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segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Em dia com o Machado 118 (jlo)

            A questão da autoestima do ser humano merece uma nota deste caramujo que gosta dos teatros, bailes dos clubes e salões, da nobre sociedade do Paço Imperial, de uns dedos de prosa ou poesia e de dança.
Os 49 anos do Segundo Reinado (1840 a 1889) abarcam os meus 50 junhos, pois, embora a República date de 15 de novembro de 1889, eu nasci em 21 de junho de 1839 e, portanto, já completara 50 anos. Mas para não confundir a leitora e o leitor com datas, explico-lhes que, até o meu desenlace físico, em 29 de setembro de 1908, para mim, todos os acontecimentos e enredos transcorriam, predominantemente no tempo do Paço, do Passeio Público, do Teatro, da praia do Flamengo e da Rua do Ouvidor como centros da agitada urbe carioca.
Era tempo de festas. Uma das mais tradicionais foi a festa da Glória, no Palácio Meriti, do marquês de Abrantes. Daí, talvez, a expressão “Está tudo como dantes no quartel de Abrantes”. Trocaram o palácio pelo quartel... Qual!
A Penha do meu tempo, amável leitora, estava no auge de sua fama. Em suas festas de outubro, seus lindos fogos de artifício eram apreciados dos quatro costados do Rio de Janeiro. Tanto é assim que, numa de minhas crônicas comentei: “Esta festa da Glória é a Penha elegante do vestido escorrido, da comenda do claque; a Penha é a Glória da rosca no chapéu, garrafão ao lado, ramo verde na carruagem e turca no cérebro”.
E o que se fazia mesmo, nos salões cariocas era dançar. Havia verdadeira febre de bailes e festas, religiosas/profanas, na primeira metade do Segundo Império. Em 1864, afirmei, em crônica, que o “teatro entrou propriamente no salão com pequenos provérbios e charadas. A comédia foi-lhes no encalço. A ópera vai entrando”.
Ah! você duvida que eu seja um saudosista do tempo da Monarquia? Então veja as datas de meus três últimos romances. A primeira é a do início das narrativas, a segunda a do ano de sua publicação. Vejamos Dom Casmurro. Narrativa dos fatos iniciados em novembro de 1857, no auge do II Reinado, e livro editado em 1900. Agora Esaú e Jacó. Início dos acontecimentos narrados: 1871, e livro editado em 1904. Por fim, Memorial de Aires. Memórias datadas de 9 de janeiro de 1888 a 30 de agosto de 1889. Livro publicado somente em 1908, ano do meu retorno à vida eterna.
E quando foi mesmo proclamada a República? Em 15 de novembro de 1889, repito. Ou seja, sendo homem do meu tempo, esse tempo não é o do novo regime, e, sim, o do mais democrático regime que houve em nosso país, o do período em que governava o Brasil um homem extremamente culto, tolerante, bom e amigo do povo: Dom Pedro II. Por isso fiz questão de só situar minhas narrativas nesse tempo mágico, até o dia em que minha alma subiu ao encontro da de Carolina e outras almas amigas.
Em meu tempo, as pessoas de cor, como eu e o André Rebouças eram tratadas com muita dignidade, quando se destacavam profissionalmente ou no meio artístico. Cito apenas dois casos:
No dia 4 de março de 1867, Rebouças (engenheiro negro) narra sua felicidade em ter dançado, em sarau dançante orquestrado e com cerca de cem convidados, com madame Taunay, com a viscondessa de Lajes e sua sobrinha. Por fim, completa ele, “o conde d’Eu convidou-me a dançar a segunda quadrilha de lanceiros com a Princesa Isabel”. Qual! Quanta vaidade!
É verdade que nem sempre o renomado engenheiro tivera a mesma sorte. Em geral, quando convidava uma delicada e alva jovem da aristocracia para dançar, a desculpa era sempre a de que ela já tinha par. Uma noite, penalizada dele, a própria princesa Isabel dançou com ele uma quadrilha. Dizem também que a iniciativa da dança com a princesa fora do conde d’Eu, que convidou Rebouças dizendo-lhe que a princesa ficaria honrada em tê-lo como par.
Quanto reconhecimento! Mas pudera! O negro fora o mais renomado engenheiro daquele tempo. Tanto é assim que, até hoje, no Rio, há um túnel chamado Rebouças, em sua homenagem. Sem contar outras homenagens...
São coisas assim que me fazem tão saudoso da Monarquia. Volta, Imperador! Volta, Princesa! Vem viver novamente ao meu lado.
Brindamos, pois, a leitora com esta bela canção, de Lupicínio Rodrigues, grande compositor e cantor de minha nobre estirpe:
Volta
Quantas noites não durmo
A rolar-me na cama
A sentir tantas coisas
Que a gente não pode explicar quando ama

