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segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Machado por ele mesmo...

            Leitor amigo, agora vamos combinar uma coisa: eu posto minha crônica e meu secretário faz sua análise.  Em dia com o Machado continua, mas agora haverá, não uma, porém duas crônicas semanais 1) Machado por ele mesmo; e 2) Em dia com o Machado.

Vamos à primeira da nova série:

          Dizem os alemães que duas metades de cavalo não fazem um cavalo. Por maioria de razão se pode dizer que metade de um cavalo e metade de um camelo não fazem nem um cavalo nem um camelo. Isto, que parecerá axiomático aos leitores, é nada menos que um absurdo aos olhos dos partidos de uma das paróquias do Norte, a paróquia de São Vicente; um absurdo, um paradoxo, uma monstruosidade.
          Com efeito, os dois partidos daquela freguesia dividiram-se e trocaram as metades; feito o que, organizaram duas mesas, duas atas, duas eleições. Sendo por enquanto, mui sumária a notícia, ignoro o modo pelo qual as duas metades dos dois programas foram coladas às metades alheias, e mais ignoro se fizerem sentido os períodos truncados. Há de ter sido muito difícil: talvez se reproduza o caso das duas notícias que apareceram ligadas, há anos, numa folha de New York.                 
          Tratava-se da prédica de um sacerdote e da investida de um boi:
O Rev. Simpson falou piedosamente dos deveres do cristão e das boas práticas a que está sujeito o pai de família; o auditório ouvia comovido as palavras do Rev. Simpson, o qual, investindo de repente contra todos, varreu a rua, derrubou mulheres e crianças, lançou enfim o terror em todo o bairro, até ser fortemente agarrado e reconduzido ao matadouro.
       Verdade é que uma errata pode restituir o genuíno sentido dos dois programas, e estes aparecerão, reintegrados, na edição próxima. Se há uma arte para restaurar a primitiva escritura do palimpsesto, há outra para recompor devidamente os programas: questão de cola. O ponto mais obscuro deste negócio é a atitude moral dos dois novos partidos, a linguagem recíproca, as mútuas recriminações. Cada um deles vê no adversário metade de si próprio. O nariz de Aquiles campeia na cara de Heitor. Bruto é o próprio filho de César. Em vão busco adivinhar por que modo esses dois partidos singulares cruzaram armas no grande pleito; não encontro explicações satisfatórias. Nenhum deles podia acusar o outro de se haver ligado a adversários, porque esse mal ou essa virtude estava em ambos, não podia um duvidar da boa fé, da lealdade, da lisura do outro, porque o outro era ele mesmo, os seus homens, os seus meios, os seus fins. Nunca vi mais claramente reproduzida a situação de Ximena, quando o amante lhe mata o pai; o partido que vencesse podia clamar como a namorada de Cid:
La moitié de mon âme a mis l'autre au tombeau.
                                                                          1º set. 1878.

Análise (jlo)

            O cavalo, para a psicanálise, é o símbolo do psiquismo inconsciente, ou da alma não humana (CHEVALIER; GHEERBRANT, Dicionário de símbolos). Já o camelo simboliza a sobriedade e também o caráter difícil (idem). No entanto, quando se propõe dividir algo que pode parecer comum a todos, em política, o que se está tentando é ludibriar o povo, em vista de interesses escusos. Daí a revolta do boi, que simboliza a bondade e a calma do povo, vítima dos políticos inescrupulosos. Nem o boi, aclamado por seu trabalho pacífico de colaboração com o homem, suporta sua opressão, como se comprova nas arenas das touradas.
      
            Hasta la vista!




sábado, 15 de dezembro de 2012


Em dia com o Machado 28 (jlo)


A Baviera e o governo de um tiro só


            Amigo ouvinte, lembra-se de ter-lhe falado sobre minha encarnação na Baviera? Hoje vou falar-lhe sobre a sua independência. Informei à leitora e ao leitor da crônica 26 que a Casa von Wittelsbach dominou no país, por cerca de 600 anos.

