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terça-feira, 18 de março de 2014

Em dia com o Machado 95 (jlo)


Minha amiga, não posso acreditar no que me dizes. É verdade que já ouviste muito marido dizer que sua mulher não sabe cozinhar? Diga-lhe que, se quiser uma cozinheira, é só pagar...
Também ouves muita gente, no trânsito dizer que mulher não sabe dirigir? Isso é despeito, amiga, a maioria dos acidentes ocorre com os homens ao volante.
É ridículo ouvir uma cantada grosseira; por vezes, é mais que isso, é de dar medo. Um animal assim, não tem educação e, principalmente, falta-lhe caráter. Nenhuma mulher, ouviu bem, meu caro? Mulher alguma gosta de se sentir um objeto nas mãos de um homem.
Uma amiga reclamou comigo que, convidada a participar de um programa de bate-papo sobre futebol, foi tratada com o maior desprezo. Um dos participantes, com a intenção maldosa de humilhá-la, perguntou-lhe qual era a escalação do time dela.
Sabe o que ela fez? Respondeu com a mesma pergunta: primeiro você cita o nome e a posição de cada jogador do seu time... Ele emudeceu na hora. Não sabia o nome de metade dos jogadores... Foi então que ela citou não somente os titulares, como também os reservas... Do time dela e do dele.
Humilhou, não é mesmo, amiga? Bem-feito.
E as piadinhas com a mulher? Se é loura, é burra; se trabalha em atividades predominantemente masculinas, é sapatão ou mal amada; se anda sozinha, à noite, na rua, ou toma uma cerveja sozinha, no bar, está procurando homem. Quanto absurdo, meu Deus!
Pois a mulher moderna está se lixando para os preconceitos: se gosta de tatuagem, usa; se a roupa curta lhe é prazerosa, veste; se gosta de uma boa balada, vai com os amigos, vai só, mas vai; se é solteira ou casada, fala sobre sexo com a maior naturalidade; se gosta de um cara, diz-lhe isso, com toda a graça feminina; pois, para a mulher atual, não existe tabu em relação a nenhum assunto.
É assim que a mulher de hoje vem conquistando seu espaço e sua liberdade. Só lhe falta uma coisinha: os machões aprenderem a respeitá-la e os patrões, a remunerá-la com o mesmo salário que recebem seus colegas para fazerem o mesmo trabalho.
A história da Eva ter seduzido Adão ao lhe oferecer a maçã, no paraíso, após ter sido feita de uma costela dele, precisa ser revista, urgentemente. O que ocorreu ali foi o seguinte: como sem a mulher não existe qualquer ser humano, pois ela é que é cocriadora, com Deus, o Senhor lhe disse:
— Mulher, a partir de hoje, terás um companheiro carnal, pois não é bom que estejas só. Ele ficará encarregado de proteger-te e de prover tudo o que for necessário para a vida do casal e de seus filhos, que serão fruto do amor de ambos. Se um dia o homem bancar o engraçadinho e se meter a te dar ordens, a te oprimir e desrespeitar, logo, farei de ti um ser mais completo que ele.
E foi assim, amiga, que a mulher se tornou, nos dias de hoje, tão ou mais inteligente que o homem, tão ou mais eficiente que ele, nas atividades profissionais e tão capacitada quanto ele no comando do fogão, da geladeira e da vassoura, entre outras atividades caseiras.        
Se teu marido não quiser dividir, contigo, o serviço de casa, após um dia estafante de trabalho fora, para ambos, passa-lhe um sabão.
— Mas, Machado, sendo ele, ainda, mais forte do que eu, não poderia reagir com violência?
— Ai dele, se fizer isso! Lei Maria da Penha nele!

sábado, 15 de março de 2014

COMUNICAR É PRECISO III (Jorge Leite) - Publicado em 15 mar. 2014.
                                “Mestre é aquele que, de repente, aprende.” – Paulo Freire

Diga-me, amigo, quantos desvios da norma padrão você lê na seguinte frase:

Há três anos atrás minha amiga Clara foi ao Rio de Janeiro e nunca mais voltou. Fazem, portanto, alguns anos que não vejo-a, pois fui informado que mudou-se para lá.

Oito? Acertou.

