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sexta-feira, 5 de novembro de 2021

 

Cantinho da Poesia

Dia da Cultura

Por: Jorge Leite de Oliveira (Jó)

 


Hoje é o Dia da Cultura,
e se tornou imortal
a Fernanda Montenegro,
uma atriz fenomenal.
 
Mas cultura o que é mesmo?
É tudo o que um povo faz
e aquilo que ele prega:
desde um quadro a um bom torresmo...
 
Cultura é tradição
e também comportamento.
É conservação da língua
e amor ao conhecimento.
 
Cultura é aquilo que somos
e o que nós também fazemos,
tanto num brilho de ateu,
como na luz dos que cremos.
 
Cultura é filosofia,
é ciência, é teoria,
é o cultivo de hortaliças,
é crença e sabedoria.
 
Mas a ciência é mutante,
e alguns saberes humanos
um dia não passarão
de tolos, pueris enganos.
 
Não pense, então, em mudar
a cultura de ninguém,
pois todo saber reside
em se visar sempre o bem.
 
Sendo manifestação
de toda e qualquer criatura,
o amor é sua expansão.
Então, um viva à cultura!
 
Brasília, DF, 05 de novembro de 2021 (Dia da Cultura)

quinta-feira, 4 de novembro de 2021

 


16.8.6 Desprendimento dos bens terrenos

Lacordaire

Constantine, Argélia, 1863

 

Venho, meus irmãos, meus amigos, trazer-lhes meu óbolo, para ajudá-los a marchar corajosamente na vida de aperfeiçoamento em que entraram. Somos devedores uns dos outros. É somente por uma união sincera e fraternal entre Espíritos e encarnados que a regeneração será possível.

Seu amor aos bens terrenos é um dos mais fortes entraves ao seu adiantamento moral e espiritual. Devido a esse apego às posses, vocês destroem suas faculdades de amar, voltando-as inteiramente às coisas materiais. Sejam sinceros: a riqueza proporciona uma felicidade sem mistura? Quando seus cofres estão cheios, não há sempre um vazio em seus corações? No fundo dessa cesta de flores, não há sempre um réptil escondido?

Compreendo que um homem que conquistou uma fortuna, por um trabalho assíduo e honrado, experimente por isso uma satisfação muito justa. Mas dessa satisfação, muito natural e que Deus aprova, a um apego que absorve todos os outros sentimentos e paralisa os impulsos do coração, há uma distância, tão grande quanto a que separa a sórdida avareza à prodigalidade exagerada, dois vícios entre os quais Deus colocou a caridade, santa e salutar virtude, que ensina o rico a dar sem ostentação, para que o pobre receba sem humilhação.

Que a fortuna provenha de sua família, ou que a tenham ganho pelo seu trabalho, há uma coisa que vocês jamais devem esquecer: é que tudo vem de Deus, tudo retorna a Deus. Nada lhes pertence na Terra, nem sequer seu pobre corpo: a morte os despoja dele, como de todos os bens materiais. Vocês são depositários e não proprietários. Não se enganem sobre isso. Deus lhes emprestou e vocês terão que lhe restituir, mas ele lhes empresta sob a condição de que, pelo menos o supérfluo, reverta para aqueles que não possuem o necessário.

Um dos seus amigos lhes empresta uma soma. Por menos honesto que vocês sejam, terão o escrúpulo de pagá-la, e lhe ficarão agradecidos. Pois bem: eis a posição de todo homem rico! Deus é o amigo celeste que lhes emprestou a riqueza, ele não pede para si mais do que o amor e o reconhecimento, mas exige, por sua vez, que o rico dê aos pobres, que são também seus filhos, tanto quanto o rico.

O bem que Deus lhes confiou excita em seus corações uma ardente e desvairada cobiça. Vocês já refletiram, quando se apegam loucamente a uma fortuna perecível, e tão passageira como vocês mesmos, que um dia terão de prestar contas ao Senhor daquilo que veio dele? Esquecem que, pela riqueza, foram investidos na sagrada condição de ministros da caridade na Terra, para serem seus dispensadores inteligentes? Que serão, pois, quando usam somente em seu proveito o que lhes foi confiado, senão depositários infiéis? Que resulta desse esquecimento voluntário dos seus deveres? A morte inflexível, inexorável, virá rasgar o véu sob o qual se escondem, forçando-os a prestar contas ao amigo que os favoreceu, e que nesse momento se reveste para vocês da toga de juiz.