            Só não lhes falei que, embora o domínio fosse de uma casa monárquica, havia no país um sistema de governo presidencialista dos nossos dias. A casa monárquica somente interferiria em alguma situação político-econômica se houvesse discordância entre os três poderes: executivo, legislativo e judiciário da nação. Mas em geral, nunca houve necessidade de ingerência econômica ou política naquele pequeno país de 12,5 milhões de habitantes na época em que lá vivi.

            A República fora instalada ali no dia 15 de novembro de 1669. Após os primeiros governos, digamos assim, de transição, as eleições presidenciais passaram a ocorrer para valer. Vejamos o que ocorreu nas últimas mais marcantes, cujo mandato era de cinco anos, com direito a concorrer a nova reeleição cada presidente.

            Em 1669, após proclamada a República, foi eleito, pelo voto popular, o presidente Fercolo Cielo Nando, após acirrada disputa entre o seu partido e o da oposição. O partido do presidente era o PRB - Partido Revolucionário da Baviera, o da oposição chamava-se POB - Partido dos Operários Bavieros.

            Houve uma acirrada disputa entre esses dois únicos partidos na candidatura à presidência. O candidato Fercolo Cielo fora atacado impiedosamente pelo seu concorrente, Agnácio Luís da Silva, do POB, que, ante a derrota nas urnas, prometeu vingar-se destituindo, com a ajuda operária, seu oponente, agora na presidência.

            Dito e feito, dois anos após ser eleito com a proposta de um plano econômico de “um tiro só na economia”, Fercolo foi deposto sob o argumento de que, com o congelamento proposto por seu ministro da economia, levou o país à bancarrota e provocou uma comoção social: a inflação foi às alturas, pessoas prejudicadas suicidavam-se, outras punham fogo nas viaturas oficiais do governo, assaltos a bancos se multiplicavam...

            Desse modo, o vice-presidente assumiu a vaga aberta e, tão logo obteve as prerrogativas de mandante mor do Estado, nomeou um ministro da economia com poderes extraordinários para debelar a crise socioeconômica do país. Seu nome, que posteriormente viria a ser o novo presidente da Bavária, era Fernão Dias Leme, cujo partido tinha as mesmas letras do seu nome: FDL – Frente Democrática Liberal.

            A Frente Democrática Liberal, do governo que sucedeu ao do ex-vice presidente, pouco lembrado pelo povo e por este narrador, apesar de seu excelente governo, agora sob a gestão de Fernão Dias Leme revolucionou a economia local. Fernão, este sim, muito lembrado e até reeleito, sempre disputava e vencia limpamente Agnácio Luís.

            O ex-ministro da economia, agora presidente, promoveu uma verdadeira revolução no país: instituiu o voto feminino, que antes não havia, baixou a inflação, que chegava a três dígitos para menos de dois, estabilizou a moeda e, consequentemente, a economia do país e, por fim, criou um programa de atendimento às famílias de baixa renda (PAFBR), que, quando procurado por tais núcleos familiares, fazia um belo acompanhamento econômico de tais pessoas, antecedido por uma investigação meticulosa das suas reais necessidades socioeconômicas. Mas não ficava só nisso, sob a orientação de um(a) assistente social, encaminhava os filhos desses núcleos às excelentes escolas criadas exclusivamente para a formação de toda a família, desde o(a) filho(a) caçula à mãe e ao pai.

            O POP, atento ao que o FDL fez, candidatou-se pela quarta vez sucessiva, com o mesmo candidato, nosso já conhecido Agnácio, nome popular que passou a ter, e, de tanto insistir, ganhou a eleição, sob uma chuva de ataques de todos os lados, incluindo a acusação de corrupção ao governo de Fernão, ao qual prometia combater implacavelmente, em seu governo.

            Nessa disputa eleitoral, FDL, sigla pela qual ficara conhecido Fernão Dias Leme, indicara outro candidato, por não poder concorrer terceira vez à presidência.

            Muito bem, como dizíamos, Agnácio elegeu-se como defensor dos operários e, como já fora combinado por seu partido, não apresentou nenhuma proposta de governo, a não ser as antigas promessas de campanha de que investiria na educação, fonte primacial de progresso à nação; na saúde, base para um povo produtivo; e na segurança, esteio de um povo feliz. Além disso, prometeu ampliar o PAFBR, que, em seu governo, seria acrescido do PRAR – Programa de recursos às atividades rurais e do PVO – Programa de valorização aos operários, além do PSST – programa de saúde e segurança a todos.