1º) Com o verbo haver não se usa atrás. Portanto: Há três anos minha amiga Clara foi...
2º) Quando se vai definitivamente para um lugar, vai-se para e não a. Desse modo, “minha amiga Clara foi para o - e não ao - Rio de Janeiro”.
3º) E se foi para e não a, foi para ficar, o que explica nunca mais ter voltado; isso torna redundante a segunda parte da primeira frase “e nunca mais voltou”.
4º) O verbo fazer, assim como haver, no sentido de tempo, não se flexiona: “Faz, portanto, alguns anos que não...”.
Outro exemplo, com a flexão de haver: Havia anos que não ia à praia.
5º) O advérbio não, jamais, nunca e outros, de sentido negativo, atraem o pronome: Faz, portanto, anos, que não a vejo...
6º) Do mesmo modo, a “gangue do qu” sempre atrai o pronome. É ela quando, quanto, qual, quem, que e porque. Então, “fui informado de que se mudou para lá.
7º) E o sétimo erro? Se você não reparou, amigo, está corrigido bem acima: “fui informado de que. No sentido da frase em estudo, quem é informado o é sobre ou de algo ou alguma coisa.
Mas você não disse, Jorge Leite, que eram oito erros?
Sim, pois se você não reparou, faltou uma vírgula após o adjunto adverbial que inicia a primeira oração:
8º) Há três anos, minha amiga...

Desse modo, a frase correta é a seguinte: Há três anos, minha amiga Clara foi para o Rio de Janeiro. Faz, portanto, alguns anos que não a vejo, pois fui informado de que se mudou para lá.
Impressionante, não é? Pois é...

Essa frase faz-me lembrar uma piadinha lida há vários anos:
“Conversa do gerente de um escritório com sua secretária belíssima recém-contratada:
— Muito bem, só dois errinhos... Agora vamos à segunda palavra”.

Na próxima semana tem mais. Grande abraço.

Referência
SQUARISI, Dad. Dicas da Dad: português com humor. Brasília: Correio Braziliense, 2001, p. 104.

QUESTÕES VERNÁCULAS (1ª ed.)

ASTOLFO O. DE OLIVEIRA FILHO
aoofilho@oconsolador.com.br
Londrina, Paraná (Brasil)







No uso das palavras adiante relacionadas geralmente se cometem cochilos. A forma correta está indicada entre parênteses:
1.     Menas (o certo é “menos”).
2.     Iorgute (iogurte).
3.     Mortandela (mortadela).
4.     Mendingo (mendigo).
5.     Trabisseiro (travesseiro).
6.     Trezentas gramas (trezentos gramas).
7.     De menor, de maior (diga simplesmente “maior” ou “menor” de idade).
8.     Cardaço (cadarço).
9.     Asterístico (asterisco).
10.  Beneficiente (beneficente).
11.  Meia cansada (meio cansada).

Lembremos também:
1.     Mal é o oposto de bem.
2.     Mau é o oposto de bom.
3.     A casa pode ser geminada (do latim geminare = duplicar) e não germinada.
4.     Cuspir é que é correto, e não gospir.
5.     Basculante, e não vasculhante, é o nome que se segue ao vocábulo janela.
6.     O peixe tem espinha (espinha dorsal) e não espinho, que é próprio das plantas.
7.     Homens dizem “Obrigado”; mulheres dizem “Obrigada”.
8.     O certo é haja vista (que se oferece à vista) e não haja visto.
9.     Faz dois anos que não o vejo, e não "fazem dois anos”.
10.  Algoz se pronuncia “algôz”, e não “algóz”.
11.  Palestrante, e não palestrista, é o nome que se dá a quem faz palestras.


terça-feira, 11 de março de 2014

Em dia com o Machado 94 (jlo)