É em vão que na Terra vocês procurem iludir-se, colorindo com o nome de virtude o que muitas vezes nada mais é que egoísmo. Que chamem economia e previdência aquilo que é simples cupidez e avareza, ou generosidade o que não passa de prodigalidade em seu proveito. Um pai de família, por exemplo, abstendo-se de fazer a caridade, economizará, amontoará ouro sobre ouro, e tudo isso, diz ele, para deixar a seus filhos o máximo de bens possível, evitando-lhes a queda na miséria. É bastante justo e bem paternal, convenhamos, e não se pode censurá-lo. Mas será sempre esse o único objetivo que o guia? Não é antes, e o mais das vezes, uma desculpa para a própria consciência, a fim de justificar a seus próprios olhos e aos olhos do mundo seu apego pessoal aos bens terrenos? Entretanto, admito que o amor paterno seja o seu único móvel. Será esse um motivo para fazê-lo esquecer dos seus irmãos perante Deus? Quando esse pai mesmo já vive no supérfluo, deixará os seus filhos na miséria por legar-lhes um pouco menos desse supérfluo? Não lhes estará dando uma lição de egoísmo, e lhes endurecendo os corações? Não será sufocar neles o amor do próximo?

Pais e mães, vocês estão num grande erro, se acreditam que com isso aumentam o afeto de seus filhos por vocês. Ensinando-os a ser egoístas para com os outros, ensinam-lhes a ser egoístas para com vocês mesmos.

Quando um homem trabalhou bastante, e com o suor do seu rosto acumulou bens, costuma-se dizer que a dinheiro ganho melhor se reconhece o valor: nada é mais verdadeiro. Pois bem: que esse homem, confessando conhecer todo o valor do dinheiro, faça a caridade segundo as suas posses, e terá mais mérito do que outro que, nascido na abundância, ignora as rudes fadigas do trabalho. Mas ao contrário, se esse homem que recorda suas penas, seus esforços, se fizer egoísta, duro para com os pobres, será muito mais culpado que o outro. Porque, quanto mais se conhece por si mesmo as dores ocultas da miséria, maior será o dever de aliviá-la nos outros.

Infelizmente sempre há no homem que possui fortuna um sentimento tão forte quanto  o apego a ela: é o orgulho. Não é raro ver-se o novo rico atordoar o infeliz que lhe implora assistência, com a narrativa de seus trabalhos e de suas habilidades, em vez de ajudá-lo, e terminar por dizer-lhe: "Faça como eu fiz!" Segundo ele, a bondade de Deus não influiu em nada na sua fortuna; a ele somente cabe todo o mérito. Seu orgulho põe-lhe uma venda nos olhos e tapa seus ouvidos. Não compreende que, com toda a sua inteligência e sua capacidade, Deus pode derrubá-lo com uma só palavra.

Desperdiçar a riqueza não é desapegar-se dos bens terrenos, é descaso e indiferença. O homem, depositário desses bens, não tem o direito de dilapidá-los ou confiscá-los em seu proveito. A prodigalidade não é generosidade, é muitas vezes uma forma de egoísmo. Aquele que joga ouro a mancheias na satisfação de uma fantasia não dará um centavo para prestar um serviço. O desapego dos bens terrenos consiste em considerar a fortuna no seu justo valor, em saber servir-se dela em benefício dos outros e não para si somente, em não sacrificar por ela os interesses da vida futura, em perdê-la sem murmurar, se aprouver a Deus retirá-la. Se, por revezes imprevistos, vocês se tornarem como Jó, digam como ele: "Senhor, você me deu, você me tira; que a sua vontade seja feita." Eis o verdadeiro desprendimento.

Sejam submissos desde logo, tendo fé naquele que, assim como lhes deu e tirou, pode devolver-lhes. Resistam corajosamente ao abatimento, ao desespero, que paralisaria suas forças. Nunca se esqueçam, quando Deus lhes desferir um golpe, que ao lado da maior prova ele coloca sempre uma consolação. Mas pensem, sobretudo, que há bens infinitamente mais preciosos que os da Terra, e esse pensamento os ajudará a desprender-se desses últimos. O pouco apreço que damos a uma coisa, torna-nos menos sensíveis à sua perda. O homem que se apega aos bens terrenos é como a criança que só vê o momento presente; o que se desprende é como o adulto, que conhece coisas mais importantes, porque compreende estas palavras proféticas do Salvador: "Meu reino não é deste mundo".