            Quanto à educação, afirmava, em alto e bom som:

             — Só tenho o primário e, no entanto, fui distinguido com a mais elevada condecoração que alguém possa ter: o diploma de presidente da respública (talvez em analogia com “res”: coisa e pública - do povo). Em seu governo, a saúde teve péssimos índices, a educação ficou entre as piores do mundo e a insegurança era total: invasões de movimentos dos desterrados (MD) por toda a parte, assaltos a bancos com sofisticados procedimentos, como o de escavação de túneis de centenas de metros até a boca do cofre, implodido com destreza, sequestros relâmpagos, assassinatos de autoridades e, atrocidades sem conta. Ainda assim, graças à manutenção da economia estável e aos programas sociais, sua gestão teve grande participação e Agnácio foi reeleito.

            Após sua reeleição, Agnácio ainda tentou, timidamente, a aprovação de um decreto que o tornava presidente perpétuo da Baviera, além de “calar a imprensa”. Mas foram os próprios operários, sob a condução de intelectuais atentos do país que não permitiram tal golpe de Estado. Além do mais, a corrupção rolava solta em seu governo, o que envergonhava por demais os homens e mulheres íntegros. O POB não teve outra saída a não ser indicar seu sucessor na nova campanha eleitoral.

            Não foi sucessor, e, sim, sucessora.

            Seu nome era Dilmerinda Rasttoldof de Sousa, que, mais uma vez, como o fizera seu antecedente, prometeu investir nos três cancros dos governos anteriores: educação, saúde e segurança. Em relação à última palavra, ficou um pouco insegura, entretanto, pensava e falava à boca pequena com seus correligionários:

            — Investindo na educação e na saúde, consequentemente a segurança estará sob controle. Principalmente, dizia, porque manteremos as crianças na escola o dia todo e os pais estarão sob a proteção do Estado. Nenhuma família ficará sem café da manhã, almoço e janta (proposta, aliás, do seu padrinho Agnácio, quando eleito já da primeira vez); além disso, todo empenho será dado, em meu governo, à questão da saúde e do investimento nos demais programas do meu antecessor. 
           Sua bandeira, sem mencionar o governo deposto de Fercolo, voltou a ser a do governo de um tiro só: combate à fome e à miséria.

            Curioso é que uma vidente previra a morte de Dilmerinda, após um retumbante fracasso de seu governo. Nada disso ocorreu. No apagar das luzes do seu primeiro mandato, a aprovação de sua gestão foi a maior de todos os tempos: 72 por cento.

            No questionário do censo, questões como saúde, segurança e educação recebiam nota perto de zero; contudo, quando se falava de combate à fome e à miséria, a nota era próxima de cem. Em consequência, juntando-se a outros países, como R, I e C, países emergentes, cuja economia subia mais de dois dígitos, anualmente, o rico país que era a Baviera crescia, espantosamente, meio por cento ao ano. Isso porque grande número de empreendedores, de cientistas e intelectuais diversos vinham do oriente e do ocidente investir no país.

            Em compensação o bem nutrido povo da Baviera vivia feliz em sua casa, alheio às notícias de prisões da polícia federal, de sequestros relâmpagos, de corrupção pipocando por todo o lado, e da constatação, pelas mídias de toda a humanidade, de que, em seu país, saúde era sinônimo de catástrofe, segurança, de caos e a educação era a de nível mais baixo entre todas as nações.

            Esse foi o verdadeiro governo de um tiro só. Vivi lá, meu caro leitor... E sobrevivi.

            Viva a Baviera!

            Boa-tarde.

