e não possuem, e nem desejam possuir, as qualidades de agressividade necessária para lutar no terreno dos involuídos. Quem procura agir de acordo com a Lei divina foge da luta, pois sabe que qualquer forma de violência receberá como consequência uma reação violenta, o que implica respeitar a forma de ação dos involuídos, pois quando não há um meio para tirar a cegueira aos cegos, é necessário deixá-los agir da forma como melhor lhes parecer conveniente. E nos casos em que esta ação pretende romper com a harmonia das Leis da vida, a dor surge como aprendizado, inexoravelmente.

            O nível dos evoluídos é orientado por uma psicologia diferente o que implica uma ética e uma forma de agir diferente. Quanto mais se evolui, mais se aprende que existe um Deus imanente em nosso universo e que através dessa imanência existimos mergulhados e fundidos nEle, que tudo sustenta e tudo anima. “Trata-se de um Deus do qual ninguém pode sair, ao qual nada se pode esconder, um Deus vivo, ao nosso lado a toda hora, com a Sua inteligência e atividade” (1988, p. 13). Por isso não há mais lógica no egocentrismo. A rebeldia é uma atitude ingênua e infantil. Tornamo-nos conscientes dos princípios que regem o funcionamento orgânico do universo, compreendemos a lógica do plano divino que tudo dirige e só há um caminho a seguir. “Profundamente convencido disto, ele julga loucura o espírito de revolta do homem atual, e espontaneamente se coloca na ordem pa­ra obedecer à sabedoria da Lei” (1988, p. 13). Neste nível domina o princípio da justiça, da ordem, do equilíbrio, de reciprocidade de direitos e deveres, da obediência à Lei divina. Obediência que não é adesão cega a uma ordem que não se compreende. Quanto mais o espírito evolui, mais compreende, e sente, que há mais vantagem em obedecer do que desobedecer a Lei divina: fundir a sua vontade com a vontade soberana de Deus, em um impulso inimaginável de amor, sabedoria e paz. Deus só quer o bem de seus filhos e, por isso, não há maior desejo ou satisfação do que fazer a vontade do Pai, porque a vontade do Pai é aquela que o filho mais deseja, ou seja, a nossa felicidade.

A diferença entre os dois níveis é esta: que nos planos inferiores prevalece o antagonismo que divide os seres entre si e contra Deus, de modo que a obediência é uma opressão antivital, enquanto nos planos superiores tudo isto desaparece numa unidade que funde os seres entre si e com Deus, numa só vontade dirigida para a mesma finalidade de bem, o que transforma a obe­diência em elemento vital (1988, p. 15).

           O capítulo II dá sequência a esta discussão aprofundando a dualidade que existe do ponto de vista da ética e abordando o que Ubaldi chama de Evolução da Ética.

            A Ética é um tema fundamental na estrutura do pensamento ubaldiano pois ela representa a norma que deve dirigir nossas ações em torno da evolução, ensinando-nos o caminho a ser percorrido. São as regras morais, mais do que o conhecimento científico ou filosófico, que levam os indivíduos a aproximar-se cada vez mais do estado de perfeição que é o destino de todos. A Ética representa uma expressão direta da Lei. Mas, se assim o é, porque encontramos éticas relativas e tão distintas umas das outras? Por que não há uma única norma ou regra moral que possibilite homens e mulheres a evoluírem sem se desvirtuarem do caminho a ser seguido? A resposta de Ubaldi é que a ética é relativa, progressiva e proporcional ao estado de adiantamento do espírito e ao conhecimento da Lei por ele atingido. A cada nível evolutivo corresponde uma ética relativa que se transforma assim que o indivíduo sobe a um nível de evolução mais adiantado. É por isso que a ética dos antigos se fundamenta na lei de talião: olho por olho, dente por dente. Ao passo que a ética cristã se fundamenta no amor: o amor a Deus acima de todas as coisas e o amor ao próximo como a si mesmo. E estas duas éticas coexistem porque a humanidade vive uma fase de transição evolutiva, onde seres involuídos e evoluídos se misturam na trama da vida e fazendo coexistir a velha e a nova ética.