O calor das cobertas
Não me aquece direito
Não há nada no mundo
Que possa afastar esse frio em meu peito

Volta 
Vem viver outra vez ao meu lado
Não consigo dormir sem teu braço
Pois meu corpo está acostumado.

sábado, 16 de agosto de 2014


Em dia com o Machado 117 (jlo)

 
         Volta à ordem do dia a questão capital. Veja leitora amiga que já em 22 de janeiro de 1893 este articulista abordara o assunto.
         Houve tempo no qual não se falava de outra cousa a não ser a mudança da capital federal para nova cidade. A ideia era a de não ser a nova cidade um prolongamento da Rua do Ouvidor.
Já se dizia do sonho visionário de Dom Bosco e se previra, na constituição, um espaço na região central do país. A ideia legislativa, entretanto, era Teresópolis, mas Vassouras não queria ficar atrás (Vai, vassouras!...).
Outras candidatas eram Petrópolis e Nova Friburgo. Niterói, ex-capital do Rio, nada reivindicava... Mas além-fronteira, havia Minas Gerais e sua Ouro Preto, que acabou cedendo a vez a Belo Horizonte como capital... mineira.
O certo é que a vida, sendo tão curta e a morte tão certa, acabei morrendo sem ver a nova capital ser transferida para o Centro-Oeste. O Rio de Janeiro continuou com seu Cristo Redentor, o Corcovado, as praias de Copacabana, Ipanema, Prainha, Grumari e outras sete praias maravilhosas. Além, é claro, dos teatros, do Passeio Público, da Rua do Ouvidor...

*

Agora, sim, temos uma cidade ampla, espaçosa, com largas avenidas e residências destinadas às famílias das mais variadas classes sociais. Todas as ocupações profissionais, aqui, são valorizadas e bem remuneradas.
O investimento em educação e a valorização do professorado, nesta cidade, é algo invejável; parece cousa de primeiro mundo...
O trânsito é absolutamente seguro, pois, embora não sejam vistos, os agentes rodoviários e policiais estão prontos para agir em casos de acidentes, roubos e assaltos. Qualquer ocorrência nas vias públicas é imediatamente atendida por duas ou três viaturas policiais e agentes bem preparados...
Há amplos mercados, diversos shopping centers, bares e restaurantes noturnos, amplamente frequentados. Córregos, parques e pistas para caminhadas ou corridas ladeiam os condomínios com facilidade de acessos laterais, suficientemente afastados, cujas entradas são guardadas por seguranças atentos, providos de amplos recursos para acionar imediatamente as forças policiais, caso haja necessidade...
Quase não se vê policiais nas ruas... fardados; mas se alguém tentar bancar o engraçadinho com uma jovem ou senhora, se outrem ousa bater a carteira de um cidadão incauto, se pugilistas resolvem fazer dos locais públicos rings, imediatamente aparecem de todas as partes, como num passe de mágica, dezenas de agentes da segurança, à paisana e até mesmo fardados, para dar voz de prisão ao fora da lei desavisado.
A honestidade e a disciplina aqui caminham de mãos dadas. Caso a amiga leitora ou o caro leitor necessitem trocar um produto em qualquer loja da cidade, basta-lhes entregar o produto na recepção, escolher o novo produto e acertar a diferença na saída do estabelecimento.
As pessoas idosas são tratadas com respeito e dispõem de vantagens especiais, como a do desconto de 40% na compra de um imóvel para sua moradia.  Prioridades, somente para deficientes físicos ou enfermos...
A qualquer hora do dia ou da noite, você pode passear tranquilo nas ruas, pedalar sua bicicleta, frequentar o teatro ou o parque de diversões sem medo de ser assaltado. Aqui, a cidadania é respeitada e as infrações à lei são rigorosamente punidas.
— Mas e se os agentes policiais abusarem de sua autoridade? Será que tanto poder não leva à sensação de impunidade? Pergunta-me o curioso leitor.
— De jeito nenhum. O policial ou qualquer outra autoridade que se comportar inadequadamente é submetido de imediato a um conselho de justiça e, além de ser afastado de suas funções, é rigorosamente punido, sem subterfúgios de recursos protelatórios aos julgamentos. E ai do político que sair da linha... Prison for him!
— Mas Machado, você tem certeza de que está falando de Brasília?
— Claro que não, amiga leitora; refiro-me a um dos 50 estados mais pobres dos Estados Unidos da América do Norte, a Flórida.
         Sobre a capital do Brasil falaremos outro dia. All right now!