           

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Em dia com o Machado 27 (jlo)
             Boa-madrugada!
             Amigo leitor, não sei se você é leitor assíduo da Bíblia. Não? Ao menos dos evangelhos, deveria ser, pois estamos atravessando momentos cruciais na transformação do nosso orbe. E por que não dizer? Do nosso ser.
            Não, o mundo não vai acabar no dia 21. Por isso mesmo, estou postando esta crônica no raiar do dia 10 de dezembro de 2012, para que, no dia aprazado, você possa dizer: — Bem que o M. disse...
            Mas, como dizia, é bom conhecer os evangelhos. Lê-se em Lucas, cap. 17, vers. 11 a 19, a narração sobre a cura, por Jesus, de dez leprosos. Dos dez, somente um voltou para agradecer; foi um samaritano, de um povo considerado herege pelos judeus.
            Então, Jesus perguntou-lhe: “Não eram dez os limpos? E onde estão os nove?”. Pois bem, apenas a ele o Senhor garantiu a cura real, que não se restringe ao corpo físico, mas ao espírito.
            Assim também ocorre conosco, no cotidiano de nossas vidas. Quantas vezes, pregamos a união e praticamos a desunião, falamos em fraternidade e damos as costas ao nosso irmão, recomendamos solidariedade e, de nariz empinado, o silêncio é a resposta, quando um amigo ou amiga nos espera o apoio moral, ou mesmo um simples obrigado a uma mensagem bonita, ou que pelo menos assim a julgamos.
          Quer tirar uma prova disso? Não mande nenhuma mensagem de corrente espiritual, ou pedido de envio de e-mails a seus amigos. Escreva uma pequena frase de poucas linhas, com uma mensagem pessoal e envie a trinta amigos, desejando-lhes feliz Natal. Se mais de três responderem, dê graças a Deus e louve-o pelos amigos que tem.
            Faça um convite a cem amigos para o lançamento do seu livro e não aguarde mais que dez pessoas no evento.
           Convide os cem para uma festa de arromba, com comida, bebida, etc. tudo por conta da “casa” e garanto-lhe que mais de cinquenta por cento comparecerão.
            Assim é a vida, meu amigo. Quando precisamos dar algo de nós a nossos amigos, sentimo-nos incomodados. Mas se o beneficiado somos nós ainda achamos pouco se três em dez nos respondem solidariamente.
            Por vezes, movemos o mundo atrás dos nossos interesses, mas não somos capazes de teclar algumas linhas de agradecimento a uma singela mensagem pessoal. Quem sabe se isso não é reflexo de um comportamento arredio meu? Faça o teste e diga-me o resultado. Se mais de dez por cento lhe responderem, seu prestígio está muito acima do meu. Mas envie a mensagem a, pelo menos, cinquenta pessoas.
            Essas são reflexões de véspera de Natal, mas sempre é bom lembrá-las a cada dia do ano. Onde está a união que tanto pregamos, se não somos capazes de retornar um simples voto de Boas Festas?
             Na questão 886, de "O livro dos espíritos", Allan Kardec pergunta:
- Qual é o verdadeiro sentido da palavra caridade, como o entendia Jesus?
E a resposta é um BIP: B de benevolência; I de indulgência e P de perdão.
Benevolência para com todos, indulgência para as imperfeições alheias e perdão das ofensas.
            Talvez eu ainda precise repetir milhares de vezes essa frase para mim mesmo, a fim de me tornar mais complacente com o meu próximo e exercitar a verdadeira caridade.
            Que o próximo ano lhe seja promissor. E perdoe-me o pessimismo. É que a idade me vai tornando Casmurro.
            Bom-dia!     

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012


Em dia com o Machado 26 (jlo)

Boa-madrugada!