            Para entender em maiores detalhes o porquê deste fenômeno, a coexistência de duas éticas, é preciso ter uma clareza maior da obra O Sistema e também a obra Queda e Salvação, do mesmo autor, pois a ética aqui é tomada como referência ao Sistema e o Anti-Sistema: grosso modo, o primeiro representa a realidade do espírito e o segundo representa a realidade material. Ao longo de toda a obra em análise, Ubaldi faz referência a estes dois momentos do processo evolutivo: o período de descida (queda) do espírito na matéria e o momento de subida (evolução) do espírito que se liberta da matéria, do Anti-Sistema. A ética do involuído, do Anti-Sistema, representa desordem. A ética do evoluído, do Sistema, representa a ordem e é vista pelo involuído como uma utopia (de fato a ética do evoluído está além da realidade que os involuídos conhecem e que acreditam representar toda a realidade). Através da evolução o ser deve realizar uma conquista: descobrir, através do esforço, uma ética cada vez mais adiantada e mais próxima da verdade que contém a felicidade e será encontrada no Sistema; libertar-se da dor e do sofrimento do Anti-Sistema, lançado em um mundo de forças negativas e inimigas, percorrendo o caminho oposto em direção ao Sistema. Enfim: “a ética representa o guia que nos ori­enta e dirige no caminho da evolução, o que nos leva para a salva­ção e a felicidade. Eis o significado da ética” (1988, p. 18-19). O ponto de referência da Ética é a Lei de Deus: tudo o que estiver de acordo com Sua Lei é bom, moral e lícito; tudo o que a contrarie é mau, imoral e ilícito. A dualidade entre o moral e o imoral, no fundo, está enraizada na dualidade entre Sistema e Anti-Sistema, de Lei e anti-Lei. E aqui Ubaldi faz uma distinção entre ética e moral: a moral diz respeito à ética do evoluído; a ética do involuído é imoral, que se afasta da moral e a nega. Quanto mais a ética é evoluída, mais ela se afasta das qualidades do Anti-Sistema, do imoral. A ética depende da forma mental do indivíduo que possui uma ética diferente, de acordo com o plano de evolução ao qual ele pertence.

Então, como em nosso mundo o nível biológico oscila do plano do involuído ao do evoluído, assim a ética relativa vai de um extre­mo de tipo involuído a outro de tipo evoluído. Ela vai da fera ao santo, do nível do subdesenvolvido, selvagem, feroz, ao nível do super-homem, civilizado, evangélico.  A maioria se equilibra no meio destes dois extremos, com uma moral ambígua, que pretende ser do segundo tipo, conquanto muitas vezes na substância é do primeiro. Moral anfíbia, de adaptações entre o superior e o infe­rior, ética de transformação em que coexistem as normas de condu­ta de dois níveis de vida, as do inferior convertendo-se nas do su­perior, o qual se vai conquistando por lentas aproximações evoluti­vas (1988, p. 19).

            Entre a ética do involuído e a ética do evoluído pode haver também um choque. O passado que não quer morrer e o futuro que tem de vencer. Muitos estão nesta condição. Compreendem a Lei, sabem que é melhor seguir o caminho por ela determinado, mas estão em conflito interno e permanente com as forças do subconsciente e dos instintos que lhe prendem ao chão. De qualquer forma,

O trabalho atual da evolução em nosso mundo é de passar do 1.º tipo de ética para o 2.º. O eu vai assim despertando cada vez mais, aproximando-se das raízes espiri­tuais do ser, funcionando sempre mais com as qualidades do S [Sistema], e sempre menos com as do AS [Anti-Sistema]. Trata-se de um lógico desenvolvimen­to da evolução, de uma necessária conquista biológica, que leva consigo um novo tipo de ética e estilo de vida, conforme o telefinalismo de todo o fenômeno que vai do AS para S (1988, p. 22).

 

CAPÍTULOS III A VI

(III – MÉTODOS DE VIDA; IV – A PERSONALIDADE HUMANA; V – OS TRÊS BIÓTIPOS TERRESTRES; VI – O DESTINO)

CAPÍTULOS VII A IX

(CAPÍTULO VII – PSICANÁLISE; CAPÍTULO VIII – A NOVA PSICANÁLISE; E CAPÍTULO IX – TÉCNICAS DE TRATAMENTO)

CAPÍTULOS X A XIII

(CAPÍTULO X – A ÉTICA DO SEXO; CAPÍTULO XI – A ÉTICA SEXÓFOBA DO CRISTIANISMO; O CAPÍTULO XII – O SEXO COMO PROBLEMA ATUAL; CAPÍTULO XIII – AMOR E CONVIVÊNCIA SOCIAL)