terça-feira, 5 de agosto de 2014


Em dia com o Machado 116 (jlo)
Mui cara leitora e estimado leitor, vocês não têm ideia de onde estive, após ter despertado do ilusório "sono eterno" há algumas décadas. Pois não se espantem, passei, certa noite, pelo lar de Chico Xavier, em Uberaba, MG.
E o que vi ali que tanto me impressionou? Havia uma sala simples, com cerca de trinta cadeiras e, ao redor de uma mesa retangular, de cerca de quatro metros de comprimento por um metro de largura, estavam treze pessoas reunidas. Uma delas era Chico, que se sentara à cabeceira da mesa, à frente duma parede branca, com uma estreita porta, à sua esquerda, a qual dava para um quartinho, nos fundos. Sobre uma mesinha desse quarto, além de moringa com água e de copos plásticos, estava um caderno para anotações de pedidos de preces em benefício de encarnados e desencarnados...
Para minha felicidade, eu adentrara, pela vez primeira, a casa do médium mineiro em pleno culto do evangelho. Eram exatamente 20 horas do dia 21 de junho de... Presente de aniversário que ganhei de Carola.
Após a prece inicial do Chico, seu filho adotivo, Eurípedes, abriu uma página do Evangelho segundo o Espiritismo e pediu às demais pessoas sentadas à mesa para comentar cada parágrafo dessa obra magistral. Nesse mesmo instante, vi um senhor alto, vestido à la romana, toga branca dos senadores da época de Nero, que após cumprimentar-me gentilmente e se apresentar como Emmanuel, dirigiu-se ao médium Xavier, o qual, munido de várias folhas em branco e não menos de vários lápis, passou a escrever, celeremente, sob a influência daquele Espírito de altíssima elevação.
A luz irradiada por Emmanuel era tão intensa que, embora a sala estivesse, até então, em penumbra, foi tomada de tal claridade que cheguei a imaginar a plena noite de Lua cheia tornar-se Sol do meio dia.
Ao final dos comentários dos integrantes da mesa, Chico já havia psicografado belíssima mensagem para nossa reflexão intitulada "Tolerância e perdão". O mais surpreendente é que tudo que fora escrito pelo médium representava fielmente as palavras de Emmanuel dirigidas a mim, que lhe fazia algumas perguntas a respeito do tema lido e comentado pelos doze participantes da mesa: Amai os vossos inimigos, cap. XII do citado Evangelho.
Embora alguma implicância do crítico literário Sílvio Romero, que tomou uma crítica nossa às suas primeiras produções literárias, como ataque pessoal, nunca tive inimigos em minha última reencarnação. Tanto é assim que a mim não me importaram muito seus comentários irônicos sobre minha literatura de "estilo gago", no seu entendimento venenoso.
À época, não faltou quem me defendesse dos apodos gratuitos do doutor Romero.
Então, pedi orientação a Emmanuel sobre como reparar as nossas ofensas, muitas vezes irrefletidas, às pessoas. E ele respondeu-me que devemos emitir vibrações mentais equilibradas em benefício de tais pessoas, buscando lembrar os favores, as gentilezas que elas porventura hajam nos proporcionado. Acrescentou, também, que devemos nos abster de qualquer referência negativa sobre o ofendido e, para reconquistar sua simpatia, ser amáveis com seus familiares e amigos.