            Mui cara leitora, no raiar de um novo dia, vou falar-lhe de uma outra encarnação minha num país chamado Baviera. Essa nação localiza-se no Sul da República Federal da Alemanha, de quem, atualmente, é um dos maiores estados federais, com 70.553 km² e 12,5 milhões de habitantes.
            A Baviera, em meu tempo, era governada pela Casa von Wittelsbach. Tal domínio durou por cerca de seiscentos anos. Terminou após a Primeira Guerra Mundial. Quer saber mais, pesquise na internet, pois meu espaço é curto e o tempo menor ainda.
            Pois bem, nasci ali no ano bom de 1639, no dia 21 de junho, e recebi o nome de batismo como Eleazar Manassés Victor de Paulo.
            Minha mãe chamava-se Antonieta Joaquina Manassés e meu pai, Lélio Victor de Paulo. Eram fazendeiros e comerciavam rabanetes, produto muito fértil em suas terras. Com o comércio de rabanetes, sustentaram os estudos do filho único: eu.
            Ao completar dezoito anos, meu pai aconselhou-me a inscrever-me para o serviço militar obrigatório, na cidade em que morávamos: Bayreuth, que à época não passava de uma vilazinha com 13.031 habitantes, dos quais 1.315 eram militares, ou seja, aproximadamente, 10% da população local. Outros 20% eram camponeses e, por fim, mais 10% eram servidores públicos. O restante eram mulheres, idosos, estudantes, comerciantes, fazenderiros e crianças.
            Já nesse tempo, havia escolas de nível primário, secundário e superior na vila. Aos dezoito anos, eu mal concluíra o ensino secundário, atual ensino médio no Brasil de hoje. Passava o dia colhendo rábanos para o comércio de meus pais.
            Havia duas carreiras paralelas, tanto no serviço militar, como no serviço público.
Na cidade, só havia o Exército, pois a Marinha funcionava em cidades onde havia mar. Faz sentindo, não é mesmo, amiga leitora?
            Ingressavam na carreira de acadêmicos do Exército aqueles jovens que, aos dezoito ou dezenove anos estivessem matriculados numa das duas universidades de Bayreuth. Esses, se aprovados, seguiriam diretamente a carreira de oficiais. Os demais jovens deveriam servir, obrigatoriamente, como praças. Iniciavam como conscritos, em seguida eram promovidos a soldados, cabos, sargentos, subtenentes e, por fim, entravam na carreira de oficiais. Para a ascensão ao oficialato, porém, precisariam ser admitidos em cursos superiores, desde o ingresso na graduação de 3º sargento.
            E como se davam as promoções? Conscrito: seis meses; soldado: do primeiro dia após os seis meses até completar dois anos de serviço; cabo: se fosse aprovado em concurso, do primeiro dia do segundo ano até o último dia do terceiro ano; 3º sargento: se aprovado em concurso, que o habilitaria ao curso superior da caserna, numa das áreas de formação escolhida, do primeiro dia do quarto ano ao último dia do quinto ano; 2º sargento, seguindo a ordem rigorosa da pontuação obtida no desempenho do primeiro ano do curso superior, a partir do 1º dia do quinto ano. E assim, sucessivamente, ano após ano, havia uma promoção até atingir-se o posto de marechal, a mais alta hierarquia militar de meu tempo, caso fosse aprovado nos concursos que eram oferecidos anualmente. A diferença entre a carreira iniciada como praça e a de oficial era apenas a de alguns anos, pois os que entravam como aspirantes a oficial, após aprovação em curso superior, queimavam a etapa de quatro anos.
            Entretanto, a qualquer momento, o praça podia ser aprovado em curso superior e ingressar diretamente na carreira de oficial, começando no posto de aspirante, desde que fosse aprovado em concurso público para essa finalidade específica do Exército.
            E como se dava a progressão do servidor civil? Da seguinte forma: quem fizesse concurso para nível médio deveria submeter-se a uma série de requisitos, como nota obtida no concurso público, pontualidade, cumprimento rigoroso das ordens de seus chefes, etc. De cinco a dez anos, ascenderia de nível, conforme o número de vagas e pontos obtidos. Começava no nível 1 e terminava, no máximo, no 5.
            O servidor que ingressava no serviço público, no nível superior, igualmente era avaliado por sua produtividade, nota obtida no concurso, avaliação do chefe imediato, que, obrigatoriamente precisava ter pós-graduação, como especialização, mestrado, doutorado e pós-doutorados em sua área de atuação. A promoção, entretanto, só ocorria, em média, a cada sete anos. Além disso, precisava submeter-se a um concurso externo e ser aprovado, a cada novo curso concluído.
            Em suma, ingressei no Exército, fui aprovado na universidade e, em vez de seguir a célere carreira militar, disse a meus pais que não tinha saco nem vocação para essa profissão, por demais perigosa, embora não houvesse participação de nenhum de seus militares em qualquer conflito bélico há mais de duzentos anos.
             Dito e feito, dei baixa, após aprovação em concurso público, na vaga de escriturário e, trinta e cinco anos após, aposentei-me, nessa mesma função, mas, em vez de fazer cursos, tornei-me escritor renomado, tendo publicado nove ou dez romances, 200 contos e, aproximadamente, 600 crônicas até o fim de minha vida.
            Ah! Sim, desencarnei aos 69 anos, em 1708, após ter ficado viúvo de minha mulher amada com quem “não tive filhos, não transmiti a ninguém o legado de minha miséria”.
            Por hoje é só.
            Bom-dia!