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

 

Filosofia Política → Filosofia Contemporânea → Pietro Ubaldi → Princípios de uma nova ética (resenha)



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terça-feira, 6 de julho de 2021

 EM DIA COM O MACHADO 478:

prevenções contra vírus... (Jó)


 

        Amigos leitores, há vírus e vírus. Hoje falaremos sobre o que fazer para nos prevenir contra  os vírus provenientes de ataques malwares. Os dos meios eletrônicos em geral são também pandêmicos. Que fazer para não cair nos golpes dos estelionatários, em geral, pessoas de "fino trato"? Como medidas preventivas, enumeramos abaixo, em trovas, três tópicos com elencos de fraudes e atitudes recomendadas:

1) Fraudes em bate-papos
 
Se quem tu desconheceres
ligar pra teu celular,
liga o alerta da cautela,
sempre é bom desconfiar...
 
Olho vivo em quem escreve.
Se é ruim a gramática,
Se não conheces o estilo,
É nociva a performática...
 
2) Fraudes em computadores

Estão propondo downloads
pela rede mundial?
Cuidado! desconhecidos
podem nos fazer o mal.
 
Nunca dês informações
a sites ignorados.
Nomes famosos de empresas
também podem ser clonados...
 
Cuidado com comerciais
das vis ofertas on-line
Que podem trazer, por trás,
espiões até em braile.
 
Não vás atrás de mensagens
de gente alheia, bonita...
Nas ofertas de romances,
tem muito pilantra artista.
 
Nunca atendas aos pedidos
de doações na internet,
pois muitos deles são golpes
de gente que não tem ética.
 
3) Fraudes por telefone
 
Sejam amigavelmente
ou com intimidações,
muitos golpes telefônicos
são dados por mandriões.
 
Desconfia dos pedidos
que exploram tua bondade.
Nem sempre tais doações
são coisas da caridade.
 
A oferta é para algum bem
ou serviço na cidade?
Cuidado, pois pode ser
vil mentira, falsidade...
 
A proposta é de pesquisa
mui profunda, detalhada...
Cuidado, meu... não prossigas,
Isso é golpe, é canalhada.
 
Se é suposta ligação
de banco ou do INSS,
não atendas, não prossigas...
Isso é certo golpe, esquece...

 

        Neste mundo em transição, a ciência e a tecnologia servem para utilização no bem, mas também para o exercício no mal. Então, leitores amigos, como sempre, as palavras do Cristo são atuais: "Vigiai e orai, para não cairdes em tentação". Muita paz.

domingo, 4 de julho de 2021

 O Céu e o Inferno

 

Allan Kardec

Por Astolfo Olegário Oliveira Filho  

Parte 10

 

Continuamos o estudo metódico do livro “O Céu e o Inferno ou A Justiça Divina segundo o Espiritismo”, de Allan Kardec, com base na 1ª edição da tradução de João Teixeira de Paula publicada pela Lake.



73. A aflição dos pais prejudica os filhos recém-desencarnados? 

Sim. Foi exatamente isso que revelou o Espírito de Maurício Gontran, que, no entanto, explicou que a dor de seus pais se acalmaria quando tivessem a certeza de que a vida continua e de que ninguém, de fato, morre. (O Céu e o Inferno, Segunda Parte, cap. II, Maurício Gontran, 1ª pergunta.)

74. Os guias ou Espíritos protetores nos auxiliam nos momentos difíceis?

Sim. O Espírito da Srta. Emma Livry revelou que foram seu guia e os benfeitores espirituais que deram ao seu ânimo abatido a força de suportar as angústias e lhe refrescaram os lábios sedentos e escaldantes, além de murmurar-lhe ao ouvido palavras de esperança e de amor. (Obra citada, Segunda Parte, cap. II, A senhorita Emma.)