— Mas isso não seria bajulação, meu caro Emmanuel? – perguntei-lhe.
— Não, Machado, é preciso envolver a pessoa a quem desejamos reconquistar ou cativar a simpatia com o nosso maior respeito. Todavia, nossas palavras de paz devem emergir do nosso interior, reconhecendo que a inimizade e o antagonismo, mesmo que pareçam justos, precisam ser erradicados de nossas almas.
Então, perguntei-lhe:
— E se o erro ou a agressão foram dirigidos a nós?
— É preciso consultar a própria consciência, sem autocomiseração, para que descubramos ter sido os próprios causadores da agressividade alheia. Somente assim estaremos libertos do mal.
Para finalizar, o elevado Espírito que já está entre vós, com a idade atual de quatorze anos, e renasceu em São Paulo, brindou-nos à época com esta frase magistral, registrada pelo lápis do médium mineiro e que lhes passo em primeira mão, amados leitores: 
Existem companheiros e companheiras que terão sofrido golpes tão grandes que se acreditam incapazes de qualquer iniciativa para a pacificação com as criaturas que se fizeram instrumentos da amargura que lhes marcam os dias. Entretanto, lembremo-nos de que o brilhante atirado à lama, não deixará de ser brilhante, porque esteja nessa penosa e transitória condição. E, pensando nisso, entenderemos que Deus tem recursos para retirar essa preciosidade do lixo humano, fazendo-a brilhar de novo ao domínio da luz. 
                   Agradeci a Emmanuel tão belos ensinamentos, abracei-o, junto com Chico Xavier, inspirei uma prece a Eurípedes, em benefício de todos os encarnados e desencarnados, presentes e necessitados, e saí dali volitando, direto para a nave espacial que me aguardava. Entrei na nave e parti ao encontro de Carolina, que, sob um pseudônimo qualquer, retornava de um trabalho mediúnico voltado à inspiração da mineira Carolina Maria de Jesus, futuramente famosa por sua obra literária produzida enquanto catava lixo próximo à favela onde morava: Quarto de despejo.
                Leitora amiga, amigo leitor, o certo é que, ya lo creo!
                Ai nostri monti ritorneremo (De volta às nossas montanhas. AS).

           

quarta-feira, 30 de julho de 2014


Em dia com o Machado 115 (jlo)

 

            Amigo leitor e bela leitora, houve um tempo em que recomendei aos jovens para não serem tão açodados na elaboração de seus textos. Lembrei-me agora de ter lido uma frase do Senhor Allan Kardec sobre a formação intelecto-moral de um sábio. Dizia ele que, para se produzir um médico medíocre, são necessários alguns anos de estudos compenetrados, mas para se formar um sábio é preciso dedicar três quartas partes da existência. E isso não somente no aprendizado teórico, como também no aspecto prático (O livro dos espíritos, introd., item XIII).

            Logicamente, o mestre lionês não se referia a uma curta existência e, sim, a alguém que tenha alcançado ao menos meio século de vida na matéria. Fazendo-se as contas, o sábio necessitaria de 37,5 anos de estudos aplicados se só vivesse 50 anos.