domingo, 25 de novembro de 2012

Em dia com o Machado 25 (jlo)
       
        — Toma cá um abraço; é uma satisfação estarmos no salão de música, para assistirmos juntos uma apresentação das músicas de Mosart. Dizem que, ao ouvi-las, aumenta nosso poder de concentração, tornamo-nos mais inteligentes, com acréscimo de nossa capacidade cognitiva. Mas, diga-me, o que achaste da symphony nº 40, gostaste?
      — Para dizer-te a verdade, não tenho ouvido musical. Fingi ter gostado da apresentação e aplaudi por uma questão de educação, mas não sou sinestésico, nada capto dos sons, abstraio-me, inclusive, quando ouço sons musicais.
            — É mesmo? Pois então repete este som: tchu, tcha, tcha...
            — Pois não: tchu, tcha, tcha...
            — Muito bem, amigo, acabaste de repetir um refrão da música “Eu quero tchu, eu quero tcha”. Agora repita: tchê tchererê tchê tchê...
            — Mas isto é muito simples: tchê tchererê tchê tchê...
            — De qual tipo de música você mais gosta?
            — Para dizer a verdade, nunca apreciei muito esta arte. Mas agora lembro que, para fazer meu filho de três anos dormir, cantava umas letras que aprendi com minha mãe: “Mulher rendeira”, “Boi da cara preta”. E tem mais, quando cantava a última, na parte que diz: “Pega este menino que tem medo de careta”, ele me interrompia e falava: “Não! pega o papai”.
            — Lembras mais alguma?
            — Outra música que cantava muito era “Marinheiro, marinheiro”... Ah, “Prenda minha” também...
            — E ainda tens coragem de dizer que não gostas de música... Já pensaste em analisar a beleza da letra de música “Mucuripe”, de Belchior?
            — Esta eu conheço, é muito bela!
            — Então canta um pedacinho...
            — As velas do Mucuripe
Vão sair para pescar
Vão levar as minhas mágoas
Pras águas fundas do mar
Hoje à noite namorar
Sem ter medo da saudade
Sem vontade de casar.
            — Que beleza, não é mesmo? Viu como és bom de ouvido? Então nunca digas que não gostas de música, e sim que não gostas de certos tipos de música.
            Em seguida, ponho para tocar diversos cantores com estilo correspondente ao gosto musical de meu amigo. Ele aplaude entusiasmado todos eles.     
            Passamos a CDs sem letra, e lhe peço para reproduzir o canto com a boca fechada, acompanhado por mim, que o corrijo nos poucos desvios cometidos. Meu amigo chega a um nível excelente de imitação quando dou por encerrado o treinamento com as seguintes palavras:
            — Agora, meu caro, estamos prontos para ouvir novamente Mozart. Escuta somente.
            Ele ouve, em silêncio, aqueles acordes maravilhosos e, agradece-me emocionado:
            — Muito obrigado! Graças a ti, agora sei o que é música! Tenho-te uma dívida impagável.
            Pouso um dos meus braços sobre seus ombros e digo-lhe estas palavras que ele jamais esquecerá:
            — Já estou pago por abrir-te a audição para a assimilação de uma das mais belas artes do universo: a música e sua harmonia em consonância com todos os ouvidos.
            Boa-noite!

terça-feira, 13 de novembro de 2012


Em dia com o Machado 24 (jlo)

                 Boa-noite!