75. Há diferenças entre o desprendimento do desencarnante e o desprendimento de um encarnado em desdobramento?

Há grande diferença entre o desprendimento do desencarnante e o de um encarnado durante o desdobramento. Neste último caso, a matéria ainda oprime a alma, que não pode, desse modo, desembaraçar-se radicalmente. Já o Espírito desencarnado encontra-se livre e um vasto campo desconhecido se lhe depara, porque não existe nada que o prenda à matéria. Essa, a explicação dada pelo Doutor Vignal, que relatou a Kardec, anos antes, as impressões do desdobramento por ele mencionado. (Obra citada, Segunda Parte, cap. II, Antônio Costeau, última mensagem, e Doutor Vignal.)

76. Há diferença entre a honestidade perante os homens e a honestidade perante Deus?

Sim; existe um abismo entre a honestidade perante os homens e a honestidade perante Deus. Entre os homens, é reputado honesto aquele que respeita as leis do seu país, que não prejudica o próximo ostensivamente, embora lhe arranque muitas vezes a felicidade e a honra, visto o código penal e a opinião pública não atingirem o culpado hipócrita. Não basta, porém, para ser honesto perante Deus, ter respeitado as leis dos homens; é preciso antes de tudo não haver transgredido as leis divinas. Honesto aos olhos de Deus será aquele que, possuído de abnegação e amor, consagre a existência ao bem, ao progresso dos seus semelhantes; aquele que, animado de um zelo sem limites, for ativo na vida; ativo no cumprimento dos deveres materiais, ensinando e exemplificando aos outros o amor ao trabalho; ativo nas boas ações, sem esquecer a condição de servo ao qual o Senhor pedirá contas, um dia, do emprego do seu tempo; ativo finalmente na prática do amor de Deus e do próximo. (Obra citada, Segunda Parte, cap. III, José Bré, 2ª pergunta.)

77. Poderá uma pessoa, por esforço da própria vontade, retardar o momento da separação da alma do corpo? 

Em dadas condições, sim, pode um Espírito encarnado prolongar a existência corporal a fim de terminar instruções indispensáveis ou por ele como tais julgadas. Trata-se de uma concessão que se lhe pode fazer, mas essa dilação de vida não pode deixar de ser breve, visto como não é permitido ao homem inverter a ordem das leis naturais, bem como retornar de moto próprio à vida, desde que ela tenha atingido o seu termo. Trata-se, pois, de uma sustação momentânea apenas. Preciso é, no entanto, que da possibilidade do fato não se conclua ser ele generalizado, tampouco que dependa de cada qual prolongar por esse modo a sua existência. Como provação para o Espírito ou no interesse de missão a concluir, os órgãos depauperados podem receber um suplemento de fluido vital que lhe permita prolongar de alguns instantes a manifestação material do pensamento. Esses casos são, pois, excepcionais e não fazem regra. (Obra citada, Segunda Parte, cap. III, Senhora Anna Belle-Ville, resposta dada por São Luís.)

78. Como situar dor e resignação? 

A resignação suaviza a dor e torna aproveitável o sofrimento; em face disso, a pessoa acometida de dor sofre menos. Contrariamente a isso, a falta de resignação esteriliza o sofrimento, que terá, por isso mesmo, de ser recomeçado. (Obra citada, Segunda Parte, cap. III, Cardon e Senhora Anna Belle-Ville; ver também cap. VIII, Um sábio ambicioso.)

79. Que ocorre, após a morte, com as pessoas usurárias, endurecidas, egoístas ou más? 

Depois da morte, os Espíritos endurecidos, egoístas ou maus são logo presas de uma dúvida cruel a respeito do seu destino, no presente e no futuro. Olham em torno de si e nada veem que possa aproveitar ao exercício da sua maldade – fato que os desespera, visto como o insulamento e a inércia são intoleráveis aos maus Espíritos. Não elevam o olhar às moradas dos Espíritos elevados, consideram o que os cerca e, então, compreendendo o abatimento dos Espíritos fracos e punidos, se agarram a eles como a uma presa, utilizando-se da lembrança de suas faltas passadas, que põem continuamente em ação pelos seus gestos ridículos. (Obra citada, Segunda Parte, cap. IV, parte inicial de "O castigo" e Francisco Riquier.)