         Se eu fora contemporâneo de Chico Xavier, certamente levaria mais a sério o Espiritismo.
         Isso não quer dizer que, antes dele, não houvesse outros médiuns extraordinários em nosso “coração do mundo, pátria do Evangelho”, como confirma aqui do meu lado o espírito Humberto de Campos, bem mais sensato do que eu, a quem passo a palavra.
         — É verdade, Machado. Mas, no corpo físico, publiquei dois artigos irônicos sobre os poemas psicografados pelo médium. E disse: “Como cantam os mortos”.
         A ironia custou-me “caro”. Do lado de cá, "recomendaram-me" enviar algumas obras pela psicografia do Chico.
         — Mas sua esposa, Humberto, não processou o médium, dizendo não acreditar que era você o espírito comunicante?
         — É certo, mas quem melhor nos conhece do que nossa mãe? Pois mamãe reconheceu-me como tal, além de Humberto de Campos Filho, que até publicou uma obra intitulada Irmão X, meu Pai.
         — Outra médium destacada, e pouco lembrada, foi Zilda Gama, cidadã da alta classe socioeconômica, que nenhum motivo tinha para enganar ninguém, e também não aceitou remuneração pelas obras recebidas mediunicamente. Psicografou cinco romances belíssimos da lavra, nada mais nada menos, do que do espírito Victor Hugo.
         — O grande poeta e romancista francês, Machado?
         — Ele mesmo.
       Outro que também se admirou, ainda em vida física, da produção literária espírita do Chico foi Monteiro Lobato, no meu entendimento, maior escritor de literatura infantojuvenil de nosso país.
         Disse ele: “Se o homem [Chico Xavier] realmente produziu por conta própria tudo o que vem no Parnaso, então ele pode estar em qualquer Academia, ocupando quantas cadeiras quiser”. Isso quando a única obra psicografada pelo médium mineiro ainda fora Parnaso de Além-Túmulo.
          Depois disso, a obra psicografada pelo Chico resultou noutros 470 livros, segundo a Editora Vinha de Luz. Os gêneros mais comuns são poemas, crônicas, mensagens, romances, documentários, entrevistas, contos para adultos e crianças, cartas consoladoras e, até, humorismo sadio.
          Chico Xavier foi eleito, em 2000, O mineiro do século XX, em concurso realizado pela rede Globo; e, em 2012, foi eleito O maior brasileiro de todos os tempos pelo SBT e BBC. Esse último concurso objetivava eleger a pessoa que mais se destacara em prol da sociedade brasileira[1].
         Por ser por demais cansativo ao amigo leitor, não vou me referir ao estudo científico grafotécnico, feito pelo grafoscopista Perandréa, durante 14 anos, das 400 cartas psicografadas por Chico Xavier, que comprovou a autenticidade das assinaturas dos comunicantes desencarnados[2].
          Também não vou me referir aos milhões de pessoas assistidas e consoladas pelas mensagens do maior médium brasileiro de todos os tempos; não somente por suas centenas de obras, como também por um serviço de assistência social relevante, em Uberaba, que se tornou a maior cidade espírita brasileira.
           É inútil tentar justificar uma luz misteriosa que penetrou o quarto de hospital em que o médium estava hospitalizado, em estado terminal, cuja procedência não foi explicada por técnicos contratados pela TV Globo. Dias depois, o médium, restabelecido teve alta hospitalar. Perguntado sobre o fato, disse terem sido os espíritos Maria João de Deus, sua mãe, e Emmanuel, seu guia espiritual.
       Não falarei, também, dos inúmeros críticos que, desde as primeiras produções mediúnicas psicografadas pelo Chico, diziam que nenhum ser humano seria capaz de imitar com tanta perfeição tantos escritores como ele. A questão não era só o estilo, mas também os conhecimentos, a cultura, as expressões próprias de cada uma das inteligências manifestadas e, por fim, a velocidade espantosa em que cada obra era escrita manualmente no papel.
           Nada direi, por fim, do falecimento do médium, aos 92 anos de idade, de parada cardiorrespiratória, no dia 30 de junho de 2002, quando a seleção brasileira de futebol conquistava o pentacampeonato. Testemunhas idôneas garantem que Chico Xavier falara, várias vezes, que gostaria de desencarnar num dia em que o Brasil estivesse feliz...
       A Polícia Militar mineira calculou em cerca de 120.000 pessoas os que acompanharam o velório e sepultamento do Chico. Algo jamais visto em nosso país.
         — Mas, então, Machado, por que Chico Xavier jamais psicografou qualquer obra sua? Ele não foi capaz de nos trazer de volta Humberto de Campos, Antero de Quental, Cruz e Sousa, Augusto dos Anjos, Castro Alves, Auta de Sousa, Olavo Bilac e tantos outros poetas e escritores renomados? Não publicou Paulo e Estêvão, romance com o relato minucioso dos eventos ocorridos na época do Cristo?
         E por que não Machado de Assis?
         — Meu caro crítico, se com todos esses que você citou o extraordinário médium mineiro já provocou e provoca tanto barulho, imagine o trabalho que não daria aos fanáticos de minha obra irônica e melancólica comparar o homem ao espírito. Você não sabe como é complicado transmitir uma ideia mente a mente.
          Assista a uma aula de literatura ou de um idioma qualquer e já verá, ao final delas o quanto variam os entendimentos.
         Traduza um poema de Edgar Allan Poe e comente sua tradução com ele, para ver se o espírito-poeta citado concorda com sua interpretação...  
         Imite um sabiá cantando e diga à sabiá que é o seu macho quem lhe enviou o canto, para ver se ela crê e vice-versa... Só mesmo do lado de cá é que vemos o quanto é difícil nos fazer entender pelos do lado daí.
         Enfim, leitor amigo, agora que se aproxima o dia 2 de abril, quando ele completará 104 anos de sua reencarnação, fiz minha modesta homenagem ao grande médium mineiro no poema abaixo. O último verso, pedi-lhe para completar, o que ele fez gentilmente.

