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segunda-feira, 27 de agosto de 2012


Em dia com o Machado 13 (jlo)


              Há certos acontecimentos em nossa vida, amiga, que servem para testar nosso grau de ceticismo ou de credulidade. Eu, particularmente, sou um pouco de cada coisa. Entanto, ajo como Tomé em muuuitos casos ditos sobrenaturais pelo populacho, embora, como ainda lhe direi em futura crônica, tenha resolvido aderir à nova igreja do Espiritismo, nem que seja para satirizá-lo (O que lhes afianço, não é o caso desse Zé Mané que lhes escreve em meu nome).
Quanta ignorância minha. Ainda não aprendi a diferenciar centro espírita de igreja. Porém, a reflexão sobre isso fica para uma futura crônica... Ou não...
Ontem, por exemplo, em pleno sábado, após um excelente evento sobre um chamamento cristão ao qual compareci, fiquei matutando com meu botão:
— Conto ou não a saga do botão?
— Conte, disse-me ele.
 Aí vai ela, amigo leitor (Já reparou que costumo começar com a amiga? É que as mulheres devem sempre ser as primeiras em nossas vidas, o que não implica em desrespeito para com a nossa macheza, meu amigo... Muito menos a minha!).
Mas, voltando ao caso botão. Antes de ir para o evento (Não escrevi reunião para não rimar com botão.), vesti uma calça cinza e reparei que lhe faltava o botão do bolso traseiro direito; mais ainda, notei que o do bolso esquerdo estava com a linha um pouco frouxa.
Foi quando ele tornou a me dizer:
— Cuida de pregar-me direito, se não eu faço como meu amigo, caio fora.
Disse então ao botão, após dar-lhe um, digamos assim, solavanco:
— Meu caro, pelo que constatei, tu ainda estás bastante firme para abotoar meu bolso por hoje. Fique calmo que, após o evento, dou-lhe uma pregada.
— Ai, medo - respondeu-me ele -, ao que não dei importância.
O conclave estava maravilhoso. Sentei-me ao lado de uma boa amiga e fiquei à vontade até o fim do evento.
Ao terminar o encontro, encontramos (Encontro, encontramos, legal, né?) outra amiga e conversamos um pouco, os três,  antes de sairmos pela porta de entrada, que também, logicamente, no templo, é a porta de saída para seu pátio.
Eis que, de repente, não mais que de repente (Não vai pensar que eu vou declamar agora o soneto do Vinícius de Moraes, pois ele não é do meu tempo. Ou você esqueceu que nasci no século XIX e o “poetinha” no XX?), a segunda amiga se abaixa para pegar algo.
Naquele instante, imaginei que fosse uma moeda e pensei: Vou brincar com ela e dizer-lhe:
— É minha. 
Ao levantar-se, porém, e abrir sua mão direita para nos mostrar seu achado exclamei:
— É meu!
O(a) leitor(a) já deve imaginar o que a amiga achou, não é mesmo? Mas eu ainda não lhe vou desvendar o “mistério”. Ao menos por enquanto.
Ela, de pronto, respondeu-me:
— Então toma, faça bom proveito dele.
Ele não gostou muito disso e me disse baixinho, de modo que somente eu pudesse lhe escutar:
— Canalha, você me paga.
Esquecia-me dizer-lhes que, ainda no salão, dei pela falta do segundo botão e, para comprovar que a calça ficara sem os dois, apalpei ambos os bolsos. Confirmada a deserção dos apêndices, refletira:
 — Agora preciso de dois botões...
Peguei o botão e agradeci à amiga, de origem francesa, dizendo-lhe que aquela era uma dívida de alto custo, mas que ainda lhe iria pagar o favor.
Ela concordou plenamente comigo:
Sa dette est impayable.
Despedimo-nos com um beijo fraterno no rosto e fomos para casa. As amigas, para as delas; eu, para a minha, logicamente.
Ao chegar a casa, abri a gaveta que fica à minha direita, na mesa em que é digitada (palavra do futuro) esta crônica, e coloquei-o ali; não sem antes recomendar ao botão:
— Fica quietinho aí. Já... já eu lhe prego...
Ele não disse nada. Nem ao menos me corrigiu o erro de regência... Que estúpido!
Saí, dei uma volta na cozinha e voltei ao “escritório”... Se é que isto que nós temos possa se chamar assim, pois é tão grande que, quando uma pessoa (encarnada, fique claro) está aqui dentro, tem que sair para outra, de fora, entrar.
Voltando, todavia, a este, ummm, local de inspiração, abri a gaveta onde, de ordinário (Marche! Ui tempos de milico que não saem da cabeça desse cara que escreve minha história.) guardo lápis, clips, borrachas, canetas, etc. etc. etc., exceção acima à regra, menos botão,  e...
Oh! coisa espantosa! Isso não é algo que se faça! Encontrei não um, mas dois botões iguaizinhos...
Sem querer fazer propaganda da Lacoste, que ainda nem foi criada (Até quando terei de lembrar-lhe? Ó raça incrédula, até quando vos sofrerei? Estamos no século XIX e não no seu, XXI.), afianço-lhe, que o botão viajou no tempo, gravou em si tal marca, arranjou um(a) namorado(a), gravou também o nome Lacoste nele(a) e os dois olharam para mim.
Assim ficamos: eu olhava para os botões, os botões olhavam para mim...
Algum tempo depois, um deles, meu velho conhecido, voltou a falar-me, embora ambos então fossem gêmeos, a ponto de eu não mais saber quem era ele, quem era ela, essa criatura de Deus:
— Eu não disse para você me pregar antes de sair? Agora terá de pregar-nos os dois.
— É... amigo, você me pregou uma peça. Só podem ser almas gêmeas – respondi-lhe. Contudo, não se preocupem, um será pregado no bolso esquerdo e o outro no direito.  Adeus!
— Adeus, respondeu uma só voz, aparentemente saída dos dois botões.
E eu fiquei o dia todo matutando com meus botões:
— Existe materialização de Espíritos... mas de botão... E, depois, quem era quem?
Como o enigma Capitu, o(a) leitor(a) decida.
Até a próxima!