            Alhures, afirmou José de Alencar que "A mocidade é uma sublime impaciência. Diante dela, a vida se dilata, e parece-lhe que não tem para vivê-la mais que um instante. Põe os lábios na taça da vida, cheia a transbordar de amor, de poesia, de glória, e quisera estancá-la de um sorvo".[1] Porém, em seguida, acrescentou Alencar que "A sobriedade vem com os anos; é virtude do talento viril. Mais entrado na vida, o homem aprende a poupar sua alma".[2]

            Quero relembrar-lhes, leitores, minhas considerações sobre a pureza da linguagem. Está na crônica intitulada A língua[3]. O problema é muito sério, em especial para os críticos e revisores textuais.

            Suponhamos que uma obra para revisão e avaliação crítica tivesse duzentas páginas, e cada página tivesse 30 linhas, e cada linha, setenta toques e doze palavras em média. Calculei, a grosso modo, 420.000 toques e 72.000 palavras por obra. Toots, toots, and words, words... 

            Por aí se vê a dureza do trabalho do crítico, que também deve ser a do revisor. Além das ideias, ele igualmente precisa estar atento à forma. E ai do revisor que, nesses mais de quatrocentos mil toques, deixar passar erros em apenas 0,001% deles... O crítico tem de ir além disso; precisa ver, naquelas 72.000 palavras, se elas não se repetem muito, em cada frase, se a sua morfossintaxe está correta e, sobretudo, se expressam, com objetividade e singeleza um pensamento criativo, uma alma sensível, um senso de humor elevado, uma originalidade...

            Há algum tempo, meu secretário estava revisando uma obra tão mal digitada que se deparou, logo de início, com o seguinte verso de um poema: "Triste vi meti pai morrendo na bigorna". Sem entender nada, conferiu com o texto da obra original, cujo verso correto era o seguinte: "Triste, vendo meu pai morrendo na bigorna". Era o relato de um filho sobre a contemplação de sua mãe diante da morte do esposo em acidente de trabalho em sua oficina mecânica.

            Se até para copiar os outros, nossos jovens têm dificuldade, quanto mais grave é o que eles mesmos escrevem, de modo precipitado, como se estivessem disputando uma corrida a cujo vencedor fossem concedidas as láureas de campeão, embora o percurso percorrido por este fosse bem mais curto do que o dos seus demais concorrentes. No domínio linguístico, isso é improvável e mesmo impossível. Não basta a inteligência, é preciso o esforço persistente, para se obter sucesso nas lides literárias, como em tudo na vida.

            O Espírito Thomas Édson acaba de me pedir para lembrar-lhe, amiga leitora, sua frase memorável: "O gênio se faz com 99% de transpiração e 1% de inspiração.

            A não ser na psicografia...

            De tout mon coeur.




[1] AZEVEDO, Sílvia Maria; DUSILEK, Adriana; CALLIPO, Daniela Mantarro. Orgs. Machado de Assis: crítica literária e textos diversos. São Paulo: Unesp, 2013, p. 335.
[2] Idem, ibidem.
[3] ASSIS, Machado. O Novo Mundo, vol. III, nº 30, 24 mar. 1873. In: AZEVEDO; DISILEK; CALLIPO, op. cit., p. 441.

quarta-feira, 23 de julho de 2014


Em dia com o Machado 114 (jlo)

Tenho aqui à minha frente nada mais nada menos que Augusto dos Anjos, a quem pedi uma entrevista exclusiva.
— Boa-noite, Augusto! Como te defines e de onde vens?
— Boa-noite, Bruxo!

Sou uma Sombra! Venho de outras eras,
Do cosmopolitismo das moneras...
Pólipo de recônditas reentrâncias,
Larva de caos telúrico, procedo
Da escuridão do cósmico segredo,
Da substância de todas as substâncias!
(In: ANJOS, Augusto. Eu e outras poesias.
Poema: Monólogo de uma sombra). 