Ave, Chico!

Enquanto, no Brasil, tudo era festa e encanto,
Luzia, em planos siderais, brilhante estrela:
Era Francisco, com seu jeito humilde e Cândido,
Que deixara seu corpo na terra mineira.

Recebe-o Emmanuel, e a multidão, no canto
De vasta biblioteca e de expressão matreira,
Aplaude o velho Chico ao som de lindo canto:
Era a expressão de amor da pátria derradeira.

De repente, cada um de todos os presentes
Ergue bem alto um livro onde se encontra escrito:
“O bem que fizeste aos pobres fizeste-o ao Cristo”.

— Fizeste germinar as profícuas sementes
Da eterna verdade à luz do Consolador...
— E o que mais tem Jesus para o seu servidor?

Foi então que chorei...





[1] Disponível em: .

[2] Leia o livro A Psicografia à Luz da Grafoscopia desse pesquisador (Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Chico_Xavier. Acesso em 10 mar. 2014).

sábado, 8 de março de 2014

Se eu fosse desenhista

                        À Lourdes, mulher de minha vida,
                               no Dia Internacional da Mulher.

Se eu fosse desenhista,
Se soubesse desenhar,
Eu faria tua foto
Contemplativa ao luar.

Se eu fosse desenhista,
Se soubesse desenhar,
Eu faria teu sorriso
Retratando o belo mar.

Se eu fosse desenhista
Eu queria retratar
O teu corpo deslumbrante
No teu jeito de me amar.

As covinhas do teu rosto
São rubricas divinais
Expressando a caridade
Por tuas mãos maternais.

Eu queria retratar
O teu jeito sem igual
Quando olha para mim
Com teu modo sensual.

Eu queria era pintar
Teu sorriso angelical
Quando sorri para mim
Teu espírito imortal.

E o desenho que fizesse
Só pra mim eu guardaria,
Pois a todos que o quisessem
Eu apenas mostraria.

Jorge Leite

Brasília, 8 de março de 2014.

sexta-feira, 7 de março de 2014


COMUNICAR É PRECISO II (Jorge Leite)

“Ensinar não é ferir; é orientar o próximo, amorosamente, para o reino da compreensão e da paz.” (XAVIER, Chico. Agenda Cristã. Pelo espírito André Luiz.)

            Amigos, nem bem foi criada a página “Vivendo e aprendendo com a língua portuguesa” e já mudamos seu título, agora definitivo para “Comunicar é preciso”. Como o título original foi mudado, mas o objetivo não, estamos agora no comunicado II. Vamos lá.

1. Se a Maria, está um pouco cansada com a palestra do irmão de boa vontade no seu centro espírita e, ao monologar baixinho sobre o fato, disser: “Estou meia cansada de ouvir esse expositor, pois sua palestra está meia longa”. O que você acha, a Maria está errada?

Depende:

a) Se for em relação à apreciação do conteúdo da palestra, ela pode estar com carradas de razão.

b) Se for com relação à forma de seu monólogo, ela está em desacordo com a norma culta. O correto é substituir a palavra meia por meio, pois, nesse caso, esse vocábulo é um advérbio invariável, com o significado de um pouco.

            Assim, a Maria deveria dizer: “Estou meio cansada de ouvir esse expositor, pois sua palestra está meio longa”.
          

            2. Aquele doutor em linguística aplicada escreveu que “O modelo sócio-econômico brasileiro está completamente equivocado”. Ele está certo?