segunda-feira, 20 de agosto de 2012


Em dia com o Machado 12 (jlo)


Uns beatos riem, outros beatos choram. É da Lei, rir ou chorar faz parte de nossa natureza.
O Supremo Poder do Universo, em seus desígnios insondáveis, assentara dar a esta Capital, além da sede dos Três Poderes, algo que agradasse seu povo; e nada mais lhe pareceu maior ou melhor do que o desfrute superfino, espiritual privilégio dos defensores e amigos dos animais: deu-nos os cães.
Provavelmente, poucos cidadãos sabem que, nunca na história deste País, houve tantos pombos, cachorros, gatos e mesmo cavalos, em Brasília, como na época atual.
Outro dia, foi filmada até uma onça rondando o Supremo Tribunal Federal; ou foi o Superior Tribunal de Justiça? Talvez tenham sido ambos. Só a onça poderá dizer ao certo...
É um tal de miar para cá, latir para lá e relinchar acolá que dá gosto. E os pássaros, então? Que coisa linda é o voo e, principalmente, o canto das mais variadas aves: pardaizinhos, quero-queros, bem-te-vis, beija-flores e até tucanos eu já vi perto de onde moro. Isso sem falar nos pombos. Ah, pombos... Ah, pombas...
Mas de todos os animais, o mais querido e o mais vistoso aqui é o cachorro.
Há cães das mais diversificadas raças, facilmente encontrados em seu passeio matinal, vesperal e noturno. Alguns poucos, quando cruzam por nós, estando desacompanhados, só faltam pedir: — Me adotem, pelo amor de Deus, fui desprezado por meus donos, pois estou velho e desdentado. Não tenho uma pedra onde repousar a cabeça.
E eu fico a refletir sobre o que disse uma amiga; amiga dos cães: — Se eu vir um cachorrinho abandonado, junto com uma criança também desprezada; se ambos estiverem morrendo de fome e frio, chorando de dar dó; e se tiver que escolher entre salvar um ou outro, não terei a menor dúvida, salvo o cachorro.
— Mas por que não salvar o ser de seu gênero, animal, ou seja, a criança? Perguntei-lhe, perplexo. E a resposta foi a coisa mais singela que poderia ouvir de uma cristã:
— O cachorro nada fez para padecer daquele modo; mas a criança, com certeza, é uma devedora das Leis Divinas.
Então comecei a duvidar do bom-senso das criaturas ditas racionais e me lembrei de que esse amor aos animais vem de longa data. Pois não é que um imperador romano condecorou seu cavalo e lhe concedeu o título de senador?
Outra história que talvez a amiga que me lê deve lembrar é a da rica dona de um lindo gatinho. Antes de ela morrer, deixou toda a sua herança para o felino. Quanta alma humana animal...
Na África, milhões dos nossos irmãos morrem de fome e maus tratos. Se ao menos ela destinasse uma dúzia deles para cuidar do seu bichano a troco de um bom prato de comida, com certeza, até o gato faria uma prece em intenção de sua alma.
Agora, ao contrário desse ser superior, a nossa amiga leitora, mais emotiva que racional; o amigo leitor, mais racional que emotivo dirá: — Gastam-se bilhões de dólares para enviar artefatos a Marte, em busca de micro-organismos que comprovem a possibilidade de vida nesse planeta; outros bilhões são gastos em armamento para o extermínio dos nossos irmãos de humanidade, e você me vem falar de privilégios humanos em relação aos animais? Eles também sentem dor, passam fome e choram...
Antes que você me diga que eles não têm defensores, replico:
— Agora já têm quem os defendam...
Caso eu insista com minhas alegações, dirá o leitor: — Esqueceu-se do que disse aquele ministro? Cachorro também é gente; merece, pois, ser bem tratado.