80. Ante a eternidade que nos aguarda, como proceder em relação aos bens que possuímos? 

O homem deve utilizar-se sobriamente dos bens de que é depositário, habituando-se a visar a eternidade que o espera, abrindo mão, por consequência, dos gozos materiais. Sua alimentação deve ter por exclusivo fim a vitalidade; o luxo deve apenas restringir-se às necessidades da sua posição; os gostos, os pendores, mesmo os mais naturais, devem obedecer ao mais sadio raciocínio; sem isso, ele se materializa em vez de se purificar. As paixões humanas são estreitos grilhões que se enroscam na carne e, assim, não devemos dar-lhes abrigo. Os encarnados não sabem qual será o preço disso quando regressarem à pátria espiritual! (Obra citada, Segunda Parte, cap. IV, Exprobrações de um boêmio.)


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sábado, 3 de julho de 2021

 


16.7 Desigualdade das riquezas

 

            A desigualdade das riquezas é um dos problemas que em vão se procura resolver, quando se considera apenas a vida atual. A primeira questão que se apresenta é a seguinte: Por que nem todos os homens não são igualmente ricos? Por uma razão muito simples: é que eles não são igualmente inteligentes, ativos e laboriosos para adquirir, nem sóbrios e previdentes para conservar.

            Esse é um ponto matematicamente demonstrado, que a fortuna igualmente repartida daria a cada um uma parte mínima e insuficiente; que, se supondo feita essa repartição, o equilíbrio seria rompido em pouco tempo pela diversidade dos caracteres e das aptidões; que supondo-a possível e durável, cada um tendo somente o necessário para viver, isso equivaleria ao aniquilamento de todos os grandes trabalhos que concorrem para o progresso e o bem-estar da humanidade; que se admitindo que ela desse a cada um o necessário, desapareceria o estímulo que impulsiona os homens às grandes descobertas e aos empreendimentos úteis. Se Deus a concentra em certos pontos, é para que daí ela se expanda, em quantidades suficientes, segundo as necessidades.

            Admitindo-se isso, pergunta-se por que Deus a concede a pessoas incapazes de fazê-la frutificar para o bem de todos. Essa é novamente uma prova da sabedoria e da bondade de Deus. Ao dar ao homem o livre-arbítrio, quis que ele chegasse, pela sua própria experiência, a discernir entre o bem e o mal, e que a prática do bem fosse o resultado dos seus esforços e da sua própria vontade. O homem não deve ser fatalmente levado nem ao bem, nem ao mal, caso contrário, seria apenas um instrumento passivo e irresponsável como os animais. A fortuna é um meio de prová-lo moralmente; mas como, ao mesmo tempo, é um poderoso meio de ação para o progresso, Deus não quer que permaneça longo tempo improdutiva, por isso é que a transfere incessantemente.

            Cada um deve possuí-la, para se exercitar e provar o uso que lhe sabe dar; mas como há a impossibilidade material de que todos a possuam ao mesmo tempo, e além disso, se todos a possuíssem, ninguém trabalharia, e o melhoramento do globo sofreria com isso, cada qual a possui por sua vez.

            Assim, o que hoje não a tem, já a teve no passado ou a terá numa outra existência, e o que hoje a possui poderá não mais possuí-la amanhã. Há ricos e pobres porque, Deus sendo justo, cada qual deve trabalhar por sua vez. A pobreza é para uns a prova da paciência e da resignação; a riqueza é para outros a prova da caridade e da abnegação.

            Lamenta-se, com razão,  o péssimo uso que algumas pessoas fazem da sua fortuna, as ignóbeis paixões que a cobiça desperta, e pergunta-se se Deus é justo, ao dar a riqueza a tais pessoas. É certo que se o homem só tivesse uma existência, nada justificaria semelhante repartição dos bens terrenos; mas, se em vez de levarmos em conta nossa vida atual, considerarmos o conjunto das existências, vê-se que tudo se equilibra com justiça.

            O pobre não tem, portanto, motivo para acusar a Providência, nem para invejar os ricos, e os ricos não têm razão para se vangloriar do que possuem. Se estes abusam da fortuna, não será através de decretos, nem de leis suntuárias [leis que restringem gastos extravagantes ou absurdos] que se poderá remediar o mal. As leis podem mudar momentaneamente o exterior, mas não podem modificar o coração. É por isso que têm duração temporária e provocam quase sempre uma reação mais frenética. A fonte do mal é o egoísmo e o orgulho. Todos os abusos cessarão, quando os homens se regerem pela lei da caridade.

 

  Rumo à perfeição   Em nossa luta contra o mal em nós, O mal que não queremos sobreleva Por nossa imersão em densa treva Desde o tempo de n...