            Também depende:

            a) Como ele não é da área econômica, tanto pode estar certo como errado, conceitualmente falando.

            b) Já em relação à palavra “sócio-econômico” ele está equivocado, pois o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP), editado pela Academia Brasileira de Letras, responsável legal pela ortografia em nosso país, registra apenas as seguintes opções para essa palavra e seus derivados: socieconômico ou socioeconômico.

            Somente a palavra sócio-gerente é registrada assim no VOLP.

           Arrolamos abaixo os principais casos com grafia correta dos compostos com “socio”:

sociobiologia
sociogenia
sociobiológico
sociogênico
sociocracia
sociogeografia
sociocrático
sociogeográfico
sociocultural
sociografia
sociocultural
sociográfico
socioculturalização
sociograma
socioculturalizar
socioinstitucional
sociodrama
sociojurídico
socioeconomia (ou socieconomia)
sociolatria
socioeconômico (ou socieconômico)
sociolátrico
socioeconomismo (ou socieconomismo)
sociolinguista
socioeconomista (ou socieconomista)
sociolinguística
socioeconomístico (ou socieconomístico)
sociolinguístico
sociofamília
sociopolítica
sociofamiliar
sociopolítico
sociofamiliaridade
socioprofissional
sociofilia
sociopsicogenia
sociófilo
sociopsicogênico
sociofobia
sociopsicologia
sociófobo
sociopsicológico
sociogenético
sociopsicólogo

 
Referência

ACADEMIA Brasileira de Letras. Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. 5. ed. São Paulo: Global, 2009.
Até breve!

LEIA, TAMBÉM, QUESTÕES VERNÁCULAS

ASTOLFO O. DE OLIVEIRA FILHO
aoofilho@oconsolador.com.br
Londrina, Paraná (Brasil)
 


 

 
Na semana passada, vimos como a pontuação correta ajuda a clarear o sentido do que escrevemos. Como consequência, a pontuação incorreta ou inexistente concorre para ampliar os casos de ambiguidade ou anfibologia, um vício de linguagem que se dá quando a frase admite mais de uma interpretação, o que pode também ocorrer quando não há cuidado na colocação dos termos da oração.
 
Vejamos este exemplo:
– O menino viu o incêndio do prédio.
 
Duas dúvidas a frase apresenta: 
1ª O menino viu o prédio incendiar-se?
2ª O menino estava no prédio e de lá viu um incêndio?
 
Mais exemplos de ambiguidade:
  • Peguei o menino correndo.
  • Prefeito fala da reunião no Canal 5.
  • Ele prendeu o ladrão em sua casa.
  • O avô viu a avó sentada em sua cadeira.
  • Pedro viu o desmoronamento do barracão.
  • O marido estava na praça quando viu a mulher de binóculos.
  • Se o homem soubesse o valor que tem a mulher andaria de quatro à sua procura.


quarta-feira, 5 de março de 2014


Em dia com o Machado 93 (jlo)

No quieras tener Patria.
No dividas la Tierra.
No dividas el Cielo.
No arranques pedazos al mar.
No quieras tener.
Nace bien alto.
Que las todas las cosas serán tuyas.
Qua alcanzarás todos los horizontes.
Que tu mirada, estando em todas partes
Te ponga em todo,
Como Dios. (Cecília Meireles, in Cânticos, I. Versão.)