E eu lhe responderei que nada tenho contra os animais, em especial, contra os cachorros...
É certo que, na adolescência, estando de costas para a escada, já no andar do sótão de uma vizinha, junto com um irmão três anos mais novo, de repente, olho para ele e o vejo pálido, olho para sua perna e vejo um belo cão Hottweiler dependurado em sua panturrilha.
— Coitadinho do cachorro, estava tão velho... Nem latir mais latia; disse sua proprietária. (Se é que posso chamá-la assim, pois algumas preferem o título de mãe.)
Isso custou ao mano várias seções de vacinas antirrábicas. Nada muito sério...
De outra feita, estagiando num hospital, vi entrar uma senhora com a mão quase decepada e totalmente desfigurada. Os cirurgiões que a atenderam precisaram religar os tendões do dorso da mão e dos dedos, um a um; além de juntar-lhe as carnes despedaçadas e suturá-las. Era o seu  Pitbull de estimação, a quem diariamente dava de comer.
Naquele dia, o pobrezinho confundiu a mão da dona com a comida.
Não pense, porém, amiga(o) que eu não goste de animais. Adoro-os. Acho mesmo que deveríamos domesticar não apenas cachorros e gatos, hamsters e outros bichinhos. O papagaio, segundo pesquisa recente, tem a idade mental de uma criança de três anos. E o macaco, então? Darwin não afirmou que descendemos de um dos seus ancestrais?
Pobre macaco! Pobre macaco!
Continuemos a falar, em especial sobre as espécies caninas, felinas e equídeas. Vejam que gracinhas de raças de gatos: Bengal, Angorá, Ragdoll. Imagino a(o) leitor(a) sonhando com um Ragdoll cheio de carinho e maciez em sua cama, mais precisamente, enroscado em seu lençol. Quanta ternura, quanto afago... Angorá lembra gato preto, mas não sei se é. Já Bengal, parece ser um gato tão velho que só anda de bengal...
Já não é a mesma coisa ter um Puro Sangue Inglês, um Mangalarga Marchador, um Bretão... Quem sabe um Brasileiro de Hipismo? Nesse caso, o melhor é ir a um hipódromo. No Country Club há umas aras legais, onde costuma haver exposição de cavalos.
Entretanto, pobre equino, o cavalo que costumamos ver, de ordinário está puxando uma carroça velha com seu(s) proprietário(s) em cima. Não é, pois, nenhum dos elencados.  Dá um dó...
Agora, cachorro, que maravilha! Quanta saudade se tem quando se perde um. Eu entendo... Transferimos nossos sentimentos ao nosso “melhor amigo” e sentimos por demais sua falta, quando ele ao pó retorna, como nós o faremos um dia.
Aqui em Brasília, é muito comum nos depararmos com um cachorrinho da raça Yorkshire Terrier, um Bichon Frisé ou mesmo um Chow Chow. Por vezes, damos de cara também com um Dálmata. Outras vezes, com um Boxer, um Perdigueiro, um Doberman, um American Pitbull.
Isso sem falar em outras raças do nosso imenso Brasil, que vêm passar uns anos conosco e tanto enxovalham a imagem da Capital do paisagista Burle Marx e do projetista Niemeyer. O pior é quando gostam muito daqui e vão ficando, ficando... até dar zebra, um animal que costuma ser mais visto em nosso Zoológico.
Assim como o cachorro, todos os animais domésticos são o reflexo de sua/seu dona(o). Pense nisso...
Mas cá para nós, salvar a vida de um animal e deixar morrer um ser humano... Eu fico imaginando Jesus dizendo: — Entra naquela vara!
Dá até vontade de acreditar na metempsicose e propor a essa pessoa para renascer cachorra... Ou...
Uma boa semana a todos!