                Talvez, amigo leitor, estejas contestando o conteúdo do soneto sobre a caridade que Bentinho propôs e que postei no blog deste meu secretário, mas é preciso ler nas entrelinhas dos dois tercetos. Ela está ali, a caridade. Virtude própria dos justos que, por ela, ainda que percam a vida, ganham a batalha, pois o bem é maioria e o mundo entra no “Amanhecer de uma nova era”, como diz meu amigo Manoel Philomeno de Miranda. Salvador: Leal, 2012, psicografada por Divaldo Pereira Franco.
                É isso mesmo que você entendeu, cara pálida, após minha transferência, com nave espacial e tudo para o reino dos espíritos, envergonhei-me das ironias pesadas (e das leves também) que lancei, diversas vezes contra a nova Doutrina Cristã e tratei de fazer amizade com os que me antecederam. Um deles é o amigo Manoel, grande cabeça e autor de verdadeiras obras primas que relatam aos mortos os acontecimentos dos vivos e vice-versa.
                Mas vamos ao que interessa. Lembra-se de que lhe foi lançado um repto, meu caro leitor? Vou refrescar-lhe a cabeça: no capítulo 55 de minha obra “D. Casmurro”, em noite insone no seminário, lembrou-me o narrador de dois versos, um para introdução e outro para a chave de ouro com que concluiria o poema. Não conseguiu preencher o vazio de doze versos que faltavam para a conclusão do soneto. Então, após tentar uma inversão das expressões do último, doou-os ao primeiro desocupado que aparecesse.
                Eis que meu secretário, com minha inspiração, é lógico, aceitou o desafio. Bem ou mal, foi feito o primeiro sobre a caridade, o próximo é sobre a guerra, em seguida, virá o da justiça e, por fim, Capitu. Vamos ao próximo:

 Guerra

Oh! flor do céu, oh! flor cândida e pura!
Não sejas tu a bomba de Hiroshima
Que transformou o ar em flor escura
E caducou a luta com esgrima.

Flor sofrimento, flor tão rude e dura
Que ao mais audaz guerreiro desanima
Flor que provoca tanta desventura
E que somente por maldade prima...

Flor que destrói a vida e que amortalha
Os mais nobres guerreiros vencedores
E que tantas desgraças agasalha.


Flor que faz do valente apenas palha
E que aos heróis da pátria  traz louvores,
Perde-se a vida, ganha-se a batalha!

Vamos ao em seguida:

 Justiça! 

Oh! flor do céu, oh! flor cândida e pura
Teus olhos são vedados, pois o crime
É o que vilipendia a criatura
A quem teu pai, o amor, sempre redime.

A lei de causa e efeito é muito dura,
Mas é ela quem torna mais sublime
A lei divina, que corrige e cura
As chagas que a maldade em nós imprime.

As marcas indeléveis de uma bala
Por ser tão implacável a justiça
Jamais serão sanadas só na fala.

Pois a justiça é cega, mas não falha
Ao bom o bem, ao mau nem mesmo missa...
Perde-se a vida, ganha-se a batalha.

Vamos a Capitu:

À Capitu

Oh! flor do céu, oh! flor cândida e pura!
Hei de te amar eternamente, flor,
Florescerá em nós mais forte o amor,
Por mais que insistam em nossa desventura.

E tudo venceremos, Capitu!
Aquele que na Terra é o perdedor
No céu, por certo é o grande vencedor.
E em parte alguma, alguém melhor que tu.

Por vezes, uma pugna perdida
Nada mais faz do que tornar mais belo
O grande amor de tua alma querida.

Não chores tanto em nossa despedida,
Pois por querer-te tanto, eis meu anelo:
Perde-se a batalha e ganha-se a vida!