            Amigo, there is more to life. Não devemos, pois, nos prender aos acontecimentos de uma fugaz existência, ainda que ela alcance os noventa, cem anos. Ainda que eles sejam péssimos; mesmo que eles sejam estupendos.
            Há pessoas que são julgadas pelo que são no presente; há aquelas que são julgadas pelo seu passado; e há finalmente as que são julgadas pelo que seu futuro promete ou pelo que promete para o futuro. Mas Deus, que nos conhece bem, julga-nos a todos, a todo o instante, seja pelo nosso pretérito, presente ou porvir.
            Sábio foi Jesus, modelo mais completo de humanidade, que nos afirmou não julgar ninguém. Suas palavras, sim, nos julgariam.
            Houve um tempo, em nosso país, cuja palavra de ordem era: “Brasil, ame-o, ou deixe-o”. Faço então a pergunta que não quer calar: E se eu não quiser deixá-lo, ainda que não o ame, quem me obrigará a sair daqui? Afinal, não foi o Cristo que nos recomendou amar nosso inimigo? Posso, também, não amar meu país, mas precisar dele. Posso não amar nem precisar dele, mas me esforçar para servi-lo e transformá-lo no país que todos desejamos, como é o caso de alguns cidadãos utopistas, ainda que estes sejam poucos.
            Ainda mais: E se eu o amar, de todo o meu entendimento, de toda a minha alma e de todo o meu ser, mas precisar deixá-lo, quem me obrigará a ficar aqui? Posso ser apaixonado pelo Brasil, mas precisar prestar um serviço em outra pátria, não menos merecedora do meu afeto e trabalho.
            O leitor deve ter concordado com o julgamento das pessoas pelo seu passado e mesmo pelo seu presente, entretanto ainda deve estar coçando a orelha para entender o julgamento pelo que seu futuro promete ou pelo que promete para o futuro, ou seja, por algo ainda não feito por alguém. Então, pense nas eleições deste ano e entenderá o que significa julgar alguém “pelo futuro”. Na política, isso é perfeitamente possível. Na vida social e profissional também.
            Quer um exemplo, amigo leitor? O partido político dominante no Brasil. Sua cúpula fez uma projeção de vinte anos no poder, o que foi conseguido com base nas estratégias de “lavagem cerebral”, perseguição aos que não comungam de sua cartilha e políticas sociais demagógicas, as quais não investem em educação, saúde, segurança, exportações industriais, tecnológicas, agrícolas e comerciais.  Seu lema parece ser a corrupção e o achincalhe à moral cristã. Pensando nisso, já projetam outros vinte anos com as mesmas promessas falazes, mas então o país estará de tal modo destruído que correrá o risco de ser tomado por outras nações.
            Ao invés de educar a criança e o jovem a evitarem o abuso das paixões, que degradam o ser humano, o Governo recomenda-lhes o uso da camisinha, que distribui a mancheias, não só no carnaval; entrega cartilhas de conteúdos duvidosos sobre comportamento sexual nas escolas; estimula comportamentos desajustados como se fossem normais (e até desejáveis) e, para perpetuar a política do “pão e circo” dos césares, prodigaliza benesses a desocupados, proporciona salários a presidiários acima do que muitos cidadãos honestos recebem, inocenta políticos corruptos de faltas graves, as quais, se cometidas por qualquer outra pessoa desta nação, resultariam em crime inafiançável...
            A violência em relação ao direito de ir e vir das pessoas não ocorre somente durante as perseguições políticas. Ela ocorre no dia a dia de nossas vidas. Mas há outros tipos de violência, como a do cerceamento da liberdade de expressão ou a do “argumento da autoridade”, a qual, quando não sensata, raia pelo autoritarismo e pela ignorância. Exemplifiquemos:
            Há doutores que, embora possuindo alto saber em arquitetura, sem entender patavina de literatura, se metem a criticar os nossos melhores escritores. Se sou doutor em geografia, o que me custa reconhecer minha ignorância em relação à medicina? Se sou historiador, por mais que meu doutorado me leve a ler incontáveis obras a respeito da despenalização do consumo de drogas, que me custa consultar psicólogos, psiquiatras e mesmo os bons delegados,  que convivem, estudam e aplicam, na prática do dia a dia seus conhecimentos no sentido de demonstrar que esse é um caminho quase sempre sem volta, que pode levar o usuário à loucura, ao crime, ou à morte?
            Enfim, se entendi de fato a mensagem de Jesus, meu país é a humanidade, minha terra é a das oportunidades iguais para todos, sem quaisquer distinções ou critérios pessoais. Meu céu é o bem incansável a todas as criaturas. Meu mar é o da liberdade. Meu reino é o celestial.
            É então que os Cânticos I de Cecília Meirelles se tornam atuais, por que... há mais na vida:

Não queiras ter pátria,
Não dividas a terra.
Não dividas o céu.
Não arranques pedaços do mar.
Não queiras ter.
Nasce bem alto.
Que as coisas todas serão tuas.
Que alcançarás todos os horizontes.
Que teu olhar, estando em toda parte,
Te ponha em tudo,
Como Deus.

domingo, 2 de março de 2014

COMUNICAR É PRECISO I (Jorge Leite)

Como poderei entender, se alguém me não ensinar? (Atos, 8:31.)