segunda-feira, 13 de agosto de 2012


Em dia com o Machado 11 (jlo)


Outro dia, amiga leitora, falei-lhe do cemitério e do bom costume carioca de visitar os defuntos. Hoje, para deixa-la ainda mais espantada, falar-lhe-ei duma casa mal assombrada e da evocação dos Espíritos por meio dos copos ali realizada.
            Não foi esse o tema do “Fantástico” da última noite? Ora se foi... No programa, qualquer espírita de meia tigela, que não é o seu caso, nem o do prezado leitor, logicamente, dirá:
— Meu caro Tadeu Schmidt, você parece que nunca leu uma obra espírita e ademais desconhece esta famosa frase de Chico Xavier: “— O telefone toca de lá para cá”. Ou seja, são os Espíritos que determinam quando, onde e como se manifestarão.
E não adianta tentar suborná-los, por que o vil metal, para eles, nada significa.
Vamos analisar, em profundidade, prezada leitora, erros crassos dos procedimentos propostos pelo nosso prezado Tadeu. Em primeiro lugar, reuniu seis ou oito pessoas em torno de uma mesa, para o “fenômeno dos copos”, sem que qualquer delas se dissesse médium. Ora, para que haja um fenômeno espírita autêntico, é necessário que haja um médium presente, no caso, médium de efeitos físicos.
— Não diz a Doutrina Espírita que todos somos médiuns? Dirá o amigo leitor.
E eu lhe respondo que sim, mas nem todos são médiuns produtivos, ou seja, nem todos produzem efeitos patentes com sua mediunidade, que pode variar muito, de uma pessoa a outra. E isso eu aprendi quando lhes disse naquela crônica que iria estudar a nova Doutrina. Lembra-se?
Sem entrar no mérito da resposta dada na indicação pelo copo do nome de alguém, que não foi conferido pela equipe de reportagem, relato novo procedimento proposto: o sorteio de duas pessoas daquele grupo para, sob alto grau de sugestão, passarem a noite na casa supostamente mal assombrada. Foram sorteados um homem e uma mulher. Ambos conheciam os fatos ditos fantasmagóricos ocorridos ali.
            Durante os momentos noturnos que lá estiveram, ficaram afastados entre si e foram orientados, a viva voz, para repetirem o comportamento de antiga moradora e ex-empregados da casa, que relataram ter visto vultos no local. Mas os indicados não eram, necessariamente, médiuns de efeitos físicos e, pois, nada mais natural do que seu relato de impressões causadas pelo medo.
Aqui entra a explicação do Tadeu:
No fenômeno do copo, inconscientemente, as pessoas empurram-no com o dedo para a indicação da resposta “sim”, quando foi feita a pergunta sobre a existência de Espíritos no local. No caso da visão das pessoas da casa, foi mostrada uma sombra imóvel sobre um banco, produzida por uma planta, como explicação para a imagem do vulto humano. O tapa recebido pelo rapaz que dormia no quarto da falecida esposa do Gilberto Freire foi atribuído à alucinação daquele...
Só não foi explicada uma coisa: as pessoas relataram as presenças de um menino e um velho, que trabalharam e faleceram no local. Tais entidades manifestavam-se e se deslocavam, de um local para outro. Apareceram até mesmo para quem nunca houvera escutado qualquer coisa sobre os fenômenos. Subiam escadas e desapareciam repentinamente...
Ainda mais, enquanto não foi feita uma missa pela alma do garoto, ele sempre era visto, mesmo por pessoas que desconheciam os fenômenos. Após as preces para ela, a “alma penada” nunca mais apareceu no local.
Revertere ad locum tuum, dizia eu, em minha passada crônica (1º nov. 1877). E, para os que insistem em dizer que eu me tornara cético, deixei claro ali os destinos de todos nós após “abotoar o paletó”: enquanto o corpo desce ao túmulo, a alma vai a outras paisagens.
Allan Kardec também, em sua juventude, ria dos fenômenos espíritas, que classificava como “fogos fátuos” utilizados para impressionar as mentes ingênuas. Até se debruçar sobre os fatos reais, perceber que todos eles fazem parte de leis naturais ainda desconhecidas pela grande maioria da humanidade e, após anos de estudo, pesquisa e reflexão, confirmar a realidade das manifestações espíritas e atestá-las como resultado de uma Ciência baseada na observação e na experimentação, ou seja, com leis próprias.
Sem um estudo sério, encontraremos mil explicações para o desconhecido. Por isso, a sempre atualidade da frase da personagem shakespeariana Hamlet: “Há muito mais coisas entre o céu e a terra do que possa imaginar nossa vã filosofia”.
Também, eu, na juventude, escrevi muitas tolices contra o Espiritismo e suas manifestações. As mais das vezes com o intuito de divertir a leitora e o leitor que me liam. Hoje, percebo a leviandade de se tentar explicar o que se desconhece ou conhece mal.
Pois saibam, meus caros amigos, quando o orgulho é maior do que o bom senso, encontramos explicação para tudo e nada fica sem explicar. Apenas lembro que tudo pode ser explicado racionalmente, mas a realidade pode ser outra, muito além dos nossos arrazoados. Muito Além...
Retorna, pois,também, a teu lugar, ó Tadeu! E não tentes explicar o que desconheces.

terça-feira, 7 de agosto de 2012




Vamos lá, minha gente! Estamos bem pertinho do lançamento! Será nesta 5ª feira, às 19h30, no shopping Iguatemi de Brasília.
Esperamos vocês lá.
Um grande abraço!


segunda-feira, 6 de agosto de 2012


Em dia com o Machado - 10 (jlo)