— Acreditaste na sobrevivência do Espírito um dia?
— Como não crer se 

Morri! E a Terra - a mãe comum - o brilho
Destes meus olhos apagou!... Assim
Tântalo, aos reais convivas, num festim,
Serviu as carnes do seu próprio filho!
[...]
Hoje que apenas sou matéria e entulho
Tenho consciência de que nada sou!
(In: ANJOS, Augusto. Eu e outras poesias.
Poema: Vozes de um túmulo). 

— Como se pode ter consciência de que nada se é?
— Isso dizia eu da carne putrescível; / retornando, porém, para esta dimensão, / voltando para o plano etéreo onde ora estamos, / continuei com consciência indestrutível (jlo).
— Ah, sim, nada somos como “matéria e entulho”, pois não somos um corpo carnal que tem uma alma e, sim, uma alma que vive, temporariamente, num corpo físico, certo? E o que mais a consciência lhe mostrou?
— Mostrou-me ela que

Há, sim, a inconsciência prodigiosa
Que guarda pequeninas ocorrências
De todas as vividas existências
Do Espírito que sofre, luta e goza. 

Ela é a registradora misteriosa
Do subjetivismo das essências,
Consciência de todas as consciências,
Fora de toda a sensação nervosa. 

Câmara da memória independente,
Arquiva tudo rigorosamente
Sem massas cerebrais organizadas, 

Que o neurônio oblitera por momentos,
Mas que é o conjunto dos conhecimentos
Das nossas vidas estratificadas.
(In: XAVIER, F. C. Parnaso de além-túmulo.
Soneto: A subconsciência) 

— Que recado gostarias de dar ao amigo leitor?
— Quando estive no ergástulo da carne, afirmei peremptório com escárnio: 

A Esperança não murcha, ela não cansa,
Também como ela não sucumbe a Crença,
Vão-se sonhos nas asas da Descrença,
Voltam sonhos nas asas da Esperança. 

Muita gente infeliz assim não pensa;
No entanto o mundo é uma ilusão completa,
E não é a Esperança por sentença
Este laço que ao mundo nos manieta? 

Mocidade, portanto, ergue o teu grito,
Sirva-te a Crença do fanal bendito,
Salve-te a glória no futuro — avança! 

E eu, que vivo atrelado ao desalento,
Também espero o fim do meu tormento,
Na voz da Morte a me bradar: descansa!
(In: ANJOS, Augusto. Eu e outras poesias.
Soneto: A esperança). 

— Agora que a esperança se tornou certeza, tens algo mais a declarar?
— Concluo tua pergunta inicial com novos versos deste plano astral: 

Donde venho? Das eras remotíssimas,
Das substâncias elementaríssimas,
Emergindo das cósmicas matérias.
Venho dos invisíveis protozoários,
Da confusão dos seres embrionários,
Das células primevas, das bactérias. 

Venho da fonte eterna das origens,
No turbilhão de todas as vertigens,
Em mil transmutações, fundas e enormes;
Do silêncio da mônada invisível,
Do tetro e fundo abismo, negro e horrível,
Vitalizando corpos multiformes. 

Sei que evolvi e sei que sou oriundo
Do trabalho telúrico do mundo,
Da Terra no vultoso e imenso abdômen;
Sofri, desde as intensas torpitudes
Das larvas microscópicas e rudes,
À infinita desgraça de ser homem.
[...] 
E apesar da teoria mais abstrusa
Dessa ciência inicial, confusa,
A que se acolhem míseros ateus,
Caminharás lutando além da cova,
Para a Vida que eterna se renova,
Buscando as perfeições do Amor em Deus.
(In: XAVIER, F. C. Parnaso de além-túmulo.
Poema: Vozes de uma sombra.)

           

terça-feira, 15 de julho de 2014


Em dia com o Machado 113 (jlo)

 
— Meu caro Joteli, se não fosses tão esquecido, ter-te-ias lembrado, como a mim me lembra, de que o poema postado na revista Reformador, de 2009, não é um soneto e sim um poema com quatro estrofes de seis versos, que terminam com o refrão "É preciso coerência". Releia-o, por favor. E brinda também teus leitores com um dos teus mais metafísicos poemas.