                Eis os sonetos. Joga-os no lixo, se o desejares, mas tente fazer melhor, ainda que seja em prosa, pois a poesia desta hora é o que mais nos edifica: a hora da inspiração. É ela que aprimora nosso espírito. É ela que nos torna criadores. Mas para tê-la, não basta olhar para as estrelas. É preciso entendê-las. É preciso lê-las. É preciso refleti-las.
               Ingresso agora no rol dos espíritos espíritas.
                 Boa-semana!

domingo, 11 de novembro de 2012

Em dia com o Machado 23 (jlo)
           
            Amigo leitor, boa noite!
            Lembra-se dos versos que Bentinho doou ao primeiro desocupado que os quisesse, após inumeráveis tentativas de compor um soneto com eles? Estavam lá, no capítulo 55 de D. Casmurro. Hoje resolvi, como leitor ocioso, segundo a condição proposta, aceitar a oferta. Os versos agora são meus. Já lá não mais estão os seus originais, pois apropriei-me deles, Entretanto, como diria Walter Benjamin, lá ficaram apenas suas imagens, pois estamos na era da reprodutibilidade eletrônica.
            O primeiro verso é o seguinte: Oh! flor do céu! oh! flor cândida e pura! que o seminarista imaginou formar, com outros treze versos, um soneto para sua amada Capitu. Pensou, pensou, pensou e... nada. Nada mais lhe ocorria à mente.
            Deu branco total e, nem assim, o jovem se lembrou de Cruz e Sousa, provavelmente o maior vate da época, pós-Gonçalves Dias e Castro Alves.
           Como deu branco, poderia buscar no Emparedado inspiração para redigir sonetos, em especial os que utilizassem o branco e suas variações nas suas estrofes: níveo, marmóreo, nevado, alvo, pálido... Todos eles fariam justiça à “flor do céu”, naturalmente láctea.
            Pensou, então, na chave de ouro do soneto, pois todo soneto termina com uma chave de ouro. Ocorreu-lhe este verso: Perde-se a vida, ganha-se a batalha! Lembrou-se, de imediato, da justiça. Agora, sim, tinha o verso da introdução e o da conclusão. De resto, era só preencher as quatro estrofes do soneto com os doze versos faltantes.
            Mas, por mais que tentasse nada lhe ocorria à mente.
            Por instantes, vislumbrou o tema guerra. Afinal, a chave de ouro concluía com apoteótica menção à batalha e, como é sabido, literalmente, a batalha é da guerra.
            Havia um porém aí, como seminarista, candidato a padre, ao menos na intenção da mãe e do padre Cabral, seu professor de latim, não ficaria bem escrever um soneto sobre a guerra.
            Por fim, veio-lhe à mente a ideia da caridade. Chegou mesmo a tentar uma troca de posições dos trechos do último verso. Que tal: Ganha-se a vida, perde-se a batalha? Mas aí, para a vida virtuosa, viver no mundo e para o mundo é afastar-se de Deus e da caridade, então o poema deveria demonstrar o prejuízo de se viver profanamente.
            Pensou, pensou, pensou e... nada. Which way? Just go straight, reader!
            Já cansado, sugeriu ir em frente e doou os dois versos ao primeiro desocupado que desejasse compor o soneto. Então, amigo leitor, como lhe disse acima, resolvi apropriar-me dos versos do ex-seminarista Bentinho, que desprezou o grande amor de Capitu após casar-se com ela.
            Comecei do último tema, pois, de acordo com o Cristo, “os últimos serão os primeiros”. Então, vamos a ele:
CARIDADE
 
Oh! flor do céu! oh! flor cândida e pura!
Fora da caridade não há não
Jeito de se salvar qualquer cristão,
Forma de conquistar maior ventura.
 
 
Esta, bondosa irmã, é a mais segura
Garantia da paz ao coração.
É a mais correta forma de oração,
A caridade eleva-nos à altura.
 
Aquele que perder vencê-la- á
Quem desejar ganhar perdê-la-á,
Pois a vida na Terra é breve estrada.
 
 
A alma justa nunca jaz prostrada.
Ainda que se cubra com mortalha,
Perde-se a vida, ganha-se a batalha!
            Proponho-lhe, agora, infatigável e intimorato leitor, com os mesmos dois versos doados pelo Dom Casmurro, escrever outros três sonetos: um dedicado à amantíssima Capitu, outro à justiça e, por fim, o último à guerra. Caso contrário, futuramente, eu mesmo o farei.
            Aceito doações...
            Bom domingo!

  Rumo à perfeição   Em nossa luta contra o mal em nós, O mal que não queremos sobreleva Por nossa imersão em densa treva Desde o tempo de n...