          Vou contar uma novidade aos meus seletos leitores e leitoras.
          Lembra o amigo que lhe falei sobre os trinta por cento de brasileiros que leem razoavelmente? Pois bem, outro dia, um meu velho conhecido, o Conselheiro Aires, contou-me que, na época de suas viagens à Europa, foi convidado a lecionar literatura em Marseille, essa simpática cidade francesa fundada seiscentos anos a. C. pelos gregos.
            — Até aqui, tudo bem, mas aonde você quer chegar, ó amado mestre?!
            Calma, amiga, não te inquietes. Faz como teu colega acima, que ouve calado, pois em boca fechada não entra moscas. Chegaremos a um acordo, antes que digas: “— Você fala demais, Machado!”.
            Vai daí que, um belo dia, dando sua aulinha sobre literatura francesa, Aires escolheu um texto curto, como esta breve crônica, e pediu a um aluno para lê-lo em voz alta. Qual não foi sua surpresa, ao ouvir o rapaz reclamar:
            — Mais professer, est pour lire tout ceci?
            Perplexo, o Conselheiro matutou consigo mesmo: — Se esta anta acha um absurdo ler uma simples página de literatura francesa, como poderei despertar-lhe o gosto pela leitura?
            Aconselhou, então, à an..., digo, ao aluno, o então professor conselheiro ou conselheiro professor, controlando-se para não lhe dar um piparote:
             — Lisez ao moins le premier paragraphe.
          Gaguejando, praguejando e outros “andos” após, o aluno terminou a leitura do parágrafo de... duas linhas. Na realidade, uma ideia central que seria desenvolvida no parágrafo seguinte.
         Finda a leitura, perguntou-lhe Aires:
— Então, o que você entendeu?
— Eu tinha que entender? Você me pediu só para ler e não para interpretar...
         E eram aulas para alunos universitários!
         Foi então que o Conselheiro resolveu abandonar o sacerdócio de professor de literatura. Ato contínuo, aposentou-se do cargo diplomático que exercia, voltou definitivamente para a Pátria do Cruzeiro e aqui escreveu sua última obra: Memorial de Aires.
            Ainda bem que cá no Brasil as universidades, sejam elas públicas ou particulares, não têm esse problema com seus alunos, não é mesmo, estimad@ leitor@?
        Em nossas salas de aula, é uma festa! Todo o mundo lendo Arthur Schopenhauer, Charles Dickens, François-Marie Voltaire, Gustave Flaubert, Jean Jacques Rousseau, Sidney Sheldon, William Shakespeare, Agatha Christie, Barbara Cartland, Jackie Collins, Virginia Woolf...
              Só não lhes peça para lê-los em português...
              Mas aí já é exigir demais, não é mesmo, amad@ leitor(a)?

segunda-feira, 30 de julho de 2012


Em dia com o Machado 9 (jlo)

             O carnaval, a música e o futebol são as nossas três grandes paixões, não é mesmo, amig@ leitor/a? Há algo de semelhante entre ambos: aquele deveria durar três dias em cada ano; mas, para muitos, dura o ano inteiro. A segunda, em geral, não leva mais tempo do que uns três minutos, embora ouçamo-la, assobiemo-la ou sussurremo-la durante anos, quando é boa...