— É verdade, amigo Bruxo do Cosme Velho. Redimir-me-ei, então, com meus leitores, e o transcreverei abaixo:

 
É preciso coerência

Ao contemplar a vastidão do espaço,
Em bela noite, um sábio refletia:
De que me vale toda esta ciência,
Se o mais das vezes, falo o que não faço?
Então ouviu a voz que lhe dizia:
É preciso coerência...

 
E disse ao vento com estardalhaço:
De que me vale, ó Deus, tanta teoria?
E ouviu de novo a voz, que bem sabia
Provir de sua própria consciência,
Que, novamente, a sós, lhe repetia:
É preciso coerência...

 
Eu bem sei disso, mas o que queria
Para, envolvendo todos num abraço,
Poder lhes alertar sobre o que via,
É ter, como Jesus, a presciência.
Mas a voz, implacável, insistia:
É preciso coerência...

 
Então compreendeu o que não via:
Ninguém alcança a luz sem persistência.
Tão bem como saber, Jesus fazia
E nisso estava toda a sua Ciência,
Pois, para alguém segui-lo, passo a passo,
É preciso coerência.

 — Exatamente assim, meu caro Joteli... Agora é com vós, amiga leitora e leitor amigo:
 
Sabeis o que é poesia?
É difícil explicá-la: é um sentir sem definição; é uma palavra que o anjo das harmonias segreda no mais íntimo d'alma, no mais fundo do coração, no mais recôndito do   pensamento. A alma, e o coração, e o pensamento compreendem essa palavra, compreendem a linguagem em que lhe foi revelada — mas não a podem dizer nem exprimir[i].
 
— Só não entendi uma coisa, Machado, por que você resolveu escrever sua crônica sobre um texto poético deste aprendiz de poeta tão simplório?

— Ora, Joteli, fui eu quem to inspirou; não percebeste? "É comum aos discípulos tirarem aos mestres o mau de envolta com o bom, como ouro que se extrai de envolta com a terra"[ii].  Fui tão coerente em minha última encarnação na Terra, que recusei a extrema-unção proposta por um padre no momento em que eu expirava...

— Mas você não foi criado na Igreja Católica, tendo sido coroinha? Não conhecia a Bíblia como poucos? Não frequentou inúmeras missas? Não foi amigo de bondosos padres e bispos, que homenageou em suas crônicas?

— Também poderias inculcar-me espírita, embora conheças algumas crônicas, especialmente escritas em minha mocidade, nas quais ataquei a nova Doutrina. Um dos meus melhores romances é Memórias póstumas de Brás Cubas e, se leres atentamente todos os meus livros que se seguiram a este, verás a presença de personagens e fenômenos espíritas que prestavam minha reverência e respeito ao Espiritismo como ciência, filosofia e religião definitivas.

— Então, Machado, em seus últimos dias de vida física na Terra...

— Afastei-me da igreja, dos maus religiosos, mas a terra me foi leve: mantive a minha convicção de que reencontrar-me-ia não somente com Carolina[iii], como de fato reencontrei, mas também com todos os bons amigos de nossa extensa família espiritual.

— Então, até breve, meu bom amigo...

— Adeus, Joteli. Vejo-te nesta outra dimensão... Se mereceres...

 



[i] AZEVEDO, Sílvia Maria;  DUSILEK, Adriana; CALLIPO, Daniela Mantarro (Orgs.). Machado de Assis: crítica literária e textos diversos. São Paulo: Unesp, 2013, p. 53.
 
[ii] _____; _____; _____ (Orgs.). _____. São Paulo: Unesp, 2013, p. 98.
 
[iii]  ASSIS, Machado de. Machado de Assis: obra completa. Rio de Janeiro: Cia. José Aguilar Editora, 1973, vol. 3, p. 1070- 1071.


 

  Rumo à perfeição   Em nossa luta contra o mal em nós, O mal que não queremos sobreleva Por nossa imersão em densa treva Desde o tempo de n...