O Senhor não ordena que atiremos fora o que possuímos, para nos tornarmos mendigos voluntários, porque então nos transformaríamos numa carga para a sociedade. Agir assim seria compreender mal os desprendimentos dos bens terrenos. É um egoísmo de outro gênero, porque equivale a fugir à responsabilidade que a fortuna faz pesar sobre aquele que a possua. Deus a dá a quem lhe parece bom para administrá-la em proveito de todos. O rico tem, portanto, uma missão, que pode tornar bela e proveitosa para si mesmo. Rejeitar a fortuna, quando Deus  lha dá, é renunciar aos benefícios do bem que se pode fazer, ao administrá-la com sabedoria. Saber passar sem ela, quando não a temos; saber empregá-la utilmente, quando a recebemos; saber sacrificá-la, quando necessário é agir segundo os desígnios do Senhor. Que diga, portanto, aquele que recebe o que o mundo chama uma boa fortuna: "Meu Deus, você enviou-me um novo encargo; dê-me a força de o desempenhar segundo a sua vontade!"

Eis aí, meus amigos, o que eu queria ensinar-lhes, a respeito do desprendimento dos bens terrenos. Resumirei dizendo: saibam contentar-se com pouco. Se são pobres, não invejem os ricos, porque a fortuna não é necessária à felicidade. Se são ricos, não esqueçam de que os seus bens lhes foram confiados, e que vocês devem justificar seu emprego, como numa prestação de contas de tutela. Não sejam depositários infiéis, fazendo-os servir à satisfação de seu orgulho e de sua sensualidade. Não se julguem no direito de dispor deles unicamente para vocês, pois não os receberam como doação, mas como empréstimo. Se não sabem restituir, não têm o direito de pedir. E lembrem-se de que aquele que dá aos pobres salda a dívida contraída para com Deus.

Tradução livre de Jorge Leite de Oliveira

http://lattes.cnpq.br/0494890808150275

 

 


segunda-feira, 1 de novembro de 2021

 

EM DIA COM O MACHADO 495:
Nova entrevista com Kardec e Di... (Jó)

 


Salve, leitores amigos,

 

Lembram-se de que em minha primeira entrevista com Allan Kardec sobre a origem do Espiritismo ele prometeu-me novo encontro, com a permissão de Jesus? Pois bem, tive a felicidade de reencontrá-lo à porta do café da rua Saint-Anne, em Paris, quando para ali fui transposto em novo devaneio espiritual.

Após nos cumprimentarmos, alegremente, sentamo-nos à mesa e, enquanto o garçom nos servia novo cafezinho, reiniciei a entrevista.

— Irmão Allan, os Espíritos sempre se manifestam quando o médium deseja sua presença?

— Isso não é possível, a não ser que nós o queiramos e tenhamos permissão... "Não se podendo provocar os fatos, é preciso esperar que eles se apresentem por si mesmos; muitas vezes esses fatos ocorrem por efeito de circunstâncias em que menos se pensa."

— É verdade. Em meus modestos estudos de algumas décadas, tenho percebido que fatos incríveis têm ocorrido em minha vida, mas por vezes eles levam anos para se manifestar.

— É desse jeito mesmo, Jó, que Deus nos permite interagir com os chamados "vivos", embora a vida plena se manifeste é aqui, onde já me encontro desde 31 de março de 1869. "Para o observador atento e paciente [como você], os fatos são abundantes, porque ele descobre milhares de matizes característicos que, para ele, são raios de luz."

— Por que ocorrem tantas contradições nas mensagens, agora que os Espíritos se encontram no plano espiritual?

— Irmão Jó, assim como se dá no mundo físico, "sendo os Espíritos muito diferentes uns dos outros, do ponto de vista dos conhecimentos e da moralidade, é evidente que a mesma questão pode ser resolvida em sentidos opostos [...]". Se você fizer a mesma pergunta a um sábio e a um ignorante, é lógico que as respostas não serão do mesmo nível. "O ponto essencial, já o dissemos, é saber a quem nos dirigimos."

— E por que, então, por vezes, as respostas de Espíritos considerados superiores divergem?

— Jó, assim como ocorre com os encarnados, mesmo entre os Espíritos superiores, o conhecimento varia, mas isso acontece  mais na forma do que no conteúdo das mensagens. Diversas causas podem influenciar nessas diferenças, independente do caráter do Espírito comunicante: a natureza da pergunta, a capacidade de filtro mediúnico do médium e das pessoas que registram suas comunicações etc. "É por isso que dizemos que esses estudos requerem atenção demorada, observação profunda e, sobretudo, como o exigem todas as ciências humanas, continuidade e perseverança". Não se pode adquirir a ciência do infinito em poucos anos...