            O futebol, por sua vez, apesar de cada partida durar pouco mais de noventa minutos, consome a nossa atenção, alegria ou tristeza durante o ano todo. Mal inicia o ano novo, os jogos e a torcida recomeçam... E quando o juiz é “ladrão”? Ai que bronca dá na gente, não é mesmo? Passamos horas falando sobre essa bobagem e até violando o VIII Mandamento Divino ao nos referirmos à mãe do juiz...
            Que o digam os torcedores do Flusão, no jogo de ontem, contra o líder Atlético. Fredão marcou um gol legítimo e, após grande hesitação do bandeirinha, que acabou por levantar sua bandeira, o juiz, que correra para o meio do campo validando, desvalidou o validado gol.
            Mísera, tivesse eu aquela enorme, aquela/ Claridade imortal, que toda a luz resume! Quisera eu nascer... um simples vaga-lume. Para alumiar a mente desses árbitros arbitrários! Grrrr:# >=[
            Casmurro, constato que tudo isso virou um “círculo vicioso”. E já não faço poemas como pensei fazê-los. Quem sabe a prosa...
            No meu tempo, lembra? Comentei sobre o alto preço dos ingressos e dos lucros de empresários e cantores. Lucro muito justo no que se refere a estes últimos, pois não é todo mundo que nasce com um canário na garganta ou canta que nem sabiá...
            Por isso é que eu dizia, em meu século, que um bom tenor “tem uma voz de oito contos e oitocentos”; uns oitenta e oito mil reais no seu tempo, amig@ leitor/a. Devemos, pois, continuar aplaudindo @ bom/boa cantor/a como nos velhos tempos. E nem é preciso ter olhos azuis e cabelos loiros para ter sucesso; basta ter bela voz. Hoje, esse último valor é recusado por qualquer razoável cantor/a...
            Ó tempos! Ó tempos!
            Vamos agora ao carnaval. Imaginei que essa festa não iria além de 1877, quando, eufórico, bradei: “O carnaval morreu, viva a quaresma!”. Nec plus ultra!
            Ledo engano, amad@ leitor/a. Ledo engano. Na época, também lhe informei a data da origem dessa festa pagã: 1854. Há controvérsias, mas o que não é controverso neste mundo de Deus?
            Está vendo? Nem tudo é ficção na literatura. Literatura é também história e história é literatura. O resto é outra história...
            Já lá se vão 158 anos! E o carnaval não só não morreu, como até se tornou uma fonte de renda maravilhosa e a menina dos olhos do turismo carioca.
            Pois o carnaval mudou muito, do meu tempo ao seu, amig@. No século XIX , a música dançada nos bailes carnavalescos eram polcas e maxixes. Inexistia letra a ser cantada. O carnaval de rua era animado por instrumentos de percussão; e, em 1877, estava tão descolorido, que o julguei extinto sem necrológio, sem acompanhamento.
            O tempo passou, o carnaval sobreviveu, como se pode hoje constatar. Já em 1899, Chiquinha Gonzaga compôs, sob encomenda dos dirigentes do cordão Rosa de Ouro, uma música especificamente carnavalesca. Compositora e musicista já consagrada, Chiquinha registrou a primeira e a mais antiga marcha-rancho do carnaval brasileiro. E, como de praxe, recebeu, como direitos autorais, os seus ricos oito contos e oitocentos.
            “Quanto riso, ó, quanta alegria!...” Diria ela mais tarde... Ou não...
            A marcha “Ó abre alas”, da Chiquinha, possui estrutura semelhante à das músicas compostas por todos os ranchos carnavalescos posteriores. Aí vai sua letra:
Ó abre alas
Que eu quero passar (2x)