            Distinto leitor, tenho por lema que “viver é aprender”; por isso, nunca me senti humilhado ou constrangido quando me corrigem algo em meus textos ou em minhas ações. Sabe por quê? Porque sei que, em matéria de comunicação escrita ou falada, todo o mundo erra. Nem mesmo Machado de Assis, considerado por muitos críticos como nosso maior escritor, deixou de cometer seus deslizes linguísticos e gramaticais. Mas não é meu objetivo aqui apontar erros de Machado, em especial, nem de quem quer que seja, como será visto adiante, e sim propor ao leitor, assim como a mim mesmo, aprender um pouco mais sobre a “Última flor do Lácio inculta e bela”, no verso de Olavo Bilac.
            Como diz Édson de Oliveira, Todo o Mundo Tem Dúvida, inclusive você, título de um livro seu. Sacconni tem a pretensão de nos ensinar a não errar mais, em seu livro intitulado Não Erre Mais. Dad Squarisi, além de sua coluna no Correio Braziliense, publicou algumas obras orientadas para o aprendizado do “português com humor” e redações estilísticas, como Dicas da Dad e Manual de Redação e Estilo. Evanildo Bechara ofereceu-nos, em 2009, a 37ª ed. de sua Moderna Gramática Portuguesa. José Carlos de Azeredo publicou sua Gramática Houaiss da Língua Portuguesa. Jedor Pereira Baleeiro nos brindou com Português Prático. A Academia Brasileira de Letras, como órgão normalizador oficial, ofertou-nos o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP)...
            Daqui por diante, não vou mais enumerar todas as dezenas de títulos que nos guiarão nessa proposta de viver e aprender a língua portuguesa. Todavia, sempre que postar algo relacionado ao esclarecimento de minhas próprias dúvidas, neste blog, além dos exemplos criados, indicarei as obras que poderão esclarecer a dúvida do leitor.  
            Começo por alertar a leitora de que meu objetivo é ir apontando, aleatoriamente, a princípio, os inumeráveis casos de erros correntes e curiosidades da língua portuguesa. Fui professor da língua pátria por cerca de 25 anos, 22 dos quais no Centro Universitário de Brasília (UniCEUB), onde lecionei, também, linguística e sociolinguística, disciplinas que me ensinaram algo muito importante: na comunicação, seja ela na linguagem padrão, seja na coloquial ou mesmo popular, o mais importante é comunicar bem.
            Para encerrar, repito o que disse acima: jamais fico melindrado com as correções, sempre bem-vindas, às minhas frases. Portanto, amigo leitor, fique à vontade para corrigir-me, quando for preciso, ou esclarecer suas dúvidas em relação às matérias por mim publicadas.
            Então vamos lá.
            1. Como você cumprimenta, por escrito, em seu e-mail, bilhete ou outro gênero textual, sua amiga ou seu amigo? Bom dia, fulana; Boa tarde, sicrano; Boa noite, beltrano. Certo?
            Errado. O certo é Bom-dia, fulana; Boa-tarde, sicrano; Boa-noite, beltrano. Sempre há hífen nessas palavras compostas.
            2. Chegou o fim do ano, e você enviou um cartão de boas festas ou de feliz ano novo à sua namorada ou amigo, certo?
            Errado. O certo é escrever boas-festas e ano-novo com hífen.
            Mas a intenção foi pra lá de boa. Você conhece algum cartão com essas palavras escritas assim? Nem eu sabia dessa, aprendi há pouco.
            3. Você tem lido sobre a boa nova de Jesus? Dizem os linguistas que o uso consagra a norma, mas até o momento o VOLP, contra todos os argumentos e registros, só aceita a palavra composta boa-nova, assim mesmo, com hífen.
            Desse modo, até que os linguistas responsáveis pela ortografia em nosso país aceitem que o uso consagrou o composto sem o hífen, deve-se escrever boa-nova. Nesse caso, o que lemos trata sobre a boa-nova de Jesus, que pode ser destacada como Boa-Nova.
            Com a palavra os linguistas, em especial a equipe responsável pela elaboração do Vocabulário ortográfico da língua portuguesa.

   Por hoje é só. Gostaram?

 Referências

ACADEMIA Brasileira de Letras. Vocabulário ortográfico da língua portuguesa. 5. ed. São Paulo: Global, 2009.
OLIVEIRA, Édson. Todo o mundo tem dúvida, inclusive você. São Paulo: L&PM Editores, 2011.



  Rumo à perfeição   Em nossa luta contra o mal em nós, O mal que não queremos sobreleva Por nossa imersão em densa treva Desde o tempo de n...