— É verdade, Kardec, lembro-me de que você disse que, quando desejam, os Espíritos podem reproduzir fielmente a caligrafia que tinham em vida física, além de se mostrarem e revelarem fatos que deixam estarrecidos os mais céticos. Pelas informações que li, isso ocorreu com um sábio que se divertia ridicularizando o Espiritismo, quando o Espírito de sua mãe manifestou-se claramente a ele e, após beijá-lo,  disse-lhe estas palavras carinhosas: "Cesare, fio mio".

— Certo, após a materialização do Espírito materno, César Lombroso (Cesare em italiano) retratou-se de tudo o que assacara contra o Espiritismo. E ainda fez mais, escreveu a obra Hipnotismo e Mediunidade, na qual narra o fato. Esse fenômeno reproduziu-se várias vezes, sob a mais rigorosa observação. A médium de materialização chamava-se Eusápia Paladino. Lombroso explica que havia pequena diferença formal entre o que o Espírito materno, materializado por Eusápia, lhe disse e o que a mãe dele dizia, em vida física, quando ela costumava chamá-lo um pouco diferente: "Cesare, mio fiol". Mas que importa a forma, se o fundo do pensamento é o que interessa para os Espíritos, como eu já informei na introdução d'O Livro dos Espíritos? (it. 13).

Em virtude do adiantado da hora, despedi-me de Kardec, que prometeu retornar oportunamente, com a permissão do Espírito de Verdade, representante do Cristo, para a continuação de nossa entrevista.

Passo agora a relatar aos leitores amigos o sonho que tive na última noite (31 de outubro), com Divaldo Franco (Di).

Ele estava sentado em frente a uma mesa e respondia perguntas de diversas pessoas, entre as quais estava eu. Em dado momento, Di levantou-se, pegou um livro que já fora revisado por mim e que ele psicografara e passou a caminhar comigo, folheando a obra. Rapidamente, o que nem era preciso, pois ele já sabia disso, expliquei-lhe sobre minha atividade de revisor voluntário de algumas obras publicadas pela Federação Espírita Brasileira (FEB).

Foi então que Di perguntou-me se eu iria revisar a próxima edição daquele livro psicografado por ele.

Emocionado, peguei a obra e vi que o excelente trabalho precisava apenas de alguns ajustes formais e na diagramação dos textos. Coisa de copidesque...

Di agradeceu-me pelo trabalho e, após abraçar-me, despediu-se de mim com um beijo na face.

Então, meus amigos, o conhecimento das verdades do Espírito não é uma bênção em nossas vidas? Só é preciso discernimento, observação, estudo e, sobretudo, prática do bem, nos limites de nossas forças. De resto, é só felicidade e liberdade com responsabilidade.

Até breve, Kardec, Di e leitores amigos!

 Aviso: Entrevista fictícia, baseada nos itens 12 e 13 da introdução d'O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec e Hipnotismo e Mediunidade, de César Lombroso, edições FEB. Sonho real.

quinta-feira, 28 de outubro de 2021

 Cantinho da poesia do Jó


O poeta e a esfinge

 

Que me desculpe, Pessoa,
o poeta nunca finge,
tudo que ele representa
tem a cara de esfinge.

O poeta é gente boa,
pois, nos quadros que ele tinge,
todos podem decifrar
as palavras da esfinge.
 
Nunca escreve coisa à toa,
nunca mente, nunca finge.
Tudo que o poeta entoa,
na verdade, é o que ele cinge.
 
Quem não gosta de poema?
Nele, nada se infringe,
ele, em sua sinfonia,
tudo diz, nada restringe.
 
Seja homem ou mulher,
tudo que o poeta impinge
é amor, é com paixão.
Compaixão também o atinge...
 
O poeta sente, sim,
a dor que nunca se finge,
a dor sentida do povo
desde a traqueia à laringe.
 
Quanta mentira se diz
muita cara de esfinge.
E o poeta desmascara
quem na verdade só finge.
 
Jorge Leite de Oliveira (Jó)
Brasília, DF, 28 de outubro de 2021.
 

 



 Cantinho da poesia de Jó



O amigo da noite

 
Dois amigos caminhavam
pelas ruas de Natal.
Um deles cheirava a álcool,
e o outro estava normal...
 
Era uma noite sem lua,
a madrugada ia alta,
ninguém desperto na rua...
 
Quando seus passos estacam,
o bêbado perguntou:
— Crês no sobrenatural?
Penso que isso é bobagem,
pra mim, morreu, acabou...
 
— Só no sóbrio natural...
O outro lhe respondeu.
Aspirou-lhe todo o álcool
e desapareceu...
 
Jorge Leite de Oliveira (Jó)
Brasília, DF, 28 out. 2021.

terça-feira, 26 de outubro de 2021

 

EM DIA COM O MACHADO 494:
história de Jacaré (Jó)


 

Salve, leitores!