Eu sou da Lira
Não posso negar (2x)
 
 
Ó abre alas
Que eu quero passar (2x)

Rosa de Ouro
É que vai ganhar (2x)
            Empós isso, já no século XX, amig@, tínhamos o “Cordão do Bola Preta”, o “Bafo da onça” e outros cordões mais, nos quais o povo se agarrava e pulava que dava gosto; mas também cantava, candidamente, suas marchas famosas.
            Ainda não levitei até o local para saber como estão esses clubes e outros, pois, como você sabe, tenho mais o que fazer; porém tudo são festas que o carioca merece e o Brasil também.
             Agora temos, aqui no Rio, o Sambódromo. As marchas transformaram-se em sambas, as letras ficaram ricas de narrativas carregadas de pleonasmos, metáforas, anacolutos, hipérboles, metonímias... Os temas folclóricos, históricos e políticos, quando bem explorados, e de ordinário o são, levam seu autor à glória.
            Não ao bairro da Glória, é verdade, mas à glória literária, enfeitada por alguns milhões de fãs... e de reais. Fãs reais e reais fãs. Até as rainhas e os reis das escolas são mais reais e belos do que os que se foram na turbulência das revoluções transatas.
            A música de Chiquinha, tempo depois, foi enriquecida por outros versos. No meu entender, o mais precioso é o seguinte: “Peço licença pra poder desabafar”...
            Você quer ganhar até... não “um conto de réis”, como foi oferecido pela virgem da novela Gabriela, mas um milhão de reais, ou mais, por mês como alguns entes famosos percebem? Peça a São Pedro para, na próxima encarnação, nascer com o dom da bola; não com o cordão do “Bola Preta”, mas sim com o condão da bola de futebol.
            Basquete ou voleibol também servem, desde que você esteja entre os melhores. Também tem uma bolinha que é fantástica, a do tênis. Guga que o diga.
            Ah, não gosta de correr atrás da bola, chutar a bola, lançar a bola, bater com a mão na bola? Não pisa na bola, nem chuta o balde! Há opções... Ser empresário de jogador é uma delas...
            Você pode até não dar bola para esses jogos, mas pode gostar de cantar. Então, como o Michel Teló, com sorte, apenas uma musiquinha como “Ai se eu te pego” pode render-lhe milhões. Mas aí tem que ter também a garganta do sabiá supra.
            Para quem acha que futebol nada tem a ver com música ou carnaval, lembro que, durante esta festa, vários jogadores cantam e dançam em cima dos carros de sons.
            Balançou a rede? Dança, garotinho! Por fim, a Globo estipulou: três gols numa mesma partida, pede música.          
            Imagina você, amig@, se alguns parlamentares atuais, nos três dias da festa de Baco, pedirem uma música para cada três furadas de bola que cometeram no jogo político. Será um carnaval cantado por “mais de mil palhaços no salão”... Ou não?
            Até a próxima crônica, amig@!

terça-feira, 24 de julho de 2012


Em dia com o Machado - 8 (jlo)

            Obrigado, Senhor! Graças te dou porque atendeste ao nosso apelo. Andávamos calundúticos com a panaceia... Ah! o(a) leitor(a) não sabe o que isso significa? Não devia, mas vou explicar: calundútico é adjetivo e panaceia, substantivo.     Ainda está na mesma? Calundútico é o estado de irritabilidade ou de mau humor de alguém; já panaceia é remédio para todos os males.
            — E existe?...
            — Pois, como dizia, amiga(o), não há remédio para o mau humor, a não ser o de seu contraditório: o bom humor. Mas, como consegui-lo? Muito fácil: acorde bem cedo, abra bem as janelas para o sol entrar; se não tiver sol, abaixe as persianas para ver a chuva cair ou o vento zunir no vidro de las  ventanas, faça uns exercícios, higienize-se convenientemente, deguste um bom lanche...
            — E o que é um bom lanche matinal para você?
            — É um lanche tipo assim: duas frutas, café com pouco ou nenhum açúcar, três ou quatro torradas sem manteiga, um copo de leite de soja, um danoninho ligth e pronto! Já terás começado o dia cuidando do corpo.
            — Vou tentar sua dieta, mas que é difícil abrir mão de um bom pão com manteiga e queijo, lá isso é...
           — Tenha força de vontade, mané! Agora vamos à alma: pegue o livro de sua preferência e leia de uma a cinco páginas (se tiver tempo, leia mais), leia também uma página de mensagem otimista e escreva um comentário de um parágrafo no seu canto direito... Ah! não dá para escrever no canto direito? Escreva acima, abaixo, onde ficar melhor sua reflexão.
            Mas atenção! Escreva um comentário tipo assim: “Hoje nada vai tirar de mim o bom humor”. E procure lembrar dele o dia inteiro, ok, colega?
            Agora, academia! Iebaaa! Ah! você tem de ir cedo para o trabalho? Academia para quê, se você já se exercitou, conforme sugeri no meu segundo parágrafo? Dá uma corridinha, mané.
— Não gosto de correr!
— Dá uma caminhadinha!
— Detesto caminhar!
— Ouve uma musiquinha e saltite bastante, sem incomodar a vizinha.
— Não suporto música!
— Cruzes!... Então salte sem canção. Canção e não calção, viu?
— É, você não tem jeito mesmo, só rindo. Mas para mim, tudo é difícil, sou gordo(a) que nem uma... Deixa para lá. Como vou saltar, assim?
— Coma menos.
— Engordo até com o vento...
— É verdade, outro dia, no clube, ventava muito e fiquei com vergonha do meu prato de churrasco perto do seu. O meu mal pesava meio quilo... E quando ventava, as alfaces iam todas para o seu, pleno de linguiça, coxinha de frango, muito macarrão e bastante picanha mal passada... Não chegava nem a dois quilinhos, não é mesmo? Só vento... Só vendo... I'm seen you food winds.
— E qual a sugestão que você me dá?...
— Sugiro-lhe um SPA.
— Nem pensar, quero ser livre.
— Então use outro tipo de SPA, tão discreto que cobre sua boquinha: o SPAradrapo...
— Gaiato!

  Rumo à perfeição   Em nossa luta contra o mal em nós, O mal que não queremos sobreleva Por nossa imersão em densa treva Desde o tempo de n...