 

Estive lendo uma informação na internet que fez minha mulher rir muito. Na Praia da Macumba, uma das cinco praias do Recreio dos Bandeirantes, no meu saudoso Rio de Janeiro, um senhor utilizou seu bichinho de estimação, que não é um cachorro, nem gato, mas um filhote de jacaré, como arma para se defender de briga com o salva-vidas local, que não lhe permitiu passear com o animal ali.

 

Leiam agora o caso do jacaré em versos:

 

Jacaré na praia

 

Recreio dos Bandeirantes

É bairro de belas praias:

Pontal, Secreto, Recreio

São três praias elegantes...

 

Mas lá existem também

A Prainha e a Macumba,

Que, para ter proteção,

Faz despachos para o Além.

 

Recreio dos Bandeirantes

Onde a Praia da Macumba

Nunca mais será como antes

Após tremenda quizumba.

 

Tudo porque um cidadão,

Pela falta de mulher,

Pra matar a solidão

Adotou um jacaré.

 

O salva-vidas da praia

Foi logo ver o que era

E quase se afogou

Quando viu o jacaré.

 

Por isso, notificou

O causador da infração,

Mesmo sabendo que o bicho

Era de estimação.

 

Foi então que o jacaré,

Lendo a lei da evolução,

Optou por escrever

Que também é nosso irmão.

 

Mas,  pensando em Charles Darwin

E nos direitos iguais...

Ouviu de Russel Wallace:

— Deixe os hominais em paz.

 

Desde então, foi proibido

Amizade a jacaré,

Que ao rio foi devolvido,

Pois ali não tem maré...

 

Agora, lá na Macumba,

Após despachos das sombras,

Jacaré só se permite,

Se for deslize nas ondas.

sábado, 23 de outubro de 2021

 


16.8.5 Fénelon

Constantina, Argélia, 1860

 

Por ser o depositário, o administrador dos bens que Deus lhe depositou nas mãos, ao homem serão pedidas severas contas do emprego que lhes haja dado, em virtude do seu livre-arbítrio. A má utilização consiste em utilizá-los somente para a sua satisfação pessoal. Ao contrário, o emprego é bom sempre que dele resulta algum bem para os outros. O mérito é proporcional ao sacrifício que para tanto se impõe.

A beneficência é apenas um dos modos de empregar-se a riqueza; ela alivia a miséria atual, aplaca a fome, preserva do frio e dá abrigo àquele que não o tem. Mas um dever igualmente imperioso, igualmente meritório, é o de prevenir a miséria. É essa, sobretudo, a missão das grandes fortunas, pela possibilidade de proporcionarem trabalhos de todo o gênero que com elas se pode executar. E mesmo que delas tivessem de tirar um proveito natural desses trabalhos, o bem não deixaria de existir, pois o trabalho desenvolve a inteligência e exalta a dignidade do homem, sempre satisfeito de poder dizer que ganhou o seu próprio pão, enquanto a esmola humilha e degrada.

A riqueza concentrada numa só mão deve ser como uma fonte de água viva, que espalha a fecundidade e o bem-estar ao seu redor. Ó, ricos, que a empregarem segundo a vontade do Senhor, seu coração será o primeiro a beneficiar-se nessa fonte benfazeja. Vocês terão nesta vida os prazeres inefáveis da alma, em vez dos deleites materiais do egoísta, que deixam o vazio no coração. Seus nomes serão benditos sobre a Terra; e quando a deixarem, o Soberano Senhor lhes dirá, como na parábola dos talentos: "Bons e fiéis servos, entrem na alegria do seu Senhor!".

Nessa parábola, o servo que enterrou o dinheiro que lhe havia sido confiado não é a imagem dos avarentos, em cujas mãos a riqueza se torna improdutiva? Se, entretanto, Jesus fala principalmente de esmolas, é que naquele tempo e no país em que ele vivia ainda não se conheciam os trabalhos que as artes e as indústrias mais tarde criariam, e nos quais as riquezas podem ser empregadas utilmente para o bem geral.

A todos os que podem dar, pouco ou muito, então direi: Deem esmolas quando necessário, mas tanto quanto possível convertam-nas em salário, a fim de que aquele que as receba não se envergonhe disso.


Tradução livre de Jorge Leite de Oliveira
http://lattes.cnpq.br/0494890808150275

  Rumo à perfeição   Em nossa luta contra o mal em nós, O mal que não queremos sobreleva Por nossa imersão em densa treva Desde o tempo de n...